Adeus Ano Velho

1° de janeiro de 2021. Mais um ano começa. Lembro quando eu era criança e o ano 2000 estava longe. A virada do milênio. Eu seria uma adulta, teria vinte anos! Me via linda e independente, morando sozinha num apartamento moderno e minimalista, ganhando dinheiro, dona do meu nariz, provavelmente jornalista. A humanidade faria coisas incríveis, talvez até haveriam carros voadores, como nos Jetsons. Que sorte eu tinha, completar 20 anos no ano 2000, pensava, maravilhada, enxergando na coincidência dos números um sinal de bom agouro.

Nem preciso dizer que aos vinte anos eu estava mais próxima da adolescência do quê da maturidade, certo aproveitando cada instante dos anos de faculdade, mas à anos luz da jovem adulta responsável e independente que eu imaginava criança. Minhas fabulações nunca chegaram ao ano 2020. Uma criança dificilmente pensa em si mesma aos quarenta anos. Ainda bem que não fiz projeções para esta idade, senão acho que teria me visualizado numa cadeira de balanço, lendo para os netinhos. Agora que cheguei aos quarenta, ainda me sinto menina, até hoje não entendi direito como as coisas funcionam. Os números são realmente muito enganadores.

Voltemos ao presente. 2020. Há um ano atrás achei esse número lindo. Dois patinhos seguidos por dois ovais, tão harmônico. Só poderia prenunciar coisas fluidas, agradáveis. O ano começou bem, comigo experimentando pela primeira vez o carnaval de Belo Horizonte. Porque quando o carnaval de BH começou a ficar bom eu já morava fora. Durante anos vi as fotos dos amigos nas redes sociais, ao mesmo tempo incrédula e louca de vontade de participar das celebrações pessoalmente. Eis que em 2020 as férias se alinharam com a data do carnaval. O marido e nossa filha mais velha voltaram para a França uma semana mais cedo, porque ele tinha que trabalhar e ela não queria perder sua primeira viagem com a escola. Eu fiquei pra trás com o pequeno, que estava com quase quatro anos. Pela primeira vez confiei o filhote ao meu pai sem culpa e fui pular carnaval, curtir os corpos suados, espremidos e eufóricos, tomar melzinho com cachaça oferecido por desconhecidos logo pela manhã, me deliciar com as fantasias, cada uma mais divertida e criativa do quê a outra. O Enzo teve direito a participar de um bloquinho comigo, até hoje ele fala disso. Sempre que falo do Brasil, ele fala do carnaval. Outro dia passamos na frente de umas mulheres de véu e um homem de turbante na rua e ele disse: “Mamãe, olha, o carnaval, igual no Brasil!”.

Mal sabia eu que aquele exagero de afeto, alegria e proximidade física estava com os dias contados. No voo de retorno algumas pessoas usavam máscara, o que me pareceu um exagero. Chegamos em Paris no mesmo dia que minha filha voltou da excursão. Uma ou duas semanas mais tarde, as escolas fecharam. O carnaval ficou parecendo um parêntese encantado, sonho de uma noite de verão. Um delírio cuja lembrança me nutriu em alguns momentos de tédio e quase desespero durante os meses que passei confinada num apartamento mal insonorizado de 70 metros quadrados com um marido de longa data e duas crianças pequenas.

Mas houve uma coisa bonita, quase emocionante, em 2020: sua capacidade de produzir consenso. O mundo inteiro, talvez pela primeira vez, concordou: foi um ano de merda! Bolsominions e esquerdopatas, empresários e artistas, brancos e pretos, crianças e idosos, primeiro e terceiro mundo, todos apressados em virar a folhinha do calendário, felizes por começar um ano novinho em folha, ainda que para alguns a esperança permaneça discreta, quase clandestina. Acho que esta coesão de ideias foi o verdadeiro milagre de 2020. 

