Confinados, desconfinados, desconfinados com toque de recolher, reconfinados, quase desconfinados, quase quase desconfinados, mais ou menos confinados com toque de recolher….

Assim está a vida na França desde que começou a pandemia. No começo eu seguia tudo direitinho. Como todos os franceses que conhecemos, eu e o marido nos assentávamos em frente à televisão no dia marcado, sempre às 20h, para escutar o Presidente falar. Na sequência ouvíamos os esclarecimentos feitos pelo Ministro da Saúde e, quando eu já tinha perdido a paciência e começado a fazer outra coisa, o marido ainda acompanhava as explicações das explicações fornecidas pelos jornalistas. Saíamos com regras precisas e outro encontro marcado, geralmente para dali a quinze dias. Assim, vivíamos de duas em duas semanas, na expectativa de saber se as regras seriam relaxadas ou, ao contrário, reforçadas, em função da evolução da doença em solo francês. Foi até bom as coisas se desenrolarem desta forma, porque se no começo de março Macron houvesse anunciado que as crianças ficariam em casa até setembro eu teria tido um troço. Aos pouquinhos, as más notícias que duram ficam mais fáceis de ser engolidas.

Progressivamente, o presidente anunciava as limitações de movimento às quais deveríamos nos sujeitar, as atestações que deveríamos preencher declarando sob compromisso de honra que tínhamos um bom motivo para colocar os pés na rua e quais motivos eram considerados legítimos para isso. As informações evoluíam à medida que o conhecimento sobre o coronavírus aumentava, ou na medida em que sua difusão convinha ao governo. No começo, por exemplo, quando ainda não havia máscaras na França, disseram-nos que elas não serviam para nada. Eram inclusive perigosas, verdadeiros ninhos de bactérias, sem falar nos riscos de contaminação ligados ao seu mau uso ou ao falso sentimento de proteção que criavam. Depois que os estoques encomendados pelo governo chegaram, as máscaras se tornaram fundamentais. Primeiro, fomos obrigados a usá-las em lugares fechados; depois, nas feiras e praças; por fim, em todos os lugares, inclusive na rua, no bosque e nas escolas para crianças acima de seis anos.

Em linhas gerais, ainda sei o que está acontecendo, ou melhor, o que estão exigindo de nós. Mas parei de acompanhar os anúncios do presidente de perto depois que li um grafite que resume tudo com bastante justeza: 

Travailler, consommer, se faire chier.

Em português: “Trabalhar, consumir, se entediar”. Como boa cidadã, todos os dias eu trabalho, consumo e me entedio. Também passo raiva com as crianças, repetindo mil vezes que é hora de escovar os dentes, tomar banho, arrumar o quarto, etc. Como disse para um amigo solteiro ao tentar explicar o clima aqui em casa, estamos parecendo uns ratos presos na gaiola. Mas quando penso que no Brasil as crianças estão sem ir à escola desde março, enquanto os comércios estão abertos e cada um faz o que lhe apetece, fico com vergonha de estar de saco cheio. Sinto que estou me transformando num desses parisienses rabugentos, que reclamam de tudo e não se dão conta dos privilégios que têm. 

Vou então focar nas coisas boas e anunciar a melhor notícia dos últimos meses: o vizinho malvado se mudou! Sim, isso mesmo, o vizinho malvado mudou de casa! Ele, o cachorrinho branco e a mulher que me disse “Estou pouco me fudendo” e “Eduque seus pirralhos” quando tentei explicar que o confinamento também era difícil para as crianças. Se escafederam, uhu!!! Saboreamos a notícia em etapas. Primeiro quando um vizinho contou para o Vincent que o malvado iria se mudar, mais de um mês atrás. Nos regozijamos timidamente, com certa reserva, não queríamos cantar vitória antes da hora, vai que era um mal-entendido. Uma ou duas semanas mais tarde Madame Khalil, a porteira redonda e sorridente do prédio, me interpelou no meio da rua e disse: “Madame Serfaty – ela me chama pelo sobrenome do Vincent, apesar de não sermos casados – o vizinho vai se mudar! Você vai respirar aliviada, Madame Serfaty!”. Madame Khalil estava radiante ao anunciar a boa nova. Tanto que fingi surpresa. Quando ela se foi, Jasmim comentou, atônita: “Mas mamãe, você já sabia!”. Pega no pulo, respondi: “Sim filhinha, eu já sabia, mas às vezes a gente dá de boba pra não estragar a alegria dos outros”. Ser mãe é errar na educação dos filhos…

No dia da mudança, a vizinha do segundo andar, a que aguentava as vassouradas inoportunas e raivosas do mal elemento, pois moramos no primeiro e ele morava no terceiro andar, me mandou uma mensagem de texto: “Você está vendo o que estou vendo?”. Sim, as crianças, o Vincent e eu passamos o dia admirando os móveis deslizarem pela estrutura metálica que ia do terceiro andar à calçada, desfilando em frente à nossa janela. Que espetáculo maravilhoso! Começara logo cedo, com o vizinho no telefone e um carro que estava estacionado em frente ao prédio sendo guinchado para não atrapalhar a mudança. Era assim que este indivíduo resolvia seus problemas, ligando para a polícia.

