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Já faz algum tempo que não escrevo sobre a sogra francesa, por dois motivos: primeiro, pensava haver resolvido, ao menos na minha cabeça, nossa relação; segundo, porque o coronavírus nos forneceu uma razão legítima para não nos encontrarmos. A distância e o tempo quase me fizeram esquecer as maldades de Chantal. Nas vésperas do aniversário da minha filha, o Facebook propôs a lembrança de um lindo moisés de vime branco, enfeitado com uma renda alvíssima e laços de cetim. A sogra preparou este bercinho para Jasmim, assim como havia feito para seus filhos e netos que chegaram antes dela. Enternecida com a memória, postei a foto, dando-lhe os devidos créditos. Vários amigos comentaram, admirados com a beleza do moisés e o capricho da sogra. Até pensei mudar o nome do blog. Comentei com o marido, acrescentando que no final das contas escrevo mais sobre maternidade e vida na pandemia do quê sobre a mãe dele, mas Vincent protestou: “Não, você não pode mudar o nome, é isso que é legal no seu blog”. Para vocês verem… Acho que pro Vincent é catártico eu colocar em palavras um pouco da raiva que passamos por conta dessa dama.

Mas estou passando os carros na frente dos bois. Vou começar voltando às férias escolares de fevereiro quando, pela primeira vez, os sogros levaram Jasmim, que está com oito anos, para a casa de campo com eles. Jasmim foi toda feliz, qualquer ocasião de ficar longe dos pais é boa para essa menininha atrevida e aventureira.  Eu fiquei ao mesmo tempo satisfeita por ela desfrutar desse tempo junto aos avós franceses, ressabiada, achando que eles a levaram só para ela fazer companhia aos dois priminhos que passam todas as férias com os avós, e um pouco chateada por eles não cogitarem levar o Enzo. 

O marido, que é professor, estava de férias e poderia ter ido para o campo junto com Jasmim, mas ele também receia passar mais do quê algumas horas na companhia da mãe. Ao mesmo tempo, era muita sacanagem o coitadinho do Enzo ficar duas semanas no apartamento com os pais enquanto a irmã brincava com os primos numa casa imensa com um jardim ainda maior. Eu já havia decidido que não me faço mais violência indo para a casa da sogra. Posso até ter ficado comovida com a lembrança do bercinho, mas não fiquei burra. Ao cabo de três dias, Vincent resolveu pegar um trem com o filho rumo à casa de campo. Partiu contrariado, avisando que ficaria duas noites, no máximo três. Concordei, tentando disfarçar a alegria de ficar sozinha em casa. No fundo tinha esperanças de que Vincent mudasse de ideia quando chegasse. Afinal, é a casa de campo da família dele, ele poderia ficar à vontade e ler seus livros enquanto as crianças brincavam no jardim. 

Na mesma noite Vincent ligou: “Já quero ir embora!”, disse, em meio a risadas nervosas. Não contou detalhes, mas não precisava. Conheço a sogra, não tive a menor dificuldade em imaginá-la ranheta, fazendo insinuações venenosas e favorecendo de maneira ostensiva os filhos da filha. Respondi, de forma abstrata para um observador exterior, mas que fazia total sentido para nós: “Você não é culpado de nada”. Porque esse é o poder dela, te oprimir ao ponto de você ficar triste e sem lugar, sentindo-se culpado sem saber o porquê. É como se um gás tóxico emanasse de Chantal e, de forma silenciosa e sorrateira, comprimisse seu peito ao ponto de você ficar quase sem ar. Um horror.

Nos próximos dois dias Vincent continuou telefonando, sem dizer ao certo o que estava acontecendo mas contando que estava com placas vermelhas no rosto e agora fazia como eu: refugiava-se no quarto para evitar a presença da mãe. Verdade que ao longo dos anos desenvolvi essa estratégia. Resultado: cada vez que alguém visitava a sogra encontrava uma brecha para dizer que faço longas sestas todos os dias, dando a entender que sou uma preguiçosa. Voltando ao marido, insisti para ele ficar ao menos mais um dia, pelo filho. Vincent disse que já havia comprado as passagens de volta, que o próprio Enzo já queria voltar. “A coisa deve estar feia”, pensei.

Ao voltar, Vincent contou, rindo da própria desgraça, que estava enlouquecendo: sequer conseguira ler, passara a maior parte do tempo jogando xadrez no telefone, coisa que não fazia há anos, numa tentativa patética de abstração da realidade. Não mencionou nenhum acontecimento preciso, decerto para não me deixar ainda mais indisposta com a sogra. Mas de noite, depois que Enzo adormeceu, não se aguentou e relatou a última refeição na casa dos pais:

Estavam todos na mesa comendo crepes, a sogra se encantava diante do apetite do neto preferido, que tem um ano a mais que Enzo, exclamando com orgulho que ele estava devorando sua quarta crepe. Após haver comido apenas uma crepe, Enzo declarou que não estava mais com fome, levantou-se e foi brincar. Sacrilégio! Os sogros resmungaram, comentando que o menino não sabe se comportar na mesa – Vincent me disse, chateado, pois segundo ele até este episódio nosso caçula estava se comportando muito bem. Poucos minutos depois, Enzo voltou e pediu mais uma crepe. A sogra respondeu: “Você devia ter acordado mais cedo, agora é tarde!”. Unindo o gesto às palavras, colocou a última crepe no prato do neto favorito. Quer dizer, Chantal deu cinco crepes para um neto e uma para o outro, sob pretexto de que o Enzo, que estava com quatro anos, tinha saído da mesa.

Preciso dizer que fiquei puta da vida quando ouvi essa história? Vincent até tentou defender a mãe: “Ele tinha se levantado…”. Tal é o poder desta mulher: cometer malvadezas com tanta naturalidade que ninguém ousa se opor. Porque ninguém vai me convencer de que não é perverso e até doentio dar cinco crepes a um neto e uma ao outro, de maneira ostensiva, transformando isto na ocasião de dar uma lição, perante todos, à criança desfavorecida. Aos olhos da bruxa meu filho está sempre errado. Já testemunhei várias cenas em que ela elogiou o neto preferido e xingou o Enzo exatamente pelo mesmo motivo. Tudo o que o neto preferido e seu irmão fazem é maravilhoso. Cada vez que nos vemos ela me conta, extasiada, as proezas dos dois, sem jamais perguntar nada sobre a vida da Jasmim e do Enzo.

Foi para evitar esse tipo de coisa que não fui ao campo. Não sou mais capaz de observar este tipo de comportamento calada. Como comentou uma conhecida quando briguei com a sogra alguns anos atrás – um dia ainda escrevo sobre isso – o que meus filhos pensariam de uma mãe que abaixa a cabeça e engole todo tipo de sapo?

