Reconfinados

Eu sabia que não escrevo há um tempão, mas levei um susto quando vi que meu último post data do início de agosto. Ele falava sobre meus sentimentos de fim do mundo. Depois disso não tive mais o que dizer. O mundo não acabou, mas o assunto sim.

Quer dizer, às vezes até tive vontade de compartilhar alguma coisa. Como o dia em que contei para a sogra que iria começar a dar aulas na faculdade e ela respondeu: “Aos quarenta anos, já estava passando da hora de começar a trabalhar”. Cheguei a pegar o ar para responder que comecei a trabalhar aos dezessete anos, dando aulas de inglês em Belo Horizonte, e desde então nunca parei; que o pós-doutorado é o primeiro emprego do jovem doutor; que, contrariamente a quem tem contratos de trabalho clássicos, nunca beneficiei de licença maternidade; que meu filho tinha três semanas e chorava para amamentar nos braços do pai do lado de fora enquanto eu me apresentava diante de um júri de vinte e cinco pessoas, em um dos concursos mais difíceis da França. Mas engoli e não repliquei. Sabia que se começasse eu não ia conseguir me controlar, decerto terminaria em drama. Foda-se, ela que pense o que quiser. Nem sei porque quis anunciar esta pequena conquista para a família do marido.

A verdade é que já resolvi a relação com a sogra comigo mesma. Ela não me faz mais raiva o suficiente para me motivar a escrever. O que me trouxe de volta para a frente do computador, apesar do cansaço e da vontade de aproveitar que as crianças enfim dormiram para assistir uma série no netflix, foi o dia surreal que passei hoje. Todas as coisinhas que de vez em quando tenho vontade de escrever, mas não o faço por preguiça ou procrastinação, se uniram em um só dia estranho e cheio de simbolismos. Um dia que minha sogra acharia normal.

A manhã começou comigo levando minha filha de sete anos para a escola de máscara. Sei que a máscara é necessária, mas às vezes me sinto quase claustrofóbica ao perceber que estamos todos com o nariz e a boca tampados. Como quando o metrô para lotado dentro do túnel, entre duas estações. Nessas horas respiro fundo, invoco minha racionalidade e afasto a palavra “focinheira” da mente repetindo um mantra. Ver todas as crianças de máscara a caminho da escola foi triste. Pensar que elas teriam que respirar por debaixo do tecido o dia todo, inclusive durante o recreio, me perguntar se as orelhinhas de Jasmim ficariam doloridas por causa do elástico, imaginar as risadas e gritinhos abafados… cortou meu coração. Deixei minha menina no portão da escola com a promessa de que dali iria direto comprar máscaras bonitas, porque até agora só tínhamos a máscara infantil azul distribuída pela prefeitura no começo do confinamento. Até cedi quando ela me pediu uma máscara de oncinha, me lembrando, pertinentemente, que meu estilo não é o estilo dela.

Normalmente pego um ônibus para voltar pra casa, mas o fato de estarmos novamente confinados me deu vontade de caminhar. É um pouco mais longo, mas assim eu aproveitaria da minha atestação de deslocamento “levar as crianças na escola” para passear. Como da primeira vez, precisamos preencher atestações indicando, sob compromisso de honra, o motivo legítimo que nos permite colocar os pés na rua. Na realidade, esse confinamento com a escola aberta não muda muito minha rotina. Desde o toque de recolher, decretado umas duas semanas atrás, eu já havia renunciado às saidinhas noturnas, que de toda forma raramente aconteciam mais do quê uma vez na semana. E meus alunos já estavam tendo aulas online há algum tempo. Mas o confinamento me trouxe essa urgência de caminhar. Fiz bem, é outono e o bosque está lindo, todo em tons de marrom, vermelho, laranja e amarelo. 