Para mim, na verdade, o ano não foi tão ruim assim. No final do ano perdi uma tia, foi a parte mais triste de 2020, a maneira mais direta com que o Covid me tocou. Também fui enfurnada dentro de casa logo quando começava a botar as asinhas de fora, depois de sete longos anos me dedicando, senão exclusivamente, intensamente aos filhos. Mas fora isso tudo certo. Não perdi o emprego, pelo contrário, arrumei um trabalho. Instável, precário, mal pago… Mas pra quem está acostumada a trabalhar de graça, ou a pagar para trabalhar, tudo é lucro. Pesquisadores me entenderão. Para os outros, que não imaginam a pendenga que é a vida acadêmica, a dedicação imensa e a falta de reconhecimento quase tão importante, escreverei um post em outra ocasião. Também comecei a escrever este blog, espaço de respiração, entre outros pequenos projetos que tenho na manga. Não aproveitei do confinamento para me aproximar dos meus filhos – como duas francesas me confiaram, maravilhadas, explicando que até então trabalhavam tanto que mal conheciam os próprios rebentos – porque já cuidava bastante deles. Mas cheguei até aqui sem me tornar adepta da violência, o que em si já é uma façanha, como outra amiga me lembrou num dia em que lhe confessei estar me sentindo um fracasso como mãe. Brincadeiras à parte, li por aí as informações tristíssimas de que o maltrato infantil aumentou e o suicídio de menores de quinze anos dobrou na França este ano. 

2021 amanheceu gelado. Desde o começo da semana, estamos na casa de campo dos sogros, situada no norte da França. Ah sim, já ia me esquecendo: 2020 me permitiu desfrutar de alguns dias nesta casa sem os sogros! Foi o pequeno presente que o Corona me deu, já que como eles são idosos não podemos nos encontrar. Os sogros vieram pra cá durante a primeira semana de férias com minha cunhada e seus dois filhos, o marido negociou a segunda semana pra gente. Os filhos da cunhada também vão para a escola e ela trabalha fora, mas por algum motivo obscuro somos considerados mais contagiosos do quê eles. Não questionei, apenas abracei a oportunidade de esquivar um dia de natal inteiro na casa da sogra. Este ano, pela primeira vez desde que estou na França, fui dispensada das horas intermináveis sentada no lugar que me é atribuído na mesa natalina, onde entrada, prato principal, salada, queijos, bolos, frutas, café e chocolates se seguem uns aos outros, sem pausa para esticarmos as pernas. A comida é deliciosa, cozinhada pela sogra e acompanhada pelos vinhos do sogro, mas ao longo dos anos estes encontros se tornaram penosos para mim. Em algum momento cheguei a dizer à psicanalista que não queria mais participar dos eventos familiares; ela respondeu, como se fosse simples: “Você não é obrigada”. Acontece que detesto conflitos, jamais teria coragem de me ausentar do natal na casa dos sogros. Então agradeço à pandemia por ter me oferecido uma desculpa válida para passar o natal com os amigos. Estes sim, são minha família aqui.

Férias bizarras

“Não é verdade que somos uma família bizarra, Jasmim?”. Estávamos na estrada quando, do nada, meu filho de quatro fez essa pergunta para a irmã, três anos mais velha. Dias depois a voz infantil ainda ressoava na minha mente. O que terá feito a indagação surgir na sua cabecinha? Será que somos gente bizarra?

Até hoje não tive coragem de gastar dinheiro comprando móveis e moro numa casa onde caixas de plástico fazem as vezes de gavetas. Quando vou ao Brasil, fico encabulada ao entrar nos apartamentos das amigas da mesma idade. Elas me parecem tão mais adultas do que eu, com suas casas decoradas, empregadas e babás de uniforme. Será que é por isso que somos uma família bizarra? Pode ser também porque não nos casamos. Minha filha vira e mexe me pergunta a razão disso. Como explicar que pra mim casamento é apenas uma forma de tornar a separação mais burocrática? Talvez seja porque não temos carro e minha solução para levar os filhos à escola foi comprar uma patinete pra cada um, inclusive para mim mesma. É um dos melhores momentos do dia, além de saudável, econômico e ecológico, por que nos privar ?