Passei semanas discutindo com Chantal na minha cabeça, contando a história das crepes para todo mundo que cruzava meu caminho. Quis escrever aqui, mas precisei de quase três meses para digerir, algumas emoções requerem tempo para serem traduzidas em palavras. Com o passar das semanas esse episódio foi se apagando, eu já estava voltando a pensar que a sogra é quase normal. Até recentemente. Cenas para o próximo capítulo. Pensando bem, ainda vou precisar escrever muito antes de mudar o nome do blog…

Adeus Ano Velho

1° de janeiro de 2021. Mais um ano começa. Lembro quando eu era criança e o ano 2000 estava longe. A virada do milênio. Eu seria uma adulta, teria vinte anos! Me via linda e independente, morando sozinha num apartamento moderno e minimalista, ganhando dinheiro, dona do meu nariz, provavelmente jornalista. A humanidade faria coisas incríveis, talvez até haveriam carros voadores, como nos Jetsons. Que sorte eu tinha, completar 20 anos no ano 2000, pensava, maravilhada, enxergando na coincidência dos números um sinal de bom agouro.

Nem preciso dizer que aos vinte anos eu estava mais próxima da adolescência do quê da maturidade, certo aproveitando cada instante dos anos de faculdade, mas à anos luz da jovem adulta responsável e independente que eu imaginava criança. Minhas fabulações nunca chegaram ao ano 2020. Uma criança dificilmente pensa em si mesma aos quarenta anos. Ainda bem que não fiz projeções para esta idade, senão acho que teria me visualizado numa cadeira de balanço, lendo para os netinhos. Agora que cheguei aos quarenta, ainda me sinto menina, até hoje não entendi direito como as coisas funcionam. Os números são realmente muito enganadores.

Voltemos ao presente. 2020. Há um ano atrás achei esse número lindo. Dois patinhos seguidos por dois ovais, tão harmônico. Só poderia prenunciar coisas fluidas, agradáveis. O ano começou bem, comigo experimentando pela primeira vez o carnaval de Belo Horizonte. Porque quando o carnaval de BH começou a ficar bom eu já morava fora. Durante anos vi as fotos dos amigos nas redes sociais, ao mesmo tempo incrédula e louca de vontade de participar das celebrações pessoalmente. Eis que em 2020 as férias se alinharam com a data do carnaval. O marido e nossa filha mais velha voltaram para a França uma semana mais cedo, porque ele tinha que trabalhar e ela não queria perder sua primeira viagem com a escola. Eu fiquei pra trás com o pequeno, que estava com quase quatro anos. Pela primeira vez confiei o filhote ao meu pai sem culpa e fui pular carnaval, curtir os corpos suados, espremidos e eufóricos, tomar melzinho com cachaça oferecido por desconhecidos logo pela manhã, me deliciar com as fantasias, cada uma mais divertida e criativa do quê a outra. O Enzo teve direito a participar de um bloquinho comigo, até hoje ele fala disso. Sempre que falo do Brasil, ele fala do carnaval. Outro dia passamos na frente de umas mulheres de véu e um homem de turbante na rua e ele disse: “Mamãe, olha, o carnaval, igual no Brasil!”.

Mal sabia eu que aquele exagero de afeto, alegria e proximidade física estava com os dias contados. No voo de retorno algumas pessoas usavam máscara, o que me pareceu um exagero. Chegamos em Paris no mesmo dia que minha filha voltou da excursão. Uma ou duas semanas mais tarde, as escolas fecharam. O carnaval ficou parecendo um parêntese encantado, sonho de uma noite de verão. Um delírio cuja lembrança me nutriu em alguns momentos de tédio e quase desespero durante os meses que passei confinada num apartamento mal insonorizado de 70 metros quadrados com um marido de longa data e duas crianças pequenas.

Mas houve uma coisa bonita, quase emocionante, em 2020: sua capacidade de produzir consenso. O mundo inteiro, talvez pela primeira vez, concordou: foi um ano de merda! Bolsominions e esquerdopatas, empresários e artistas, brancos e pretos, crianças e idosos, primeiro e terceiro mundo, todos apressados em virar a folhinha do calendário, felizes por começar um ano novinho em folha, ainda que para alguns a esperança permaneça discreta, quase clandestina. Acho que esta coesão de ideias foi o verdadeiro milagre de 2020. 

Para mim, na verdade, o ano não foi tão ruim assim. No final do ano perdi uma tia, foi a parte mais triste de 2020, a maneira mais direta com que o Covid me tocou. Também fui enfurnada dentro de casa logo quando começava a botar as asinhas de fora, depois de sete longos anos me dedicando, senão exclusivamente, intensamente aos filhos. Mas fora isso tudo certo. Não perdi o emprego, pelo contrário, arrumei um trabalho. Instável, precário, mal pago… Mas pra quem está acostumada a trabalhar de graça, ou a pagar para trabalhar, tudo é lucro. Pesquisadores me entenderão. Para os outros, que não imaginam a pendenga que é a vida acadêmica, a dedicação imensa e a falta de reconhecimento quase tão importante, escreverei um post em outra ocasião. Também comecei a escrever este blog, espaço de respiração, entre outros pequenos projetos que tenho na manga. Não aproveitei do confinamento para me aproximar dos meus filhos – como duas francesas me confiaram, maravilhadas, explicando que até então trabalhavam tanto que mal conheciam os próprios rebentos – porque já cuidava bastante deles. Mas cheguei até aqui sem me tornar adepta da violência, o que em si já é uma façanha, como outra amiga me lembrou num dia em que lhe confessei estar me sentindo um fracasso como mãe. Brincadeiras à parte, li por aí as informações tristíssimas de que o maltrato infantil aumentou e o suicídio de menores de quinze anos dobrou na França este ano. 

2021 amanheceu gelado. Desde o começo da semana, estamos na casa de campo dos sogros, situada no norte da França. Ah sim, já ia me esquecendo: 2020 me permitiu desfrutar de alguns dias nesta casa sem os sogros! Foi o pequeno presente que o Corona me deu, já que como eles são idosos não podemos nos encontrar. Os sogros vieram pra cá durante a primeira semana de férias com minha cunhada e seus dois filhos, o marido negociou a segunda semana pra gente. Os filhos da cunhada também vão para a escola e ela trabalha fora, mas por algum motivo obscuro somos considerados mais contagiosos do quê eles. Não questionei, apenas abracei a oportunidade de esquivar um dia de natal inteiro na casa da sogra. Este ano, pela primeira vez desde que estou na França, fui dispensada das horas intermináveis sentada no lugar que me é atribuído na mesa natalina, onde entrada, prato principal, salada, queijos, bolos, frutas, café e chocolates se seguem uns aos outros, sem pausa para esticarmos as pernas. A comida é deliciosa, cozinhada pela sogra e acompanhada pelos vinhos do sogro, mas ao longo dos anos estes encontros se tornaram penosos para mim. Em algum momento cheguei a dizer à psicanalista que não queria mais participar dos eventos familiares; ela respondeu, como se fosse simples: “Você não é obrigada”. Acontece que detesto conflitos, jamais teria coragem de me ausentar do natal na casa dos sogros. Então agradeço à pandemia por ter me oferecido uma desculpa válida para passar o natal com os amigos. Estes sim, são minha família aqui.

