As férias chegaram, de novo

As férias chegaram novamente e com elas a promessa de dois longos meses com os filhotes. O que fazer para ocupar duas bombas de energia durante mais de sessenta dias seguidos? Embora o confinamento do ano passado tenha mostrado que as coisas podem sempre piorar, ainda sinto um gosto amargo quando as férias se aproximam. À medida que o mês de julho vai chegando, cada dia de aula se torna uma preciosidade inestimável. Esse ano, aproveitei minhas últimas horas de liberdade com uma sessão de massagem um dia antes das aulas das crianças acabarem. Ter uma tailandesa de joelhos nas minhas costas esmagando meus pulmões com seus cotovelos foi a forma que encontrei para me preparar a passar as semanas seguintes com os anjinhos. Agora entendo porque minha mãe vivia repetindo: “Deus, dai-me paciência”.

Um pequeno parêntese para me desculpar perante as mães e pais brasileiros que ficaram quase um ano com os filhos dentro de casa durante esta pandemia. Tiro o chapéu para vocês. Mas é aquela coisa, não é porque têm pessoas em situações mais difíceis que não temos o direito de reclamar. Talvez eu não achasse ruim ficar dois meses por conta de cuidar dos filhos se tivesse um trabalho com começo e fim. Mas além de preparar as aulas do semestre que vem, que estão me estressando porque assumi uma quantidade um pouco exagerada de cursos a lecionar, tenho diversos projetos pessoais, mais ou menos fantasiosos, aos quais gostaria de poder me dedicar mais. Tendo dito isto, reconheço que passar dois meses de férias com os filhos não é nenhuma catástrofe em si e aproveito para me desculpar também perante as mães e pais que têm poucos dias de férias por ano.

Pronto, agora que já mostrei que sei que não sou nenhuma coitada, posso continuar reclamando sem pudor. Aliás, eu seria uma imigrante muito mal adaptada se não me desse o direito de resmungar. A verdadeira característica do parisiense não é usar boina, nem mesmo carregar a baguete debaixo do braço, mas reclamar muito, todos os dias e em quase todas as situações. Pensando bem, devo agradecer à França por ter me libertado da obrigação brasileira de estar sempre de bom-humor. Um olhar cínico aguçado tempera a cegueira que nos faz afirmar aos outros e a nós mesmos que está tudo sempre bem.

Aonde estava mesmo? Ah sim, as férias dos filhos. Mais um parêntese: se eu estivesse escrevendo para a revista “Caras”, diria “as férias dos herdeiros”. Será que sou a única pessoa que acha de um mal gosto incrível qualificar a prole de “herdeiros”? Como se realmente a coisa mais importante que pudéssemos transmitir aos filhos fosse nossos bens materiais. É fato que ter filhos não faz nenhum sentido, ainda mais nos dias de hoje, com o fim do mundo logo ali na esquina; mas uma vez que os rebentos foram gerados, até uma revista de fofocas deveria jugar de bom tom se referir a eles como algo mais que o receptáculo da acumulação material dos pais. Ficava pensando nisso toda vez que ia fazer as unhas no Brasil, enfim encontrei um lugar para compartilhar esta pequena indignação. 

Voltando às férias escolares, Vincent e eu quebramos a cabeça para preencher de maneira lúdica e econômica mais este verão europeu. O ideal mesmo seria irmos ao Brasil. Estou com muitas saudades. Mas depois de conversar com amigos e familiares decidimos que ainda não era a hora. Graças a Deus, ano passado, pouco antes da pandemia ser declarada, eu pulava carnaval em Belo Horizonte, espremida entre um monte de gente suada e purpurinada. Parece que foi em outra encarnação. Ultimo pequenos parênteses, juro: a vida é mesmo cheia de surpresas: vinte anos atrás eu jamais imaginaria que a sentença “pulava o carnaval em Belo Horizonte” pudesse adquirir uma conotação positiva num futuro nem tão distante. Voltando ao tempo presente, uma vez que decidimos passar mais este verão na França mesmo, o primeiro passo foi comprarmos um carro, pois da última vez que alugamos fomos agraciados com um upgrade que se revelou um verdadeiro presente de grego. 

