Terceiro confinamento

Dia 18 de março a região parisiense iniciou seu terceiro confinamento. O que para mim não alterou muita coisa, principalmente porque as escolas permaneceram abertas. Quando soube que nos reconfinaríamos em poucos dias, corri para o cabelereiro; meu cabelo já estava sem corte e mais não sei quantos meses sem apará-los me aproximaria da imagem de quarentona desleixada que ainda busco evitar. Há mais de um ano não faço as unhas nem a sobrancelha, mas tudo bem, na França este tipo de cuidado não é visto como essencial para a maioria das mulheres. Acontece que sou filha de uma mineira extremamente feminina e vaidosa, que cuidava muito bem do corpo e frequentava o salão todas as semanas, religiosamente. Ela me transmitiu essa preocupação. Quando fico sem depilar, por exemplo, tenho pesadelos onde todos observam minhas canelas peludas, a aflição é a mesma dos sonhos em que ando descalça na rua suja. É uma das minhas contradições, já que sou feminista e acredito que a depilação é uma das muitas formas de violência exercidas sobre as mulheres. Como a socialização primária é forte, já no primeiro confinamento comprei um depilador elétrico pela Amazon. Pronto, acabo de revelar outra das minhas fraquezas… Ontem mesmo li coisas terríveis sobre as condições de trabalho dos funcionários da Amazon, para não mencionar seus efeitos pérfidos para o comércio local.

No dia em que o terceiro confinamento começou, passei em frente ao cabelereiro e me surpreendi, ele continuava aberto. De volta pra casa, fiz uma busca na internet e descobri que neste confinamento todos os comércios considerados não-essenciais fecharam as portas mas, ao contrário dos precedentes, cabelereiros, floricultores, livrarias, lojas de disco e chocolatarias poderiam continuar funcionando. O Macron está sempre dizendo que aprendeu com a experiência do primeiro confinamento para criar as regras dos próximos. Esta pequena lista das lojas que obtiveram permissão para continuar abertas diz bastante sobre os hábitos franceses. No meu bairro, o que mais tem é cabelereiro, farmácia, padaria, floricultura e loja de chocolate, mais ou menos nesta ordem.

Anunciado numa quarta-feira, o terceiro confinamento começaria na segunda. Na sexta-feira anterior, único dia da semana em que não dava aulas, saí do cabeleireiro e corri para a loja de brinquedos, porque sábado era aniversário da minha filha mais velha e terça do caçula – eles têm exatos três anos e três dias de diferença. A moça do caixa me disse que há dois dias parecia natal, tamanha a afluência de pais e avós comprando brinquedos para ocupar os pequenos. Ao ver Jasmim abrindo seus presentes, no sábado, Enzo abriu a boca a chorar: “Eu não vou ganhar presente de aniversário porque estamos confinados e as lojas de brinquedo estão fechadas”, ele balbuciou entre dois soluços.

Foi o segundo ano seguido que meus filhos comemoraram o aniversário na quarentena. Ano passado sopramos as velinhas só nós quatro mesmo. Este ano fiquei com dó. No sábado de manhã propus à Jasmim convidar duas amiguinhas para lanchar em casa. O Enzo, sempre atento, logo avisou: “Eu também vou convidar dois amiguinhos”. E assim fizemos. A prolongação da epidemia nos fez perceber que precisamos sim, tomar cuidado, mas é preciso criar alguns espaços de respiração, aceitar que não podemos controlar tudo. No começo da pandemia, por exemplo, um segurança ficava na porta do supermercado colocando álcool gel na mão de todo mundo que entrava. Agora, o vidro de gel fica disponível ao lado porta, ninguém fica vigiando para saber se estamos respeitando os protocolos. Aqui em casa, há muito tempo não lavamos mais as compras quando voltamos do supermercado, mas continuamos lavando as mãos sistematicamente e várias vezes ao dia. Quer dizer, vamos encontrando um equilíbrio entre o comportamento ideal para evitar o vírus e o possível para manter a sanidade mental. Convidar dois amiguinhos para cada aniversário foi uma ótima saída, as crianças ficaram ultra felizes e talvez tenham se divertido mais do quê nas festas com muitas crianças.