Ao contrário do que meu filho constatou, de uns tempos pra cá tenho me sentido cada vez mais normal. É irônico: a bizarrice dos tempos pandêmicos está me transformando numa pessoa comum. Quando comentei com uma amiga mais velha que desde o confinamento estou com vontade de ter um carro e uma casa no campo, ela retrucou, dando risadas, que estou me aburguesando. Tive que concordar. Desde que a agência de locação de carros me deu um modelo superior ao que havíamos reservado, eu, que nunca dei valor pra essas coisas, ando sonhando com um carrão! Parece mentira mas é verdade: duas vezes depois de entrega-lo vi exatamente o mesmo carro, com a mesma placa, estacionado em frente ao meu prédio. Quais as chances disso acontecer? A primeira viagem que fizemos no começo do desconfinamento também me deixou querendo ter uma casa de campo. Durante três semanas alugamos uma casa antiga, renovada com bom gosto, respeitando a arquitetura da época e decorada com objetos encontrados em feiras de antiguidades. A percepção das crianças é mesmo muito diferente da nossa. Para eles, essa casa, que além de tudo tinha um jardim imenso que dava para um pasto de vacas, virou a “casa das aranhas”. A primeira vez que ouvi os filhos falando assim quase não acreditei, é tão redutor ! Mas foi isso que os marcou : as pequenas aranhas nos quartos e banheiros. Eles não sossegavam enquanto o marido não matava todas. Eu morria de dó, elas eram inofensivas, não havia a menor necessidade de eliminá-las. Mas esse virou o ritual macabro dos três antes de dormir.

Depois da “casa das aranhas” e das duas semanas de aulas entre o confinamento e as férias de verão, que recebi como um presente dos céus, alugamos outro carro. Dessa vez não houve upgrade, tive que me acomodar com o modelo abaixo do primeiro. Foi como viajar de classe econômica depois de ter voado de executiva. Mas o carrinho funcionou bem e nos levou sem problemas até nosso primeiro airbnb, uma casa sem charme, com um quintal pequeno e nenhuma vista. Dava pra ver que a proprietária renovou a casa com o intuito de alugá-la. Me senti como naquele filme, “Querida encolhi as crianças”, só que ao invés de nos perder no jardim, nós, seres minúsculos, circulávamos dentro de um catálogo da Ikea. Comentei isso com minha irmã no telefone, ela disse para eu parar de reclamar. É verdade que nessa casa não fiquei nem um pouco alérgica, contrariamente ao que aconteceu na “casa das aranhas”. Meus filhos também aprovaram a locação, que apelidaram de “a casa perfeita”. Aqui, as aranhas foram substituídas por moscas e a caça aos insetos pôde continuar, para grande alegria das crianças.

Estávamos no caminho entre a “casa perfeita” e nosso próximo airbnb quando o caçula buscou junto à irmã confirmação da evidência: somos uma família bizarra. A terceira casa que alugamos era mesmo bizarra. Ficava lá onde Judas perdeu as botas, logo após um charmoso vilarejo fantasma, na fronteira entre a Bretanha e a Normandie. O anúncio dizia que era perto de tudo, mas na verdade era longe de tudo. Tão afastado da civilização que não tinha internet e o telefone funcionava mal, com apenas um pauzinho de sinal, e somente quando colocado em cima da geladeira. A França estava desconfinada, mas sem querer demos um passo a mais no confinamento: além de não ver ninguém, perdi a possibilidade de conversar pelo WhatsApp e fazer aulas de yoga via Zoom. O jardim era imenso, embora arranjado com um gosto particular, com uma estrada de pedrinhas levando do portão até a entrada da casa e iluminado por antiquadas luminárias redondas que davam um ar kitsch à propriedade. Ao entrar tive a sensação de invadir o lar de uma vovozinha. Papéis de parede florais desbotados nos quartos, panos de prato e pesos de porta em forma de galinha na cozinha, cujas gavetas estavam abarrotadas com utensílios mais ou menos inúteis, sem mencionar as caixas de chá vazias usadas para fins decorativos e os bastões mergulhados em vidrinhos de perfumes espalhados em todos os cômodos. Essa casa era o contrário da anterior. No princípio, quis voltar para o catálogo funcional e minimalista da Ikea, mas depois me acostumei e até curti a casa, que as crianças nomearam “casa labirinto”, em função do longo corredor e das diversas portas, dentre elas duas permanentemente trancadas. Aqui tinha bastante pernilongo. Dessa vez até eu entrei na dança e me pus a matar os bichos, porque ninguém merece ficar todo picado.