Certa manhã saí de casa pra buscar um carro comum e voltei dirigindo o Batmóvel. Eu tentei dizer que não estava à vontade, o jovem bonitão que me atendeu respondeu que só tinha aquele carro na agência, era pegar ou largar. Passei quinze minutos sentada olhando as luzes do painel de bordo futurista antes de ter coragem de ligar o motor, mas a verdade é que não tinha escolha, Vincent e as crianças me aguardavam ansiosamente em casa para viajarmos. O bonitão também me incitou a pagar um seguro, afinal, aquele carro valia oitenta mil euros. Até arrepiei quando ouvi isto e acabei aceitando o seguro, apesar de saber que normalmente meu cartão de crédito cobria os carros alugados.  Saí da agência incomodada. Ao contrário do que se pode pensar, senti vergonha por estar dirigindo um veículo tão oneroso, sou uma mineirinha caipira que não gosta de ostentação. Também me senti insegura porque nunca havia dirigido uma quase limusine baixa e comprida. Resultado: mal cheguei na porta do prédio e bati o para-choques num vaso de plantas. Vocês não imaginam como meu coração bateu forte quando ouvi o “bum”. Para meu alívio, quando desci constatei que fora apenas um arranhãozinho, então viajamos assim mesmo. Confesso que foi bastante prazeroso dirigir o Batmóvel na autoestrada. Quando disse ao marido : “Mal encosto o pé no acelerador e ele voa”, ele respondeu: “Claro, é uma Mercedes”. Até aí nada anormal. O engraçado veio logo na sequência, quando ouvimos uma voz feminina perguntar : “O que posso fazer por vocês”? Sim, a Mercedes falava! Passamos o resto da viagem ouvindo os anjinhos chamarem “Mercedes”, apenas para ouvi-la indagar, prestativa: “O que posso fazer por vocês”?. Para os homens que se sentem viris dirigindo carrões, a voz serviçal da Mercedes deve mesmo ser a cereja do bolo. Nós nos divertimos, mas demos menos risada na hora de entregar o carro. Tive que pagar 1200 euros pelo arranhão no para-choques, porque o valor era inferior à franquia e o cartão se recusou a cobrir o acidente, visto que eu havia aceito o seguro da agência e nesse caso havia “conflito de interesses”. De nada adiantaram meus e-mails e telefonemas indignados.

Essa aventura com a Mercedes foi durante o Terceiro confinamento, em maio, quando alugamos uma casa por três semanas na maravilhosa Costa de Granito Rosa, na Bretanha. Queria ter escrito sobre esta quarentena, sem dúvidas a melhor de todas, no meu último post, mas acabei narrando um episódio da sogra com meu filho que aconteceu meses antes, durante as férias de fevereiro… E agora comecei a escrever com a intenção de falar mal da sogra, que tive o desprazer de rever ontem, mas acabei me deixando levar pela temática das férias escolares. Tudo bem, imagino que a vantagem de escrever crônicas seja mesmo essa: você começa achando que vai falar sobre o tempo e acaba divagando sobre os hábitos alimentares dos esquimós. Na próxima postagem escrevo sobre o reencontro com a sogra. Ou não.

Adeus Ano Velho

1° de janeiro de 2021. Mais um ano começa. Lembro quando eu era criança e o ano 2000 estava longe. A virada do milênio. Eu seria uma adulta, teria vinte anos! Me via linda e independente, morando sozinha num apartamento moderno e minimalista, ganhando dinheiro, dona do meu nariz, provavelmente jornalista. A humanidade faria coisas incríveis, talvez até haveriam carros voadores, como nos Jetsons. Que sorte eu tinha, completar 20 anos no ano 2000, pensava, maravilhada, enxergando na coincidência dos números um sinal de bom agouro.

Nem preciso dizer que aos vinte anos eu estava mais próxima da adolescência do quê da maturidade, certo aproveitando cada instante dos anos de faculdade, mas à anos luz da jovem adulta responsável e independente que eu imaginava criança. Minhas fabulações nunca chegaram ao ano 2020. Uma criança dificilmente pensa em si mesma aos quarenta anos. Ainda bem que não fiz projeções para esta idade, senão acho que teria me visualizado numa cadeira de balanço, lendo para os netinhos. Agora que cheguei aos quarenta, ainda me sinto menina, até hoje não entendi direito como as coisas funcionam. Os números são realmente muito enganadores.