Quando disse que o terceiro confinamento não mudou muito minha rotina foi porquê, além dele ser mais flexível do quê os outros, também ganhamos algumas liberdades. Desde janeiro estávamos com um toque de recolher às 18h, este confinamento nos fez ganhar uma hora, agora podemos ficar na rua até às 19h. Outra bizarrice do novo confinamento: as aulas de natação da escola da minha filha, que estavam canceladas desde o começo do ano letivo, em setembro, recomeçaram. O presidente anunciou que durante este confinamento poderíamos ficar fora de casa o tempo que quiséssemos, num raio de dez quilômetros da residência. Num primeiro momento quiseram reinstalar as declarações, onde cada um atesta sob honra que tem um bom motivo para estar na rua e assina embaixo; mas depois, dando-se conta do absurdo, senão ridículo, da exigência, voltaram atrás. O léxico utilizado para definir nossa situação é aleatório e inapropriado. Toque de recolher, confinamento, desconfinamento… Entendi que não dá para levar os termos ao pé da letra e parei de seguir os anúncios governamentais. Agora me contento em verificar na internet o que podemos ou não fazer quando bate a dúvida.

Durante mais ou menos duas semanas após o início do terceiro confinamento parisiense, desfrutamos das nossas pequenas liberdades, mas sabíamos que a epidemia ganhava terreno na França e corríamos o risco das escolas fecharem novamente. Não demorou para começar a circular nos grupos Whatsapp mensagens onde os pais compartilhavam o medo de ficar com os filhos em casa 24h por dia, 7 dias por semana. Eles se reasseguravam mutuamente, argumentando, por exemplo, que o governo francês se orgulha de ser o país europeu que manteve as portas das escolas abertas durante mais tempo desde o começo da crise sanitária.

Mas seu fechamento era iminente. Já haviam decidido que bastava uma criança infectada para fechar a sala. Na terça dia 30 de março, todos os alunos da escola dos meus filhos fizeram um teste salivar, com exceção daqueles cujos pais se recusaram a autorizar o teste. Foi o caso da mãe de uma amiga de Jasmim que me explicou, sem corar, que caso sua filha fosse positiva ela teria que ficar em casa, e isso não era admissível. Fiquei surpresa com o raciocínio, mas não discuti, há tempos desisti de dialogar com a ignorância. De toda forma, estávamos certos de que na quinta a escola não abriria, a maior parte das crianças fez o teste e parecia óbvio que ao menos uma em cada sala seria positiva. A professora da Jasmim chegou a fazer uma aposta com os alunos: se ninguém tivesse Covid eles ganhariam dois pacotes de balas. Quarta, dia 31, Macron anunciou que nosso confinamento local passaria a ser nacional e que todas as escolas da França fechariam as portas, a partir de segunda, por três semanas. Quinta, contra todas as expectativas, Jasmim e Enzo foram para a aula, nenhum caso positivo fora detectado nas salas deles. “Aproveitem ao máximo os dois dias de escola”, os pais escreveram nos grupos Whatsapp, solidários. Segui o conselho e avancei meu trabalho. Sobretudo, aproveitei para preparar nossa evasão. Nunca mais passo outro confinamento no apartamento com os anjinhos. Domingo de Páscoa metemos o pé na estrada. Cenas para o próximo capítulo. Nele contarei também os últimos episódios com a sogra, que ainda estou digerindo.

Vida chata

Hoje recebi uma mensagem de uma amiga perguntando como estão as coisas por aqui. Respondi sem pensar: “A vida está bastante chata, mas fora isso tudo bem”. Arrependi na hora, Polyanna ficaria decepcionada comigo… Minha amiga estava sendo atenciosa, eu poderia ter sido mais gentil. Quer dizer, para um francês não há nada errado com minha resposta. Mas a amiga talvez não esteja familiarizada com as réplicas diretas e mal-humoradas dos parisienses; espero que não me leve a mal… Lembro quando minha mãe estava viva e me levava ao salão assim que eu botava os pés no Brasil, para darmos um jeito nas minhas unhas, pelos e cabelos, todos bastante negligenciados para os padrões mineiros. Ela quase morria de vergonha quando eu reclamava do atraso das cabelereiras ou dizia sem firulas o que pensava dos tratamentos que elas me propunham, às vezes coisas esdruxulas como “alongamento de cílios”. 