Não sei se somos uma família bizarra, mas as férias foram sim bizarras. Normalmente, nessa época meu pai vem nos visitar e viajamos todos juntos para uma praia na Catalunha, nossa Meaípe. Esse ano, ele está longe dos netos num confinamento que se prolonga, a Espanha está reconfinando e nós não conseguimos pensar em nada melhor do quê alugar casas no mato via airbnb. Além de espaço para as crianças correrem longe dos vizinhos intolerantes, estávamos atrás de ar puro. A piada foi que nossa última destinação, nos confins do mundo, ficava no departamento onde os casos de covid explodiram na França, a Mayenne. Ri muito dessa ironia do destino, o marido um pouco menos.

Vamos passear no bosque, enquanto o Seu Lobo não vem

Escrevo essas linhas da casa que alugamos assim que chegamos em Paris, depois das três semanas que passamos no campo durante o confinamento. São mais de dez horas da noite e o marido acaba de pegar meu lugar no quarto ao lado das crianças. Até hoje elas não adormecem sozinhas…

Dez e meia. Mal escrevi o parágrafo acima e precisei retornar ao quarto das crianças. Elas estavam tendo uma briguinha chata, dessas em que cada um quer ser o último a falar alguma coisa, quando o pai perdeu a paciência e gritou. O caçula levantou da cama, dizendo que ia contar para a mamãe que o pai o xingou. O pai me chamou para eu xingá-lo também. Eu entrei no quarto e peguei o menininho que não parava de chorar no colo, numa tentativa de acalmá-lo. O marido me olhou possesso. A filha mais velha interveio: “Mamãe, no seu lugar eu xingava ele. Você está se deixando hipnotizar pelo choro do Enzo”. Minha filha de sete anos sempre foi mais lúcida do que eu… O marido saiu do quarto esbravejando, o pequeno não parava de chorar, queria que eu lavasse com água e sabão o machucado invisível que o pai fez na sua perna. Como não cedi, exigiu então mais uma historia. Eu já havia lido dois livros, não me imaginei abrindo outro. Acabei saindo do quarto. Agora eles estão sozinhos lá dentro com a porta fechada, a menina tentando dormir, o irmão me chamando, o marido ao meu lado dizendo: “você não vai”, e eu aqui pensando que nem depois das dez da noite consigo ter um minutinho para mim…

Outro dia na porta da escola encontrei uma conhecida que é divorciada e tem dois filhos mais ou menos da idade dos meus. Ela me disse que amou o confinamento, que foi a melhor fase da sua vida, que era maravilhoso acordar na hora que queria, não trabalhar e passar o dia inteiro com os meninos. Quando ouço essas coisas fico pensando que tem alguma coisa errada comigo, que desejei com fervor os oito dias de aulas das crianças antes dos dois meses das férias de verão, que aspiro por essas duas horinhas diárias para ler, escrever, falar no telefone, fazer qualquer coisa que não tenha nada a ver com crianças.

Ufa, o marido voltou para o quarto dos filhos, o Enzo se acalmou, acho que agora vai. Mais meia horinha deitado no chão lendo e elas dormem, com sorte até amanhã. Comprei um kindle que permite ler no escuro quando a mais velha ainda era bebê, para ficar ao lado dela sem sentir que estava perdendo tempo. Acabou virando um hábito, perdi a conta dos livros que li enquanto punha as crianças para dormir. Só para dar um exemplo, li Guerra e Paz inteiro deitada no colchão ao lado da cama dos filhos. Outro dia achei na estante um livro que tinha recomendado para o marido e me assustei com o calhamaço. Era o “A mulher foge”, do David Grossman, um dos livros que li no kindle enquanto esperava os anjinhos caírem no sono. Como li em português, o marido comprou a versão francesa. Não me dava conta do tamanho do objeto!

Agora ficou tarde, já estou com sono e me desviei completamente do que havia pensado escrever nesse post… Deixo então registrado que as crianças amaram as duas semanas de aulas depois do confinamento, que eu não fiz praticamente nada nesses dias, contrariando meu objetivo de ser produtiva, e que no primeiro dia de férias alugamos um carro e voltamos para o campo, porque criança precisa mesmo é de espaço. Não estamos muito longe de Paris, mas estamos aproveitando para visitar uma região que não conhecíamos, passear nas florestas, comprar produtos locais nas feiras dos diferentes vilarejos, enfim, viver a vidinha do campo francês em todo seu esplendor. Inclusive adquiri uma competência nova: tirar carrapatos. Descobri na farmácia um pequeno instrumento especial para tira-los sem que nos piquem, uma super invenção, fiquei me perguntando se existe isso no Brasil.