Quando cheguei ao supermercado para comprar as máscaras infantis, constatei, sem surpresa, que não sobrara nenhuma nas estantes, repletas até poucos dias atrás… Aproveitei para fazer umas comprinhas no andar de cima, onde encontramos tudo o que não é comida, como roupas, livros, maquiagem e brinquedos. Explico: semana passada o Macron anunciou um confinamento cheio de exceções. Por exemplo, o comércio estará fechado, mas as lojas de departamento que vendem ferramentas ou materiais de escritório permaneceriam abertas. Uma das características da França são suas pequenas livrarias independentes. Parece que aqui é o país europeu com o maior numero de livrarias por habitantes. No dia seguinte à declaração do presidente, recebi um e-mail da livraria do meu bairro anunciando que iria resistir. Ela não foi à única, em todo o país as livrarias argumentaram que cultura também é um bem essencial, e que não era justo que supermercados e grandes lojas como a Fnac fossem autorizadas a abrir, enquanto eles eram obrigadas a fechar as portas. Um novo confinamento as levaria à falência. Ao invés de permitir a reabertura das livrarias, o governo decidiu fechar todos os outros comércios não alimentares a partir de amanhã. O que é bizarro é que a caça está liberada. Será que os nobres morreriam de fome se não pudessem mais montar em seus cavalos para matar os animais da floresta?

Chegando em casa mal tive tempo de pôr as coisas em ordem, arrumar as camas, lançar o lava-louças, lançar a máquina de lavar roupas, e já estava na hora da minha consulta. Dessa vez não me dei ao trabalho de fazer uma atestação. O centro de radiologia fica literalmente do outro lado da rua, achei mais simples olhar para os lados, me certificar que não tinha nenhum policial à vista e dar uma corridinha até o portão da frente. Recentemente a ginecologista disse uma das frases mais deprimentes que já ouvi na vida: “Agora que você fez quarenta anos, vai precisar fazer mamografia”. Quem já passou por isso sabe como é ruim ter seus peitos esmagados por uma máquina grande, cinza e fria. Quem ainda não chegou lá descobrirá por si mesma. Digo apenas que senti vergonha dos meus seios pequenos, ridiculamente achatados e espremidos para o raio-X. E pateticamente declarei ao médico calado e sem graça que examinava meu exame que, ao todo, amamentei meus filhos durante mais de quatro anos. Como se precisasse provar que, embora modestos, meus peitos são eficazes. 

O restante do dia correu bem. Me permiti uma sessão de duas horas de yoga pelo Zoom e dei duas horas de aula de metodologia na sequência, dessa vez pelo Skype para empresas. Aqui também, só quem passou pela experiência de falar durante horas diante da tela do computador, sem que nenhum estudante coloque sua câmera de vídeo, apesar dos meus protestos, entenderá o que estou falando. Para os demais, explicarei essa experiência singular em outro post.

Nos últimos trinta minutos da aula o marido chegou em casa com as crianças. Devo dizer que os filhotes entenderam que não podem me incomodar quando estou trabalhando, fiquei inclusive surpresa com o respeito deles. Quando acabei Jasmim veio me contar que a professora lhes falou sobre Samuel Paty, “um homem que foi assassinado porque mostrou uma caricatura na sala de aula”, nas suas palavras. Ela também me explicou que a França é um país onde as pessoas tem o direito de se expressar. Tendo dito isso, correu para o quarto e foi fazer caricaturas de toda a família. Graças a deus, a professora não explicou os detalhes do homicídio. Mas durante a janta Jasmim perguntou: “Mamãe, você sabe o que aconteceu com ele?”. Respondi que sim, mas não lhe diria. Ela tentou adivinhar: “Cortaram a cabeça dele!”, declarou, com os olhos arregalados e um sorriso sapeca, como se fosse óbvio que isso não acontecera, como se tal coisa não pudesse passar de uma provocação infantil divertida de tão absurda. Mudei de assunto. O que trouxe um pouco de delicadeza para a conversa foi outra coisa que ela disse ter aprendido na escola : “os três símbolos da França, liberdade, igualdade e maternidade”. 

Para coroar o dia o marido foi dormir no sofá, porque estou me sentindo doente e ele não quer se arriscar. Pior, ficou de cara feia porque eu não estou usando máscara dentro de casa. Quando disse que iria escrever isso no blog, Vincent deu três cambalhotas no sofá. Foi seu protesto contra a imagem de chato ranzinza que faço dele aqui. Tive que rir.

Desconfinamento em família

Dia 19 de maio foi a data anunciada pelo meu sogro para que deixássemos a casa de campo familiar. Eles chegariam no dia seguinte. Estávamos felizes com a possibilidade de passar quase dez dias no campo e até surpresos que meus sogros não houvessem exigido que partíssemos dois ou três dias antes deles chegarem, para dar tempo aos eventuais vírus de morrerem. Eles estão em pânico com a epidemia, morrem de medo de morrer. O que pode se justificar pela idade, pois estão na casa dos setenta, e pelo fato do meu sogro ter diabetes e problemas cardíacos. Ele é médico e está muito consciente da própria vulnerabilidade.