Férias bizarras

“Não é verdade que somos uma família bizarra, Jasmim?”. Estávamos na estrada quando, do nada, meu filho de quatro fez essa pergunta para a irmã, três anos mais velha. Dias depois a voz infantil ainda ressoava na minha mente. O que terá feito a indagação surgir na sua cabecinha? Será que somos gente bizarra?

Até hoje não tive coragem de gastar dinheiro comprando móveis e moro numa casa onde caixas de plástico fazem as vezes de gavetas. Quando vou ao Brasil, fico encabulada ao entrar nos apartamentos das amigas da mesma idade. Elas me parecem tão mais adultas do que eu, com suas casas decoradas, empregadas e babás de uniforme. Será que é por isso que somos uma família bizarra? Pode ser também porque não nos casamos. Minha filha vira e mexe me pergunta a razão disso. Como explicar que pra mim casamento é apenas uma forma de tornar a separação mais burocrática? Talvez seja porque não temos carro e minha solução para levar os filhos à escola foi comprar uma patinete pra cada um, inclusive para mim mesma. É um dos melhores momentos do dia, além de saudável, econômico e ecológico, por que nos privar ?

Ao contrário do que meu filho constatou, de uns tempos pra cá tenho me sentido cada vez mais normal. É irônico: a bizarrice dos tempos pandêmicos está me transformando numa pessoa comum. Quando comentei com uma amiga mais velha que desde o confinamento estou com vontade de ter um carro e uma casa no campo, ela retrucou, dando risadas, que estou me aburguesando. Tive que concordar. Desde que a agência de locação de carros me deu um modelo superior ao que havíamos reservado, eu, que nunca dei valor pra essas coisas, ando sonhando com um carrão! Parece mentira mas é verdade: duas vezes depois de entrega-lo vi exatamente o mesmo carro, com a mesma placa, estacionado em frente ao meu prédio. Quais as chances disso acontecer? A primeira viagem que fizemos no começo do desconfinamento também me deixou querendo ter uma casa de campo. Durante três semanas alugamos uma casa antiga, renovada com bom gosto, respeitando a arquitetura da época e decorada com objetos encontrados em feiras de antiguidades. A percepção das crianças é mesmo muito diferente da nossa. Para eles, essa casa, que além de tudo tinha um jardim imenso que dava para um pasto de vacas, virou a “casa das aranhas”. A primeira vez que ouvi os filhos falando assim quase não acreditei, é tão redutor ! Mas foi isso que os marcou : as pequenas aranhas nos quartos e banheiros. Eles não sossegavam enquanto o marido não matava todas. Eu morria de dó, elas eram inofensivas, não havia a menor necessidade de eliminá-las. Mas esse virou o ritual macabro dos três antes de dormir.

Depois da “casa das aranhas” e das duas semanas de aulas entre o confinamento e as férias de verão, que recebi como um presente dos céus, alugamos outro carro. Dessa vez não houve upgrade, tive que me acomodar com o modelo abaixo do primeiro. Foi como viajar de classe econômica depois de ter voado de executiva. Mas o carrinho funcionou bem e nos levou sem problemas até nosso primeiro airbnb, uma casa sem charme, com um quintal pequeno e nenhuma vista. Dava pra ver que a proprietária renovou a casa com o intuito de alugá-la. Me senti como naquele filme, “Querida encolhi as crianças”, só que ao invés de nos perder no jardim, nós, seres minúsculos, circulávamos dentro de um catálogo da Ikea. Comentei isso com minha irmã no telefone, ela disse para eu parar de reclamar. É verdade que nessa casa não fiquei nem um pouco alérgica, contrariamente ao que aconteceu na “casa das aranhas”. Meus filhos também aprovaram a locação, que apelidaram de “a casa perfeita”. Aqui, as aranhas foram substituídas por moscas e a caça aos insetos pôde continuar, para grande alegria das crianças.

Estávamos no caminho entre a “casa perfeita” e nosso próximo airbnb quando o caçula buscou junto à irmã confirmação da evidência: somos uma família bizarra. A terceira casa que alugamos era mesmo bizarra. Ficava lá onde Judas perdeu as botas, logo após um charmoso vilarejo fantasma, na fronteira entre a Bretanha e a Normandie. O anúncio dizia que era perto de tudo, mas na verdade era longe de tudo. Tão afastado da civilização que não tinha internet e o telefone funcionava mal, com apenas um pauzinho de sinal, e somente quando colocado em cima da geladeira. A França estava desconfinada, mas sem querer demos um passo a mais no confinamento: além de não ver ninguém, perdi a possibilidade de conversar pelo WhatsApp e fazer aulas de yoga via Zoom. O jardim era imenso, embora arranjado com um gosto particular, com uma estrada de pedrinhas levando do portão até a entrada da casa e iluminado por antiquadas luminárias redondas que davam um ar kitsch à propriedade. Ao entrar tive a sensação de invadir o lar de uma vovozinha. Papéis de parede florais desbotados nos quartos, panos de prato e pesos de porta em forma de galinha na cozinha, cujas gavetas estavam abarrotadas com utensílios mais ou menos inúteis, sem mencionar as caixas de chá vazias usadas para fins decorativos e os bastões mergulhados em vidrinhos de perfumes espalhados em todos os cômodos. Essa casa era o contrário da anterior. No princípio, quis voltar para o catálogo funcional e minimalista da Ikea, mas depois me acostumei e até curti a casa, que as crianças nomearam “casa labirinto”, em função do longo corredor e das diversas portas, dentre elas duas permanentemente trancadas. Aqui tinha bastante pernilongo. Dessa vez até eu entrei na dança e me pus a matar os bichos, porque ninguém merece ficar todo picado.

Não sei se somos uma família bizarra, mas as férias foram sim bizarras. Normalmente, nessa época meu pai vem nos visitar e viajamos todos juntos para uma praia na Catalunha, nossa Meaípe. Esse ano, ele está longe dos netos num confinamento que se prolonga, a Espanha está reconfinando e nós não conseguimos pensar em nada melhor do quê alugar casas no mato via airbnb. Além de espaço para as crianças correrem longe dos vizinhos intolerantes, estávamos atrás de ar puro. A piada foi que nossa última destinação, nos confins do mundo, ficava no departamento onde os casos de covid explodiram na França, a Mayenne. Ri muito dessa ironia do destino, o marido um pouco menos.