E assim vamos passeando no bosque enquanto a segunda onda do Covid não vem…  Tudo indica que virá. Acho que teremos que aprender a viver com esse vírus, a socializar à distância… que tristeza. O marido continua preocupadíssimo. Ele acompanha de perto as notícias, nada otimistas: o vírus realmente sobrevive no ar e deixa sequelas em que o teve, inclusive nos casos assintomáticos. Eu prefiro não pensar nisso. Já sofro com as notícias que me chegam do Brasil, onde ninguém sabe no quê acreditar, onde as pessoas que se confinam se sente impotentes e solitárias não só fisicamente, mas também na sua ação responsável. Onde os pretos e pobres continuam morrendo mais, agora não somente pelas mãos da policia, mas também pela ação do vírus. Onde os índios, quinhentos anos depois do descobrimento, são mais uma vez contaminados por uma doença externa, sem proteção, sem que a maior parte da sociedade se importe. Onde canalhas aproveitam da balbúrdia para aumentar o desmatamento e a destruição de tudo o que há de precioso no nosso país… E eu aqui, escrevendo sobre as dificuldades da maternidade, no conforto de uma casa de campo francesa.

Desconfinamento em família

Dia 19 de maio foi a data anunciada pelo meu sogro para que deixássemos a casa de campo familiar. Eles chegariam no dia seguinte. Estávamos felizes com a possibilidade de passar quase dez dias no campo e até surpresos que meus sogros não houvessem exigido que partíssemos dois ou três dias antes deles chegarem, para dar tempo aos eventuais vírus de morrerem. Eles estão em pânico com a epidemia, morrem de medo de morrer. O que pode se justificar pela idade, pois estão na casa dos setenta, e pelo fato do meu sogro ter diabetes e problemas cardíacos. Ele é médico e está muito consciente da própria vulnerabilidade.

Numa linha imaginária da apreensão em relação ao coronavírus, meus sogros e meu pai estão em extremos opostos. Quando ligo para meu pai no Brasil e peço que se cuide, ele me responde coisas como: “Se eu tiver que partir vou partir. Vou encontrar sua mãe, quem mandou ela me largar sozinho?”, ou ainda, “Minha filha, você já perguntou pro Google quantas pessoas nascem por dia? Eu perguntei e fiquei assustado. De vez em quando uma epidemia tem que vir e matar os velhos pra equilibrar”. Sei que em parte ele está me provocando, mas não de todo. Cresci ouvindo meus pais dizerem que a única coisa da qual temos certeza na vida é a morte, afirmando com naturalidade que não estariam sempre aqui para mim. O que não me preparou para a morte da minha mãe…

Voltando à família francesa, meu marido recebeu uma criação inversa da minha. Filho de médico, estava sempre a par dos casos esdrúxulos que só quem trabalha em hospital fica sabendo, como o menino de três anos que morreu engasgado com uma folha de alface, ou a criança que engoliu um amendoim errado e ele foi parar nos seus pulmões, dividido em ínfimos pedacinhos que precisaram ser arrancados um a um numa delicada cirurgia durante horas a fio. Resultado: até pouquíssimo tempo atrás meus filhos não tinham o direito de comer nenhum tipo de noz ou salada. Nem conto como foram minha gravidezes, durante as quais fui submetida à todas as proibições alimentares existentes e mais algumas. “Aplicamos o princípio de precaução máxima”, explicou o sogro, no tom solene que ele emprega quando está no personagem do médico. Não era apenas queijos não pasteurizados, como o camembert, ou carne e peixe cru que eu não o tinha direito de comer; queijos de massa dura mas não cozidos, como o comté que adoro, e o restaurante japonês inteiro me foram interditados. Certa vez, cansada das proibições do marido, entrei num japonês e encomendei um salmão cozido. Ele ficou histérico, prestes a chorar, porque o cozinheiro poderia ter cortado o salmão com a mesma faca usada para cortar os peixes crus.