Numa linha imaginária da apreensão em relação ao coronavírus, meus sogros e meu pai estão em extremos opostos. Quando ligo para meu pai no Brasil e peço que se cuide, ele me responde coisas como: “Se eu tiver que partir vou partir. Vou encontrar sua mãe, quem mandou ela me largar sozinho?”, ou ainda, “Minha filha, você já perguntou pro Google quantas pessoas nascem por dia? Eu perguntei e fiquei assustado. De vez em quando uma epidemia tem que vir e matar os velhos pra equilibrar”. Sei que em parte ele está me provocando, mas não de todo. Cresci ouvindo meus pais dizerem que a única coisa da qual temos certeza na vida é a morte, afirmando com naturalidade que não estariam sempre aqui para mim. O que não me preparou para a morte da minha mãe…

Voltando à família francesa, meu marido recebeu uma criação inversa da minha. Filho de médico, estava sempre a par dos casos esdrúxulos que só quem trabalha em hospital fica sabendo, como o menino de três anos que morreu engasgado com uma folha de alface, ou a criança que engoliu um amendoim errado e ele foi parar nos seus pulmões, dividido em ínfimos pedacinhos que precisaram ser arrancados um a um numa delicada cirurgia durante horas a fio. Resultado: até pouquíssimo tempo atrás meus filhos não tinham o direito de comer nenhum tipo de noz ou salada. Nem conto como foram minha gravidezes, durante as quais fui submetida à todas as proibições alimentares existentes e mais algumas. “Aplicamos o princípio de precaução máxima”, explicou o sogro, no tom solene que ele emprega quando está no personagem do médico. Não era apenas queijos não pasteurizados, como o camembert, ou carne e peixe cru que eu não o tinha direito de comer; queijos de massa dura mas não cozidos, como o comté que adoro, e o restaurante japonês inteiro me foram interditados. Certa vez, cansada das proibições do marido, entrei num japonês e encomendei um salmão cozido. Ele ficou histérico, prestes a chorar, porque o cozinheiro poderia ter cortado o salmão com a mesma faca usada para cortar os peixes crus.

Todo casal sabe como essas diferenças de criação podem ser conflituosas quando educamos nossos próprios filhos. Quando se é casado com um estrangeiro, as divergências são ainda maiores. Eu vivo me equilibrando entre a extrema prudência do marido e sua família e a descontração à beira da irresponsabilidade da minha. Quando os dois campos se encontram, nem traduzo certas coisas, eles não entenderiam mesmo. Nessas ocasiões é sempre minha opinião que sufoco, para agradar ou ao menos acalmar os ânimos.

Acho que agora dá pra entender melhor porque minha família e eu não podíamos coabitar na casa de campo com os sogros, a cunhada e seus dois meninos. Antes de viajarem juntos, eles fizeram um exame de sangue para terem certeza que não tiveram o coronavírus e não se contaminariam entre si. Como após essa longa semana no campo o marido e eu estávamos muito pesarosos de voltar para o apartamento com as crianças, decidimos usar o dinheiro economizado durante dois meses de confinamento para alugar uma casa nas proximidades. Se o dinheiro não serve para nos dar um pouco de conforto numa situação de crise sanitária, pra quê servirá, afinal? “Mas não devíamos guardá-lo para as férias de verão?”, ponderou o marido. Que férias de verão? Estou achando complicado me projetar nos próximos meses. Acho que o melhor nesse momento continua ser viver um dia após o outro, como os alcoólicos anônimos. “Mais um dia em que só vou conversar com o marido e os filhos” é menos enlouquecedor do quê “mais três meses…”.

Visitamos duas casas de campo na região e encontramos uma pequena mas bem organizada, aconchegante, mobiliada com objetos achados nas brocantes locais (nunca sei como traduzir “brocante”, são feirinhas muito comuns na França, onde particulares e profissionais vendem objetos usados e às vezes antigos). A casa tem um imenso jardim onde as crianças podem correr o dia todo e do outro lado da cerca pastam umas vacas que minha filha adora acarinhar. Mais bucólico impossível. Fica à um quilômetro da casa dos sogros. O marido estava com medo do seu pai levar essa iniciativa à mal. Mas ele contornou a situação um dia antes de nos mudarmos, se oferecendo para pagar nossa estadia na “casa nova”, como dizem meus filhos. O marido quis protestar, mas o sogro respondeu: “é normal, já que estamos com sua irmã e os filhos dela”. É verdade que eles vão ocupar a casa de campo da família até setembro.