Vamos passear no bosque, enquanto o Seu Lobo não vem

Escrevo essas linhas da casa que alugamos assim que chegamos em Paris, depois das três semanas que passamos no campo durante o confinamento. São mais de dez horas da noite e o marido acaba de pegar meu lugar no quarto ao lado das crianças. Até hoje elas não adormecem sozinhas…

Dez e meia. Mal escrevi o parágrafo acima e precisei retornar ao quarto das crianças. Elas estavam tendo uma briguinha chata, dessas em que cada um quer ser o último a falar alguma coisa, quando o pai perdeu a paciência e gritou. O caçula levantou da cama, dizendo que ia contar para a mamãe que o pai o xingou. O pai me chamou para eu xingá-lo também. Eu entrei no quarto e peguei o menininho que não parava de chorar no colo, numa tentativa de acalmá-lo. O marido me olhou possesso. A filha mais velha interveio: “Mamãe, no seu lugar eu xingava ele. Você está se deixando hipnotizar pelo choro do Enzo”. Minha filha de sete anos sempre foi mais lúcida do que eu… O marido saiu do quarto esbravejando, o pequeno não parava de chorar, queria que eu lavasse com água e sabão o machucado invisível que o pai fez na sua perna. Como não cedi, exigiu então mais uma historia. Eu já havia lido dois livros, não me imaginei abrindo outro. Acabei saindo do quarto. Agora eles estão sozinhos lá dentro com a porta fechada, a menina tentando dormir, o irmão me chamando, o marido ao meu lado dizendo: “você não vai”, e eu aqui pensando que nem depois das dez da noite consigo ter um minutinho para mim…

Outro dia na porta da escola encontrei uma conhecida que é divorciada e tem dois filhos mais ou menos da idade dos meus. Ela me disse que amou o confinamento, que foi a melhor fase da sua vida, que era maravilhoso acordar na hora que queria, não trabalhar e passar o dia inteiro com os meninos. Quando ouço essas coisas fico pensando que tem alguma coisa errada comigo, que desejei com fervor os oito dias de aulas das crianças antes dos dois meses das férias de verão, que aspiro por essas duas horinhas diárias para ler, escrever, falar no telefone, fazer qualquer coisa que não tenha nada a ver com crianças.

Ufa, o marido voltou para o quarto dos filhos, o Enzo se acalmou, acho que agora vai. Mais meia horinha deitado no chão lendo e elas dormem, com sorte até amanhã. Comprei um kindle que permite ler no escuro quando a mais velha ainda era bebê, para ficar ao lado dela sem sentir que estava perdendo tempo. Acabou virando um hábito, perdi a conta dos livros que li enquanto punha as crianças para dormir. Só para dar um exemplo, li Guerra e Paz inteiro deitada no colchão ao lado da cama dos filhos. Outro dia achei na estante um livro que tinha recomendado para o marido e me assustei com o calhamaço. Era o “A mulher foge”, do David Grossman, um dos livros que li no kindle enquanto esperava os anjinhos caírem no sono. Como li em português, o marido comprou a versão francesa. Não me dava conta do tamanho do objeto!

Agora ficou tarde, já estou com sono e me desviei completamente do que havia pensado escrever nesse post… Deixo então registrado que as crianças amaram as duas semanas de aulas depois do confinamento, que eu não fiz praticamente nada nesses dias, contrariando meu objetivo de ser produtiva, e que no primeiro dia de férias alugamos um carro e voltamos para o campo, porque criança precisa mesmo é de espaço. Não estamos muito longe de Paris, mas estamos aproveitando para visitar uma região que não conhecíamos, passear nas florestas, comprar produtos locais nas feiras dos diferentes vilarejos, enfim, viver a vidinha do campo francês em todo seu esplendor. Inclusive adquiri uma competência nova: tirar carrapatos. Descobri na farmácia um pequeno instrumento especial para tira-los sem que nos piquem, uma super invenção, fiquei me perguntando se existe isso no Brasil.

E assim vamos passeando no bosque enquanto a segunda onda do Covid não vem…  Tudo indica que virá. Acho que teremos que aprender a viver com esse vírus, a socializar à distância… que tristeza. O marido continua preocupadíssimo. Ele acompanha de perto as notícias, nada otimistas: o vírus realmente sobrevive no ar e deixa sequelas em que o teve, inclusive nos casos assintomáticos. Eu prefiro não pensar nisso. Já sofro com as notícias que me chegam do Brasil, onde ninguém sabe no quê acreditar, onde as pessoas que se confinam se sente impotentes e solitárias não só fisicamente, mas também na sua ação responsável. Onde os pretos e pobres continuam morrendo mais, agora não somente pelas mãos da policia, mas também pela ação do vírus. Onde os índios, quinhentos anos depois do descobrimento, são mais uma vez contaminados por uma doença externa, sem proteção, sem que a maior parte da sociedade se importe. Onde canalhas aproveitam da balbúrdia para aumentar o desmatamento e a destruição de tudo o que há de precioso no nosso país… E eu aqui, escrevendo sobre as dificuldades da maternidade, no conforto de uma casa de campo francesa.

Vem chegando o verão, um calor no coração

Segunda-feira as crianças voltaram às aulas. Sim, domingo, 14 de junho, o presidente anunciou em rede nacional que na semana seguinte todas as crianças retornariam à escola, obrigatoriamente. Escutei essas palavras com um misto de alívio, alegria, surpresa e consternação. As primeiras sensações são óbvias, estava com os filhos desde o começo de março e não via a hora de ter um tempinho para cuidar da minha própria vida. Surpresa porque eu não imaginava mais que uma volta às aulas fosse possível, duas semanas antes das férias de verão. Já havíamos inclusive marcado um piquenique de despedida com a turma da minha filha. E consternação porque sabia que os diretores, professores e demais funcionários das escolas estavam tomando conhecimento da volta às aulas, com caráter obrigatório, ao mesmo tempo que a gente!

Minha filha e eu acolhemos a notícia com alegria. O mesmo não pode ser dito do meu filho de quatro anos. Ele ficou grudado em mim durante toda a quarentena e não estava com pressa de reganhar um pouco de autonomia. Tentou de tudo pra não ir pra escola. “Mas tem o coronavírus”, foi seu primeiro argumento. Como não funcionou, declarou que estava doente e “as crianças doentes não vão pra escola”. Depois avisou, já nervoso, que tinha um cartaz na porta da escola falando que é proibido ir à aula. Por fim, prometi levar um kinder ovo com surpresa para o lanche. O rapazinho, que é chocólatra, não resistiu. Sou contra essa tática de recompensa, ainda mais com um produto industrial cheio de açúcares, mas o tempo estava passando e ele se recusava a pôr roupa. Eu não podia correr o risco dele perder um dos oito dias de aula antes dos dois meses de férias.

