Terceiro confinamento

Dia 18 de março a região parisiense iniciou seu terceiro confinamento. O que para mim não alterou muita coisa, principalmente porque as escolas permaneceram abertas. Quando soube que nos reconfinaríamos em poucos dias, corri para o cabelereiro; meu cabelo já estava sem corte e mais não sei quantos meses sem apará-los me aproximaria da imagem de quarentona desleixada que ainda busco evitar. Há mais de um ano não faço as unhas nem a sobrancelha, mas tudo bem, na França este tipo de cuidado não é visto como essencial para a maioria das mulheres. Acontece que sou filha de uma mineira extremamente feminina e vaidosa, que cuidava muito bem do corpo e frequentava o salão todas as semanas, religiosamente. Ela me transmitiu essa preocupação. Quando fico sem depilar, por exemplo, tenho pesadelos onde todos observam minhas canelas peludas, a aflição é a mesma dos sonhos em que ando descalça na rua suja. É uma das minhas contradições, já que sou feminista e acredito que a depilação é uma das muitas formas de violência exercidas sobre as mulheres. Como a socialização primária é forte, já no primeiro confinamento comprei um depilador elétrico pela Amazon. Pronto, acabo de revelar outra das minhas fraquezas… Ontem mesmo li coisas terríveis sobre as condições de trabalho dos funcionários da Amazon, para não mencionar seus efeitos pérfidos para o comércio local.

No dia em que o terceiro confinamento começou, passei em frente ao cabelereiro e me surpreendi, ele continuava aberto. De volta pra casa, fiz uma busca na internet e descobri que neste confinamento todos os comércios considerados não-essenciais fecharam as portas mas, ao contrário dos precedentes, cabelereiros, floricultores, livrarias, lojas de disco e chocolatarias poderiam continuar funcionando. O Macron está sempre dizendo que aprendeu com a experiência do primeiro confinamento para criar as regras dos próximos. Esta pequena lista das lojas que obtiveram permissão para continuar abertas diz bastante sobre os hábitos franceses. No meu bairro, o que mais tem é cabelereiro, farmácia, padaria, floricultura e loja de chocolate, mais ou menos nesta ordem.

Anunciado numa quarta-feira, o terceiro confinamento começaria na segunda. Na sexta-feira anterior, único dia da semana em que não dava aulas, saí do cabeleireiro e corri para a loja de brinquedos, porque sábado era aniversário da minha filha mais velha e terça do caçula – eles têm exatos três anos e três dias de diferença. A moça do caixa me disse que há dois dias parecia natal, tamanha a afluência de pais e avós comprando brinquedos para ocupar os pequenos. Ao ver Jasmim abrindo seus presentes, no sábado, Enzo abriu a boca a chorar: “Eu não vou ganhar presente de aniversário porque estamos confinados e as lojas de brinquedo estão fechadas”, ele balbuciou entre dois soluços.

Foi o segundo ano seguido que meus filhos comemoraram o aniversário na quarentena. Ano passado sopramos as velinhas só nós quatro mesmo. Este ano fiquei com dó. No sábado de manhã propus à Jasmim convidar duas amiguinhas para lanchar em casa. O Enzo, sempre atento, logo avisou: “Eu também vou convidar dois amiguinhos”. E assim fizemos. A prolongação da epidemia nos fez perceber que precisamos sim, tomar cuidado, mas é preciso criar alguns espaços de respiração, aceitar que não podemos controlar tudo. No começo da pandemia, por exemplo, um segurança ficava na porta do supermercado colocando álcool gel na mão de todo mundo que entrava. Agora, o vidro de gel fica disponível ao lado porta, ninguém fica vigiando para saber se estamos respeitando os protocolos. Aqui em casa, há muito tempo não lavamos mais as compras quando voltamos do supermercado, mas continuamos lavando as mãos sistematicamente e várias vezes ao dia. Quer dizer, vamos encontrando um equilíbrio entre o comportamento ideal para evitar o vírus e o possível para manter a sanidade mental. Convidar dois amiguinhos para cada aniversário foi uma ótima saída, as crianças ficaram ultra felizes e talvez tenham se divertido mais do quê nas festas com muitas crianças.

