Estelionatário

Os dias passam tranquilos no campo. Continuamos em busca da organização perfeita do dia da marmota, um pouco mais relaxados do quê quando estávamos no apartamento. Por hora deixamos a escolarização das crianças de lado, acredito que fotografar vacas e correr atrás dos calangos são uma forma de aprendizado tão válida quanto as outras. Inclusive fomos agraciados com duas visões extraordinárias da vida na natureza.

A primeira foi alguns dias atrás. Eu queria mostrar ao marido um lugar perto de onde estamos, um pequeno aglomerado de casas que descobri por acaso, quando me perdi ao voltar do supermercado, e achei muito charmoso. O marido resmungava e falava palavrões, fiel ao parisiense que é; não queria perder tempo vendo nada, não entendia porque não voltávamos rápido pra casa. Eu respirava fundo, me esforçando pra ignorar as reclamações dele, quando uma ave de rapina enorme passou baixinho com uma serpente enrolada nas garras. Ela atravessou a estrada de terra bem na nossa frente e desapareceu na plantação de trigo ao lado, foi lindo! O marido desceu do carro, encantado, e se dirigiu ao lugar onde a ave pousara. Ela alçou voo, dando-nos mais uma oportunidade de aprecia-la. Além de maravilhada com a cena, também me senti feliz por ter continuado dirigindo, apesar dos protestos do marido. “Você não poderia saber”, ele replicou. Mas não é isso intuição? Avançar mesmo quando os outros dizem que estamos errados porque algo em nós diz que é o caminho a seguir?

A outra cena é mais trivial, ocorreu hoje de manhã. Estávamos almoçando no jardim quando o gato da hospedagem avançou devagarzinho e saltou em cima de um camundongo. Foi minha filha que mostrou pra gente. Eu não quis olhar, mas dava pra ouvir o ratinho protestando, quirck, quirck. Segundo a narração ao vivo dos filhos, o gato mordiscou o camundongo durante alguns minutos e depois o enterrou vivo. “É a geladeira dele”, o pai explicou aos pequenos, que observavam admirados. “Coitadinho”, comentei. Minha filha replicou na hora, indolente: “Por que? Você nem gosta de rato!”. Fiquei boba com o sangue frio das crianças.

E assim corriam os dias, entre ações corriqueiras e românticas como ir até um povoado medieval de 700 habitantes e parar o carro em frente à igreja do século XIII para comprar pão, ou estender roupas no varal para que sequem ao sol, o que também me remete à um outro século, acostumada que estou com a secadora no apartamento. Ao final do dia levo as crianças para brincar com os priminhos, apesar dos protestos do marido, que acha que deveríamos nos distanciar da família dele. Ele tem razão, mas não resisto aos pedidos dos filhos, que durante dois meses não viram nenhuma outra criança além deles mesmos.

Tudo parecia em harmonia até que ontem, no meio da janta, o marido olha o telefone e me pergunta, abismado: “Você insultou minha irmã?”. Hein? Ele me mostra a mensagem. “Estelionatário”, estava escrito numa conversa entre nós três, proveniente do meu telefone. Logo abaixo a reação da cunhada: “??? Essa palavra quer dizer aproveitadora? Não entendi.” Na hora soube que algum dos meus anjinhos pegou o celular e escreveu letras aleatórias, que o corretor transformou em “estelionatário”. (Na verdade a palavra foi outra, com sonoridade parecida mas ainda mais surreal, uma palavra que até então eu sequer sabia que existia. Mas o marido me proibiu de escrevê-la aqui, ele tem medo da irmã fazer uma pesquisa na internet e descobrir o blog. Aí sim, estarei em maus lençóis…).

Fato é que a cunhada jogou “estelionatário”, digamos, no Google e encontrou a tradução profiteuse, “aproveitadora” em português. Liguei para resolver o mal entendido. “Eu nem conhecia essa palavra”, expliquei. Ela foi super fria, não me pareceu convencida. Demorei pra entender que ela não duvidava que foram as crianças que escreveram o insulto, mas estava zangada porque achava que minha filha tinha repetido o que eu dizia sobre ela. Quer dizer, a cunhada pensa que em casa eu a trato de “estelionatária”. Fala sério! Era o que me faltava. Desligamos o telefone e mais uma vez fui invadida pela sensação que sempre tenho quando estou com a família do marido, um aperto no peito, uma culpa sem razão, a impressão de precisar ficar provando que não sou a pessoa terrível que eles imaginam.