Assim que fiquei sabendo que as aulas retomariam, anulei o Airbnb que tínhamos reservado para o final de junho. A volta do campo para a cidade, da casa com jardim para o apartamento com vizinhos, foi tão radical que mal colocamos os pés aqui, começamos a procurar outra casa no mato para alugar. O sentimento de voltar para uma metrópole classificada “zona vermelha” do covid após semanas confinados com as vacas fica claro na experiência de uma amiga. Ela, o marido e os dois filhos correram para a casa de campo tão logo o presidente anunciou o começo do confinamento, em março, antes que o impedimento de nos afastarmos mais de um quilômetro do domicílio entrasse em vigor. Ficaram em quarentena durante dois meses e meio até que, por motivos profissionais, precisaram voltar. Ao chegar desceram do carro e, enquanto tiravam as malas do bagageiro, a filha de sete anos correu para digitar o código de entrada do prédio. A mãe falou para a menina tirar a mão dos botões, o que ela fez, levando os dedos instantaneamente à boca. A ideia dos coronavírus indo dos imundos botões ao interior da criança enlouqueceu minha amiga, que agarrou os bracinhos da menina e a sacudiu, berrando e chorando ao mesmo tempo. “Tive uma crise de nervos. Explodi como não explodia há anos, desde antes de ser casada, desde antes de ter filhos”, ela me contou, virando-se em seguida para a filha e pedindo perdão mais uma vez.

O marido e eu também sentimos essa apreensão quando chegamos em Paris. A princípio foi quase chocante ver tantas pessoas na rua, no metrô, no bosque, no supermercado. Gente de máscara, gente sem máscara, gente usando a máscara abaixo do nariz, abaixo do queixo ou dependurada em uma orelha. Gosto de observar a criatividade das máscaras de tecido, suas diferentes formas e cores. Mas vejo também muitas máscaras descartáveis. Essas me dão nervoso, principalmente desde que li que levam 400 anos para se decompor. Difícil acreditar que a natureza vai sair ganhando com a pandemia.

O desconfinamento traz sentimentos antagônicos. Por um lado, temo uma segunda onda da doença e me sinto segura quando vejo as pessoas de máscara. Ontem mesmo li que 88% das mortes por covid19 na França poderiam ter sido evitadas caso as pessoas tivessem usado máscara desde o princípio. Por outro, quero festejar a chegada do verão e o fim da epidemia, passear pelas ruas respirando livremente. Adotei um meio termo: uso a máscara nos comércios e transportes, mas não na rua. Confesso que algumas vezes esqueci a máscara em casa e fiz compras sem… Numa dessas vezes, como tinha acabado de lavar as mãos e tenho eczema nos dedos, hesitei em usar o álcool gel disponível na entrada do supermercado (antes um segurança colocava o gel na palma das mãos de cada pessoa que entrava. Agora é responsabilidade de cada um fazê-lo). Enquanto ponderava se limparia ou não as mãos novamente, uma moça passou na minha frente e entrou, apressada. O velhinho atrás de mim resmungou: “ela não usa máscara e não lava as mãos!”. Percebi o medo no comentário dele e passei o gel, envergonhada por estar sem a máscara…

Nesses primeiros dias de verão, oscilamos entre normalidade e tempos de epidemia. Às vezes relaxamos um pouco e em seguida nos arrependemos. O desconfinamento tem sabor doce-amargo. Aos poucos estou revendo os amigos. À distância, sem beijinhos nem aperto de mãos. Progressivamente. Primeiro conversei com um conhecido que cruzei no bosque, de longe. Depois almocei na varanda de um restaurante com uma amiga, tomando cuidado para que nossas cadeiras não ficassem muito próximas. No dia seguinte aceitei um convite para jantar na casa de outra amiga. E amanhã festejo meus quarenta anos com um pé dentro e outro fora da quarentena.

O marido está se desconfinando ainda mais vagarosamente do que eu. Estamos juntos há quinze anos e temos dois filhos. Essa semana ele tinha um trabalho difícil para fazer, então resolvi agradá-lo. Como precisava passar as máscaras de tecido, tirei do fundo do armário a mesa de passar roupa, presente da sogra, claro, e me ofereci para passar uma camisa. Estava toda orgulhosa passando a camisa de linho branca quando meu filho chamou. Fui ajudá-lo e expliquei o que ele me perguntou com paciência, me sentindo uma excelente mãe e esposa. Quando voltei para a mesa de passar, encostei o ferro quentíssimo na camisa preferida do marido e senti o cheiro de queimado. Levantei o ferro e vi duas imensas marcas marrons! Desnecessário dizer que a camisa foi direto para o lixo. Dois dias mais tarde quis agradá-lo novamente, dessa vez para o seu aniversário. Fiz um bolo e, como ele lê muito, decidi comprar um livro. Contei para a livreira que estava procurando um presente para uma pessoa que aprecia autores como Philip Roth, Jim Harrisson e Jonathan Frazen. Ela respondeu que tinha o livro perfeito e me propôs uma autora inédita. Folheando o livro rapidamente vi que, na orelha, a escritora era comparada à Roth e Frazen. Foi o suficiente para me convencer. Comprei sem ao menos saber do que se tratava a história, crente que o marido adoraria a descoberta. Ele rasgou o embrulho satisfeito e começou a ler a contracapa em voz alta: “Rachel Fleishman larga Toby Fleishman, depois de quinze anos de vida comum e dois filhos. Mas como Toby pode aceitar uma vida de pai solteiro quando pensava viver com a esposa até a morte?”. Quase morri, parecia piada de mau gosto. “Tem certeza que você não escondeu uma faca no livro?”, ele perguntou, enquanto ríamos da trapalhada. Acho que vou deixar essa ideia de agradar o marido pra lá. É como querer ser uma boa mãe, sempre dá errado.

 

 

 

Estelionatário

Os dias passam tranquilos no campo. Continuamos em busca da organização perfeita do dia da marmota, um pouco mais relaxados do quê quando estávamos no apartamento. Por hora deixamos a escolarização das crianças de lado, acredito que fotografar vacas e correr atrás dos calangos são uma forma de aprendizado tão válida quanto as outras. Inclusive fomos agraciados com duas visões extraordinárias da vida na natureza.

A primeira foi alguns dias atrás. Eu queria mostrar ao marido um lugar perto de onde estamos, um pequeno aglomerado de casas que descobri por acaso, quando me perdi ao voltar do supermercado, e achei muito charmoso. O marido resmungava e falava palavrões, fiel ao parisiense que é; não queria perder tempo vendo nada, não entendia porque não voltávamos rápido pra casa. Eu respirava fundo, me esforçando pra ignorar as reclamações dele, quando uma ave de rapina enorme passou baixinho com uma serpente enrolada nas garras. Ela atravessou a estrada de terra bem na nossa frente e desapareceu na plantação de trigo ao lado, foi lindo! O marido desceu do carro, encantado, e se dirigiu ao lugar onde a ave pousara. Ela alçou voo, dando-nos mais uma oportunidade de aprecia-la. Além de maravilhada com a cena, também me senti feliz por ter continuado dirigindo, apesar dos protestos do marido. “Você não poderia saber”, ele replicou. Mas não é isso intuição? Avançar mesmo quando os outros dizem que estamos errados porque algo em nós diz que é o caminho a seguir?

