As férias chegaram, de novo

As férias chegaram novamente e com elas a promessa de dois longos meses com os filhotes. O que fazer para ocupar duas bombas de energia durante mais de sessenta dias seguidos? Embora o confinamento do ano passado tenha mostrado que as coisas podem sempre piorar, ainda sinto um gosto amargo quando as férias se aproximam. À medida que o mês de julho vai chegando, cada dia de aula se torna uma preciosidade inestimável. Esse ano, aproveitei minhas últimas horas de liberdade com uma sessão de massagem um dia antes das aulas das crianças acabarem. Ter uma tailandesa de joelhos nas minhas costas esmagando meus pulmões com seus cotovelos foi a forma que encontrei para me preparar a passar as semanas seguintes com os anjinhos. Agora entendo porque minha mãe vivia repetindo: “Deus, dai-me paciência”.

Um pequeno parêntese para me desculpar perante as mães e pais brasileiros que ficaram quase um ano com os filhos dentro de casa durante esta pandemia. Tiro o chapéu para vocês. Mas é aquela coisa, não é porque têm pessoas em situações mais difíceis que não temos o direito de reclamar. Talvez eu não achasse ruim ficar dois meses por conta de cuidar dos filhos se tivesse um trabalho com começo e fim. Mas além de preparar as aulas do semestre que vem, que estão me estressando porque assumi uma quantidade um pouco exagerada de cursos a lecionar, tenho diversos projetos pessoais, mais ou menos fantasiosos, aos quais gostaria de poder me dedicar mais. Tendo dito isto, reconheço que passar dois meses de férias com os filhos não é nenhuma catástrofe em si e aproveito para me desculpar também perante as mães e pais que têm poucos dias de férias por ano.

Pronto, agora que já mostrei que sei que não sou nenhuma coitada, posso continuar reclamando sem pudor. Aliás, eu seria uma imigrante muito mal adaptada se não me desse o direito de resmungar. A verdadeira característica do parisiense não é usar boina, nem mesmo carregar a baguete debaixo do braço, mas reclamar muito, todos os dias e em quase todas as situações. Pensando bem, devo agradecer à França por ter me libertado da obrigação brasileira de estar sempre de bom-humor. Um olhar cínico aguçado tempera a cegueira que nos faz afirmar aos outros e a nós mesmos que está tudo sempre bem.

Aonde estava mesmo? Ah sim, as férias dos filhos. Mais um parêntese: se eu estivesse escrevendo para a revista “Caras”, diria “as férias dos herdeiros”. Será que sou a única pessoa que acha de um mal gosto incrível qualificar a prole de “herdeiros”? Como se realmente a coisa mais importante que pudéssemos transmitir aos filhos fosse nossos bens materiais. É fato que ter filhos não faz nenhum sentido, ainda mais nos dias de hoje, com o fim do mundo logo ali na esquina; mas uma vez que os rebentos foram gerados, até uma revista de fofocas deveria jugar de bom tom se referir a eles como algo mais que o receptáculo da acumulação material dos pais. Ficava pensando nisso toda vez que ia fazer as unhas no Brasil, enfim encontrei um lugar para compartilhar esta pequena indignação. 

Voltando às férias escolares, Vincent e eu quebramos a cabeça para preencher de maneira lúdica e econômica mais este verão europeu. O ideal mesmo seria irmos ao Brasil. Estou com muitas saudades. Mas depois de conversar com amigos e familiares decidimos que ainda não era a hora. Graças a Deus, ano passado, pouco antes da pandemia ser declarada, eu pulava carnaval em Belo Horizonte, espremida entre um monte de gente suada e purpurinada. Parece que foi em outra encarnação. Ultimo pequenos parênteses, juro: a vida é mesmo cheia de surpresas: vinte anos atrás eu jamais imaginaria que a sentença “pulava o carnaval em Belo Horizonte” pudesse adquirir uma conotação positiva num futuro nem tão distante. Voltando ao tempo presente, uma vez que decidimos passar mais este verão na França mesmo, o primeiro passo foi comprarmos um carro, pois da última vez que alugamos fomos agraciados com um upgrade que se revelou um verdadeiro presente de grego. 

Certa manhã saí de casa pra buscar um carro comum e voltei dirigindo o Batmóvel. Eu tentei dizer que não estava à vontade, o jovem bonitão que me atendeu respondeu que só tinha aquele carro na agência, era pegar ou largar. Passei quinze minutos sentada olhando as luzes do painel de bordo futurista antes de ter coragem de ligar o motor, mas a verdade é que não tinha escolha, Vincent e as crianças me aguardavam ansiosamente em casa para viajarmos. O bonitão também me incitou a pagar um seguro, afinal, aquele carro valia oitenta mil euros. Até arrepiei quando ouvi isto e acabei aceitando o seguro, apesar de saber que normalmente meu cartão de crédito cobria os carros alugados.  Saí da agência incomodada. Ao contrário do que se pode pensar, senti vergonha por estar dirigindo um veículo tão oneroso, sou uma mineirinha caipira que não gosta de ostentação. Também me senti insegura porque nunca havia dirigido uma quase limusine baixa e comprida. Resultado: mal cheguei na porta do prédio e bati o para-choques num vaso de plantas. Vocês não imaginam como meu coração bateu forte quando ouvi o “bum”. Para meu alívio, quando desci constatei que fora apenas um arranhãozinho, então viajamos assim mesmo. Confesso que foi bastante prazeroso dirigir o Batmóvel na autoestrada. Quando disse ao marido : “Mal encosto o pé no acelerador e ele voa”, ele respondeu: “Claro, é uma Mercedes”. Até aí nada anormal. O engraçado veio logo na sequência, quando ouvimos uma voz feminina perguntar : “O que posso fazer por vocês”? Sim, a Mercedes falava! Passamos o resto da viagem ouvindo os anjinhos chamarem “Mercedes”, apenas para ouvi-la indagar, prestativa: “O que posso fazer por vocês”?. Para os homens que se sentem viris dirigindo carrões, a voz serviçal da Mercedes deve mesmo ser a cereja do bolo. Nós nos divertimos, mas demos menos risada na hora de entregar o carro. Tive que pagar 1200 euros pelo arranhão no para-choques, porque o valor era inferior à franquia e o cartão se recusou a cobrir o acidente, visto que eu havia aceito o seguro da agência e nesse caso havia “conflito de interesses”. De nada adiantaram meus e-mails e telefonemas indignados.

Essa aventura com a Mercedes foi durante o Terceiro confinamento, em maio, quando alugamos uma casa por três semanas na maravilhosa Costa de Granito Rosa, na Bretanha. Queria ter escrito sobre esta quarentena, sem dúvidas a melhor de todas, no meu último post, mas acabei narrando um episódio da sogra com meu filho que aconteceu meses antes, durante as férias de fevereiro… E agora comecei a escrever com a intenção de falar mal da sogra, que tive o desprazer de rever ontem, mas acabei me deixando levar pela temática das férias escolares. Tudo bem, imagino que a vantagem de escrever crônicas seja mesmo essa: você começa achando que vai falar sobre o tempo e acaba divagando sobre os hábitos alimentares dos esquimós. Na próxima postagem escrevo sobre o reencontro com a sogra. Ou não.

5 x 1

Já faz algum tempo que não escrevo sobre a sogra francesa, por dois motivos: primeiro, pensava haver resolvido, ao menos na minha cabeça, nossa relação; segundo, porque o coronavírus nos forneceu uma razão legítima para não nos encontrarmos. A distância e o tempo quase me fizeram esquecer as maldades de Chantal. Nas vésperas do aniversário da minha filha, o Facebook propôs a lembrança de um lindo moisés de vime branco, enfeitado com uma renda alvíssima e laços de cetim. A sogra preparou este bercinho para Jasmim, assim como havia feito para seus filhos e netos que chegaram antes dela. Enternecida com a memória, postei a foto, dando-lhe os devidos créditos. Vários amigos comentaram, admirados com a beleza do moisés e o capricho da sogra. Até pensei mudar o nome do blog. Comentei com o marido, acrescentando que no final das contas escrevo mais sobre maternidade e vida na pandemia do quê sobre a mãe dele, mas Vincent protestou: “Não, você não pode mudar o nome, é isso que é legal no seu blog”. Para vocês verem… Acho que pro Vincent é catártico eu colocar em palavras um pouco da raiva que passamos por conta dessa dama.