Fiquei chateada com o mal entendido, até porque ainda estávamos nos recuperando da briga do verão passado. Decidi ir à casa dos sogros no fim da tarde, levar as crianças para brincar como nos outros dias e aproveitar para esclarecer a situação em pessoa. Quando entrei no jardim a cunhada e os sogros não me olharam, coube a mim cumprimenta-los primeiro. “Bonjour Chantal! Bonjour Jeanne! Bonjour Albert!”, disse o mais alegremente que pude. Responderam friamente e eu fiquei ali, fazendo de tudo para ser gentil, enchendo balões de água para as quatro crianças brincarem e esperando o momento oportuno para abordar o assunto. Já estava quase me rendendo ao hábito francês de jogar a poeira pra debaixo do tapete e seguir a vida com relações falsamente cordiais à espera de que o tempo talvez resolva as coisas quando não me aguentei e disse: “Sinto muito pelo mal entendido de ontem, mas você entendeu que eu nem conhecia aquela palavra? Ninguém fala daquele jeito”. Jeanne levantou o olhar do livro e respondeu, condescendente : “Você disse isso ontem. Se você diz, eu acredito em você”, e retomou a leitura, como se fosse um ato de benevolência da sua parte crer na minha palavra. Quis explicar que ainda que eu tratasse as pessoas de “estelionatário” no dia-a-dia, minha filha de sete anos não saberia escrevê-lo, mas ela já tinha encerrado o assunto. Chantal tinha se aproximado e escutava atenta.

Quando me rebelei com a sogra, anos atrás, o sogro me disse, na única conversa realmente franca que tivemos em todos esses anos, que a paranoia corria na família de Chantal. Sua avó e sua mãe haviam sido paranoicas, e ela também o era. Quando contei isso ao marido, ele respondeu que Albert, que é médico, tinha mania de diagnosticar e estava exagerando. Mas alguns meses atrás, quando fui falar da sogra para minha psicanalista, em menos de cinco minutos ela afirmou, categórica: “não se deve tentar agradar uma pessoa paranoica”. Detalhe: eu não tinha mencionado esse termo. Hoje, com o caso do estelionatário, tive a prova de que não somente Chantal, como também sua filha, Jeanne, são mesmo paranoicas. E eu devo ser a neurótica que fica tentando entender, esclarecer… repetidamente. Gostaria de ter puxado minha avó paterna, ela já teria mandado esse povo todo à merda faz tempo.

Para retomar o tom animalesco com que comecei esse texto, sou um cão São Bernardo tentando encontrar meu lugar numa família de gatos siameses. Mas aos poucos vou ficando esperta. Em meio à todo esse aborrecimento, por exemplo, fiquei feliz por ter algo sobre o que escrever. Vida longa à minha sogra e cunhada francesas, que não decepcionam. E que elas nunca descubram que, se não as trato de “estelionatário” em casa, não me privo de contar tudo aqui.

E depois?

Quando ultrapassamos os quarenta dias de confinamento, parei de contar. O tempo se tornou elástico, um chicletes recém mascado grudado na sola do sapato. Todo dia é domingo, ou segunda, ou terça… pouco importa. Mas acho que não foi isso o que me fez parar de contar. Simplesmente perdi a expectativa da contagem regressiva. Quando chegarmos à meia-noite, não haverá fogos de artifício, nem beijo na boca, nem abraço apertado, nada disso. Haverá máscaras descartáveis, distanciação social e medo da epidemia voltar mais forte.

Daqui a exatamente uma semana chegaremos no 11 de maio, data anunciada por Macron para começar o “desconfinamento”. As escolas reabrirão suas portas. Anseio por isso desde os primeiríssimos dias da quarentena. Volta às aulas = voltar a ter algumas horas por dia para cuidar dos meus próprios interesses. Em tempos normais as férias já me parecem longuíssimas, confinada com crianças e marido num apartamento sem quintal e com vizinhos intolerantes então nem se fale. Para mim, era óbvio que meus filhos voltariam pra escola assim que possível. Quando o marido deu a entender que talvez seria mais prudente mantê-los em casa mesmo após o 11 de maio não dei bola, certa de que ele estava exagerando, determinada a não deixar suas ansiedades interferirem nos meus planos.

Até que recebi as mensagens do prefeito e da escola anunciando como acontecerá a volta às aulas. Não serão aceitas mais de quinze crianças por sala. Cada turma chegará e partirá num horário determinado, para limitar o contato com outros alunos. Dentro da sala de aula, cada criança deverá ficar num quadrado vermelho de um metro traçado no chão. Cada criança deverá usar seu próprio material escolar. Se por acaso as crianças tocarem em materiais alheios, eles deverão ser desinfetados imediatamente. Os professores e todos os profissionais da escola deverão usar máscaras. A cantina não funcionará, cada criança deverá levar sua própria refeição e comê-la em cima da sua carteira dentro do seu quadrado. Não haverá recreio. Os pais não poderão entrar na escola. E por aí vai.