A outra cena é mais trivial, ocorreu hoje de manhã. Estávamos almoçando no jardim quando o gato da hospedagem avançou devagarzinho e saltou em cima de um camundongo. Foi minha filha que mostrou pra gente. Eu não quis olhar, mas dava pra ouvir o ratinho protestando, quirck, quirck. Segundo a narração ao vivo dos filhos, o gato mordiscou o camundongo durante alguns minutos e depois o enterrou vivo. “É a geladeira dele”, o pai explicou aos pequenos, que observavam admirados. “Coitadinho”, comentei. Minha filha replicou na hora, indolente: “Por que? Você nem gosta de rato!”. Fiquei boba com o sangue frio das crianças.

E assim corriam os dias, entre ações corriqueiras e românticas como ir até um povoado medieval de 700 habitantes e parar o carro em frente à igreja do século XIII para comprar pão, ou estender roupas no varal para que sequem ao sol, o que também me remete à um outro século, acostumada que estou com a secadora no apartamento. Ao final do dia levo as crianças para brincar com os priminhos, apesar dos protestos do marido, que acha que deveríamos nos distanciar da família dele. Ele tem razão, mas não resisto aos pedidos dos filhos, que durante dois meses não viram nenhuma outra criança além deles mesmos.

Tudo parecia em harmonia até que ontem, no meio da janta, o marido olha o telefone e me pergunta, abismado: “Você insultou minha irmã?”. Hein? Ele me mostra a mensagem. “Estelionatário”, estava escrito numa conversa entre nós três, proveniente do meu telefone. Logo abaixo a reação da cunhada: “??? Essa palavra quer dizer aproveitadora? Não entendi.” Na hora soube que algum dos meus anjinhos pegou o celular e escreveu letras aleatórias, que o corretor transformou em “estelionatário”. (Na verdade a palavra foi outra, com sonoridade parecida mas ainda mais surreal, uma palavra que até então eu sequer sabia que existia. Mas o marido me proibiu de escrevê-la aqui, ele tem medo da irmã fazer uma pesquisa na internet e descobrir o blog. Aí sim, estarei em maus lençóis…).

Fato é que a cunhada jogou “estelionatário”, digamos, no Google e encontrou a tradução profiteuse, “aproveitadora” em português. Liguei para resolver o mal entendido. “Eu nem conhecia essa palavra”, expliquei. Ela foi super fria, não me pareceu convencida. Demorei pra entender que ela não duvidava que foram as crianças que escreveram o insulto, mas estava zangada porque achava que minha filha tinha repetido o que eu dizia sobre ela. Quer dizer, a cunhada pensa que em casa eu a trato de “estelionatária”. Fala sério! Era o que me faltava. Desligamos o telefone e mais uma vez fui invadida pela sensação que sempre tenho quando estou com a família do marido, um aperto no peito, uma culpa sem razão, a impressão de precisar ficar provando que não sou a pessoa terrível que eles imaginam.

Fiquei chateada com o mal entendido, até porque ainda estávamos nos recuperando da briga do verão passado. Decidi ir à casa dos sogros no fim da tarde, levar as crianças para brincar como nos outros dias e aproveitar para esclarecer a situação em pessoa. Quando entrei no jardim a cunhada e os sogros não me olharam, coube a mim cumprimenta-los primeiro. “Bonjour Chantal! Bonjour Jeanne! Bonjour Albert!”, disse o mais alegremente que pude. Responderam friamente e eu fiquei ali, fazendo de tudo para ser gentil, enchendo balões de água para as quatro crianças brincarem e esperando o momento oportuno para abordar o assunto. Já estava quase me rendendo ao hábito francês de jogar a poeira pra debaixo do tapete e seguir a vida com relações falsamente cordiais à espera de que o tempo talvez resolva as coisas quando não me aguentei e disse: “Sinto muito pelo mal entendido de ontem, mas você entendeu que eu nem conhecia aquela palavra? Ninguém fala daquele jeito”. Jeanne levantou o olhar do livro e respondeu, condescendente : “Você disse isso ontem. Se você diz, eu acredito em você”, e retomou a leitura, como se fosse um ato de benevolência da sua parte crer na minha palavra. Quis explicar que ainda que eu tratasse as pessoas de “estelionatário” no dia-a-dia, minha filha de sete anos não saberia escrevê-lo, mas ela já tinha encerrado o assunto. Chantal tinha se aproximado e escutava atenta.

Quando me rebelei com a sogra, anos atrás, o sogro me disse, na única conversa realmente franca que tivemos em todos esses anos, que a paranoia corria na família de Chantal. Sua avó e sua mãe haviam sido paranoicas, e ela também o era. Quando contei isso ao marido, ele respondeu que Albert, que é médico, tinha mania de diagnosticar e estava exagerando. Mas alguns meses atrás, quando fui falar da sogra para minha psicanalista, em menos de cinco minutos ela afirmou, categórica: “não se deve tentar agradar uma pessoa paranoica”. Detalhe: eu não tinha mencionado esse termo. Hoje, com o caso do estelionatário, tive a prova de que não somente Chantal, como também sua filha, Jeanne, são mesmo paranoicas. E eu devo ser a neurótica que fica tentando entender, esclarecer… repetidamente. Gostaria de ter puxado minha avó paterna, ela já teria mandado esse povo todo à merda faz tempo.

Para retomar o tom animalesco com que comecei esse texto, sou um cão São Bernardo tentando encontrar meu lugar numa família de gatos siameses. Mas aos poucos vou ficando esperta. Em meio à todo esse aborrecimento, por exemplo, fiquei feliz por ter algo sobre o que escrever. Vida longa à minha sogra e cunhada francesas, que não decepcionam. E que elas nunca descubram que, se não as trato de “estelionatário” em casa, não me privo de contar tudo aqui.

Polícia para quem precisa

No primeiro sábado do confinamento, às nove e meia da manhã, a campainha tocou. Estranhei, não havia comprado nada pela internet e normalmente ninguém bate na nossa porta. Ainda estava de pijama e descabelada, deixei o marido responder.

De soslaio percebi que se tratava de policiais. Fiquei curiosa, o que a polícia estaria fazendo aqui num sábado de manhã? Estendi o ouvido na direção da porta e ouvi meu marido argumentando, num tom frio mas civilizado, que nossos filhos não fazem mais barulho do quê as outras crianças. Olhei para os dois, que têm quatro e sete anos e nesse momento brincavam tranquilamente no quarto. É verdade que mais cedo eles tinham ido do quarto até a cozinha, ou talvez da cozinha até a sala, não me lembro mais, correndo, como é corriqueiro as crianças pequenas fazerem, mas aquela era uma manhã calma, sem nenhum evento extraordinário.

Senti o sangue ferver. Vouf, acendeu em mim um fogo poderoso, como a trempe de um fogão quando o gás fica ligado antes de conseguirmos acender o fósforo. A filha de Iansã acordou. Com as bochechas quentes entrei na conversa, foda-se o pijama, foda-se os cabelos emaranhados. Qual não foi minha surpresa ao constatar que os policiais eram mulheres. Uma jovem, esguia, morena clara, rabo de cavalo alto, nem um fiozinho fora do lugar, maquiagem vamp, cara de poucos amigos. Tensa. A outra mais ou menos da minha idade, negra, redonda, mais baixa do quê alta, cabelos trançados e presos, adornados com pecinhas de metal dourado que me chamaram a atenção, achei o penteado bonito. Essa não parava de falar.