Voltemos ao presente. 2020. Há um ano atrás achei esse número lindo. Dois patinhos seguidos por dois ovais, tão harmônico. Só poderia prenunciar coisas fluidas, agradáveis. O ano começou bem, comigo experimentando pela primeira vez o carnaval de Belo Horizonte. Porque quando o carnaval de BH começou a ficar bom eu já morava fora. Durante anos vi as fotos dos amigos nas redes sociais, ao mesmo tempo incrédula e louca de vontade de participar das celebrações pessoalmente. Eis que em 2020 as férias se alinharam com a data do carnaval. O marido e nossa filha mais velha voltaram para a França uma semana mais cedo, porque ele tinha que trabalhar e ela não queria perder sua primeira viagem com a escola. Eu fiquei pra trás com o pequeno, que estava com quase quatro anos. Pela primeira vez confiei o filhote ao meu pai sem culpa e fui pular carnaval, curtir os corpos suados, espremidos e eufóricos, tomar melzinho com cachaça oferecido por desconhecidos logo pela manhã, me deliciar com as fantasias, cada uma mais divertida e criativa do quê a outra. O Enzo teve direito a participar de um bloquinho comigo, até hoje ele fala disso. Sempre que falo do Brasil, ele fala do carnaval. Outro dia passamos na frente de umas mulheres de véu e um homem de turbante na rua e ele disse: “Mamãe, olha, o carnaval, igual no Brasil!”.

Mal sabia eu que aquele exagero de afeto, alegria e proximidade física estava com os dias contados. No voo de retorno algumas pessoas usavam máscara, o que me pareceu um exagero. Chegamos em Paris no mesmo dia que minha filha voltou da excursão. Uma ou duas semanas mais tarde, as escolas fecharam. O carnaval ficou parecendo um parêntese encantado, sonho de uma noite de verão. Um delírio cuja lembrança me nutriu em alguns momentos de tédio e quase desespero durante os meses que passei confinada num apartamento mal insonorizado de 70 metros quadrados com um marido de longa data e duas crianças pequenas.

Mas houve uma coisa bonita, quase emocionante, em 2020: sua capacidade de produzir consenso. O mundo inteiro, talvez pela primeira vez, concordou: foi um ano de merda! Bolsominions e esquerdopatas, empresários e artistas, brancos e pretos, crianças e idosos, primeiro e terceiro mundo, todos apressados em virar a folhinha do calendário, felizes por começar um ano novinho em folha, ainda que para alguns a esperança permaneça discreta, quase clandestina. Acho que esta coesão de ideias foi o verdadeiro milagre de 2020. 

Para mim, na verdade, o ano não foi tão ruim assim. No final do ano perdi uma tia, foi a parte mais triste de 2020, a maneira mais direta com que o Covid me tocou. Também fui enfurnada dentro de casa logo quando começava a botar as asinhas de fora, depois de sete longos anos me dedicando, senão exclusivamente, intensamente aos filhos. Mas fora isso tudo certo. Não perdi o emprego, pelo contrário, arrumei um trabalho. Instável, precário, mal pago… Mas pra quem está acostumada a trabalhar de graça, ou a pagar para trabalhar, tudo é lucro. Pesquisadores me entenderão. Para os outros, que não imaginam a pendenga que é a vida acadêmica, a dedicação imensa e a falta de reconhecimento quase tão importante, escreverei um post em outra ocasião. Também comecei a escrever este blog, espaço de respiração, entre outros pequenos projetos que tenho na manga. Não aproveitei do confinamento para me aproximar dos meus filhos – como duas francesas me confiaram, maravilhadas, explicando que até então trabalhavam tanto que mal conheciam os próprios rebentos – porque já cuidava bastante deles. Mas cheguei até aqui sem me tornar adepta da violência, o que em si já é uma façanha, como outra amiga me lembrou num dia em que lhe confessei estar me sentindo um fracasso como mãe. Brincadeiras à parte, li por aí as informações tristíssimas de que o maltrato infantil aumentou e o suicídio de menores de quinze anos dobrou na França este ano. 