Mas estou passando os carros na frente dos bois. Vou começar voltando às férias escolares de fevereiro quando, pela primeira vez, os sogros levaram Jasmim, que está com oito anos, para a casa de campo com eles. Jasmim foi toda feliz, qualquer ocasião de ficar longe dos pais é boa para essa menininha atrevida e aventureira.  Eu fiquei ao mesmo tempo satisfeita por ela desfrutar desse tempo junto aos avós franceses, ressabiada, achando que eles a levaram só para ela fazer companhia aos dois priminhos que passam todas as férias com os avós, e um pouco chateada por eles não cogitarem levar o Enzo. 

O marido, que é professor, estava de férias e poderia ter ido para o campo junto com Jasmim, mas ele também receia passar mais do quê algumas horas na companhia da mãe. Ao mesmo tempo, era muita sacanagem o coitadinho do Enzo ficar duas semanas no apartamento com os pais enquanto a irmã brincava com os primos numa casa imensa com um jardim ainda maior. Eu já havia decidido que não me faço mais violência indo para a casa da sogra. Posso até ter ficado comovida com a lembrança do bercinho, mas não fiquei burra. Ao cabo de três dias, Vincent resolveu pegar um trem com o filho rumo à casa de campo. Partiu contrariado, avisando que ficaria duas noites, no máximo três. Concordei, tentando disfarçar a alegria de ficar sozinha em casa. No fundo tinha esperanças de que Vincent mudasse de ideia quando chegasse. Afinal, é a casa de campo da família dele, ele poderia ficar à vontade e ler seus livros enquanto as crianças brincavam no jardim. 

Na mesma noite Vincent ligou: “Já quero ir embora!”, disse, em meio a risadas nervosas. Não contou detalhes, mas não precisava. Conheço a sogra, não tive a menor dificuldade em imaginá-la ranheta, fazendo insinuações venenosas e favorecendo de maneira ostensiva os filhos da filha. Respondi, de forma abstrata para um observador exterior, mas que fazia total sentido para nós: “Você não é culpado de nada”. Porque esse é o poder dela, te oprimir ao ponto de você ficar triste e sem lugar, sentindo-se culpado sem saber o porquê. É como se um gás tóxico emanasse de Chantal e, de forma silenciosa e sorrateira, comprimisse seu peito ao ponto de você ficar quase sem ar. Um horror.

Nos próximos dois dias Vincent continuou telefonando, sem dizer ao certo o que estava acontecendo mas contando que estava com placas vermelhas no rosto e agora fazia como eu: refugiava-se no quarto para evitar a presença da mãe. Verdade que ao longo dos anos desenvolvi essa estratégia. Resultado: cada vez que alguém visitava a sogra encontrava uma brecha para dizer que faço longas sestas todos os dias, dando a entender que sou uma preguiçosa. Voltando ao marido, insisti para ele ficar ao menos mais um dia, pelo filho. Vincent disse que já havia comprado as passagens de volta, que o próprio Enzo já queria voltar. “A coisa deve estar feia”, pensei.

Ao voltar, Vincent contou, rindo da própria desgraça, que estava enlouquecendo: sequer conseguira ler, passara a maior parte do tempo jogando xadrez no telefone, coisa que não fazia há anos, numa tentativa patética de abstração da realidade. Não mencionou nenhum acontecimento preciso, decerto para não me deixar ainda mais indisposta com a sogra. Mas de noite, depois que Enzo adormeceu, não se aguentou e relatou a última refeição na casa dos pais:

Estavam todos na mesa comendo crepes, a sogra se encantava diante do apetite do neto preferido, que tem um ano a mais que Enzo, exclamando com orgulho que ele estava devorando sua quarta crepe. Após haver comido apenas uma crepe, Enzo declarou que não estava mais com fome, levantou-se e foi brincar. Sacrilégio! Os sogros resmungaram, comentando que o menino não sabe se comportar na mesa – Vincent me disse, chateado, pois segundo ele até este episódio nosso caçula estava se comportando muito bem. Poucos minutos depois, Enzo voltou e pediu mais uma crepe. A sogra respondeu: “Você devia ter acordado mais cedo, agora é tarde!”. Unindo o gesto às palavras, colocou a última crepe no prato do neto favorito. Quer dizer, Chantal deu cinco crepes para um neto e uma para o outro, sob pretexto de que o Enzo, que estava com quatro anos, tinha saído da mesa.

Preciso dizer que fiquei puta da vida quando ouvi essa história? Vincent até tentou defender a mãe: “Ele tinha se levantado…”. Tal é o poder desta mulher: cometer malvadezas com tanta naturalidade que ninguém ousa se opor. Porque ninguém vai me convencer de que não é perverso e até doentio dar cinco crepes a um neto e uma ao outro, de maneira ostensiva, transformando isto na ocasião de dar uma lição, perante todos, à criança desfavorecida. Aos olhos da bruxa meu filho está sempre errado. Já testemunhei várias cenas em que ela elogiou o neto preferido e xingou o Enzo exatamente pelo mesmo motivo. Tudo o que o neto preferido e seu irmão fazem é maravilhoso. Cada vez que nos vemos ela me conta, extasiada, as proezas dos dois, sem jamais perguntar nada sobre a vida da Jasmim e do Enzo.

Foi para evitar esse tipo de coisa que não fui ao campo. Não sou mais capaz de observar este tipo de comportamento calada. Como comentou uma conhecida quando briguei com a sogra alguns anos atrás – um dia ainda escrevo sobre isso – o que meus filhos pensariam de uma mãe que abaixa a cabeça e engole todo tipo de sapo?

Passei semanas discutindo com Chantal na minha cabeça, contando a história das crepes para todo mundo que cruzava meu caminho. Quis escrever aqui, mas precisei de quase três meses para digerir, algumas emoções requerem tempo para serem traduzidas em palavras. Com o passar das semanas esse episódio foi se apagando, eu já estava voltando a pensar que a sogra é quase normal. Até recentemente. Cenas para o próximo capítulo. Pensando bem, ainda vou precisar escrever muito antes de mudar o nome do blog…

Adeus Ano Velho

1° de janeiro de 2021. Mais um ano começa. Lembro quando eu era criança e o ano 2000 estava longe. A virada do milênio. Eu seria uma adulta, teria vinte anos! Me via linda e independente, morando sozinha num apartamento moderno e minimalista, ganhando dinheiro, dona do meu nariz, provavelmente jornalista. A humanidade faria coisas incríveis, talvez até haveriam carros voadores, como nos Jetsons. Que sorte eu tinha, completar 20 anos no ano 2000, pensava, maravilhada, enxergando na coincidência dos números um sinal de bom agouro.

Nem preciso dizer que aos vinte anos eu estava mais próxima da adolescência do quê da maturidade, certo aproveitando cada instante dos anos de faculdade, mas à anos luz da jovem adulta responsável e independente que eu imaginava criança. Minhas fabulações nunca chegaram ao ano 2020. Uma criança dificilmente pensa em si mesma aos quarenta anos. Ainda bem que não fiz projeções para esta idade, senão acho que teria me visualizado numa cadeira de balanço, lendo para os netinhos. Agora que cheguei aos quarenta, ainda me sinto menina, até hoje não entendi direito como as coisas funcionam. Os números são realmente muito enganadores.