Ontem passei de carro em frente à casa dos sogros e meus filhos começaram a gritar “papi, papi” quando viram o avô no jardim. Parei o carro e ele nos convidou pra descer. Pela primeira vez o fato do meu filho mais novo não querer dar beijinho para cumprimentar os avós franceses não foi um problema. O distanciamento social não é de todo ruim. Foi uma situação estranha, a principio fiquei em pé, depois a sogra me disse para assentar numa cadeira do jardim. A cunhada ficou investigando, queria saber exatamente onde fomos desde que chegamos no campo – em lugar nenhum, fora o supermercado, onde fui duas vezes sozinha. Os sogros pareciam até felizes em nos ver. A avó fez um comentário gentil sobre meu filho pela primeira vez, disse que ele havia crescido. Os pequenos respeitaram a distância a princípio, mas estavam eufóricas por encontrar outras crianças e rapidamente brincavam a menos de um metro umas das outras. Houve um desconforto. Por um lado, estamos confinados na região há duas semanas e podemos considerar que não representamos um risco para a família do marido. Por outro, se esse é o caso, por que não estamos na casa de campo com eles?

No dia seguinte, minha filha insistiu em voltar à casa dos avós, queria muito brincar com os priminhos. Como havíamos sido bem recebidos, atendi ao seu pedido. Dessa vez foi diferente, o ambiente era hostil. Meu filho mais novo levou uma pesada do primo na balança e a avó e a tia correram para acuar a criança chorando. Quando viram que era ele quem tinha se machucado, respiraram aliviadas e viraram as costas. Eles pareciam incomodados com nossa presença, ao ponto de eu me justificar por ter passado ali no fim da tarde. “Fomos nós quem dissemos pra vocês voltarem”, disfarçou a cunhada. Se eles não tivessem falado nada no dia anterior, eu não teria me aventurado a voltar…

Fiquei decepcionada, achei que em doses homeopáticas uma relação saudável com a família francesa seria possível. Comentei o acontecido com o marido, que ainda não foi ver os pais – nas duas vezes, ele aproveitou do raro momento sozinho pra estudar para um concurso. Ele respondeu: “Eles devem ter se sentido como depois que você transa sem camisinha”.

Deve ser. A França inteira está desconfinando, menos nós. E a família do marido é ainda mais louca do quê ele. Parece que já existe um nome para essa condição, uma síndrome parecida com a de Estocolmo, em que as pessoas não conseguem sair da quarentena e retomar relações sociais, ainda que respeitando todas as regras. Pouco importa. Bom mesmo é que pela primeira vez tenho a ocasião de estar no campo numa casinha que podemos chamar de nossa, onde não me sinto oprimida, culpada e sem lugar o dia todo. Como disse, o distanciamento social não é de todo mau.

E depois?

Quando ultrapassamos os quarenta dias de confinamento, parei de contar. O tempo se tornou elástico, um chicletes recém mascado grudado na sola do sapato. Todo dia é domingo, ou segunda, ou terça… pouco importa. Mas acho que não foi isso o que me fez parar de contar. Simplesmente perdi a expectativa da contagem regressiva. Quando chegarmos à meia-noite, não haverá fogos de artifício, nem beijo na boca, nem abraço apertado, nada disso. Haverá máscaras descartáveis, distanciação social e medo da epidemia voltar mais forte.

Daqui a exatamente uma semana chegaremos no 11 de maio, data anunciada por Macron para começar o “desconfinamento”. As escolas reabrirão suas portas. Anseio por isso desde os primeiríssimos dias da quarentena. Volta às aulas = voltar a ter algumas horas por dia para cuidar dos meus próprios interesses. Em tempos normais as férias já me parecem longuíssimas, confinada com crianças e marido num apartamento sem quintal e com vizinhos intolerantes então nem se fale. Para mim, era óbvio que meus filhos voltariam pra escola assim que possível. Quando o marido deu a entender que talvez seria mais prudente mantê-los em casa mesmo após o 11 de maio não dei bola, certa de que ele estava exagerando, determinada a não deixar suas ansiedades interferirem nos meus planos.