Mas voltemos à “vida chata” que estou levando. Pra começar, estamos no meio do inverno e esta época do ano é sempre chata. O inverno parisiense não tem nenhum charme, o céu alterna tons de branco e cinza, garoa quase o tempo todo, não faz frio o suficiente para as casas serem bem isoladas e os franceses insistem em se vestir de maneira elegante e pouco prática. Resultado: você está sempre com frio. Percebi a diferença quando fui para Nova York num mês de fevereiro. Fazia muito mais frio do quê aqui, mas as pessoas usavam uns casacos que as deixavam parecendo o boneco da Michelin, os interiores das casas eram bem aquecidos, o sol brilhava, o céu era azul e a neve deixava tudo lindamente decorado de branco. Aqui sequer neva. Quer dizer, nevou hoje pela segunda vez este inverno. Nas duas vezes a neve caiu durante umas quatro horas, o que é sempre um deleite para o olhar, mas na sequência caiu uma chuva fina que fez com que ela se transformasse numa lama marrom e escorregadia, levando embora toda a poesia e deixando só a parte desagradável da coisa. 

Pra piorar, esta é a época do ano em que os amigos postam fotos de praias paradisíacas, todos de biquíni, bronzeados e felizes, tomando água de côco, contemplando o mar ou esticando os pés pra fora da rede. Aí a frustração de não estar no Brasil fica quase insuportável. Normalmente em dezembro começo a sonhar, literalmente, que estou na praia. Aguento firme porque sei que no mais tarde em fevereiro desembarcarei no meu país tropical. Mas este ano não sei quando conseguiremos viajar… O marido hipocondríaco declarou que só depois que estivermos vacinados. Hein? Como assim? Parece que a França é um dos países com a campanha de vacinação mais lenta da Europa e eu estou longe de ser uma pessoa prioritária. Sem falar nas variantes do Covid que já chegaram por aqui, ainda nem sabemos se a vacina será ou não eficaz para contê-las. Por hora prefiro não discutir, mas já vai fazer um ano que estive no Brasil pela última vez e não acho que dou conta de esperar muito mais do quê isso. A saudade cresce à medida que o tempo passa e agora já está ficando forte demais da conta, uai.

Voltemos à questão das variantes. Um dia anunciaram que já havia um caso da variante inglesa na França, menos de duas semanas depois 1% das contaminações por Covid em solo francês eram da tal variante inglesa. O bichinho é rápido, talvez seja mais mortal, talvez afete mais as crianças, talvez… É o retorno da incerteza que parecia nos deixar com a chegada da vacina. Incerteza que se reflete nas nossas ações, coletivas e individuais. A França continua sendo muito mais organizada do quê o Brasil na gestão da pandemia, o que não quer dizer muita coisa, mas existem várias zonas confusas. Por exemplo, as escolas estão abertas mas as atividades extraescolares fechadas. As atividades extraescolares estão fechadas mas os conservatórios estão abertos. Os conservatórios estão abertos e as aulas de teatro voltaram a ser presenciais, mas as de dança continuam acontecendo à distância. Mais exemplos: até o último ano do segundo grau a escola funciona, mas as faculdades estão fechadas. As faculdades estão fechadas mas as “classes préparatoires”, que também correspondem ao nível universitário, estão abertas. A terapeuta do marido continua recebendo, a minha declarou que as sessões serão pelo telefone durante tempo indefinido.

Fazer sessões de terapia pelo telefone, praticar yoga pelo zoom, dar aulas pelo skype, estar com as crias em casa antes do toque de recolher às 18h…  A vida está mesmo chata, não dá pra responder outra coisa sem mentir. Nem as conversinhas com os pais das crianças na porta da escola, único momento de socialização do meu dia, estão mais acontecendo. As pessoas estão com medo de conversar umas com as outras, mesmo através das máscaras e com mais de um metro de distância entre elas. Aliás, anunciaram que as máscaras caseiras de pano não protegem da variante inglesa, somos todos encorajados a usar a descartável. Ainda não me rendi, não estou com a menor vontade de compactuar com mais esta catástrofe ambiental.