Dois dias mais tarde, Jasmim, Enzo e eu voltávamos do supermercado cantando a musiquinha que virou hit aqui em casa desde o dia da mudança quando cruzamos Madame Khalil na rua novamente. A musiquinha, de autoria minha e da Jasmim, diz assim: 

Ce jour béni où le voisin est parti 

On en a rêvé, ce jour est arrivé.

Em português perdemos a rima, mas os versos dizem: « O dia abençoado em que o vizinho partiu; sonhamos com este dia e ele chegou”. Madame Khalil deu risadas ao ouvir nosso canto : “Ah Madame Serfaty, agora você vai respirar. A gente ouvia vocês gritando com as crianças e pensava ‘coitadinhos, são apenas crianças’. Agora você vai respirar Madame Serfaty, agora vocês façam o que quiserem”. Madame Khalil acrescentou que quando a vizinha bateu na sua porta para anunciar que estavam se mudando para o Sul e pedir que guardasse suas encomendas, ela se negou: “Foi a primeira vez que recusei guardar os pacotes de um morador em mais de trinta anos, Madame Serfaty. Mas depois do que eles fizeram com vocês, eu não ia fazer esse favor pra eles”.

Este segundo encontro com Madame Khalil me deixou dividida. Por um lado, fiquei tocada com sua gentileza e cumplicidade. Madame Khalil é uma matriarca tunisiana cuja presença sempre me confortou. Apesar de mantermos a distância imposta pelas normas de convívio parisienses, temos estima uma pela outra. Quando, alguns anos atrás, eu estava sozinha, muito gripada e cuidando de dois bebês igualmente doentes, foi na porta dela que eu toquei e em seguida caí no choro, porque já eram duas da tarde, eu ardia em febre e em casa não havia comida nem antitérmicos para mim mesma. Por outro, fiquei incomodada ao saber que todos os moradores do prédio nos ouvem gritar. O imóvel foi construído em 1910 e é realmente mal insonorizado, pela manhã eu acordo com o alarme do telefone da vizinha de cima. Mas esta fala aumentou minha sensação de viver em um reality show. “O que os vizinhos vão pensar?”. Sempre detestei este raciocínio, que associo à um modo de vida medíocre e conivente, mas agora me pego não somente pensando assim, como também dizendo isto às crianças. Só me resta cantar Elis, de preferência bem alto para o prédio todo ouvir: “Minha dor é perceber, que apesar de termos feito tudo, tudo o que fizemos…”. 

Vem chegando o verão, um calor no coração

Segunda-feira as crianças voltaram às aulas. Sim, domingo, 14 de junho, o presidente anunciou em rede nacional que na semana seguinte todas as crianças retornariam à escola, obrigatoriamente. Escutei essas palavras com um misto de alívio, alegria, surpresa e consternação. As primeiras sensações são óbvias, estava com os filhos desde o começo de março e não via a hora de ter um tempinho para cuidar da minha própria vida. Surpresa porque eu não imaginava mais que uma volta às aulas fosse possível, duas semanas antes das férias de verão. Já havíamos inclusive marcado um piquenique de despedida com a turma da minha filha. E consternação porque sabia que os diretores, professores e demais funcionários das escolas estavam tomando conhecimento da volta às aulas, com caráter obrigatório, ao mesmo tempo que a gente!

Minha filha e eu acolhemos a notícia com alegria. O mesmo não pode ser dito do meu filho de quatro anos. Ele ficou grudado em mim durante toda a quarentena e não estava com pressa de reganhar um pouco de autonomia. Tentou de tudo pra não ir pra escola. “Mas tem o coronavírus”, foi seu primeiro argumento. Como não funcionou, declarou que estava doente e “as crianças doentes não vão pra escola”. Depois avisou, já nervoso, que tinha um cartaz na porta da escola falando que é proibido ir à aula. Por fim, prometi levar um kinder ovo com surpresa para o lanche. O rapazinho, que é chocólatra, não resistiu. Sou contra essa tática de recompensa, ainda mais com um produto industrial cheio de açúcares, mas o tempo estava passando e ele se recusava a pôr roupa. Eu não podia correr o risco dele perder um dos oito dias de aula antes dos dois meses de férias.

Assim que fiquei sabendo que as aulas retomariam, anulei o Airbnb que tínhamos reservado para o final de junho. A volta do campo para a cidade, da casa com jardim para o apartamento com vizinhos, foi tão radical que mal colocamos os pés aqui, começamos a procurar outra casa no mato para alugar. O sentimento de voltar para uma metrópole classificada “zona vermelha” do covid após semanas confinados com as vacas fica claro na experiência de uma amiga. Ela, o marido e os dois filhos correram para a casa de campo tão logo o presidente anunciou o começo do confinamento, em março, antes que o impedimento de nos afastarmos mais de um quilômetro do domicílio entrasse em vigor. Ficaram em quarentena durante dois meses e meio até que, por motivos profissionais, precisaram voltar. Ao chegar desceram do carro e, enquanto tiravam as malas do bagageiro, a filha de sete anos correu para digitar o código de entrada do prédio. A mãe falou para a menina tirar a mão dos botões, o que ela fez, levando os dedos instantaneamente à boca. A ideia dos coronavírus indo dos imundos botões ao interior da criança enlouqueceu minha amiga, que agarrou os bracinhos da menina e a sacudiu, berrando e chorando ao mesmo tempo. “Tive uma crise de nervos. Explodi como não explodia há anos, desde antes de ser casada, desde antes de ter filhos”, ela me contou, virando-se em seguida para a filha e pedindo perdão mais uma vez.