Voltemos ao presente. 2020. Há um ano atrás achei esse número lindo. Dois patinhos seguidos por dois ovais, tão harmônico. Só poderia prenunciar coisas fluidas, agradáveis. O ano começou bem, comigo experimentando pela primeira vez o carnaval de Belo Horizonte. Porque quando o carnaval de BH começou a ficar bom eu já morava fora. Durante anos vi as fotos dos amigos nas redes sociais, ao mesmo tempo incrédula e louca de vontade de participar das celebrações pessoalmente. Eis que em 2020 as férias se alinharam com a data do carnaval. O marido e nossa filha mais velha voltaram para a França uma semana mais cedo, porque ele tinha que trabalhar e ela não queria perder sua primeira viagem com a escola. Eu fiquei pra trás com o pequeno, que estava com quase quatro anos. Pela primeira vez confiei o filhote ao meu pai sem culpa e fui pular carnaval, curtir os corpos suados, espremidos e eufóricos, tomar melzinho com cachaça oferecido por desconhecidos logo pela manhã, me deliciar com as fantasias, cada uma mais divertida e criativa do quê a outra. O Enzo teve direito a participar de um bloquinho comigo, até hoje ele fala disso. Sempre que falo do Brasil, ele fala do carnaval. Outro dia passamos na frente de umas mulheres de véu e um homem de turbante na rua e ele disse: “Mamãe, olha, o carnaval, igual no Brasil!”.

Mal sabia eu que aquele exagero de afeto, alegria e proximidade física estava com os dias contados. No voo de retorno algumas pessoas usavam máscara, o que me pareceu um exagero. Chegamos em Paris no mesmo dia que minha filha voltou da excursão. Uma ou duas semanas mais tarde, as escolas fecharam. O carnaval ficou parecendo um parêntese encantado, sonho de uma noite de verão. Um delírio cuja lembrança me nutriu em alguns momentos de tédio e quase desespero durante os meses que passei confinada num apartamento mal insonorizado de 70 metros quadrados com um marido de longa data e duas crianças pequenas.

Mas houve uma coisa bonita, quase emocionante, em 2020: sua capacidade de produzir consenso. O mundo inteiro, talvez pela primeira vez, concordou: foi um ano de merda! Bolsominions e esquerdopatas, empresários e artistas, brancos e pretos, crianças e idosos, primeiro e terceiro mundo, todos apressados em virar a folhinha do calendário, felizes por começar um ano novinho em folha, ainda que para alguns a esperança permaneça discreta, quase clandestina. Acho que esta coesão de ideias foi o verdadeiro milagre de 2020. 

Para mim, na verdade, o ano não foi tão ruim assim. No final do ano perdi uma tia, foi a parte mais triste de 2020, a maneira mais direta com que o Covid me tocou. Também fui enfurnada dentro de casa logo quando começava a botar as asinhas de fora, depois de sete longos anos me dedicando, senão exclusivamente, intensamente aos filhos. Mas fora isso tudo certo. Não perdi o emprego, pelo contrário, arrumei um trabalho. Instável, precário, mal pago… Mas pra quem está acostumada a trabalhar de graça, ou a pagar para trabalhar, tudo é lucro. Pesquisadores me entenderão. Para os outros, que não imaginam a pendenga que é a vida acadêmica, a dedicação imensa e a falta de reconhecimento quase tão importante, escreverei um post em outra ocasião. Também comecei a escrever este blog, espaço de respiração, entre outros pequenos projetos que tenho na manga. Não aproveitei do confinamento para me aproximar dos meus filhos – como duas francesas me confiaram, maravilhadas, explicando que até então trabalhavam tanto que mal conheciam os próprios rebentos – porque já cuidava bastante deles. Mas cheguei até aqui sem me tornar adepta da violência, o que em si já é uma façanha, como outra amiga me lembrou num dia em que lhe confessei estar me sentindo um fracasso como mãe. Brincadeiras à parte, li por aí as informações tristíssimas de que o maltrato infantil aumentou e o suicídio de menores de quinze anos dobrou na França este ano. 

2021 amanheceu gelado. Desde o começo da semana, estamos na casa de campo dos sogros, situada no norte da França. Ah sim, já ia me esquecendo: 2020 me permitiu desfrutar de alguns dias nesta casa sem os sogros! Foi o pequeno presente que o Corona me deu, já que como eles são idosos não podemos nos encontrar. Os sogros vieram pra cá durante a primeira semana de férias com minha cunhada e seus dois filhos, o marido negociou a segunda semana pra gente. Os filhos da cunhada também vão para a escola e ela trabalha fora, mas por algum motivo obscuro somos considerados mais contagiosos do quê eles. Não questionei, apenas abracei a oportunidade de esquivar um dia de natal inteiro na casa da sogra. Este ano, pela primeira vez desde que estou na França, fui dispensada das horas intermináveis sentada no lugar que me é atribuído na mesa natalina, onde entrada, prato principal, salada, queijos, bolos, frutas, café e chocolates se seguem uns aos outros, sem pausa para esticarmos as pernas. A comida é deliciosa, cozinhada pela sogra e acompanhada pelos vinhos do sogro, mas ao longo dos anos estes encontros se tornaram penosos para mim. Em algum momento cheguei a dizer à psicanalista que não queria mais participar dos eventos familiares; ela respondeu, como se fosse simples: “Você não é obrigada”. Acontece que detesto conflitos, jamais teria coragem de me ausentar do natal na casa dos sogros. Então agradeço à pandemia por ter me oferecido uma desculpa válida para passar o natal com os amigos. Estes sim, são minha família aqui.

Reconfinados

Eu sabia que não escrevo há um tempão, mas levei um susto quando vi que meu último post data do início de agosto. Ele falava sobre meus sentimentos de fim do mundo. Depois disso não tive mais o que dizer. O mundo não acabou, mas o assunto sim.

Quer dizer, às vezes até tive vontade de compartilhar alguma coisa. Como o dia em que contei para a sogra que iria começar a dar aulas na faculdade e ela respondeu: “Aos quarenta anos, já estava passando da hora de começar a trabalhar”. Cheguei a pegar o ar para responder que comecei a trabalhar aos dezessete anos, dando aulas de inglês em Belo Horizonte, e desde então nunca parei; que o pós-doutorado é o primeiro emprego do jovem doutor; que, contrariamente a quem tem contratos de trabalho clássicos, nunca beneficiei de licença maternidade; que meu filho tinha três semanas e chorava para amamentar nos braços do pai do lado de fora enquanto eu me apresentava diante de um júri de vinte e cinco pessoas, em um dos concursos mais difíceis da França. Mas engoli e não repliquei. Sabia que se começasse eu não ia conseguir me controlar, decerto terminaria em drama. Foda-se, ela que pense o que quiser. Nem sei porque quis anunciar esta pequena conquista para a família do marido.

A verdade é que já resolvi a relação com a sogra comigo mesma. Ela não me faz mais raiva o suficiente para me motivar a escrever. O que me trouxe de volta para a frente do computador, apesar do cansaço e da vontade de aproveitar que as crianças enfim dormiram para assistir uma série no netflix, foi o dia surreal que passei hoje. Todas as coisinhas que de vez em quando tenho vontade de escrever, mas não o faço por preguiça ou procrastinação, se uniram em um só dia estranho e cheio de simbolismos. Um dia que minha sogra acharia normal.

A manhã começou comigo levando minha filha de sete anos para a escola de máscara. Sei que a máscara é necessária, mas às vezes me sinto quase claustrofóbica ao perceber que estamos todos com o nariz e a boca tampados. Como quando o metrô para lotado dentro do túnel, entre duas estações. Nessas horas respiro fundo, invoco minha racionalidade e afasto a palavra “focinheira” da mente repetindo um mantra. Ver todas as crianças de máscara a caminho da escola foi triste. Pensar que elas teriam que respirar por debaixo do tecido o dia todo, inclusive durante o recreio, me perguntar se as orelhinhas de Jasmim ficariam doloridas por causa do elástico, imaginar as risadas e gritinhos abafados… cortou meu coração. Deixei minha menina no portão da escola com a promessa de que dali iria direto comprar máscaras bonitas, porque até agora só tínhamos a máscara infantil azul distribuída pela prefeitura no começo do confinamento. Até cedi quando ela me pediu uma máscara de oncinha, me lembrando, pertinentemente, que meu estilo não é o estilo dela.