Por aqui estamos à espera de um terceiro confinamento. Soube por fonte segura, mas na verdade isso não existe, que dia 8 de fevereiro haverá um novo lockdown. Enquanto ele não chega, ontem aproveitamos para almoçar com os amigos. Não fazíamos isso desde o natal, decidi que esta era a sociabilidade mínima necessária para suportar o próximo período isolados. Dois casais desistiram de participar do almoço na última hora, confesso que achei bom, já éramos seis adultos e várias crianças, estava de bom tamanho. Tomei cerveja, comi vaca atolada e até arrisquei cantar, mesmo desafinando, porque não é todo dia que tem uma roda com violão por aqui. Mas quando deu 17h o marido estava tenso, tínhamos que voltar antes do toque de recolher e três jovens chegaram na festinha. Fui embora contrariada, mas feliz por ter escapado, pelo menos durante o tempo de uma tarde, da chatice que a vida cotidiana virou. 

Confinados, desconfinados, desconfinados com toque de recolher, reconfinados, quase desconfinados, quase quase desconfinados, mais ou menos confinados com toque de recolher….

Assim está a vida na França desde que começou a pandemia. No começo eu seguia tudo direitinho. Como todos os franceses que conhecemos, eu e o marido nos assentávamos em frente à televisão no dia marcado, sempre às 20h, para escutar o Presidente falar. Na sequência ouvíamos os esclarecimentos feitos pelo Ministro da Saúde e, quando eu já tinha perdido a paciência e começado a fazer outra coisa, o marido ainda acompanhava as explicações das explicações fornecidas pelos jornalistas. Saíamos com regras precisas e outro encontro marcado, geralmente para dali a quinze dias. Assim, vivíamos de duas em duas semanas, na expectativa de saber se as regras seriam relaxadas ou, ao contrário, reforçadas, em função da evolução da doença em solo francês. Foi até bom as coisas se desenrolarem desta forma, porque se no começo de março Macron houvesse anunciado que as crianças ficariam em casa até setembro eu teria tido um troço. Aos pouquinhos, as más notícias que duram ficam mais fáceis de ser engolidas.

Progressivamente, o presidente anunciava as limitações de movimento às quais deveríamos nos sujeitar, as atestações que deveríamos preencher declarando sob compromisso de honra que tínhamos um bom motivo para colocar os pés na rua e quais motivos eram considerados legítimos para isso. As informações evoluíam à medida que o conhecimento sobre o coronavírus aumentava, ou na medida em que sua difusão convinha ao governo. No começo, por exemplo, quando ainda não havia máscaras na França, disseram-nos que elas não serviam para nada. Eram inclusive perigosas, verdadeiros ninhos de bactérias, sem falar nos riscos de contaminação ligados ao seu mau uso ou ao falso sentimento de proteção que criavam. Depois que os estoques encomendados pelo governo chegaram, as máscaras se tornaram fundamentais. Primeiro, fomos obrigados a usá-las em lugares fechados; depois, nas feiras e praças; por fim, em todos os lugares, inclusive na rua, no bosque e nas escolas para crianças acima de seis anos.

Em linhas gerais, ainda sei o que está acontecendo, ou melhor, o que estão exigindo de nós. Mas parei de acompanhar os anúncios do presidente de perto depois que li um grafite que resume tudo com bastante justeza: 

Travailler, consommer, se faire chier.

Em português: “Trabalhar, consumir, se entediar”. Como boa cidadã, todos os dias eu trabalho, consumo e me entedio. Também passo raiva com as crianças, repetindo mil vezes que é hora de escovar os dentes, tomar banho, arrumar o quarto, etc. Como disse para um amigo solteiro ao tentar explicar o clima aqui em casa, estamos parecendo uns ratos presos na gaiola. Mas quando penso que no Brasil as crianças estão sem ir à escola desde março, enquanto os comércios estão abertos e cada um faz o que lhe apetece, fico com vergonha de estar de saco cheio. Sinto que estou me transformando num desses parisienses rabugentos, que reclamam de tudo e não se dão conta dos privilégios que têm. 