Até que recebi as mensagens do prefeito e da escola anunciando como acontecerá a volta às aulas. Não serão aceitas mais de quinze crianças por sala. Cada turma chegará e partirá num horário determinado, para limitar o contato com outros alunos. Dentro da sala de aula, cada criança deverá ficar num quadrado vermelho de um metro traçado no chão. Cada criança deverá usar seu próprio material escolar. Se por acaso as crianças tocarem em materiais alheios, eles deverão ser desinfetados imediatamente. Os professores e todos os profissionais da escola deverão usar máscaras. A cantina não funcionará, cada criança deverá levar sua própria refeição e comê-la em cima da sua carteira dentro do seu quadrado. Não haverá recreio. Os pais não poderão entrar na escola. E por aí vai.

Tínhamos até hoje para indicar se nossos filhos retornarão ou não à escola segunda que vem. Depois do banho de realidade que tomei lendo a mensagem do prefeito, não tive dúvidas, vou ficar com as crianças em casa até o próximo ano letivo, em setembro. Foda-se se vou continuar gritando “parem de correr” cinquenta vezes por dia, em vão e com o coração na mão por causa dos vizinhos; foda-se se vou continuar me agachando cento e cinquenta vezes por dia pra catar brinquedos pelo chão – a propósito, ontem uma amiga me disse uma das coisas mais certas que já ouvi: “arrumar casa com criança dentro é igual escovar os dentes comendo bolacha”. Foda-se se o confinamento me pegou em plena conversão profissional, pra não dizer crise existencial, e até agora não sei o que vou fazer quando tudo isso acabar.

Parece que 65% dos franceses afirmaram que não vão mandar os filhos pra escola dia 11. Essa informação me foi dada por um amigo colombiano que encontrei por acaso no bosque. Ele estava morto de rir, como quem diz “esses franceses são mesmo loucos”. Gosto muito desse amigo, ele está sempre de bom humor, apesar de ser casado com uma russa que parece carregar o peso do mundo nos ombros. Mas quando ele disse isso fiquei dividida. Por um lado lamentei ter perdido essa leveza. Por outro, achei que a ficha dele simplesmente não caiu.

A maior parte das pessoas ao meu redor está preocupada com o aumento do risco de contágio que a volta às aulas representa. São mais pragmáticas do que eu. O que realmente me angustia é pensar nas crianças voltando pra escola dessa forma. Mesmo explicando muito, acho que ao menos para os meus, que ainda tem quatro e sete anos, a distância entre a escola que está na cabecinha deles e da qual eles sentem falta e essa nova forma de escolaridade será, no melhor dos casos, frustrante. No pior, traumatizante.

E a escola é apenas uma ilustração de todo o resto. Como será o mundo pós-covid19? Será que os abraços apertados que damos no Brasil, ou os beijinhos que os franceses dão no rosto pra se cumprimentar, estão condenados? Quais dos novos hábitos que estamos adquirindo ficarão com a gente? Os bons ou os ruins? Espiritualistas e ambientalistas afirmam o lado bom da pandemia, insistem na guinada positiva que a humanidade está sendo obrigada a dar. Quero muito acreditar nisso, mas quando vejo as máscaras e luvas descartáveis jogadas no chão no meio do bosque penso que nada mudou, nem mudará. Isso pra não falar na tristeza que invade meu coração cada vez que leio uma notícia sobre como o governo está lidando com a pandemia no Brasil.

Outro dia, andando na rua, minha filha perguntou: “mamãe, o que é apocalipse?”. Senti um aperto no peito. Onde ela ouviu isso? Por alguns instantes fui tomada pela superstição: pronto, ela está sentindo o que está acontecendo. Me controlei e perguntei, como quem não quer nada: “Por que, filha?”. Está escrito ali, ela respondeu, apontando para o letreiro de uma loja de sapatos. A loja fica no quarteirão da minha casa e eu nunca havia percebido que ela se chama Apocalipse. Respirei aliviada. Espero que eu esteja me alarmando inutilmente, que algo de bom realmente emerja depois do tsunami. Meu marido leu que a quarentena impediu que 11.000 pessoas morressem vítimas da poluição na Europa. Ouvi dizer também que um dos buracos da camada de ozônio se regenerou. Termino então com essas boas notícias, mesmo se devo confessar que brincar de Polyanna está ficando complicado.