Quando disse que o terceiro confinamento não mudou muito minha rotina foi porquê, além dele ser mais flexível do quê os outros, também ganhamos algumas liberdades. Desde janeiro estávamos com um toque de recolher às 18h, este confinamento nos fez ganhar uma hora, agora podemos ficar na rua até às 19h. Outra bizarrice do novo confinamento: as aulas de natação da escola da minha filha, que estavam canceladas desde o começo do ano letivo, em setembro, recomeçaram. O presidente anunciou que durante este confinamento poderíamos ficar fora de casa o tempo que quiséssemos, num raio de dez quilômetros da residência. Num primeiro momento quiseram reinstalar as declarações, onde cada um atesta sob honra que tem um bom motivo para estar na rua e assina embaixo; mas depois, dando-se conta do absurdo, senão ridículo, da exigência, voltaram atrás. O léxico utilizado para definir nossa situação é aleatório e inapropriado. Toque de recolher, confinamento, desconfinamento… Entendi que não dá para levar os termos ao pé da letra e parei de seguir os anúncios governamentais. Agora me contento em verificar na internet o que podemos ou não fazer quando bate a dúvida.

Durante mais ou menos duas semanas após o início do terceiro confinamento parisiense, desfrutamos das nossas pequenas liberdades, mas sabíamos que a epidemia ganhava terreno na França e corríamos o risco das escolas fecharem novamente. Não demorou para começar a circular nos grupos Whatsapp mensagens onde os pais compartilhavam o medo de ficar com os filhos em casa 24h por dia, 7 dias por semana. Eles se reasseguravam mutuamente, argumentando, por exemplo, que o governo francês se orgulha de ser o país europeu que manteve as portas das escolas abertas durante mais tempo desde o começo da crise sanitária.

Mas seu fechamento era iminente. Já haviam decidido que bastava uma criança infectada para fechar a sala. Na terça dia 30 de março, todos os alunos da escola dos meus filhos fizeram um teste salivar, com exceção daqueles cujos pais se recusaram a autorizar o teste. Foi o caso da mãe de uma amiga de Jasmim que me explicou, sem corar, que caso sua filha fosse positiva ela teria que ficar em casa, e isso não era admissível. Fiquei surpresa com o raciocínio, mas não discuti, há tempos desisti de dialogar com a ignorância. De toda forma, estávamos certos de que na quinta a escola não abriria, a maior parte das crianças fez o teste e parecia óbvio que ao menos uma em cada sala seria positiva. A professora da Jasmim chegou a fazer uma aposta com os alunos: se ninguém tivesse Covid eles ganhariam dois pacotes de balas. Quarta, dia 31, Macron anunciou que nosso confinamento local passaria a ser nacional e que todas as escolas da França fechariam as portas, a partir de segunda, por três semanas. Quinta, contra todas as expectativas, Jasmim e Enzo foram para a aula, nenhum caso positivo fora detectado nas salas deles. “Aproveitem ao máximo os dois dias de escola”, os pais escreveram nos grupos Whatsapp, solidários. Segui o conselho e avancei meu trabalho. Sobretudo, aproveitei para preparar nossa evasão. Nunca mais passo outro confinamento no apartamento com os anjinhos. Domingo de Páscoa metemos o pé na estrada. Cenas para o próximo capítulo. Nele contarei também os últimos episódios com a sogra, que ainda estou digerindo.

Adeus Tia Ervilha…

Ontem a covid levou a primeira pessoa próxima de mim. Mais precisamente, a primeira pessoa que possuía meu amor. Tia Ervilha. Claro, esse não era seu nome, nem seu apelido. Mas quando criança eu me divertia com a semelhança do nome da minha tia com essa palavrinha que sempre achei muito simpática, “ervilha”. Me divertia intimamente, porque nunca a chamei assim. Seria uma falta de respeito, o apelido não combinaria com minha tia, sempre tão digna, tão elegante. Mas na minha cabeça infantil era como uma “private joke”, inofensiva, que eu fazia comigo mesma. Tia Ervilha. Em uma das minhas lembranças, estamos no seu quarto e eu lhe mostro o desenho que fiz no computador do meu pai, numa época em que computadores ainda eram novidade. Uma ervilha sorridente, rodeada por ervilhas menores, saltitantes. Minha tia declarou que o desenho era lindo, estava impressionada com minha habilidade. Me enchi de orgulho.