Vou então focar nas coisas boas e anunciar a melhor notícia dos últimos meses: o vizinho malvado se mudou! Sim, isso mesmo, o vizinho malvado mudou de casa! Ele, o cachorrinho branco e a mulher que me disse “Estou pouco me fudendo” e “Eduque seus pirralhos” quando tentei explicar que o confinamento também era difícil para as crianças. Se escafederam, uhu!!! Saboreamos a notícia em etapas. Primeiro quando um vizinho contou para o Vincent que o malvado iria se mudar, mais de um mês atrás. Nos regozijamos timidamente, com certa reserva, não queríamos cantar vitória antes da hora, vai que era um mal-entendido. Uma ou duas semanas mais tarde Madame Khalil, a porteira redonda e sorridente do prédio, me interpelou no meio da rua e disse: “Madame Serfaty – ela me chama pelo sobrenome do Vincent, apesar de não sermos casados – o vizinho vai se mudar! Você vai respirar aliviada, Madame Serfaty!”. Madame Khalil estava radiante ao anunciar a boa nova. Tanto que fingi surpresa. Quando ela se foi, Jasmim comentou, atônita: “Mas mamãe, você já sabia!”. Pega no pulo, respondi: “Sim filhinha, eu já sabia, mas às vezes a gente dá de boba pra não estragar a alegria dos outros”. Ser mãe é errar na educação dos filhos…

No dia da mudança, a vizinha do segundo andar, a que aguentava as vassouradas inoportunas e raivosas do mal elemento, pois moramos no primeiro e ele morava no terceiro andar, me mandou uma mensagem de texto: “Você está vendo o que estou vendo?”. Sim, as crianças, o Vincent e eu passamos o dia admirando os móveis deslizarem pela estrutura metálica que ia do terceiro andar à calçada, desfilando em frente à nossa janela. Que espetáculo maravilhoso! Começara logo cedo, com o vizinho no telefone e um carro que estava estacionado em frente ao prédio sendo guinchado para não atrapalhar a mudança. Era assim que este indivíduo resolvia seus problemas, ligando para a polícia.

Dois dias mais tarde, Jasmim, Enzo e eu voltávamos do supermercado cantando a musiquinha que virou hit aqui em casa desde o dia da mudança quando cruzamos Madame Khalil na rua novamente. A musiquinha, de autoria minha e da Jasmim, diz assim: 

Ce jour béni où le voisin est parti 

On en a rêvé, ce jour est arrivé.

Em português perdemos a rima, mas os versos dizem: « O dia abençoado em que o vizinho partiu; sonhamos com este dia e ele chegou”. Madame Khalil deu risadas ao ouvir nosso canto : “Ah Madame Serfaty, agora você vai respirar. A gente ouvia vocês gritando com as crianças e pensava ‘coitadinhos, são apenas crianças’. Agora você vai respirar Madame Serfaty, agora vocês façam o que quiserem”. Madame Khalil acrescentou que quando a vizinha bateu na sua porta para anunciar que estavam se mudando para o Sul e pedir que guardasse suas encomendas, ela se negou: “Foi a primeira vez que recusei guardar os pacotes de um morador em mais de trinta anos, Madame Serfaty. Mas depois do que eles fizeram com vocês, eu não ia fazer esse favor pra eles”.

Este segundo encontro com Madame Khalil me deixou dividida. Por um lado, fiquei tocada com sua gentileza e cumplicidade. Madame Khalil é uma matriarca tunisiana cuja presença sempre me confortou. Apesar de mantermos a distância imposta pelas normas de convívio parisienses, temos estima uma pela outra. Quando, alguns anos atrás, eu estava sozinha, muito gripada e cuidando de dois bebês igualmente doentes, foi na porta dela que eu toquei e em seguida caí no choro, porque já eram duas da tarde, eu ardia em febre e em casa não havia comida nem antitérmicos para mim mesma. Por outro, fiquei incomodada ao saber que todos os moradores do prédio nos ouvem gritar. O imóvel foi construído em 1910 e é realmente mal insonorizado, pela manhã eu acordo com o alarme do telefone da vizinha de cima. Mas esta fala aumentou minha sensação de viver em um reality show. “O que os vizinhos vão pensar?”. Sempre detestei este raciocínio, que associo à um modo de vida medíocre e conivente, mas agora me pego não somente pensando assim, como também dizendo isto às crianças. Só me resta cantar Elis, de preferência bem alto para o prédio todo ouvir: “Minha dor é perceber, que apesar de termos feito tudo, tudo o que fizemos…”. 