Normalmente pego um ônibus para voltar pra casa, mas o fato de estarmos novamente confinados me deu vontade de caminhar. É um pouco mais longo, mas assim eu aproveitaria da minha atestação de deslocamento “levar as crianças na escola” para passear. Como da primeira vez, precisamos preencher atestações indicando, sob compromisso de honra, o motivo legítimo que nos permite colocar os pés na rua. Na realidade, esse confinamento com a escola aberta não muda muito minha rotina. Desde o toque de recolher, decretado umas duas semanas atrás, eu já havia renunciado às saidinhas noturnas, que de toda forma raramente aconteciam mais do quê uma vez na semana. E meus alunos já estavam tendo aulas online há algum tempo. Mas o confinamento me trouxe essa urgência de caminhar. Fiz bem, é outono e o bosque está lindo, todo em tons de marrom, vermelho, laranja e amarelo. 

Quando cheguei ao supermercado para comprar as máscaras infantis, constatei, sem surpresa, que não sobrara nenhuma nas estantes, repletas até poucos dias atrás… Aproveitei para fazer umas comprinhas no andar de cima, onde encontramos tudo o que não é comida, como roupas, livros, maquiagem e brinquedos. Explico: semana passada o Macron anunciou um confinamento cheio de exceções. Por exemplo, o comércio estará fechado, mas as lojas de departamento que vendem ferramentas ou materiais de escritório permaneceriam abertas. Uma das características da França são suas pequenas livrarias independentes. Parece que aqui é o país europeu com o maior numero de livrarias por habitantes. No dia seguinte à declaração do presidente, recebi um e-mail da livraria do meu bairro anunciando que iria resistir. Ela não foi à única, em todo o país as livrarias argumentaram que cultura também é um bem essencial, e que não era justo que supermercados e grandes lojas como a Fnac fossem autorizadas a abrir, enquanto eles eram obrigadas a fechar as portas. Um novo confinamento as levaria à falência. Ao invés de permitir a reabertura das livrarias, o governo decidiu fechar todos os outros comércios não alimentares a partir de amanhã. O que é bizarro é que a caça está liberada. Será que os nobres morreriam de fome se não pudessem mais montar em seus cavalos para matar os animais da floresta?

Chegando em casa mal tive tempo de pôr as coisas em ordem, arrumar as camas, lançar o lava-louças, lançar a máquina de lavar roupas, e já estava na hora da minha consulta. Dessa vez não me dei ao trabalho de fazer uma atestação. O centro de radiologia fica literalmente do outro lado da rua, achei mais simples olhar para os lados, me certificar que não tinha nenhum policial à vista e dar uma corridinha até o portão da frente. Recentemente a ginecologista disse uma das frases mais deprimentes que já ouvi na vida: “Agora que você fez quarenta anos, vai precisar fazer mamografia”. Quem já passou por isso sabe como é ruim ter seus peitos esmagados por uma máquina grande, cinza e fria. Quem ainda não chegou lá descobrirá por si mesma. Digo apenas que senti vergonha dos meus seios pequenos, ridiculamente achatados e espremidos para o raio-X. E pateticamente declarei ao médico calado e sem graça que examinava meu exame que, ao todo, amamentei meus filhos durante mais de quatro anos. Como se precisasse provar que, embora modestos, meus peitos são eficazes. 

O restante do dia correu bem. Me permiti uma sessão de duas horas de yoga pelo Zoom e dei duas horas de aula de metodologia na sequência, dessa vez pelo Skype para empresas. Aqui também, só quem passou pela experiência de falar durante horas diante da tela do computador, sem que nenhum estudante coloque sua câmera de vídeo, apesar dos meus protestos, entenderá o que estou falando. Para os demais, explicarei essa experiência singular em outro post.

Nos últimos trinta minutos da aula o marido chegou em casa com as crianças. Devo dizer que os filhotes entenderam que não podem me incomodar quando estou trabalhando, fiquei inclusive surpresa com o respeito deles. Quando acabei Jasmim veio me contar que a professora lhes falou sobre Samuel Paty, “um homem que foi assassinado porque mostrou uma caricatura na sala de aula”, nas suas palavras. Ela também me explicou que a França é um país onde as pessoas tem o direito de se expressar. Tendo dito isso, correu para o quarto e foi fazer caricaturas de toda a família. Graças a deus, a professora não explicou os detalhes do homicídio. Mas durante a janta Jasmim perguntou: “Mamãe, você sabe o que aconteceu com ele?”. Respondi que sim, mas não lhe diria. Ela tentou adivinhar: “Cortaram a cabeça dele!”, declarou, com os olhos arregalados e um sorriso sapeca, como se fosse óbvio que isso não acontecera, como se tal coisa não pudesse passar de uma provocação infantil divertida de tão absurda. Mudei de assunto. O que trouxe um pouco de delicadeza para a conversa foi outra coisa que ela disse ter aprendido na escola : “os três símbolos da França, liberdade, igualdade e maternidade”. 

Para coroar o dia o marido foi dormir no sofá, porque estou me sentindo doente e ele não quer se arriscar. Pior, ficou de cara feia porque eu não estou usando máscara dentro de casa. Quando disse que iria escrever isso no blog, Vincent deu três cambalhotas no sofá. Foi seu protesto contra a imagem de chato ranzinza que faço dele aqui. Tive que rir.

Adeus confinamento campestre

Depois de um mês no campo, chegou a hora de irmos embora. O marido não queria voltar, respira melhor no campo e não suporta mais a poluição. Durante anos tentei convencê-lo a morar no mato e ele não dava bola. Agora que os filhos estão maiorzinhos e eu a fim de curtir o cosmopolitismo parisiense, decidiu virar hippie. Estamos descompassados. Depois de três meses vendo ele e os filhos todos os dias o dia inteiro, mais do quê nunca quero ver pessoas, dançar, conversar, me divertir. No marido, o confinamento teve o efeito inverso. A cidade grande se transformou num terreno hostil e poluído, onde vírus e outras imundices transitam sem pudor. Ele passa boa parte do dia no celular, atrás de ofertas de casas com jardim em vilarejos desconhecidos. Segundo ele, essa pandemia é apenas a primeira das catástrofes que a humanidade conhecerá daqui pra frente. A próxima é a poluição. E dessa vez ele não quer que sejamos pegos desprevenidos.

Foi maravilhoso passar um mês no campo, mas essa parte da quarentena não foi assim tão romântica. Além de entediada com a duração do confinamento e a sensação de estar ainda mais confinada do quê antes num momento em que a França começava a desconfinar, fiquei muito alérgica. A casa era antiga e tinha carpete no segundo andar, onde ficavam os quartos. Fui obrigada a dormir sozinha na sala, onde o chão era de pedra, o que não foi de todo ruim: por causa da alergia, eu não podia ficar ao lado das crianças até elas adormecerem como faço de costume, e de madrugada quem acordava quando elas chamavam era o pai, que dormia no quarto ao lado. Eu sabia que passaria mal quando alugamos a casa, mas como tinha um jardim imenso pensei que não seria um problema, bastaria passar o dia do lado de fora. Não contei com o fato de que nessa época do ano o ar está repleto de pólen e, pra piorar, era o período em que os fazendeiros cortam o feno! Passei um mês espirrando sem parar, apesar dos anti-histamínicos e da cortisona, que tomei escondido do sogro. Quis pedir uma receita para ele, que normalmente quebra meu galho quando preciso de um remédio, mas Albert respondeu, talvez brincando, que não seria responsável pela morte da nora. Explico: a cortisona abaixa a imunidade, deixando a pessoa vulnerável ao coronavírus. Acontece que minha situação era urgente, só quem é muito alérgico sabe o quão maravilhoso é o efeito da cortisona. Não discuti com o sogro, usei a cartela de emergência que estava guardada no fundo da nécessaire.