Não é a primeira vez que uma pessoa que amo se vai desde que moro na França. De longe, nos sentimos ainda mais impotentes. Não podemos participar dos rituais que seguem a morte de uma pessoa amada, rememorar com os outros o que mais gostávamos nela, rir e chorar juntos em sua homenagem. Eu estava assistindo um seriado na televisão, no único momento do dia em que me permito relaxar, quando recebi a mensagem de uma prima anunciando o falecimento da nossa tia. “- Ah não!”, gritei sem pensar. O marido, que estava no quarto ao lado colocando as crianças para dormir, levou um susto. Abriu a porta da sala e me encontrou chorando, o telefone nas mãos. Sentou-se ao meu lado e quis me abraçar, solidário, mas, para minha própria surpresa, pedi que me deixasse sozinha. Ele até conhecia a tia Ervilha, mas de longe, com seu olhar de francês…  Ele já a conhecera idosa, não se lembra dela linda e cheia de vida, como era na minha infância e ficou para sempre na minha memória. Ele não entende as relações familiares brasileiras, nunca uma tia haverá sido tão importante na sua vida, na sua constituição, quanto as minhas foram na minha. Enfim… apesar da boa vontade, Vincent estava a milhares de quilômetros de distância dos meus sentimentos para que eu pudesse receber seu reconforto. E eu estava, literalmente, a milhares de quilômetros de distância das pessoas que compreenderiam minha dor.

Esse é um dos dramas do imigrante. Fiquei ali, olhando para o telefone, me perguntando com quem poderia compartilhar aquele momento. Não dava pra ligar para nenhum dos meus amigos daqui: primeiro eu precisaria explicar quem era a tia Ervilha e qual fora seu lugar na minha vida, depois relatar seu estado de saúde nos últimos anos e apenas em seguida anunciar que não resistira ao ataque do covid. Seria como traduzir uma piada para um estrangeiro. As piadas simplesmente perdem a graça quando precisamos explicá-las. Pelo visto, a dor também: perde a desgraça. Liguei para as primas. Ao contrário do marido, elas estavam próximas demais da tia Ervilha. Participaram da sua estadia no hospital, seguraram sua mão na hora da partida. Gostei de saber como foram seus últimos dias, senti conforto ao saber que ela não estava sozinha, apesar dos protocolos impostos pelo covid. Mas foi incômodo ser a pessoa que liga de longe nessa hora crítica. A estrangeira que desligará o telefone e seguirá com sua vida e sequer participará do enterro. Faltou-me coragem para ligar para as outras tias, minha emoção me pareceu ilegítima ao lado da delas… Acabei enviando uma mensagem para uma amiga de infância que conviveu muito com minha família quando éramos pequenas. Ela respondeu na hora. Me fez bem, preencheu um pouco o vazio do lugar onde me encontrava.

“Não diga nada às crianças, para não as perturbar”, o marido me disse antes de dormir. Eles são engraçados, esses franceses: contar para uma criança que um professor foi decapitado porque mostrou uma caricatura em sala de aula, pode, explicar pros filhos que estou triste porque minha tia querida faleceu, não pode. Como hoje de manhã Vincent saiu cedo para trabalhar e não estava em casa quando as crianças acordaram, desobedeci. Contei para Jasmim, que se lembra da tia Ervilha e já sabia que ela estava no hospital, que ontem ela partiu.

– Quer dizer que ela morreu?

– Sim.

– Ela tinha quantos anos?

– Oitenta.

– Então não é muito, muito grave… porque ela viveu uma bela vida.

Sorri. Minha filhota de sete anos… por vezes tão difícil, mas cheia de sensibilidade nos momentos importantes.