Tentei explicar que o prédio é velho e mal insonorizado e que nossos filhos não haviam feito nada demais. Meu marido tentava explicar que tinha certeza que fora o vizinho do terceiro andar, um jovem arrogante e intolerante que semeia discórdia no prédio desde que chegou, há mais ou menos um ano, quem as havia enviado. Mas ela não ouvia. Na verdade ela não estava nem aí pros nossos argumentos, ficava só repetindo que as crianças faziam muito barulho. Eu estava me dizendo que obviamente aquelas mulheres não eram mães quando ela soltou a seguinte pérola: Tenho três filhos, eles não mexem, não fazem nenhum barulho. E emendou dizendo que em período de confinamento precisamos respeitar os vizinhos.

Hello? Quem está desrespeitando quem? Em pleno confinamento o jovem de boné e calça baggy que mal cumprimenta e se acha a pessoa mais cool do mundo manda a polícia na nossa porta às nove e meia da manhã porque quer dormir até tarde e somos nós, que fazemos das tripas coração para ocupar duas crianças o dia inteiro dentro de um apartamento de 70 metros quadrados, que estamos errados? Explodi.

Não é porque você está de uniforme que tem o direito de gritar com a gente e cortar nossas frases, respondi com a voz alta, um pouco surpresa com minha própria ousadia. Ela se surpreendeu ainda mais, e levantou a voz mais alto também. Não me deixei intimidar. O marido me apanhou pelos dois braços e me tirou da frente delas, como se eu fosse um móvel. Foi minha vez de ficar incrédula. Voltei pra frente da porta, com raiva. Ele repetiu a operação. Isso aconteceu umas três vezes, até eu dizer, recuperando algum sangue frio e olhando nos olhos dele : você pode parar? Daqui a pouco elas vão achar que apanho em casa. Os três me olharam com espanto. As crianças se aproximaram. A policial de rabo de cavalo disse que eu estava assustando meus filhos. Respondi que não era ela quem iria me dizer como educá-los. A outra se abaixou e começou a explicar-lhes que eles não podem fazer barulho. Berrei: você não dirige a palavra aos meus filhos! A coisa desandou…

Num dado momento convidei-as a entrar e constatar o barulho que as tábuas de madeira fazem quando andamos normalmente no apartamento. O marido reagiu na hora, quase em pânico, imaginando os minúsculos coronavírus saindo daquelas botinas pretas e se espalhando no interior do lar. Mas na hora em que o trem saiu dos trilhos eu já não suportava mais olhar aquelas mulheres destituídas de qualquer noção de sororidade. Fui despedindo e fazendo um movimento de fechar a porta. Antes de partir, a policial mais velha ameaçou: vou fazer uma ocorrência contra vocês, relatando o que vi aqui esta manhã. As duas estavam descendo as escadas quando mostrei o dedo do meio pra elas.

O marido me olhou espantado com o gesto. Você pode ir pra prisão por isso. Elas estavam de costas, não viram! Ele, que ficou me tirando à força da frente delas, agora me tratava como se eu fosse a louca da casa. Quando disse isso, ele explicou que tinha ficado com medo de eu voar em cima delas. Claro que nunca teria feito isso. Apesar de que uma vez, muitos anos atrás, dei um tapa na cara de um segurança de boate que me desrespeitou e depois entrei correndo dentro de um taxi, porque perco o sangue frio mas não perco o instinto de sobrevivência.

Não sei o que é mais incrível, que o vizinho tenha se permitido chamar a polícia porque estava incomodado com os passos das crianças num sábado de manhã, ou que a policia tenha ido até nossa casa por isso em plena quarentena, quando deveria estar na rua impedindo as pessoas de desrespeitarem o confinamento. Meu marido, que sempre diz que não devemos discutir com idiotas, pois nos tornamos tão idiotas quanto eles, caiu nessa armadilha. E eu, que pratico yoga há quase vinte anos e me considero uma pessoa sensata, agi com um despreparo fenomenal. Parece que a pandemia chegou acentuando tudo. Na Itália, a cantoria; na Espanha, a solidariedade; no meu bairro: o egoísmo do vizinho, a idiotice das policiais e minha loucura!

A romantização da quarentena

“La romantización de la cuarentena es privilegio de clase!”, foi uma das coisas mais corretas sobre o confinamento que li até agora.

A segunda foi um diálogo entre um senhor e uma mulher num meme que me enviaram por WhatsApp:

Ele: – Li um artigo com dicas de astronautas para suportar o confinamento. Eles são especialistas nisso, passam muito tempo em estações espaciais.

Ela: -Tem criança em estação espacial?

Ele: …

Ela: Enfia no cu, o artigo”.

Voltando à romantização da quarentena, li essa frase numa faixa, dependurada numa varanda, numa foto postado por um conhecido. Não sei quem é o autor, mas concordo plenamente. É fácil romantizar a quarentena quando estamos em uma casa de campo, com ar puro e bastante espaço para as crianças correrem, por exemplo. Aliás, passo o ano inteiro sonhando com essa situação : me confinar no meio da natureza com a família (porque afinal as crianças ainda estão pequenas para serem enviadas para colônias de férias; caso contrário, sonharia com outras coisas).

Poucos dias antes do Macron decretar a quarentena, circularam rumores de que isso aconteceria. Presenciei com uma pontada de inveja a agitação dos pais dos amigos dos meus filhos, enchendo os porta-malas para passar uma temporada indefinida no campo. Nessa hora até arrependi de ter, até hoje, “seguido o coração”, como sempre me aconselhou meu pai, e não o dinheiro. Aos quase quarenta anos não tenho nem carro, quem dirá casa de campo.

Mas ainda assim sei que sou uma privilegiada. Temos 70 metros quadrados para quatro pessoas, não é muito, mas também não é pouco. Nosso apartamento é mal isolado e temos um vizinho escroto que bate com a vassoura nas paredes cada vez que as crianças correm de um cômodo para o outro (ele até mandou a polícia na nossa casa, mas isso fica para outro post), mas ao menos existem cômodos entre os quais correr. E, principalmente, moramos ao lado de um dos bosques da região parisiense, o que nos possibilita passeios diários nessa época deliciosa do ano (aqui é começo da primavera). Temos muita sorte, porque os deslocamentos foram limitados a uma distância de 1km do domicílio e o bosque fica a precisamente 0,8km da minha casa (fui correndo verificar assim que restringiram a distância dos passeios). Segunda passada, o governo limitou ainda mais os deslocamentos e fechou parcialmente os dois bosques de Paris. Felizmente, a parte do bosque que fica perto da minha casa permanece aberta. Foi por um triz.