Reconfinados

Eu sabia que não escrevo há um tempão, mas levei um susto quando vi que meu último post data do início de agosto. Ele falava sobre meus sentimentos de fim do mundo. Depois disso não tive mais o que dizer. O mundo não acabou, mas o assunto sim.

Quer dizer, às vezes até tive vontade de compartilhar alguma coisa. Como o dia em que contei para a sogra que iria começar a dar aulas na faculdade e ela respondeu: “Aos quarenta anos, já estava passando da hora de começar a trabalhar”. Cheguei a pegar o ar para responder que comecei a trabalhar aos dezessete anos, dando aulas de inglês em Belo Horizonte, e desde então nunca parei; que o pós-doutorado é o primeiro emprego do jovem doutor; que, contrariamente a quem tem contratos de trabalho clássicos, nunca beneficiei de licença maternidade; que meu filho tinha três semanas e chorava para amamentar nos braços do pai do lado de fora enquanto eu me apresentava diante de um júri de vinte e cinco pessoas, em um dos concursos mais difíceis da França. Mas engoli e não repliquei. Sabia que se começasse eu não ia conseguir me controlar, decerto terminaria em drama. Foda-se, ela que pense o que quiser. Nem sei porque quis anunciar esta pequena conquista para a família do marido.

A verdade é que já resolvi a relação com a sogra comigo mesma. Ela não me faz mais raiva o suficiente para me motivar a escrever. O que me trouxe de volta para a frente do computador, apesar do cansaço e da vontade de aproveitar que as crianças enfim dormiram para assistir uma série no netflix, foi o dia surreal que passei hoje. Todas as coisinhas que de vez em quando tenho vontade de escrever, mas não o faço por preguiça ou procrastinação, se uniram em um só dia estranho e cheio de simbolismos. Um dia que minha sogra acharia normal.

A manhã começou comigo levando minha filha de sete anos para a escola de máscara. Sei que a máscara é necessária, mas às vezes me sinto quase claustrofóbica ao perceber que estamos todos com o nariz e a boca tampados. Como quando o metrô para lotado dentro do túnel, entre duas estações. Nessas horas respiro fundo, invoco minha racionalidade e afasto a palavra “focinheira” da mente repetindo um mantra. Ver todas as crianças de máscara a caminho da escola foi triste. Pensar que elas teriam que respirar por debaixo do tecido o dia todo, inclusive durante o recreio, me perguntar se as orelhinhas de Jasmim ficariam doloridas por causa do elástico, imaginar as risadas e gritinhos abafados… cortou meu coração. Deixei minha menina no portão da escola com a promessa de que dali iria direto comprar máscaras bonitas, porque até agora só tínhamos a máscara infantil azul distribuída pela prefeitura no começo do confinamento. Até cedi quando ela me pediu uma máscara de oncinha, me lembrando, pertinentemente, que meu estilo não é o estilo dela.

Normalmente pego um ônibus para voltar pra casa, mas o fato de estarmos novamente confinados me deu vontade de caminhar. É um pouco mais longo, mas assim eu aproveitaria da minha atestação de deslocamento “levar as crianças na escola” para passear. Como da primeira vez, precisamos preencher atestações indicando, sob compromisso de honra, o motivo legítimo que nos permite colocar os pés na rua. Na realidade, esse confinamento com a escola aberta não muda muito minha rotina. Desde o toque de recolher, decretado umas duas semanas atrás, eu já havia renunciado às saidinhas noturnas, que de toda forma raramente aconteciam mais do quê uma vez na semana. E meus alunos já estavam tendo aulas online há algum tempo. Mas o confinamento me trouxe essa urgência de caminhar. Fiz bem, é outono e o bosque está lindo, todo em tons de marrom, vermelho, laranja e amarelo. 