Ervilha

Reconfinados

Eu sabia que não escrevo há um tempão, mas levei um susto quando vi que meu último post data do início de agosto. Ele falava sobre meus sentimentos de fim do mundo. Depois disso não tive mais o que dizer. O mundo não acabou, mas o assunto sim.

Quer dizer, às vezes até tive vontade de compartilhar alguma coisa. Como o dia em que contei para a sogra que iria começar a dar aulas na faculdade e ela respondeu: “Aos quarenta anos, já estava passando da hora de começar a trabalhar”. Cheguei a pegar o ar para responder que comecei a trabalhar aos dezessete anos, dando aulas de inglês em Belo Horizonte, e desde então nunca parei; que o pós-doutorado é o primeiro emprego do jovem doutor; que, contrariamente a quem tem contratos de trabalho clássicos, nunca beneficiei de licença maternidade; que meu filho tinha três semanas e chorava para amamentar nos braços do pai do lado de fora enquanto eu me apresentava diante de um júri de vinte e cinco pessoas, em um dos concursos mais difíceis da França. Mas engoli e não repliquei. Sabia que se começasse eu não ia conseguir me controlar, decerto terminaria em drama. Foda-se, ela que pense o que quiser. Nem sei porque quis anunciar esta pequena conquista para a família do marido.

A verdade é que já resolvi a relação com a sogra comigo mesma. Ela não me faz mais raiva o suficiente para me motivar a escrever. O que me trouxe de volta para a frente do computador, apesar do cansaço e da vontade de aproveitar que as crianças enfim dormiram para assistir uma série no netflix, foi o dia surreal que passei hoje. Todas as coisinhas que de vez em quando tenho vontade de escrever, mas não o faço por preguiça ou procrastinação, se uniram em um só dia estranho e cheio de simbolismos. Um dia que minha sogra acharia normal.

A manhã começou comigo levando minha filha de sete anos para a escola de máscara. Sei que a máscara é necessária, mas às vezes me sinto quase claustrofóbica ao perceber que estamos todos com o nariz e a boca tampados. Como quando o metrô para lotado dentro do túnel, entre duas estações. Nessas horas respiro fundo, invoco minha racionalidade e afasto a palavra “focinheira” da mente repetindo um mantra. Ver todas as crianças de máscara a caminho da escola foi triste. Pensar que elas teriam que respirar por debaixo do tecido o dia todo, inclusive durante o recreio, me perguntar se as orelhinhas de Jasmim ficariam doloridas por causa do elástico, imaginar as risadas e gritinhos abafados… cortou meu coração. Deixei minha menina no portão da escola com a promessa de que dali iria direto comprar máscaras bonitas, porque até agora só tínhamos a máscara infantil azul distribuída pela prefeitura no começo do confinamento. Até cedi quando ela me pediu uma máscara de oncinha, me lembrando, pertinentemente, que meu estilo não é o estilo dela.

Normalmente pego um ônibus para voltar pra casa, mas o fato de estarmos novamente confinados me deu vontade de caminhar. É um pouco mais longo, mas assim eu aproveitaria da minha atestação de deslocamento “levar as crianças na escola” para passear. Como da primeira vez, precisamos preencher atestações indicando, sob compromisso de honra, o motivo legítimo que nos permite colocar os pés na rua. Na realidade, esse confinamento com a escola aberta não muda muito minha rotina. Desde o toque de recolher, decretado umas duas semanas atrás, eu já havia renunciado às saidinhas noturnas, que de toda forma raramente aconteciam mais do quê uma vez na semana. E meus alunos já estavam tendo aulas online há algum tempo. Mas o confinamento me trouxe essa urgência de caminhar. Fiz bem, é outono e o bosque está lindo, todo em tons de marrom, vermelho, laranja e amarelo. 

