O dia da marmota

Quando penso nas horas que passei em frente à televisão quando era criança, me sinto menos culpada em permitir que meus filhos assistam duas horas de desenho animado por dia durante o confinamento. Um dos filmes que vi muitas vezes, porque ele passava com frequência na sessão da tarde, foi “Feitiço do Tempo – O dia da marmota”.

Desde que o confinamento começou, penso nesse filme todos os dias. Acho que as pessoas da minha geração que cresceram no Brasil sabem de qual filme se trata, afinal, a sessão da tarde era uma instituição nacional. Talvez brasileiros mais novos que eu não tenham assistido O Dia do Feitiço, a programação devia mudar a cada dez anos. Pra quem não conhece, nesse filme o simpático Bill Murray interpreta um jornalista arrogante da cidade grande que vai cobrir uma festa do interior chamada “o dia da marmota”. Por algum motivo desconhecido ele fica preso nesse espaço-tempo que tanto despreza. Todos os dias o jornalista se levanta e constata que é o mesmo dia que recomeça.

Não é familiar? Há quase seis semanas eu acordo para o mesmo dia, que inclui cuidar de crianças, limpar a casa, catar brinquedos no chão, lavar roupa, cozinhar, conversar com o mesmo adulto e preencher uma declaração pra passear no mesmo lugar que fica a menos de 1 km da minha casa durante exatamente uma hora. Até meu filho de quatro anos já se cansou dos passeios no bosque: “mas a gente já foi lá ontem”, ele esbraveja, com uma lógica incontestável.

Passada a exasperação de descobrir que está vivendo o mesmo dia todos os dias, o jornalista se empenha em criar o dia perfeito; ele evita uma poça de lama onde antes afundava o pé todas as manhãs, por exemplo. Pois aqui é igualzinho. Cada dia mudamos um pouco a ordem das coisas, na esperança de um dia de confinamento com crianças senão perfeito, ao menos harmônico. As variáveis fixas são as refeições, a sesta e o banho. As móveis são o estudo, a televisão e o passeio no bosque. Tem dias em que liberamos a televisão das 11 às 13 horas, porque descobri um curso de yoga online maravilhoso nesse horário. Mas aí depois do almoço elas estão agitadas e demoram para fazer a sesta, o que atrasa o restante do dia. Resultado: vão pra cama tarde e nossas duas horinhas de liberdade vão pra cucuia. No dia seguinte mudamos a ordem dos fatores, mas continuamos insatisfeitos com o resultado. Concluímos que temos que tentar outra coisa. Todo dia é o dia da marmota.

O dia da marmota do filme só acaba depois que o jornalista egoísta e pretensioso se torna uma pessoa gentil e atenciosa, capaz de conquistar uma mulher que conheceu nesse dia eterno e pela qual se apaixonou. E o dia do confinamento, quando vai acabar? Li uma entrevista com um historiador em que ele declara que, se não podemos dizer que estamos vivendo uma guerra, o que significaria diluir o conceito ao ponto de esvazia-lo de seu sentido, estamos vivendo, de fato, uma temporalidade de guerra. Quando uma guerra começa, os governantes não dizem “essa guerra vai durar dez anos”, isso deixaria todo mundo em pânico. Eles pedem à população que façam um esforço durante quinze dias, que depois se transformam em meses e por vezes anos. Foi exatamente o que Macron fez, inclusive repetindo ostensivamente “estamos em guerra”, no seu primeiro pronunciamento. No último, ele anunciou um desconfinamento progressivo a partir do dia 11 de maio. Pessoalmente, não acredito que essa decisão inclua as escolas, ao menos não em todas as regiões da França. Professores e educadores estão pedindo garantias de segurança para a volta às aulas, e como garantir que crianças pequenas não corram umas nos braços das outras, não se embolem em brigas e brincadeiras? A verdade é que, nessas alturas do campeonato, não me surpreenderia se anunciassem que as aulas só vão recomeçar em setembro. À diferença do filme, o fim do meu dia da marmota não tem nenhuma relação com minha performance individual.

Ao mesmo tempo, o jornalista do filme também não sabia que se tornar uma pessoa melhor e ganhar o amor da moça quebraria o feitiço. Ele progrediu porque não havia outra coisa a se fazer, e também porque era a única forma de se divertir um pouco. Hoje, quando eu falei pro meu filho mais novo que ele não podia brincar com as pedrinhas do chão da praça por causa do coronavírus, ele replicou, irritado : “Não tem mais coronavírus, ele ficou com medo dos cavalos da polícia e foi embora”. E minha filha de sete anos, na hora do jantar, respondeu impaciente ao pai, depois dele ter explicado que o coronavírus se espalhou pelo mundo com as pessoas viajando de avião: “Então é simples, é só colocar o coronavírus no avião e mandar ele embora”.

Infelizmente, não tem cavalo, nem polícia, nem avião, nem cloroquina, nem fórmula mágica, nem amor correspondido que nos livre do coronavírus. Mas e se eu conseguisse transformar esse dia, que volta todos os dias, num dia absolutamente perfeito? Será que eu poderia então dizer sim à esse eterno retorno? Uma ambição mais modesta é evitar que a monotonia se transforme em melancolia. E para isso, só uma solução: brincar de buscar o dia perfeito.