Todo casal sabe como essas diferenças de criação podem ser conflituosas quando educamos nossos próprios filhos. Quando se é casado com um estrangeiro, as divergências são ainda maiores. Eu vivo me equilibrando entre a extrema prudência do marido e sua família e a descontração à beira da irresponsabilidade da minha. Quando os dois campos se encontram, nem traduzo certas coisas, eles não entenderiam mesmo. Nessas ocasiões é sempre minha opinião que sufoco, para agradar ou ao menos acalmar os ânimos.

Acho que agora dá pra entender melhor porque minha família e eu não podíamos coabitar na casa de campo com os sogros, a cunhada e seus dois meninos. Antes de viajarem juntos, eles fizeram um exame de sangue para terem certeza que não tiveram o coronavírus e não se contaminariam entre si. Como após essa longa semana no campo o marido e eu estávamos muito pesarosos de voltar para o apartamento com as crianças, decidimos usar o dinheiro economizado durante dois meses de confinamento para alugar uma casa nas proximidades. Se o dinheiro não serve para nos dar um pouco de conforto numa situação de crise sanitária, pra quê servirá, afinal? “Mas não devíamos guardá-lo para as férias de verão?”, ponderou o marido. Que férias de verão? Estou achando complicado me projetar nos próximos meses. Acho que o melhor nesse momento continua ser viver um dia após o outro, como os alcoólicos anônimos. “Mais um dia em que só vou conversar com o marido e os filhos” é menos enlouquecedor do quê “mais três meses…”.

Visitamos duas casas de campo na região e encontramos uma pequena mas bem organizada, aconchegante, mobiliada com objetos achados nas brocantes locais (nunca sei como traduzir “brocante”, são feirinhas muito comuns na França, onde particulares e profissionais vendem objetos usados e às vezes antigos). A casa tem um imenso jardim onde as crianças podem correr o dia todo e do outro lado da cerca pastam umas vacas que minha filha adora acarinhar. Mais bucólico impossível. Fica à um quilômetro da casa dos sogros. O marido estava com medo do seu pai levar essa iniciativa à mal. Mas ele contornou a situação um dia antes de nos mudarmos, se oferecendo para pagar nossa estadia na “casa nova”, como dizem meus filhos. O marido quis protestar, mas o sogro respondeu: “é normal, já que estamos com sua irmã e os filhos dela”. É verdade que eles vão ocupar a casa de campo da família até setembro.

Ontem passei de carro em frente à casa dos sogros e meus filhos começaram a gritar “papi, papi” quando viram o avô no jardim. Parei o carro e ele nos convidou pra descer. Pela primeira vez o fato do meu filho mais novo não querer dar beijinho para cumprimentar os avós franceses não foi um problema. O distanciamento social não é de todo ruim. Foi uma situação estranha, a principio fiquei em pé, depois a sogra me disse para assentar numa cadeira do jardim. A cunhada ficou investigando, queria saber exatamente onde fomos desde que chegamos no campo – em lugar nenhum, fora o supermercado, onde fui duas vezes sozinha. Os sogros pareciam até felizes em nos ver. A avó fez um comentário gentil sobre meu filho pela primeira vez, disse que ele havia crescido. Os pequenos respeitaram a distância a princípio, mas estavam eufóricas por encontrar outras crianças e rapidamente brincavam a menos de um metro umas das outras. Houve um desconforto. Por um lado, estamos confinados na região há duas semanas e podemos considerar que não representamos um risco para a família do marido. Por outro, se esse é o caso, por que não estamos na casa de campo com eles?

No dia seguinte, minha filha insistiu em voltar à casa dos avós, queria muito brincar com os priminhos. Como havíamos sido bem recebidos, atendi ao seu pedido. Dessa vez foi diferente, o ambiente era hostil. Meu filho mais novo levou uma pesada do primo na balança e a avó e a tia correram para acuar a criança chorando. Quando viram que era ele quem tinha se machucado, respiraram aliviadas e viraram as costas. Eles pareciam incomodados com nossa presença, ao ponto de eu me justificar por ter passado ali no fim da tarde. “Fomos nós quem dissemos pra vocês voltarem”, disfarçou a cunhada. Se eles não tivessem falado nada no dia anterior, eu não teria me aventurado a voltar…

Fiquei decepcionada, achei que em doses homeopáticas uma relação saudável com a família francesa seria possível. Comentei o acontecido com o marido, que ainda não foi ver os pais – nas duas vezes, ele aproveitou do raro momento sozinho pra estudar para um concurso. Ele respondeu: “Eles devem ter se sentido como depois que você transa sem camisinha”.