As crianças estavam contentes de voltar pra casa. O pequeno, de quatro anos, disse que não via a hora de descansar na sua caminha macia. É sua palavra nova, macia. Em francês é uma palavrinha um pouco complicada, moelleux. Outro dia, ele disse que meu colo era o mais gostoso porque sou moelleuse. Espero que não seja uma referência aos quilinhos ganhos durante a quarentena! Sua única preocupação era saber se, de volta em Paris, poderia encostar em tudo. Foi a pior parte da epidemia para ele: não poder colocar as mãos em tudo o que vê na rua. Minha filha mais velha, de sete anos, estava feliz com a ideia de reencontrar seus brinquedos. Ela também não via a hora de rever as amiguinhas e voltar a ter um semblante de vida social. Somos bastante parecidas.

Depois do caso do “estelionatário”, as coisas se esclareceram e continuamos frequentando a casa dos sogros quase todos os dias. Quer dizer, eu e as crianças. O marido não estava dando conta dessa situação em que não vivíamos na casa dos pais dele por causa da epidemia, sendo que já estávamos no campo há mais de duas semanas e que as crianças brincavam e rolavam juntas tão logo se viam. Era um elefante na sala que todos fingiam não ver. Sabíamos que não éramos bem-vindos. Obviamente, isso foi mais duro para o marido, que é o filho, do quê pra mim. Eu estava contente de poder me refugiar na nossa casinha, ainda que alugada, onde tinha liberdade de fazer yoga, tirar uma soneca com meu filho e tomar banho quando bem entendia. Porque a sogra sempre criticou essas coisas. O simples fato de eu preferir tomar banho antes de deitar, e não ao acordar, como ela, a irritava.

Quando fomos nos despedir, senti um pouco de pena dos sogros, da cunhada e até dos sobrinhos. O sogro, que sempre foi amigável e gostava de fazer piadas, anda taciturno, com medo da morte. A sogra continua a mesma : forte e cheia de veneno. A cunhada parece ter tomado o caminho das mulheres que se tornam amargas ao envelhecer. E as crianças… o de oito anos estava gentilíssimo, muito feliz de brincar com meus filhos, tanto que dava um pouco de dó… passou mais de dois meses com a mãe e o irmão dentro de um apartamento e agora que partimos não verá mais ninguém além deles e dos avós durante os próximos três meses. O de cinco está obcecado com o presente que não demos porque fez aniversário durante a quarentena. Só fala nisso. Vendo a impaciência do menino, encomendei o brinquedo pela internet, mas ele não deu sorte… todos os dias recebo um e-mail do vendedor dizendo que houve um atraso com a entrega.

Antes de irmos embora o sogro, que gosta de discorrer sobre questões medicinais e de sociedade, veio me explicar a “síndrome da cabana”, patologia em que as pessoas, nostálgicas do confinamento, não conseguem voltar a ter uma vida normal. Foi estranho ouvi-lo falar como se não fosse exatamente o que ele, a mulher e a filha estão vivendo. Os três continuam saindo de casa exclusivamente para ir ao supermercado, lavando e colocando os produtos comprados em quarentena dentro de casa, e não encontraram mais ninguém além da gente à distância no jardim.

Eu, ainda no campo, comecei a planejar o retorno. Agendei as aulas de pônei da minha filha e confirmei que nas duas quartas-feiras que nos restam antes das férias eles irão ao “centro de atividades” que frequentam normalmente (aqui as crianças não tem aula nas quartas-feiras). Se no começo me pareceu fora de questão enviá-los para a escola com o protocolo sanitário imposto pelo governo, agora só penso nisso. Conversei com a professora do caçula e com algumas amigas cujos filhos já voltaram às aulas e elas me garantiram que, apesar de todas as regras, as crianças estão felizes de voltar pra escola. Elas também devem estar cansadas da gente. Mas a ultima notícia que tive é que para meus filhos as aulas não recomeçarão antes de setembro…

Estou sonhando com minhas duas quartas-feiras de liberdade antes das férias, imaginando o que vou fazer : cortar os cabelos, fazer as unhas, uma massagem ou aula de yoga… decerto algo só pra mim, pra me ajudar a me sentir bem nesses dias que antecedem meus 40 anos! Falando nisso, ontem o marido fez um comentário fabuloso ao me ver saindo de casa : “como você está bonita, com cara de novinha. Já sei, é porque a máscara esconde suas rugas!”. Termino então com um aviso: o excesso de sinceridade é nocivo aos casais.

 

Estelionatário

Os dias passam tranquilos no campo. Continuamos em busca da organização perfeita do dia da marmota, um pouco mais relaxados do quê quando estávamos no apartamento. Por hora deixamos a escolarização das crianças de lado, acredito que fotografar vacas e correr atrás dos calangos são uma forma de aprendizado tão válida quanto as outras. Inclusive fomos agraciados com duas visões extraordinárias da vida na natureza.

A primeira foi alguns dias atrás. Eu queria mostrar ao marido um lugar perto de onde estamos, um pequeno aglomerado de casas que descobri por acaso, quando me perdi ao voltar do supermercado, e achei muito charmoso. O marido resmungava e falava palavrões, fiel ao parisiense que é; não queria perder tempo vendo nada, não entendia porque não voltávamos rápido pra casa. Eu respirava fundo, me esforçando pra ignorar as reclamações dele, quando uma ave de rapina enorme passou baixinho com uma serpente enrolada nas garras. Ela atravessou a estrada de terra bem na nossa frente e desapareceu na plantação de trigo ao lado, foi lindo! O marido desceu do carro, encantado, e se dirigiu ao lugar onde a ave pousara. Ela alçou voo, dando-nos mais uma oportunidade de aprecia-la. Além de maravilhada com a cena, também me senti feliz por ter continuado dirigindo, apesar dos protestos do marido. “Você não poderia saber”, ele replicou. Mas não é isso intuição? Avançar mesmo quando os outros dizem que estamos errados porque algo em nós diz que é o caminho a seguir?

A outra cena é mais trivial, ocorreu hoje de manhã. Estávamos almoçando no jardim quando o gato da hospedagem avançou devagarzinho e saltou em cima de um camundongo. Foi minha filha que mostrou pra gente. Eu não quis olhar, mas dava pra ouvir o ratinho protestando, quirck, quirck. Segundo a narração ao vivo dos filhos, o gato mordiscou o camundongo durante alguns minutos e depois o enterrou vivo. “É a geladeira dele”, o pai explicou aos pequenos, que observavam admirados. “Coitadinho”, comentei. Minha filha replicou na hora, indolente: “Por que? Você nem gosta de rato!”. Fiquei boba com o sangue frio das crianças.

E assim corriam os dias, entre ações corriqueiras e românticas como ir até um povoado medieval de 700 habitantes e parar o carro em frente à igreja do século XIII para comprar pão, ou estender roupas no varal para que sequem ao sol, o que também me remete à um outro século, acostumada que estou com a secadora no apartamento. Ao final do dia levo as crianças para brincar com os priminhos, apesar dos protestos do marido, que acha que deveríamos nos distanciar da família dele. Ele tem razão, mas não resisto aos pedidos dos filhos, que durante dois meses não viram nenhuma outra criança além deles mesmos.

Tudo parecia em harmonia até que ontem, no meio da janta, o marido olha o telefone e me pergunta, abismado: “Você insultou minha irmã?”. Hein? Ele me mostra a mensagem. “Estelionatário”, estava escrito numa conversa entre nós três, proveniente do meu telefone. Logo abaixo a reação da cunhada: “??? Essa palavra quer dizer aproveitadora? Não entendi.” Na hora soube que algum dos meus anjinhos pegou o celular e escreveu letras aleatórias, que o corretor transformou em “estelionatário”. (Na verdade a palavra foi outra, com sonoridade parecida mas ainda mais surreal, uma palavra que até então eu sequer sabia que existia. Mas o marido me proibiu de escrevê-la aqui, ele tem medo da irmã fazer uma pesquisa na internet e descobrir o blog. Aí sim, estarei em maus lençóis…).