O marido e eu também sentimos essa apreensão quando chegamos em Paris. A princípio foi quase chocante ver tantas pessoas na rua, no metrô, no bosque, no supermercado. Gente de máscara, gente sem máscara, gente usando a máscara abaixo do nariz, abaixo do queixo ou dependurada em uma orelha. Gosto de observar a criatividade das máscaras de tecido, suas diferentes formas e cores. Mas vejo também muitas máscaras descartáveis. Essas me dão nervoso, principalmente desde que li que levam 400 anos para se decompor. Difícil acreditar que a natureza vai sair ganhando com a pandemia.

O desconfinamento traz sentimentos antagônicos. Por um lado, temo uma segunda onda da doença e me sinto segura quando vejo as pessoas de máscara. Ontem mesmo li que 88% das mortes por covid19 na França poderiam ter sido evitadas caso as pessoas tivessem usado máscara desde o princípio. Por outro, quero festejar a chegada do verão e o fim da epidemia, passear pelas ruas respirando livremente. Adotei um meio termo: uso a máscara nos comércios e transportes, mas não na rua. Confesso que algumas vezes esqueci a máscara em casa e fiz compras sem… Numa dessas vezes, como tinha acabado de lavar as mãos e tenho eczema nos dedos, hesitei em usar o álcool gel disponível na entrada do supermercado (antes um segurança colocava o gel na palma das mãos de cada pessoa que entrava. Agora é responsabilidade de cada um fazê-lo). Enquanto ponderava se limparia ou não as mãos novamente, uma moça passou na minha frente e entrou, apressada. O velhinho atrás de mim resmungou: “ela não usa máscara e não lava as mãos!”. Percebi o medo no comentário dele e passei o gel, envergonhada por estar sem a máscara…

Nesses primeiros dias de verão, oscilamos entre normalidade e tempos de epidemia. Às vezes relaxamos um pouco e em seguida nos arrependemos. O desconfinamento tem sabor doce-amargo. Aos poucos estou revendo os amigos. À distância, sem beijinhos nem aperto de mãos. Progressivamente. Primeiro conversei com um conhecido que cruzei no bosque, de longe. Depois almocei na varanda de um restaurante com uma amiga, tomando cuidado para que nossas cadeiras não ficassem muito próximas. No dia seguinte aceitei um convite para jantar na casa de outra amiga. E amanhã festejo meus quarenta anos com um pé dentro e outro fora da quarentena.

O marido está se desconfinando ainda mais vagarosamente do que eu. Estamos juntos há quinze anos e temos dois filhos. Essa semana ele tinha um trabalho difícil para fazer, então resolvi agradá-lo. Como precisava passar as máscaras de tecido, tirei do fundo do armário a mesa de passar roupa, presente da sogra, claro, e me ofereci para passar uma camisa. Estava toda orgulhosa passando a camisa de linho branca quando meu filho chamou. Fui ajudá-lo e expliquei o que ele me perguntou com paciência, me sentindo uma excelente mãe e esposa. Quando voltei para a mesa de passar, encostei o ferro quentíssimo na camisa preferida do marido e senti o cheiro de queimado. Levantei o ferro e vi duas imensas marcas marrons! Desnecessário dizer que a camisa foi direto para o lixo. Dois dias mais tarde quis agradá-lo novamente, dessa vez para o seu aniversário. Fiz um bolo e, como ele lê muito, decidi comprar um livro. Contei para a livreira que estava procurando um presente para uma pessoa que aprecia autores como Philip Roth, Jim Harrisson e Jonathan Frazen. Ela respondeu que tinha o livro perfeito e me propôs uma autora inédita. Folheando o livro rapidamente vi que, na orelha, a escritora era comparada à Roth e Frazen. Foi o suficiente para me convencer. Comprei sem ao menos saber do que se tratava a história, crente que o marido adoraria a descoberta. Ele rasgou o embrulho satisfeito e começou a ler a contracapa em voz alta: “Rachel Fleishman larga Toby Fleishman, depois de quinze anos de vida comum e dois filhos. Mas como Toby pode aceitar uma vida de pai solteiro quando pensava viver com a esposa até a morte?”. Quase morri, parecia piada de mau gosto. “Tem certeza que você não escondeu uma faca no livro?”, ele perguntou, enquanto ríamos da trapalhada. Acho que vou deixar essa ideia de agradar o marido pra lá. É como querer ser uma boa mãe, sempre dá errado.