Deve ser. A França inteira está desconfinando, menos nós. E a família do marido é ainda mais louca do quê ele. Parece que já existe um nome para essa condição, uma síndrome parecida com a de Estocolmo, em que as pessoas não conseguem sair da quarentena e retomar relações sociais, ainda que respeitando todas as regras. Pouco importa. Bom mesmo é que pela primeira vez tenho a ocasião de estar no campo numa casinha que podemos chamar de nossa, onde não me sinto oprimida, culpada e sem lugar o dia todo. Como disse, o distanciamento social não é de todo mau.

11 de maio

Dia 11 de maio, a tão esperada data do desconfinamento na França, chegou e passou. Estava todo mundo ansioso, mal aguentando a espera. Era como vontade de fazer xixi: quanto mais perto chegávamos do objetivo, mais ela apertava. Lá em casa, estávamos elétricos. Gritando, brigando, pedindo desculpas, respirando pra acalmar e gritando de novo. Meus amigos que estavam confinados sozinhos também andavam meio enlouquecidos, achando difícil dar conta dos próprios fantasmas.

O marido e eu passamos a semana que antecedeu o desconfinamento preparando a evasão. Nosso filho menor está no primeiro ano do maternal e não tem data de voltar pra escola. Ontem mesmo recebemos uma mensagem da professora explicando que não sabe se a veremos antes de setembro. Ela está trabalhando na escola para os filhos de médicos e outras pessoas que têm o direito de retomar as aulas. Quando li sua descrição sobre como o retorno está acontecendo, fiquei feliz por poder continuar com meu filho em casa. Deve ser muito difícil para as crianças de quatro anos entenderem as regras que surgiram com o coronavírus. Nossa filha mais velha está matriculada em uma escola alternativa que de hábito já é suja. Não fiquei nem surpresa quando a diretora enviou um e-mail dizendo que eles não preenchiam os requisitos sanitários necessários para reabrir as portas. Alguns dias mais tarde a associação de pais também mandou uma mensagem, argumentando que esses requisitos vão contra a própria pedagogia da escola, que é baseada na experimentação e no compartilhamento. Decidiram então que a escola não vai fazer esforços para voltar a funcionar agora e que os filhos dos pais que precisam trabalhar serão acolhidos de forma voluntária por outras famílias da escola. Normalmente fico irritada com os bolos de poeira nas escadas da escola e os pais hippies que nas reuniões propõem coisas como ensinar os alunos a fazerem shampoo de farinha de grão-de-bico, mas fiquei orgulhosa com essa atitude. Também acho que a solidariedade entre famílias vale mais do quê a reabertura das escolas a qualquer custo. É de escolhas nesse sentido que precisaremos se de fato quisermos uma sociedade pós-pandemia renovada.

Continuaremos então cuidando das crianças em tempo integral até pelo menos setembro. Não vou dizer que não sofro nem um pouquinho com esse pensamento. Mas as coisas são o que são. Ao mesmo tempo, o marido e eu estávamos de acordo que tanto nós quanto as crianças teríamos um ataque de nervos caso continuássemos gritando “para de correr” cento e cinquenta vezes por dia, com o coração na mão cada vez que os pequenos se empolgam e fazem barulho, com ódio do vizinho que mandou a polícia na nossa porta logo no começo do confinamento. A extremidade da situação levou-o a uma decisão corajosa: ligou para o pai e reivindicou o direito de ir à casa de campo, que estava fechada há mais de dois meses. “E como vocês vão fazer com o carro?”, meu sogro perguntou. Explico: o carro que antes eles nos emprestavam está parado na garagem da casa de campo desde o verão passado. Foi a forma que a sogra encontrou para me punir quando ousei revidar os berros da sua filha preferida. Mas essa é outra história… “A gente aluga”, o marido respondeu. O sogro pediu dois dias pra pensar.