Fato é que a cunhada jogou “estelionatário”, digamos, no Google e encontrou a tradução profiteuse, “aproveitadora” em português. Liguei para resolver o mal entendido. “Eu nem conhecia essa palavra”, expliquei. Ela foi super fria, não me pareceu convencida. Demorei pra entender que ela não duvidava que foram as crianças que escreveram o insulto, mas estava zangada porque achava que minha filha tinha repetido o que eu dizia sobre ela. Quer dizer, a cunhada pensa que em casa eu a trato de “estelionatária”. Fala sério! Era o que me faltava. Desligamos o telefone e mais uma vez fui invadida pela sensação que sempre tenho quando estou com a família do marido, um aperto no peito, uma culpa sem razão, a impressão de precisar ficar provando que não sou a pessoa terrível que eles imaginam.

Fiquei chateada com o mal entendido, até porque ainda estávamos nos recuperando da briga do verão passado. Decidi ir à casa dos sogros no fim da tarde, levar as crianças para brincar como nos outros dias e aproveitar para esclarecer a situação em pessoa. Quando entrei no jardim a cunhada e os sogros não me olharam, coube a mim cumprimenta-los primeiro. “Bonjour Chantal! Bonjour Jeanne! Bonjour Albert!”, disse o mais alegremente que pude. Responderam friamente e eu fiquei ali, fazendo de tudo para ser gentil, enchendo balões de água para as quatro crianças brincarem e esperando o momento oportuno para abordar o assunto. Já estava quase me rendendo ao hábito francês de jogar a poeira pra debaixo do tapete e seguir a vida com relações falsamente cordiais à espera de que o tempo talvez resolva as coisas quando não me aguentei e disse: “Sinto muito pelo mal entendido de ontem, mas você entendeu que eu nem conhecia aquela palavra? Ninguém fala daquele jeito”. Jeanne levantou o olhar do livro e respondeu, condescendente : “Você disse isso ontem. Se você diz, eu acredito em você”, e retomou a leitura, como se fosse um ato de benevolência da sua parte crer na minha palavra. Quis explicar que ainda que eu tratasse as pessoas de “estelionatário” no dia-a-dia, minha filha de sete anos não saberia escrevê-lo, mas ela já tinha encerrado o assunto. Chantal tinha se aproximado e escutava atenta.

Quando me rebelei com a sogra, anos atrás, o sogro me disse, na única conversa realmente franca que tivemos em todos esses anos, que a paranoia corria na família de Chantal. Sua avó e sua mãe haviam sido paranoicas, e ela também o era. Quando contei isso ao marido, ele respondeu que Albert, que é médico, tinha mania de diagnosticar e estava exagerando. Mas alguns meses atrás, quando fui falar da sogra para minha psicanalista, em menos de cinco minutos ela afirmou, categórica: “não se deve tentar agradar uma pessoa paranoica”. Detalhe: eu não tinha mencionado esse termo. Hoje, com o caso do estelionatário, tive a prova de que não somente Chantal, como também sua filha, Jeanne, são mesmo paranoicas. E eu devo ser a neurótica que fica tentando entender, esclarecer… repetidamente. Gostaria de ter puxado minha avó paterna, ela já teria mandado esse povo todo à merda faz tempo.

Para retomar o tom animalesco com que comecei esse texto, sou um cão São Bernardo tentando encontrar meu lugar numa família de gatos siameses. Mas aos poucos vou ficando esperta. Em meio à todo esse aborrecimento, por exemplo, fiquei feliz por ter algo sobre o que escrever. Vida longa à minha sogra e cunhada francesas, que não decepcionam. E que elas nunca descubram que, se não as trato de “estelionatário” em casa, não me privo de contar tudo aqui.

Desconfinamento em família

Dia 19 de maio foi a data anunciada pelo meu sogro para que deixássemos a casa de campo familiar. Eles chegariam no dia seguinte. Estávamos felizes com a possibilidade de passar quase dez dias no campo e até surpresos que meus sogros não houvessem exigido que partíssemos dois ou três dias antes deles chegarem, para dar tempo aos eventuais vírus de morrerem. Eles estão em pânico com a epidemia, morrem de medo de morrer. O que pode se justificar pela idade, pois estão na casa dos setenta, e pelo fato do meu sogro ter diabetes e problemas cardíacos. Ele é médico e está muito consciente da própria vulnerabilidade.

Numa linha imaginária da apreensão em relação ao coronavírus, meus sogros e meu pai estão em extremos opostos. Quando ligo para meu pai no Brasil e peço que se cuide, ele me responde coisas como: “Se eu tiver que partir vou partir. Vou encontrar sua mãe, quem mandou ela me largar sozinho?”, ou ainda, “Minha filha, você já perguntou pro Google quantas pessoas nascem por dia? Eu perguntei e fiquei assustado. De vez em quando uma epidemia tem que vir e matar os velhos pra equilibrar”. Sei que em parte ele está me provocando, mas não de todo. Cresci ouvindo meus pais dizerem que a única coisa da qual temos certeza na vida é a morte, afirmando com naturalidade que não estariam sempre aqui para mim. O que não me preparou para a morte da minha mãe…

Voltando à família francesa, meu marido recebeu uma criação inversa da minha. Filho de médico, estava sempre a par dos casos esdrúxulos que só quem trabalha em hospital fica sabendo, como o menino de três anos que morreu engasgado com uma folha de alface, ou a criança que engoliu um amendoim errado e ele foi parar nos seus pulmões, dividido em ínfimos pedacinhos que precisaram ser arrancados um a um numa delicada cirurgia durante horas a fio. Resultado: até pouquíssimo tempo atrás meus filhos não tinham o direito de comer nenhum tipo de noz ou salada. Nem conto como foram minha gravidezes, durante as quais fui submetida à todas as proibições alimentares existentes e mais algumas. “Aplicamos o princípio de precaução máxima”, explicou o sogro, no tom solene que ele emprega quando está no personagem do médico. Não era apenas queijos não pasteurizados, como o camembert, ou carne e peixe cru que eu não o tinha direito de comer; queijos de massa dura mas não cozidos, como o comté que adoro, e o restaurante japonês inteiro me foram interditados. Certa vez, cansada das proibições do marido, entrei num japonês e encomendei um salmão cozido. Ele ficou histérico, prestes a chorar, porque o cozinheiro poderia ter cortado o salmão com a mesma faca usada para cortar os peixes crus.

Todo casal sabe como essas diferenças de criação podem ser conflituosas quando educamos nossos próprios filhos. Quando se é casado com um estrangeiro, as divergências são ainda maiores. Eu vivo me equilibrando entre a extrema prudência do marido e sua família e a descontração à beira da irresponsabilidade da minha. Quando os dois campos se encontram, nem traduzo certas coisas, eles não entenderiam mesmo. Nessas ocasiões é sempre minha opinião que sufoco, para agradar ou ao menos acalmar os ânimos.

Acho que agora dá pra entender melhor porque minha família e eu não podíamos coabitar na casa de campo com os sogros, a cunhada e seus dois meninos. Antes de viajarem juntos, eles fizeram um exame de sangue para terem certeza que não tiveram o coronavírus e não se contaminariam entre si. Como após essa longa semana no campo o marido e eu estávamos muito pesarosos de voltar para o apartamento com as crianças, decidimos usar o dinheiro economizado durante dois meses de confinamento para alugar uma casa nas proximidades. Se o dinheiro não serve para nos dar um pouco de conforto numa situação de crise sanitária, pra quê servirá, afinal? “Mas não devíamos guardá-lo para as férias de verão?”, ponderou o marido. Que férias de verão? Estou achando complicado me projetar nos próximos meses. Acho que o melhor nesse momento continua ser viver um dia após o outro, como os alcoólicos anônimos. “Mais um dia em que só vou conversar com o marido e os filhos” é menos enlouquecedor do quê “mais três meses…”.