Quando cheguei ao supermercado para comprar as máscaras infantis, constatei, sem surpresa, que não sobrara nenhuma nas estantes, repletas até poucos dias atrás… Aproveitei para fazer umas comprinhas no andar de cima, onde encontramos tudo o que não é comida, como roupas, livros, maquiagem e brinquedos. Explico: semana passada o Macron anunciou um confinamento cheio de exceções. Por exemplo, o comércio estará fechado, mas as lojas de departamento que vendem ferramentas ou materiais de escritório permaneceriam abertas. Uma das características da França são suas pequenas livrarias independentes. Parece que aqui é o país europeu com o maior numero de livrarias por habitantes. No dia seguinte à declaração do presidente, recebi um e-mail da livraria do meu bairro anunciando que iria resistir. Ela não foi à única, em todo o país as livrarias argumentaram que cultura também é um bem essencial, e que não era justo que supermercados e grandes lojas como a Fnac fossem autorizadas a abrir, enquanto eles eram obrigadas a fechar as portas. Um novo confinamento as levaria à falência. Ao invés de permitir a reabertura das livrarias, o governo decidiu fechar todos os outros comércios não alimentares a partir de amanhã. O que é bizarro é que a caça está liberada. Será que os nobres morreriam de fome se não pudessem mais montar em seus cavalos para matar os animais da floresta?

Chegando em casa mal tive tempo de pôr as coisas em ordem, arrumar as camas, lançar o lava-louças, lançar a máquina de lavar roupas, e já estava na hora da minha consulta. Dessa vez não me dei ao trabalho de fazer uma atestação. O centro de radiologia fica literalmente do outro lado da rua, achei mais simples olhar para os lados, me certificar que não tinha nenhum policial à vista e dar uma corridinha até o portão da frente. Recentemente a ginecologista disse uma das frases mais deprimentes que já ouvi na vida: “Agora que você fez quarenta anos, vai precisar fazer mamografia”. Quem já passou por isso sabe como é ruim ter seus peitos esmagados por uma máquina grande, cinza e fria. Quem ainda não chegou lá descobrirá por si mesma. Digo apenas que senti vergonha dos meus seios pequenos, ridiculamente achatados e espremidos para o raio-X. E pateticamente declarei ao médico calado e sem graça que examinava meu exame que, ao todo, amamentei meus filhos durante mais de quatro anos. Como se precisasse provar que, embora modestos, meus peitos são eficazes. 

O restante do dia correu bem. Me permiti uma sessão de duas horas de yoga pelo Zoom e dei duas horas de aula de metodologia na sequência, dessa vez pelo Skype para empresas. Aqui também, só quem passou pela experiência de falar durante horas diante da tela do computador, sem que nenhum estudante coloque sua câmera de vídeo, apesar dos meus protestos, entenderá o que estou falando. Para os demais, explicarei essa experiência singular em outro post.

Nos últimos trinta minutos da aula o marido chegou em casa com as crianças. Devo dizer que os filhotes entenderam que não podem me incomodar quando estou trabalhando, fiquei inclusive surpresa com o respeito deles. Quando acabei Jasmim veio me contar que a professora lhes falou sobre Samuel Paty, “um homem que foi assassinado porque mostrou uma caricatura na sala de aula”, nas suas palavras. Ela também me explicou que a França é um país onde as pessoas tem o direito de se expressar. Tendo dito isso, correu para o quarto e foi fazer caricaturas de toda a família. Graças a deus, a professora não explicou os detalhes do homicídio. Mas durante a janta Jasmim perguntou: “Mamãe, você sabe o que aconteceu com ele?”. Respondi que sim, mas não lhe diria. Ela tentou adivinhar: “Cortaram a cabeça dele!”, declarou, com os olhos arregalados e um sorriso sapeca, como se fosse óbvio que isso não acontecera, como se tal coisa não pudesse passar de uma provocação infantil divertida de tão absurda. Mudei de assunto. O que trouxe um pouco de delicadeza para a conversa foi outra coisa que ela disse ter aprendido na escola : “os três símbolos da França, liberdade, igualdade e maternidade”. 

Para coroar o dia o marido foi dormir no sofá, porque estou me sentindo doente e ele não quer se arriscar. Pior, ficou de cara feia porque eu não estou usando máscara dentro de casa. Quando disse que iria escrever isso no blog, Vincent deu três cambalhotas no sofá. Foi seu protesto contra a imagem de chato ranzinza que faço dele aqui. Tive que rir.