Na quinta-feira antes do desconfinamento ele nos deu a resposta: podemos usar a casa de campo até o dia 19 de maio, data em que ele irá para lá com a esposa, a filha preferida e seus dois filhos. O marido sabiamente decidiu que não era hora para orgulho ferido ou lavagem de roupa suja, deveríamos simplesmente aproveitar da oportunidade de desfrutar de uma casa espaçosa, sem vizinhos e com um jardim imenso para as crianças. Essa é uma coisa que preciso aprender com ele, sangue frio. Fiquei me perguntado o porquê da data precisa, 19 de maio, uma quarta-feira. Afinal, o sogro é aposentado, a sogra não trabalha e a cunhada está entre dois empregos. Mas o marido não arriscou perguntar. Não insisti, ele tem razão, em cavalo dado não se olha os dentes. Evocamos várias possibilidades: eles têm um exame médico em Paris antes do dia 19, ou estão nos enviando como cobaias para ver se conseguimos fazer a viagem sem problemas. Mas o mais provável, segundo o marido, é que seus pais nos deixaram ocupar a casa de campo agora para depois não podermos reclamar. Tudo indica que ficarão lá com a filha e os netos favoritos até a volta às aulas de setembro. Eu não gosto nem de pensar no que vamos fazer durante os quatro meses que ainda temos pela frente. Mas cada coisa no seu tempo.

Assim que tivemos a confirmação da casa começamos a nos organizar. Alugamos um carro no sábado para viajarmos na madrugada do dia 11, segunda-feira. Para buscar o carro, quebrei a regra do confinamento que impunha que não podíamos nos afastar mais de 1 km do domicílio e fui à pé até a agência. Essa caminhada, de máscara nas ruas desertas e debaixo de uma chuva fina, com medo de ser controlada pela polícia, foi a primeira vez que fiquei sozinha em mais de dois meses. Apreciei. Quando cheguei na Gare de Lyon, levei um susto. A estação de trem, que de hábito fervilha de gente e de movimento, estava cinza e despovoada, parecia cenário de filme pós-apocalíptico. Com custo achei o elevador que levava à agência de carros no quarto subsolo. Apertei o botão com nojo. Buscar o carro foi épico. Sou pior do quê domingueiro, não dirijo nem todos os meses. Meus óculos se embaçavam por cima da máscara e me deixavam mais desastrada do quê de costume. Deixei cair o cartão, a carteira e o álcool gel. Quando cheguei na vaga da garagem vi que o carro era imenso. Dei meia-volta e disse ao funcionário mal-humorado que não tinha a menor condição de eu dirigir aquilo. Os dois homens que faziam fila atrás de mim me olharam com raiva por eu aumentar seu tempo de espera e desprezo pela minha inabilidade. Me enchi de coragem e insisti para trocar de veículo. Depois, quando entrei no carro novo, que continuava grande para mim, não consegui ligá-lo. Fiquei uma meia-hora lá dentro até descobrir como fazer, estava fora de questão voltar e pedir ajuda. Pra completar, na saída do estacionamento, passei a um centímetro de uma pilastra cheia de tinta. Precisei parar e utilizar todas as técnicas de respiração que conheço para conseguir manobrar. O moço da agência tinha avisado que se arranhasse o carro deveria pagar 1400 euros por arranhão!

Domingo o marido caminhou até a casa dos pais para buscar a chave e de noite estava tudo pronto. Da janela vi várias pessoas enchendo os porta-malas. A partir do dia 11 poderíamos nos deslocar, mas só até 100 km do domicílio e a casa de campo fica a 240 km da nossa casa. Visivelmente não fomos os únicos que planejamos aproveitar da confusão das primeiras horas do desconfinamento para escapar. Às cinco da manhã, quando colocamos as crianças adormecidas nas cadeirinhas, uns três carros já haviam partido e outros se preparavam pra deixar Paris, tão ávidos por espaço e ar livre quanto nós. Na madrugada chuvosa e silenciosa, a saída da cidade estava cheia. Parecíamos famílias fugindo da guerra. Claro que não ouso me comparar com as pessoas que vivem de fato essa situação, mas a impressão era essa.

Às nove horas da manhã do dia 11 de maio chegamos na casa de campo dos sogros, de onde escrevo essas linhas. As crianças desceram do carro e foram correr no jardim, pareciam cachorro quando chega no sítio e solta a coleira. Meu filho mais novo me perguntou, maravilhado: “Mamãe, aqui eu posso encostar em tudo?”. “Sim filho, aqui você pode encostar em tudo”. “Obrigada mamãe, você é a melhor mamãe do mundo!”. Valeu a pena.