Pollyanna

Hoje acordei às cinco da manhã com uma palavra em mente: Pollyanna. Não me lembro se cheguei a ler esse livro, mas me lembro da minha mãe citando essa menina durante toda a minha infância. Para quem não conhece, Pollyanna é uma órfã pobre capaz de se alegrar em todas as situações. Sua brincadeira preferida é o jogo do contente, que consiste em ver o lado bom de absolutamente tudo. Por exemplo, se minha memória não falha, quando Pollyanna pede uma boneca no natal e ganha muletas, ela fica feliz por não precisar usá-las.

Pois bem, hoje eu estava disposta a brincar de Pollyanna confinada. Me pareceu uma boa ideia escrever um post sobre isso, após o texto um pouco sombrio que publiquei ontem. Aí o dia foi acontecendo. Pra começar as crianças acordaram super cedo, pouco tempo depois de eu ter conseguido adormecer novamente. Três semanas atrás era uma luta tirá-los da cama. Punha musiquinha, fazia o café da manhã preferido, às vezes gritava, tudo para terminar correndo pelas ruas e chegar ao portão da escola no último minuto do segundo tempo. Agora que não tem urgência nenhuma, muito pelo contrário, os danadinhos acordam com as galinhas, como se não quisessem perder nem um minuto dos nossos dias de quarentena.

No supermercado, meia hora após a abertura, já tinha fila, do lado de fora, porque estão limitando o número de pessoas lá dentro. Todos de máscara menos eu, que ainda me pergunto onde conseguiram comprar essas máscaras… todos com cara de poucos amigos, respeitando a distância mínima de 1,5 metros entre si. Tudo bem, até aí nada anormal, dentro da anormalidade que estamos vivendo. Ao entrar, uma novidade: o segurança, alto e forte como em geral são os seguranças, colocava um pouco de álcool gel nas mãos de cada pessoa que entrava. O álcool gel dele era cor-de-rosa e vinha em um frasco da Minnie. Ri comigo mesma. Nas compras, uma coisa ruim e outra boa: as prateleiras de farinha continuavam vazias, mas consegui comprar um pacote de garrafas de leite, que estava em falta há dias. Pollyanna chegou em casa feliz com esse começo de manhã.

Em meio aos comentários sobre os textos que publiquei aqui, todos eram gentis, apenas um agressivo. Pollyanna ainda estava ganhando, embora um pouco incomodada. O filho pequeno, de quatro anos, teve alguns acessos de raiva durante o dia, inclusive um bastante difícil, em que jogou tudo no chão, mas a grande, de sete anos, tinha anunciado logo cedo que iria se esforçar para ser boazinha o dia todo e estava cumprindo sua promessa. O balanço continuava positivo, apesar do stress emocional.

Depois da sesta assistimos juntos um lindo filme do Studio Ghibli (fica a dica pra quem tem crianças e Netflix em casa) e chegou a hora do nosso passeio no bosque. À essas alturas do campeonato Pollyanna estava com a corda toda. Minha filha inventou uma brincadeira em que ela era um bebê tigre branco e eu uma menininha que o encontrava perdido na floresta e durante todo o passeio vivemos as aventuras dos amigos inseparáveis, até que no final ele encontrou seus pais e a história acabou.

Estávamos fazendo uma coroa de margaridinhas nos dez minutos restantes, Pollyanna ficaria orgulhosa se nos visse, quando um carro parou ao nosso lado e a policial anunciou: vão pra casa, o bosque está fechado desde as 15h por tempo indeterminado. Meus olhos se encheram de lágrimas. Lá se vai nosso pequeno privilégio, lá se vai o momento reconfortante do dia, lá se vai o luxo de escutar os pássaros e observar as árvores se abrindo em flor nesse começo de primavera…

Pois agora vou brincar de Polyanna debochada. O comissariado da polícia fica no caminho que vai do bosque à minha casa. Ensinei a música pra minha filha e, quando passamos em frente, cantamos alegres: “Alo polícia, eu tô usando, um exocet, calcinha”. Espero que ninguém me chame de brasileira egoísta e anarquista, nem que tentem me explicar que não é culpa da polícia, que o confinamento é para o bem de todos, etc, etc. Ser Pollyanna não é pra qualquer um.