Tínhamos até hoje para indicar se nossos filhos retornarão ou não à escola segunda que vem. Depois do banho de realidade que tomei lendo a mensagem do prefeito, não tive dúvidas, vou ficar com as crianças em casa até o próximo ano letivo, em setembro. Foda-se se vou continuar gritando “parem de correr” cinquenta vezes por dia, em vão e com o coração na mão por causa dos vizinhos; foda-se se vou continuar me agachando cento e cinquenta vezes por dia pra catar brinquedos pelo chão – a propósito, ontem uma amiga me disse uma das coisas mais certas que já ouvi: “arrumar casa com criança dentro é igual escovar os dentes comendo bolacha”. Foda-se se o confinamento me pegou em plena conversão profissional, pra não dizer crise existencial, e até agora não sei o que vou fazer quando tudo isso acabar.

Parece que 65% dos franceses afirmaram que não vão mandar os filhos pra escola dia 11. Essa informação me foi dada por um amigo colombiano que encontrei por acaso no bosque. Ele estava morto de rir, como quem diz “esses franceses são mesmo loucos”. Gosto muito desse amigo, ele está sempre de bom humor, apesar de ser casado com uma russa que parece carregar o peso do mundo nos ombros. Mas quando ele disse isso fiquei dividida. Por um lado lamentei ter perdido essa leveza. Por outro, achei que a ficha dele simplesmente não caiu.

A maior parte das pessoas ao meu redor está preocupada com o aumento do risco de contágio que a volta às aulas representa. São mais pragmáticas do que eu. O que realmente me angustia é pensar nas crianças voltando pra escola dessa forma. Mesmo explicando muito, acho que ao menos para os meus, que ainda tem quatro e sete anos, a distância entre a escola que está na cabecinha deles e da qual eles sentem falta e essa nova forma de escolaridade será, no melhor dos casos, frustrante. No pior, traumatizante.

E a escola é apenas uma ilustração de todo o resto. Como será o mundo pós-covid19? Será que os abraços apertados que damos no Brasil, ou os beijinhos que os franceses dão no rosto pra se cumprimentar, estão condenados? Quais dos novos hábitos que estamos adquirindo ficarão com a gente? Os bons ou os ruins? Espiritualistas e ambientalistas afirmam o lado bom da pandemia, insistem na guinada positiva que a humanidade está sendo obrigada a dar. Quero muito acreditar nisso, mas quando vejo as máscaras e luvas descartáveis jogadas no chão no meio do bosque penso que nada mudou, nem mudará. Isso pra não falar na tristeza que invade meu coração cada vez que leio uma notícia sobre como o governo está lidando com a pandemia no Brasil.

Outro dia, andando na rua, minha filha perguntou: “mamãe, o que é apocalipse?”. Senti um aperto no peito. Onde ela ouviu isso? Por alguns instantes fui tomada pela superstição: pronto, ela está sentindo o que está acontecendo. Me controlei e perguntei, como quem não quer nada: “Por que, filha?”. Está escrito ali, ela respondeu, apontando para o letreiro de uma loja de sapatos. A loja fica no quarteirão da minha casa e eu nunca havia percebido que ela se chama Apocalipse. Respirei aliviada. Espero que eu esteja me alarmando inutilmente, que algo de bom realmente emerja depois do tsunami. Meu marido leu que a quarentena impediu que 11.000 pessoas morressem vítimas da poluição na Europa. Ouvi dizer também que um dos buracos da camada de ozônio se regenerou. Termino então com essas boas notícias, mesmo se devo confessar que brincar de Polyanna está ficando complicado.

O dia da marmota

Quando penso nas horas que passei em frente à televisão quando era criança, me sinto menos culpada em permitir que meus filhos assistam duas horas de desenho animado por dia durante o confinamento. Um dos filmes que vi muitas vezes, porque ele passava com frequência na sessão da tarde, foi “Feitiço do Tempo – O dia da marmota”.

Desde que o confinamento começou, penso nesse filme todos os dias. Acho que as pessoas da minha geração que cresceram no Brasil sabem de qual filme se trata, afinal, a sessão da tarde era uma instituição nacional. Talvez brasileiros mais novos que eu não tenham assistido O Dia do Feitiço, a programação devia mudar a cada dez anos. Pra quem não conhece, nesse filme o simpático Bill Murray interpreta um jornalista arrogante da cidade grande que vai cobrir uma festa do interior chamada “o dia da marmota”. Por algum motivo desconhecido ele fica preso nesse espaço-tempo que tanto despreza. Todos os dias o jornalista se levanta e constata que é o mesmo dia que recomeça.

