5 x 1

Já faz algum tempo que não escrevo sobre a sogra francesa, por dois motivos: primeiro, pensava haver resolvido, ao menos na minha cabeça, nossa relação; segundo, porque o coronavírus nos forneceu uma razão legítima para não nos encontrarmos. A distância e o tempo quase me fizeram esquecer as maldades de Chantal. Nas vésperas do aniversário da minha filha, o Facebook propôs a lembrança de um lindo moisés de vime branco, enfeitado com uma renda alvíssima e laços de cetim. A sogra preparou este bercinho para Jasmim, assim como havia feito para seus filhos e netos que chegaram antes dela. Enternecida com a memória, postei a foto, dando-lhe os devidos créditos. Vários amigos comentaram, admirados com a beleza do moisés e o capricho da sogra. Até pensei mudar o nome do blog. Comentei com o marido, acrescentando que no final das contas escrevo mais sobre maternidade e vida na pandemia do quê sobre a mãe dele, mas Vincent protestou: “Não, você não pode mudar o nome, é isso que é legal no seu blog”. Para vocês verem… Acho que pro Vincent é catártico eu colocar em palavras um pouco da raiva que passamos por conta dessa dama.

Mas estou passando os carros na frente dos bois. Vou começar voltando às férias escolares de fevereiro quando, pela primeira vez, os sogros levaram Jasmim, que está com oito anos, para a casa de campo com eles. Jasmim foi toda feliz, qualquer ocasião de ficar longe dos pais é boa para essa menininha atrevida e aventureira.  Eu fiquei ao mesmo tempo satisfeita por ela desfrutar desse tempo junto aos avós franceses, ressabiada, achando que eles a levaram só para ela fazer companhia aos dois priminhos que passam todas as férias com os avós, e um pouco chateada por eles não cogitarem levar o Enzo. 

O marido, que é professor, estava de férias e poderia ter ido para o campo junto com Jasmim, mas ele também receia passar mais do quê algumas horas na companhia da mãe. Ao mesmo tempo, era muita sacanagem o coitadinho do Enzo ficar duas semanas no apartamento com os pais enquanto a irmã brincava com os primos numa casa imensa com um jardim ainda maior. Eu já havia decidido que não me faço mais violência indo para a casa da sogra. Posso até ter ficado comovida com a lembrança do bercinho, mas não fiquei burra. Ao cabo de três dias, Vincent resolveu pegar um trem com o filho rumo à casa de campo. Partiu contrariado, avisando que ficaria duas noites, no máximo três. Concordei, tentando disfarçar a alegria de ficar sozinha em casa. No fundo tinha esperanças de que Vincent mudasse de ideia quando chegasse. Afinal, é a casa de campo da família dele, ele poderia ficar à vontade e ler seus livros enquanto as crianças brincavam no jardim. 

Na mesma noite Vincent ligou: “Já quero ir embora!”, disse, em meio a risadas nervosas. Não contou detalhes, mas não precisava. Conheço a sogra, não tive a menor dificuldade em imaginá-la ranheta, fazendo insinuações venenosas e favorecendo de maneira ostensiva os filhos da filha. Respondi, de forma abstrata para um observador exterior, mas que fazia total sentido para nós: “Você não é culpado de nada”. Porque esse é o poder dela, te oprimir ao ponto de você ficar triste e sem lugar, sentindo-se culpado sem saber o porquê. É como se um gás tóxico emanasse de Chantal e, de forma silenciosa e sorrateira, comprimisse seu peito ao ponto de você ficar quase sem ar. Um horror.

Nos próximos dois dias Vincent continuou telefonando, sem dizer ao certo o que estava acontecendo mas contando que estava com placas vermelhas no rosto e agora fazia como eu: refugiava-se no quarto para evitar a presença da mãe. Verdade que ao longo dos anos desenvolvi essa estratégia. Resultado: cada vez que alguém visitava a sogra encontrava uma brecha para dizer que faço longas sestas todos os dias, dando a entender que sou uma preguiçosa. Voltando ao marido, insisti para ele ficar ao menos mais um dia, pelo filho. Vincent disse que já havia comprado as passagens de volta, que o próprio Enzo já queria voltar. “A coisa deve estar feia”, pensei.

Ao voltar, Vincent contou, rindo da própria desgraça, que estava enlouquecendo: sequer conseguira ler, passara a maior parte do tempo jogando xadrez no telefone, coisa que não fazia há anos, numa tentativa patética de abstração da realidade. Não mencionou nenhum acontecimento preciso, decerto para não me deixar ainda mais indisposta com a sogra. Mas de noite, depois que Enzo adormeceu, não se aguentou e relatou a última refeição na casa dos pais:

Estavam todos na mesa comendo crepes, a sogra se encantava diante do apetite do neto preferido, que tem um ano a mais que Enzo, exclamando com orgulho que ele estava devorando sua quarta crepe. Após haver comido apenas uma crepe, Enzo declarou que não estava mais com fome, levantou-se e foi brincar. Sacrilégio! Os sogros resmungaram, comentando que o menino não sabe se comportar na mesa – Vincent me disse, chateado, pois segundo ele até este episódio nosso caçula estava se comportando muito bem. Poucos minutos depois, Enzo voltou e pediu mais uma crepe. A sogra respondeu: “Você devia ter acordado mais cedo, agora é tarde!”. Unindo o gesto às palavras, colocou a última crepe no prato do neto favorito. Quer dizer, Chantal deu cinco crepes para um neto e uma para o outro, sob pretexto de que o Enzo, que estava com quatro anos, tinha saído da mesa.