Seis semanas

Hoje faz seis semanas que o confinamento foi decretado na França. Agora estamos à espera de um pronunciamento do governo para sabermos como o desconfinamento, anunciado para o dia 11 de maio, será realizado. Esse me parece um bom momento para fazermos um bilan, como dizem os franceses. Em outras palavras, para nos perguntarmos onkotô e proncovô.

Já escrevi aqui sobre minha frustração com os objetivos alcançados durante o confinamento. Não consegui completar a faxina da primavera, não me revelei uma chef da gastronomia e ainda não alcancei o dia perfeito. Diz o ditado que é com o andar da carruagem que as melancias se ajeitam. Eu achava que no máximo em duas semanas elas estariam todas encaixadinhas umas nas outras. Ao que tudo indica, a quarentena não se contenta em nos obrigar a desacelerar. Na sua repetição, ela mostra que mesmo as coisas mais simples têm seu tempo de maturação e que esse tempo não pode ser forçado.

Não estou mais falando das melancias, mas das mudanças interiores. Quem se descobriu mais sereno, ou mais explosivo, do que pensava? Quem foi forçado a ficar mais próximo dos filhos e apreciou a oportunidade? Quem já era muito próximo dos filhos e agora, que está nos limites da fusão, decidiu mandar a educação positiva à merda e resolveu que gritos e castigo são a melhor forma de pedagogia? Quem redescobriu porque está com a pessoa que está e já planeja coisas que antes não ousava, como comprarem uma casa juntos? Quem, ao contrário, está contando os dias pra correr pro escritório do advogado e entrar com a papelada do divórcio? Quem está fazendo tanta yoga que está quase se autointitulando guru? E quem fazia yoga uma vez por semana e sem os cursos presenciais decretou que bom mesmo é relaxar com uma taça de vinho?

Eu, pessoalmente, descobri que TPM, educação positiva e casamento harmonioso são uma mistura tão impossível que nem sei como consegui escrever essas palavras na mesma frase. Não teria ficado surpresa se o computador tivesse explodido! Mas confirmei também o que me nutre e me permite encontrar serenidade, senão ao longo de todo o dia, durante alguns instantes todos os dias. Da mesma forma que testo o que funciona melhor no planejamento do dia, vou testando o que funciona na organização das minhas emoções. Algumas vezes me sinto uma fraude. Outras, acho que estou bem. E assim vou, ajustando e reajustando, ajustando e reajustando, buscando o equilíbrio interno ao mesmo tempo em que arrumo, pela milésima vez, o quarto dos filhos.

Certa vez uma monja compartilhou comigo um sonho que ela teve. Nesse sonho, ela pedia para sua mestre lhe mostrar Deus. Em resposta, a mestre lhe indicava um armário perfeitamente arrumado. A monja acordou do sonho irritada, era uma pessoa muito bagunceira e não era esse o tipo de ensinamento que esperava de um mestre espiritual. Com o passar dos anos foi entendo melhor a mensagem e, quando me contou essa historia, já estava completamente convencida. Eu me sinto mais feliz quando o apartamento está limpo e arrumado. É como se a casa respirasse, e eu com ela. Por isso acho que faz sentido relacionar as três coisas: esforço para manter o espaço, o cotidiano e as emoções organizadas.

Ao mesmo tempo em que não vejo a hora do confinamento acabar e mandar as crias pra escola, para enfim me dedicar aos meus projetos profissionais, algo em mim grita: ainda não é tempo! Durante a quarentena, a estação mudou e não tive tempo de guardar os casacos de inverno e tirar os vestidos do fundo do armário. Não tive tempo de selecionar os livros que não são mais da idade das crianças para doá-los. Não tive tempo de decidir se já posso dar os xerox dos textos que usei para escrever meu doutorado e nunca mais abri. Mas não deve ser só isso, afinal, poderei fazer todas essas coisas muito mais tranquilamente quando não tiver duas crianças pulando em cima de mim. E se, na verdade, for eu que ainda não estiver pronta pra sair do casulo? E se a transformação ainda não houver sido concluída? Não corro o risco de me espatifar no chão, como uma lagarta abortada? Será que a parte em mim que reluta em deixar os dias de marmota pra trás se chama medo? Não medo do vírus. Talvez deveria, mas não estou muito preocupada com isso. Medo da incompletude, das coisas inacabadas. Ao mesmo tempo, o que nesse mundo é completo? Uma rosa. Um ovo. Algo mais?