Não é familiar? Há quase seis semanas eu acordo para o mesmo dia, que inclui cuidar de crianças, limpar a casa, catar brinquedos no chão, lavar roupa, cozinhar, conversar com o mesmo adulto e preencher uma declaração pra passear no mesmo lugar que fica a menos de 1 km da minha casa durante exatamente uma hora. Até meu filho de quatro anos já se cansou dos passeios no bosque: “mas a gente já foi lá ontem”, ele esbraveja, com uma lógica incontestável.

Passada a exasperação de descobrir que está vivendo o mesmo dia todos os dias, o jornalista se empenha em criar o dia perfeito; ele evita uma poça de lama onde antes afundava o pé todas as manhãs, por exemplo. Pois aqui é igualzinho. Cada dia mudamos um pouco a ordem das coisas, na esperança de um dia de confinamento com crianças senão perfeito, ao menos harmônico. As variáveis fixas são as refeições, a sesta e o banho. As móveis são o estudo, a televisão e o passeio no bosque. Tem dias em que liberamos a televisão das 11 às 13 horas, porque descobri um curso de yoga online maravilhoso nesse horário. Mas aí depois do almoço elas estão agitadas e demoram para fazer a sesta, o que atrasa o restante do dia. Resultado: vão pra cama tarde e nossas duas horinhas de liberdade vão pra cucuia. No dia seguinte mudamos a ordem dos fatores, mas continuamos insatisfeitos com o resultado. Concluímos que temos que tentar outra coisa. Todo dia é o dia da marmota.

O dia da marmota do filme só acaba depois que o jornalista egoísta e pretensioso se torna uma pessoa gentil e atenciosa, capaz de conquistar uma mulher que conheceu nesse dia eterno e pela qual se apaixonou. E o dia do confinamento, quando vai acabar? Li uma entrevista com um historiador em que ele declara que, se não podemos dizer que estamos vivendo uma guerra, o que significaria diluir o conceito ao ponto de esvazia-lo de seu sentido, estamos vivendo, de fato, uma temporalidade de guerra. Quando uma guerra começa, os governantes não dizem “essa guerra vai durar dez anos”, isso deixaria todo mundo em pânico. Eles pedem à população que façam um esforço durante quinze dias, que depois se transformam em meses e por vezes anos. Foi exatamente o que Macron fez, inclusive repetindo ostensivamente “estamos em guerra”, no seu primeiro pronunciamento. No último, ele anunciou um desconfinamento progressivo a partir do dia 11 de maio. Pessoalmente, não acredito que essa decisão inclua as escolas, ao menos não em todas as regiões da França. Professores e educadores estão pedindo garantias de segurança para a volta às aulas, e como garantir que crianças pequenas não corram umas nos braços das outras, não se embolem em brigas e brincadeiras? A verdade é que, nessas alturas do campeonato, não me surpreenderia se anunciassem que as aulas só vão recomeçar em setembro. À diferença do filme, o fim do meu dia da marmota não tem nenhuma relação com minha performance individual.

Ao mesmo tempo, o jornalista do filme também não sabia que se tornar uma pessoa melhor e ganhar o amor da moça quebraria o feitiço. Ele progrediu porque não havia outra coisa a se fazer, e também porque era a única forma de se divertir um pouco. Hoje, quando eu falei pro meu filho mais novo que ele não podia brincar com as pedrinhas do chão da praça por causa do coronavírus, ele replicou, irritado : “Não tem mais coronavírus, ele ficou com medo dos cavalos da polícia e foi embora”. E minha filha de sete anos, na hora do jantar, respondeu impaciente ao pai, depois dele ter explicado que o coronavírus se espalhou pelo mundo com as pessoas viajando de avião: “Então é simples, é só colocar o coronavírus no avião e mandar ele embora”.

Infelizmente, não tem cavalo, nem polícia, nem avião, nem cloroquina, nem fórmula mágica, nem amor correspondido que nos livre do coronavírus. Mas e se eu conseguisse transformar esse dia, que volta todos os dias, num dia absolutamente perfeito? Será que eu poderia então dizer sim à esse eterno retorno? Uma ambição mais modesta é evitar que a monotonia se transforme em melancolia. E para isso, só uma solução: brincar de buscar o dia perfeito.