Ontem fui controlada pela polícia pela primeira vez. Foi idílico: estávamos no meio do bosque, em frente a um lago, e dois jovens policiais se aproximaram, majestosos, sobre cavalos imensos e lustrosos. Nem aguentei esperar eles chegarem até a gente, fui logo me aproximando e perguntando: vocês gostariam de me controlar? Algo confuso, o policial fez que sim com a cabeça e pediu para ver minha declaração e identidade. Eu estava com as duas preparadas na bolsa, e a única coisa que ele pôde dizer foi: “Cuidado para não passar do horário. Seria uma pena ser verbalizada no final do dia”.

Entre nós, se eu pude me precipitar até o policial e mostrar o cavalo para meu filho, encantada com a pequena novidade na nossa rotina, foi porquê: 1) tenho uma impressora para imprimir a declaração; 2) tenho um documento de identidade válido; 3) tenho um domicílio para marcar na identidade. Parecem coisas normais, mas infelizmente muitas pessoas nem isso têm. Semana passada, liguei para a faxineira para assegurar-lhe de que continuaria pagando suas três horas de faxina semanais durante o confinamento. Aproveitei para perguntar como estava e aconselhei-a dar uma saidinha todos os dias. Ela me respondeu que adoraria fazê-lo, mas não pode, porque não tem impressora nem documentos. Contou que outro dia, não aguentando mais ficar em casa, se aventurou, mas o passeio não durou nem dez minutos. Assim que viu a polícia ao longe, deu meia volta e correu pro apartamento que divide com outras oito pessoas.

Conversando com uma amiga ontem à noite, ela me disse que ouviu na rádio que a polícia estava controlando os sdf (sigla para “sem domicílio fixo”, que é como denominam as pessoas que moram na rua aqui. Prefiro esse termo a mendigo, que me parece pejorativo e determinista). Essa amiga contou o caso de um homem que foi controlado e teve que pagar a multa de 135 euros porque estava sem a declaração. O homem tentou explicar que morava num apartamento de dois cômodos com a mulher e as cinco crianças e a situação ficou tão difícil que se mudou para o carro. Estava só tomando um solzinho sentado na calçada em frente ao carro. Mas a polícia foi impiedosa, e ele levou a multa que representa uma parte importante do orçamento da sua família.

Essa manhã meu marido, que acompanha o avanço da pandemia no mundo de maneira obsessiva, estava me falando sobre como os americanos estão lidando com ela. Ele me contou que em Nova York estão fazendo os moradores de rua dormir em lugares de estacionamento, para se assegurarem de que eles mantém a distância mínima necessária entre si. Fiquei imaginando um grande tabuleiro de xadrez, com os sem teto dispostos nas vagas de estacionamento de maneira intercalada. Achei essa gestão da pobreza, do espaço e dos indivíduos bastante surreal, para dizer o mínimo.

Esses exemplos confirmam: a romantização da quarentena é um privilégio de classes. E a pandemia, como todas as catástrofes, penaliza sobretudo os mais vulneráveis. Tendo dito isso, continuarei fazendo bolinhas de sabão e confeccionando coroas de flores com as crianças no bosque. Porque, por mais importante que seja termos consciência dos nossos privilégios de classe, sofrer além do necessário não alivia em nada o sofrimento dos outros.

 

Duas semanas

 

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Ontem fez duas semanas que Macron decretou o confinamento na França. Ele evitou pronunciar essa palavra, confinamento, para que não sentíssemos que era isso que estava fazendo com a gente, confinando. Ao invés, ficou repetindo: “Estamos em guerra. Estamos em guerra. Estamos em guerra”. Querendo, apesar da cara de boneco sem emoção, implantar uma emoção imensa no coração dos telespectadores: Medo. Além dos sentimentos de urgência, patriotismo e “vale tudo” que acompanham as declarações de guerra. Estamos em guerra, fique em casa, faça sacrifícios, não questione minhas decisões. Mas não se preocupem, o Estado não deixará nenhuma empresa ir à falência. Foi o que ficou do seu discurso na minha memória.

Logo após o pronunciamento, além do desgosto pelo vocabulário marcial, fiquei confusa em relação aos seus efeitos práticos na minha vida cotidiana. Que as escolas iriam fechar, meu maior pesadelo, eu já sabia: meu pequeno estava em casa há dias porque sua professora e assistente estavam doentes (havia rumores de que seria coronavírus) e no dia anterior todas as escolas do país já haviam fechado. Eu achava que essa situação duraria quinze dias. Meu marido, mais pragmático, cortou minhas esperanças na hora: vamos ficar sem escola ao menos até o final das férias de abril. Quase tive um troço! Como se não bastassem as férias de duas semanas que os alunos têm o ano inteiro aqui na França, ainda colocaram um confinamento entre duas sessões de férias. Pior do quê agosto, mês das férias de verão, o mês mais longo do ano!

(Claro que me dou conta, hoje mais do que nunca, da importância do confinamento. Mas a ficha demorou a cair. Eu também, no começo, achei que era só uma gripe e estavam fazendo alarde inutilmente. Afinal, a gripe mata 10.000 pessoas por ano na França. Ainda não estavam morrendo 600, 700, 800 pessoas por dia na Itália e na Espanha.)

Voltando aos efeitos práticos do confinamento, o que me deixou confusa no discurso do Macron foi que ele disse que os donos de cachorro poderiam levar seus animais para passear, mas não fez nenhuma referência à situação das crianças. Achei incrível ele pensar no bem-estar dos cachorros antes das crianças! Como se elas não precisassem ser passeadas. No dia seguinte, quando levei minha filha de sete anos ao parque, disse à ela: “se a polícia nos parar, você late!”. Ela não entendeu, mas concordou.

Desde então o discurso do Macron foi clarificado, minha filha não precisou latir e nenhum policial nos abordou. Aliás, estou um pouco decepcionada por ainda não ter sido controlada. Queria tanto ter a oportunidade de mostrar minha “déclaration sur l’honneur”. Tão francês isso: imprimir em um papel os motivos da sua saída e assinar atestando, em nome da sua honra, que você tem uma razão legítima para estar fora de casa.

Uma semana mais tarde as condições da saída ficaram um pouco mais rígidas: o passeio não pode durar mais de uma hora, então temos que marcar a hora em que saímos de casa na declaração. Como os passeios no bosque são meu momento preferido do dia, logo arrumei uma estratégia: fazer duas declarações, cada uma com um horário diferente. Anunciei a solução brilhante ao marido francês, que ficou chocado. Depois fiquei me sentindo mal: meu Deus, será que não tenho honra? Na via das dúvidas, preocupada em manter minha integridade, decidi não dar nenhum jeitinho tropical e respeitar as regras. Me permito apenas uma margem de dez ou quinze minutos no horário da saída, o tempo de uma eventual pirraça de criança na hora de voltar para casa. Nada mais justo.