Preciso dizer que fiquei puta da vida quando ouvi essa história? Vincent até tentou defender a mãe: “Ele tinha se levantado…”. Tal é o poder desta mulher: cometer malvadezas com tanta naturalidade que ninguém ousa se opor. Porque ninguém vai me convencer de que não é perverso e até doentio dar cinco crepes a um neto e uma ao outro, de maneira ostensiva, transformando isto na ocasião de dar uma lição, perante todos, à criança desfavorecida. Aos olhos da bruxa meu filho está sempre errado. Já testemunhei várias cenas em que ela elogiou o neto preferido e xingou o Enzo exatamente pelo mesmo motivo. Tudo o que o neto preferido e seu irmão fazem é maravilhoso. Cada vez que nos vemos ela me conta, extasiada, as proezas dos dois, sem jamais perguntar nada sobre a vida da Jasmim e do Enzo.

Foi para evitar esse tipo de coisa que não fui ao campo. Não sou mais capaz de observar este tipo de comportamento calada. Como comentou uma conhecida quando briguei com a sogra alguns anos atrás – um dia ainda escrevo sobre isso – o que meus filhos pensariam de uma mãe que abaixa a cabeça e engole todo tipo de sapo?

Passei semanas discutindo com Chantal na minha cabeça, contando a história das crepes para todo mundo que cruzava meu caminho. Quis escrever aqui, mas precisei de quase três meses para digerir, algumas emoções requerem tempo para serem traduzidas em palavras. Com o passar das semanas esse episódio foi se apagando, eu já estava voltando a pensar que a sogra é quase normal. Até recentemente. Cenas para o próximo capítulo. Pensando bem, ainda vou precisar escrever muito antes de mudar o nome do blog…

A vida começa aos quarenta

Hoje é meu último dia de liberdade. Amanhã o Vincent volta pra casa com o Enzo e a Jasmim. Sim, vocês leram direito: estava em casa sozinha, sem marido nem filhos. Uhu!!! Acho que foi a segunda vez que isso aconteceu. A primeira foi há quase dois anos, quando deixei a família do marido embasbacada na casa de campo e fui acampar numa cidadezinha no interior da França, para participar de um festival de cinema documentário. Fui com as bênçãos do marido, que tinha entendido que não dava mais para prolongar minha convivência com a sogra e se propôs ficar com as crianças enquanto eu ia respirar ares mais puros. Um trem, uma passagem na casa de uma amiga para pegar o material de camping emprestado, outro trem, um ônibus e uma van mais tarde, e eu montava uma barraca sozinha pela primeira vez, ficava amiga de uma diretora iraniana e conhecia um professor de filosofia francês que não me atraía nem um pouco mas não largava do meu pé. Freud explica.

Esta experiência foi libertadora e maravilhosa. Melhor, foi maravilhosamente libertadora. O ápice ocorreu num dia de sol quente, ali pelo meio dia, quando eu andava de um lado para o outro meio sem rumo, entre as salas de cinema dispersas pelo vilarejo, cujas ruas estavam vazias pois todo mundo menos eu tinha decidido qual filme assistiria e já havia se dirigido ao devido lugar. Ao me ver assim desnorteada, um casal que passava por ali, ele um hippie alto e barbudo, ela uma jovem com uma blusa que na verdade era um corpete de lingerie preto e um shortinho jeans, ambos mais cool impossível, me perguntou pra qual sala de cinema eu gostaria de ir. Respondi sinceramente que não sabia, estava cansada de assistir filmes mas minha barraca deveria estar fervendo… Foi então que eles me propuseram acompanhá-los em uma cachoeira. Aceitei na hora. Quando vi estava num carro lotado, apertada entre três lindas raparigas no banco de trás e me sentindo levemente culpada pelo fato de dois rapazes estarem viajando no porta-malas para eu caber no carro. Chegando lá eu não tinha levado biquíni, mas tudo bem, quem está na chuva é pra se molhar, nadei de calcinha mesmo. Depois, enquanto eu secava numa pedra e agradecia à Deus pelo banho de cachoeira nas montanhas que tanto lembravam minhas Minas Gerais, um jovem loiro de olhos azuis começou a tocar violão e uma moça a tocar flauta. Adivinhem o que eles tocavam? Bossa Nova! Comecei a cantar e uma das meninas que observava a cena me disse: “Que lindo, uma borboleta branca pousou no meio da sua testa”. Foi um momento de pura epifania. Houve outros.