2021 amanheceu gelado. Desde o começo da semana, estamos na casa de campo dos sogros, situada no norte da França. Ah sim, já ia me esquecendo: 2020 me permitiu desfrutar de alguns dias nesta casa sem os sogros! Foi o pequeno presente que o Corona me deu, já que como eles são idosos não podemos nos encontrar. Os sogros vieram pra cá durante a primeira semana de férias com minha cunhada e seus dois filhos, o marido negociou a segunda semana pra gente. Os filhos da cunhada também vão para a escola e ela trabalha fora, mas por algum motivo obscuro somos considerados mais contagiosos do quê eles. Não questionei, apenas abracei a oportunidade de esquivar um dia de natal inteiro na casa da sogra. Este ano, pela primeira vez desde que estou na França, fui dispensada das horas intermináveis sentada no lugar que me é atribuído na mesa natalina, onde entrada, prato principal, salada, queijos, bolos, frutas, café e chocolates se seguem uns aos outros, sem pausa para esticarmos as pernas. A comida é deliciosa, cozinhada pela sogra e acompanhada pelos vinhos do sogro, mas ao longo dos anos estes encontros se tornaram penosos para mim. Em algum momento cheguei a dizer à psicanalista que não queria mais participar dos eventos familiares; ela respondeu, como se fosse simples: “Você não é obrigada”. Acontece que detesto conflitos, jamais teria coragem de me ausentar do natal na casa dos sogros. Então agradeço à pandemia por ter me oferecido uma desculpa válida para passar o natal com os amigos. Estes sim, são minha família aqui.

Férias bizarras

“Não é verdade que somos uma família bizarra, Jasmim?”. Estávamos na estrada quando, do nada, meu filho de quatro fez essa pergunta para a irmã, três anos mais velha. Dias depois a voz infantil ainda ressoava na minha mente. O que terá feito a indagação surgir na sua cabecinha? Será que somos gente bizarra?

Até hoje não tive coragem de gastar dinheiro comprando móveis e moro numa casa onde caixas de plástico fazem as vezes de gavetas. Quando vou ao Brasil, fico encabulada ao entrar nos apartamentos das amigas da mesma idade. Elas me parecem tão mais adultas do que eu, com suas casas decoradas, empregadas e babás de uniforme. Será que é por isso que somos uma família bizarra? Pode ser também porque não nos casamos. Minha filha vira e mexe me pergunta a razão disso. Como explicar que pra mim casamento é apenas uma forma de tornar a separação mais burocrática? Talvez seja porque não temos carro e minha solução para levar os filhos à escola foi comprar uma patinete pra cada um, inclusive para mim mesma. É um dos melhores momentos do dia, além de saudável, econômico e ecológico, por que nos privar ?

Ao contrário do que meu filho constatou, de uns tempos pra cá tenho me sentido cada vez mais normal. É irônico: a bizarrice dos tempos pandêmicos está me transformando numa pessoa comum. Quando comentei com uma amiga mais velha que desde o confinamento estou com vontade de ter um carro e uma casa no campo, ela retrucou, dando risadas, que estou me aburguesando. Tive que concordar. Desde que a agência de locação de carros me deu um modelo superior ao que havíamos reservado, eu, que nunca dei valor pra essas coisas, ando sonhando com um carrão! Parece mentira mas é verdade: duas vezes depois de entrega-lo vi exatamente o mesmo carro, com a mesma placa, estacionado em frente ao meu prédio. Quais as chances disso acontecer? A primeira viagem que fizemos no começo do desconfinamento também me deixou querendo ter uma casa de campo. Durante três semanas alugamos uma casa antiga, renovada com bom gosto, respeitando a arquitetura da época e decorada com objetos encontrados em feiras de antiguidades. A percepção das crianças é mesmo muito diferente da nossa. Para eles, essa casa, que além de tudo tinha um jardim imenso que dava para um pasto de vacas, virou a “casa das aranhas”. A primeira vez que ouvi os filhos falando assim quase não acreditei, é tão redutor ! Mas foi isso que os marcou : as pequenas aranhas nos quartos e banheiros. Eles não sossegavam enquanto o marido não matava todas. Eu morria de dó, elas eram inofensivas, não havia a menor necessidade de eliminá-las. Mas esse virou o ritual macabro dos três antes de dormir.