Visitamos duas casas de campo na região e encontramos uma pequena mas bem organizada, aconchegante, mobiliada com objetos achados nas brocantes locais (nunca sei como traduzir “brocante”, são feirinhas muito comuns na França, onde particulares e profissionais vendem objetos usados e às vezes antigos). A casa tem um imenso jardim onde as crianças podem correr o dia todo e do outro lado da cerca pastam umas vacas que minha filha adora acarinhar. Mais bucólico impossível. Fica à um quilômetro da casa dos sogros. O marido estava com medo do seu pai levar essa iniciativa à mal. Mas ele contornou a situação um dia antes de nos mudarmos, se oferecendo para pagar nossa estadia na “casa nova”, como dizem meus filhos. O marido quis protestar, mas o sogro respondeu: “é normal, já que estamos com sua irmã e os filhos dela”. É verdade que eles vão ocupar a casa de campo da família até setembro.

Ontem passei de carro em frente à casa dos sogros e meus filhos começaram a gritar “papi, papi” quando viram o avô no jardim. Parei o carro e ele nos convidou pra descer. Pela primeira vez o fato do meu filho mais novo não querer dar beijinho para cumprimentar os avós franceses não foi um problema. O distanciamento social não é de todo ruim. Foi uma situação estranha, a principio fiquei em pé, depois a sogra me disse para assentar numa cadeira do jardim. A cunhada ficou investigando, queria saber exatamente onde fomos desde que chegamos no campo – em lugar nenhum, fora o supermercado, onde fui duas vezes sozinha. Os sogros pareciam até felizes em nos ver. A avó fez um comentário gentil sobre meu filho pela primeira vez, disse que ele havia crescido. Os pequenos respeitaram a distância a princípio, mas estavam eufóricas por encontrar outras crianças e rapidamente brincavam a menos de um metro umas das outras. Houve um desconforto. Por um lado, estamos confinados na região há duas semanas e podemos considerar que não representamos um risco para a família do marido. Por outro, se esse é o caso, por que não estamos na casa de campo com eles?

No dia seguinte, minha filha insistiu em voltar à casa dos avós, queria muito brincar com os priminhos. Como havíamos sido bem recebidos, atendi ao seu pedido. Dessa vez foi diferente, o ambiente era hostil. Meu filho mais novo levou uma pesada do primo na balança e a avó e a tia correram para acuar a criança chorando. Quando viram que era ele quem tinha se machucado, respiraram aliviadas e viraram as costas. Eles pareciam incomodados com nossa presença, ao ponto de eu me justificar por ter passado ali no fim da tarde. “Fomos nós quem dissemos pra vocês voltarem”, disfarçou a cunhada. Se eles não tivessem falado nada no dia anterior, eu não teria me aventurado a voltar…

Fiquei decepcionada, achei que em doses homeopáticas uma relação saudável com a família francesa seria possível. Comentei o acontecido com o marido, que ainda não foi ver os pais – nas duas vezes, ele aproveitou do raro momento sozinho pra estudar para um concurso. Ele respondeu: “Eles devem ter se sentido como depois que você transa sem camisinha”.

Deve ser. A França inteira está desconfinando, menos nós. E a família do marido é ainda mais louca do quê ele. Parece que já existe um nome para essa condição, uma síndrome parecida com a de Estocolmo, em que as pessoas não conseguem sair da quarentena e retomar relações sociais, ainda que respeitando todas as regras. Pouco importa. Bom mesmo é que pela primeira vez tenho a ocasião de estar no campo numa casinha que podemos chamar de nossa, onde não me sinto oprimida, culpada e sem lugar o dia todo. Como disse, o distanciamento social não é de todo mau.

No campo com a sogra, parte 2

Na manhã seguinte, acordo doente. Chantal e Albert estão alvoroçados, vão receber um casal de amigos de Jeanne. Quando desço as escadas, às quase dez da manhã, a sogra, que normalmente dorme até mais tarde sob o efeito de soníferos, já está de pé e passa a ferro a proteção de algodão branco das cadeiras da sala de jantar. Ela me lança um olhar de pura reprovação. Cogito explicar que acordei pela primeira vez às seis da manhã, com o bebê, mas por volta das oito e meia supliquei ao marido que saísse da cama e me deixasse dormir um pouco, pois havia passado uma noite horrível, assoando o nariz, delirando com a febre, procurando em vão uma postura confortável. Deixo pra lá, de nada adiantaria. Digo apenas, em um sussurro, que perdi a voz. Ao que ela responde: “ – Melhor assim”.

Dou bom dia à Jeanne, que está sentada na mesa tomando café da manhã. Digo-lhe que estou doente como não me ocorria há anos. Ostentando um semblante quase tão impassível quanto o da mãe, ela não se dá ao trabalho de responder. A expressão emburrada salienta a magreza e as olheiras escuras que vieram habitar seu rosto desde a morte do marido. Seus cabelos, negros pontuados por fios brancos que antes não estavam ali, estão desordenados, presos num rabo baixo desleixado. As costas arqueadas parecem penar para sustentar o peso das roupas largas. Sinto-me sem jeito por ter evocado meu próprio mal-estar.

As crianças correm no jardim. Indisposta, deixo-me cair no banco de madeira e observo. O céu está azul, sem sinal de nuvens. Nessas ocasiões, os europeus correm para fora das casas para não perder nem um instante dos raios de sol. Enfastiada dos meses cinzentos, eu também cobiço, há muito, dias como esse. Hoje, porém, daria tudo para ficar na cama, recuperando do vírus que sobrepujou meu organismo durante a noite.

Jasmim, minha filha mais velha, pede que eu a empurre na balança. Exausta, proponho fazer uma coroa com as margaridinhas que pontuam o gramado de branco. A menina joga as flores no chão e corre atrás de Jeanne, que se posiciona em frente à balança, prestes a empurrar seus filhos, David e Anton. Tomo ímpeto para me levantar, mas parece que meu corpo foi atropelado por um dos imensos tratores verdes que transitam regularmente na estrada em frente à casa. Forço a garganta e, com a voz fraca, esboço desculpas. Jeanne continua carrancuda. Ouço a voz do meu marido na cozinha perguntando onde estou, e a resposta desdenhosa de Chantal: “- Sua mulher está muito doente pra cuidar da própria filha!”. Minhas bochechas febris ficam ainda mais quentes. Repito mentalmente um mantra, num esforço de alto controle. A raiva passa, mas em meu peito cresce a opressão silenciosa que torna difícil respirar, a culpa muda e indefinível que, aos poucos, toma conta de mim cada vez em que estou na casa de campo dos sogros.

Os convidados de Jeanne chegam e o almoço se revela um verdadeiro suplício. Aperitivo, entrada, prato principal, queijos, sobremesa, café… As horas que passo sentada naquela mesa, lutando em silêncio para não esvanecer, retirando e tornando a colocar o casaco, parecem intermináveis. Como gostaria de pedir licença e subir para o quarto, proeza impossível na casa de Chantal. Lembrei-me de certa vez em que estávamos ali, Jasmim acabara de completar um mês e acordava a noite toda para mamar. Cada hora de sono contava, mas eu devia esperar o fim dos longos jantares para poder me deitar, como se não estivesse em pleno puerpério. Chantal, que nunca amamentou, me fazia pagar minha escolha. Até mesmo meu sogro, que é médico, se incomoda com o fato de eu amamentar. Ao longo desse almoço interminável, a única vez em que ele me dirigiu a palavra foi para dizer, provocativo : “Tenho pena de você, que amamenta e não pode provar esse vinho maravilhoso”. Ao que respondi, com uma ousadia ainda inédita: “Não é porque estou amamentando que não estou bebendo, mas porque estou realmente doente!”. Nesse ambiente repressivo, saboreio essas pequenas repartidas como conquistas. Outro momento vitorioso foi quando Jasmim exclamou, tão logo Chantal colocou as batatas sauté no seu prato: “Não quero, é batata podre!”. A sogra, claro, nada disse na frente dos convidados. Mas lançou um olhar furioso da minha filha ao meu sogro, em busca de cumplicidade. Como se a exclamação típica de uma criança de quatro anos fosse mais uma prova da selvageria da minha prole. Ela também me fuzilou com o olhar, esperando que eu repreendesse Jasmim. Foi minha vez de fingir que nada acontecera. Como poderia sabotar o único momento delicioso do almoço?