Pois bem, eu já estava pensando que doravante viveria um desses parênteses encantados todos os anos quando a Covid chegou. Passei as férias de verão seguintes em Airbnbs bizarros França afora e não pude viajar para o Brasil no final do ano como fazemos de costume. Chegaram as férias de fevereiro, porque aqui na França a cada seis semanas as crianças têm duas semanas de férias, e o Vincent e eu ainda não sabíamos o que fazer. Havíamos planejado passar uns dias na casa de campo dos sogros, já que, como eles haviam dito, ela ficaria fechada até a primavera. Mas eles mudaram de ideia e decidiram que iriam para lá durante as duas semanas. Poucos dias antes das férias, recebemos uma mensagem carinhosa do sogro nos informando que a esposa e ele foram vacinados e que passaríamos lindas férias de família todos juntos: eles, nós quatro e a irmã mais nova do Vincent com seus dois filhos. Imaginem a minha alegria… (quem acompanha meu blog sabe que estou sendo irônica).

O Vincent, sempre compreensivo, anunciou que iria uns dias com os filhos mas eu poderia ficar tranquila em casa. Ele achou que isso me deixaria feliz. Eu também, mas na verdade fiquei bem tristinha. Até Jasmim percebeu. Quando fui busca-la na escola, ela disse, assim que me viu: “Por que você está triste, mamãe?”. Incrível como as crianças são sensíveis. Apesar de eu demonstrar um humor cáustico quando escrevo sobre os sogros, passar as férias sozinha no apartamento não era exatamente meu ideal. Eu preferiria fazer parte da família da sogra de verdade ou, já que isto não foi possível, que o Vincent, as crianças e eu viajássemos juntos para outro lugar. Cheguei a sugerir que fôssemos para a montanha, mas ele descartou dizendo que fazia muito frio. A verdade é que é importante para o Vincent levar os filhos na casa de campo onde ele passou boa parte da infância e aonde ainda estão guardados seus antigos brinquedos.

Minha esperança ressurgiu no dia seguinte, quando contei para um dos amigos que encontrei no festival de filme documentário que estaria sozinha em Paris. Trata-se de um jovem de vinte e oito anos com quem tenho uma grande afinidade intelectual. Damos muita risada juntos. Ele me convidou para passar uns dias no seu chalé na montanha com um grupo de amigos dele. Adorei a ideia. Enfim mais uma viagem revitalisante na companhia de gente nova em perspectiva! Vincent achou bem menos graça. “E a Covid?”. Eu tinha até esquecido que estamos no meio de uma pandemia. Mas os argumentos dele não pararam por aí: “E o que você vai fazer no meio de uma garotada muito mais jovem? Você não acha que vai se colocar numa posição indigna? Você é uma mãe de família. Assuma suas responsabilidades”. Me insurgi contra estes argumentos retrógrados, convencionais, machistas e castradores com tanta força e convicção que, por fim, o coitado separou uma mala pra mim e me disse para não esquecer o filtro solar, porque o sol reverbera na neve e queima igual na praia.

Olhei os horários de trem e fui dormir. De noite sonhei com minha psicanalista. Ela dizia: “Não é que você não tem nenhuma criatividade ou capacidade de criação. É que você está exausta. Fique em casa e descanse!”. Acordei me sentindo leve e liberada. Quando disse ao marido que finalmente não viajaria ele deu de ombros, como se fosse indiferente. Fiquei em casa feliz, pois ao mesmo tempo me libertei das amarras da mãe-de-família-que-não-pode-viajar-com-amigos-jovens-enquanto-o-marido-fica-com-as-crianças e das outras que eu mesma me impus, convencida de que devo agarrar cada oportunidade de viver ao máximo. Coloquei um pijama assim que o Vincent e as crianças saíram de casa, me reenfiei debaixo das cobertas e passei o fim de semana lendo um delicioso romance infanto-juvenil. 

Na segunda aproveitei para visitar três amigos, que me emprestaram cada um uma parte do material que eu precisava para gravar um áudio – mais precisamente, binóculos, gravador e cabo para suspender o gravador. Essa manhã realizei o episódio de um podcast que adoro. Fui convidada por um queridíssimo amigo, idealizador do dito podcast, já há algumas semanas, mas estava procrastinando, num misto de cansaço e medo de não estar à altura. Tive prazer em fazê-lo e mais ainda quando recebi o retorno positivo do amigo. Pra terminar o dia, decidi tirar um pouco do atraso por aqui. Quer dizer, um fim de semana de descanso e a vontade de criar voltou. Imagina quando os filhos crescerem! Estou cheia de projetos e expectativas para o futuro, sentindo que, de fato, a vida começa aos quarenta. É só se permitir.