Depois da “casa das aranhas” e das duas semanas de aulas entre o confinamento e as férias de verão, que recebi como um presente dos céus, alugamos outro carro. Dessa vez não houve upgrade, tive que me acomodar com o modelo abaixo do primeiro. Foi como viajar de classe econômica depois de ter voado de executiva. Mas o carrinho funcionou bem e nos levou sem problemas até nosso primeiro airbnb, uma casa sem charme, com um quintal pequeno e nenhuma vista. Dava pra ver que a proprietária renovou a casa com o intuito de alugá-la. Me senti como naquele filme, “Querida encolhi as crianças”, só que ao invés de nos perder no jardim, nós, seres minúsculos, circulávamos dentro de um catálogo da Ikea. Comentei isso com minha irmã no telefone, ela disse para eu parar de reclamar. É verdade que nessa casa não fiquei nem um pouco alérgica, contrariamente ao que aconteceu na “casa das aranhas”. Meus filhos também aprovaram a locação, que apelidaram de “a casa perfeita”. Aqui, as aranhas foram substituídas por moscas e a caça aos insetos pôde continuar, para grande alegria das crianças.

Estávamos no caminho entre a “casa perfeita” e nosso próximo airbnb quando o caçula buscou junto à irmã confirmação da evidência: somos uma família bizarra. A terceira casa que alugamos era mesmo bizarra. Ficava lá onde Judas perdeu as botas, logo após um charmoso vilarejo fantasma, na fronteira entre a Bretanha e a Normandie. O anúncio dizia que era perto de tudo, mas na verdade era longe de tudo. Tão afastado da civilização que não tinha internet e o telefone funcionava mal, com apenas um pauzinho de sinal, e somente quando colocado em cima da geladeira. A França estava desconfinada, mas sem querer demos um passo a mais no confinamento: além de não ver ninguém, perdi a possibilidade de conversar pelo WhatsApp e fazer aulas de yoga via Zoom. O jardim era imenso, embora arranjado com um gosto particular, com uma estrada de pedrinhas levando do portão até a entrada da casa e iluminado por antiquadas luminárias redondas que davam um ar kitsch à propriedade. Ao entrar tive a sensação de invadir o lar de uma vovozinha. Papéis de parede florais desbotados nos quartos, panos de prato e pesos de porta em forma de galinha na cozinha, cujas gavetas estavam abarrotadas com utensílios mais ou menos inúteis, sem mencionar as caixas de chá vazias usadas para fins decorativos e os bastões mergulhados em vidrinhos de perfumes espalhados em todos os cômodos. Essa casa era o contrário da anterior. No princípio, quis voltar para o catálogo funcional e minimalista da Ikea, mas depois me acostumei e até curti a casa, que as crianças nomearam “casa labirinto”, em função do longo corredor e das diversas portas, dentre elas duas permanentemente trancadas. Aqui tinha bastante pernilongo. Dessa vez até eu entrei na dança e me pus a matar os bichos, porque ninguém merece ficar todo picado.

Não sei se somos uma família bizarra, mas as férias foram sim bizarras. Normalmente, nessa época meu pai vem nos visitar e viajamos todos juntos para uma praia na Catalunha, nossa Meaípe. Esse ano, ele está longe dos netos num confinamento que se prolonga, a Espanha está reconfinando e nós não conseguimos pensar em nada melhor do quê alugar casas no mato via airbnb. Além de espaço para as crianças correrem longe dos vizinhos intolerantes, estávamos atrás de ar puro. A piada foi que nossa última destinação, nos confins do mundo, ficava no departamento onde os casos de covid explodiram na França, a Mayenne. Ri muito dessa ironia do destino, o marido um pouco menos.