A tarde passa arrastada. Conto as horas para o jantar, o banho das crianças, a história de boa noite de Jasmim, a mamada final de Enzo, até que finalmente me desfaleço na cama. Imagens começam a se formar em minha mente, estou quase sonhando quando sou acordada pela tosse, ou pelo ronco de Vincent, ou o choramingar de Enzo, ou ainda Jasmim, que quer fazer xixi… Tudo se mistura em uma bruma confusa. Alterno ondas de frio e calor, troco duas vezes o pijama encharcado de suor. Em meus delírios, vejo Chantal debruçada na janela e caindo no jardim. Não conto para ninguém, mas o sonho me trás uma satisfação alegre. Acordo da noite tumultuada com um sorriso nos lábios. Nada como uma compensação imaginária para suportar o campo com a sogra.

 

No campo com a sogra

Atendendo a pedidos, aí vai uma história com a sogra. Aconteceu três anos atrás. É tudo verdade, mas os nomes são fictícios.

 

Seis horas da tarde. Meu rosto se ilumina quando abro a porta do carro. O sol, ainda alto, realça o verde da grama recém cortada. Seus raios formam pequenas estrelas que pendulam junto com as barras de ferro da balança, de onde ecoam sonoras risadas e despontam bracinhos e perninhas. Há meses anseio por esse frescor. “A gente revive”, disse uma amiga quando almoçávamos em uma mesa ao sol, uma semana atrás. Meu coração reconheceu a exatidão dessas palavras simples. É primavera e eu renasço em cada brotinho que surge na ponta de cada ramo de cada árvore. Nessa época do ano, os ninhos são facilmente visíveis através dos galho seminus. Uma felicidade boba me invade quando percebo um pássaro voar com gravetos no bico. Fecho os olhos, sinto o calorzinho se difundir na pele enfim livre dos casacos de inverno.

Mas tal leveza não pode durar. Ao fundo do jardim, sentada numa espreguiçadeira, contrastando com a imponente casa de pedras e revestimento amarelo típico dessa parte da Normandia, está ela, Chantal, minha sogra. Uma respiração pesada marca a volta à realidade. Enzo começa a se impacientar na cadeirinha de bebê. Pego-o no colo e desço o morrinho que leva até a casa. Me pergunto como agir, afinal, na última vez em que estive ali me rebelei pela primeira vez, após mais de dez anos engolindo as malícias dessa senhora. Atravessei o portão furiosa, o tapete de yoga num braço e o recém-nascido no outro, os pés descalços desafiando as pedrinhas da estrada, berrando que jamais entraria naquela casa novamente. Desde então, muita água rolou. Uma semana após ter me insurgido, engoli meu orgulho e enviei um cartão de paz para Chantal, que por sua vez fingiu que nada acontecera, empurrando a poeira para debaixo do tapete com polidez francesa.

Sobretudo, alguns meses após esse episódio, o esposo da filha caçula de Chantal, Jeanne, faleceu abruptamente, deixando-a viúva com dois filhos pequenos. Além de Jeanne e do meu marido, Chantal tem outra filha, a mais velha dos três. Jeanne sempre fora sua preferida e, desde antes de perderem o pai, seus filhos, que têm praticamente a mesma idade dos meus, são seus netos favoritos. Na verdade, é como se Chantal tivesse uma filha e dois netos, quando na verdade ela tem três filhos e sete netos. A morte do marido de Jeanne não melhorou essa situação, pelo contrário. Ela, que já era uma santa aos olhos da mãe, se tornou uma mártir. Mas, como é próprio da morte, esse acontecimento trouxe uma urgência de união para a família, suspendendo momentaneamente as antigas querelas.

“Talvez a satisfação de ver meu filho, seu neto mais novo, alivie a situação”, espero. Não há quem não derreta com o olhar esperto e o sorriso maroto de Enzo : na creche, as moças brigam para cuidar dele; na rua, as velhinhas param para conversar, subjugadas pelo seu charme. Esse pensamento me dá coragem. Prossigo, quase sorridente. Mas Chantal não se levanta da espreguiçadeira, sequer descola os olhos do livro. Me aproximo e deposito Enzo na grama, próximo aos seus pés. Anton, filho de Jeanne, um ano mais velho que Enzo, corre até o primo e lhe faz um carinho na cabeça. A sogra declara, então, encantada: “- Que gracinha, ele o acaricia como se fosse um cachorro”.

 

Continua…

Minha sogra francesa

Poucos dias após ter começado esse blog mandei o link para uma grande amiga, que respondeu: “Muito bom!!! Só não está fazendo sentido, ao menos até agora, o nome do blog…”. Ignorei o comentário. Passei os últimos meses pensando na sogra praticamente todos os dias e apenas recentemente consegui me liberar dessa carga emocional; estava relutante em voltar a ocupar minha mente com um assunto que me chateia. Ao mesmo tempo, gosto do nome “Minha sogra francesa” e não tenho vontade de mudá-lo.

Chegou a hora de explicar as razões do título. Comecei esse blog há exatamente dois anos, numa época em que precisava escrever sobre a sogra para suportar sua existência. Criei a conta no wordpress, o título, o e-mail, o pseudônimo, mas não tive coragem de publicar nada. Acho que, em parte, eu tinha medo que ela descobrisse minha atividade secreta. No fundo, ainda acreditava que um dia pudéssemos ser próximas. Eu era mesmo muito iludida.

Agora liguei completamente o foda-se. Quem está sofrendo é o marido, que começa a enxergar uma faceta da mãe que não é de todo apreciável. Aliás, foi um comentário dele hoje mais cedo que me motivou a escrever essas linhas. Eu estava ajoelhada no chão, lavando os cabelos da nossa filha, quando ele disse, com um sorriso : “Minha imagem da maternidade é ganância e ódio”. Na hora não entendi se ele estava brincando ou me atacando, nem por quê. Depois caiu a ficha, não era de mim que ele estava falando, mas da própria mãe.

Pra vocês começarem a entender essa figura difícil sem sair do tema do confinamento, conto aqui o motivo do meu marido estar chocado com a atitude dela, a ponto de ruminar pela casa dizendo bizarrices sobre a maternidade : nesse exato momento existe uma maravilhosa casa de campo na Normandie, com um imenso jardim e um carro na garagem, inutilizados. Os sogros preferiram ficar confinados no seu apartamento parisiense, pois se sentem mais seguros estando próximos aos hospitais, e optaram por manter a casa de campo vazia com o carro lá dentro. Pouco importa que o filho e os netos estejam confinados num apartamento de dois quartos sem quintal e com vizinhos intolerantes.

Eu nem penso nisso, já fiz o luto da casa de campo há tempos, só me aborreci quando interditaram o bosque ao lado da nossa casa. Lá sim, é meu oásis. Mas o marido, apesar de saber a mãe que tem, ainda pensava na casa da Normandie como sendo um pouco sua também. Afinal, adolescente, ele passou diversas férias de verão esfregando o musgo de azulejos de demolição para a renovação da casa, enquanto seus amigos “iam para colônias de férias e passavam a mão nos peitos das meninas”.

Histórias com a sogra virão, vocês vão ver, ela é um personagem complexo, uma perfeita vilã de novela, gentil e educada à primeira vista, perfídia e venenosa quando chegamos perto. Mas por enquanto prefiro refletir sobre o dia-a-dia do confinamento e oferecer textos que, espero, nos ajudem a atravessar esse momento delicado.