Quando cheguei ao supermercado para comprar as máscaras infantis, constatei, sem surpresa, que não sobrara nenhuma nas estantes, repletas até poucos dias atrás… Aproveitei para fazer umas comprinhas no andar de cima, onde encontramos tudo o que não é comida, como roupas, livros, maquiagem e brinquedos. Explico: semana passada o Macron anunciou um confinamento cheio de exceções. Por exemplo, o comércio estará fechado, mas as lojas de departamento que vendem ferramentas ou materiais de escritório permaneceriam abertas. Uma das características da França são suas pequenas livrarias independentes. Parece que aqui é o país europeu com o maior numero de livrarias por habitantes. No dia seguinte à declaração do presidente, recebi um e-mail da livraria do meu bairro anunciando que iria resistir. Ela não foi à única, em todo o país as livrarias argumentaram que cultura também é um bem essencial, e que não era justo que supermercados e grandes lojas como a Fnac fossem autorizadas a abrir, enquanto eles eram obrigadas a fechar as portas. Um novo confinamento as levaria à falência. Ao invés de permitir a reabertura das livrarias, o governo decidiu fechar todos os outros comércios não alimentares a partir de amanhã. O que é bizarro é que a caça está liberada. Será que os nobres morreriam de fome se não pudessem mais montar em seus cavalos para matar os animais da floresta?

Chegando em casa mal tive tempo de pôr as coisas em ordem, arrumar as camas, lançar o lava-louças, lançar a máquina de lavar roupas, e já estava na hora da minha consulta. Dessa vez não me dei ao trabalho de fazer uma atestação. O centro de radiologia fica literalmente do outro lado da rua, achei mais simples olhar para os lados, me certificar que não tinha nenhum policial à vista e dar uma corridinha até o portão da frente. Recentemente a ginecologista disse uma das frases mais deprimentes que já ouvi na vida: “Agora que você fez quarenta anos, vai precisar fazer mamografia”. Quem já passou por isso sabe como é ruim ter seus peitos esmagados por uma máquina grande, cinza e fria. Quem ainda não chegou lá descobrirá por si mesma. Digo apenas que senti vergonha dos meus seios pequenos, ridiculamente achatados e espremidos para o raio-X. E pateticamente declarei ao médico calado e sem graça que examinava meu exame que, ao todo, amamentei meus filhos durante mais de quatro anos. Como se precisasse provar que, embora modestos, meus peitos são eficazes. 

O restante do dia correu bem. Me permiti uma sessão de duas horas de yoga pelo Zoom e dei duas horas de aula de metodologia na sequência, dessa vez pelo Skype para empresas. Aqui também, só quem passou pela experiência de falar durante horas diante da tela do computador, sem que nenhum estudante coloque sua câmera de vídeo, apesar dos meus protestos, entenderá o que estou falando. Para os demais, explicarei essa experiência singular em outro post.

Nos últimos trinta minutos da aula o marido chegou em casa com as crianças. Devo dizer que os filhotes entenderam que não podem me incomodar quando estou trabalhando, fiquei inclusive surpresa com o respeito deles. Quando acabei Jasmim veio me contar que a professora lhes falou sobre Samuel Paty, “um homem que foi assassinado porque mostrou uma caricatura na sala de aula”, nas suas palavras. Ela também me explicou que a França é um país onde as pessoas tem o direito de se expressar. Tendo dito isso, correu para o quarto e foi fazer caricaturas de toda a família. Graças a deus, a professora não explicou os detalhes do homicídio. Mas durante a janta Jasmim perguntou: “Mamãe, você sabe o que aconteceu com ele?”. Respondi que sim, mas não lhe diria. Ela tentou adivinhar: “Cortaram a cabeça dele!”, declarou, com os olhos arregalados e um sorriso sapeca, como se fosse óbvio que isso não acontecera, como se tal coisa não pudesse passar de uma provocação infantil divertida de tão absurda. Mudei de assunto. O que trouxe um pouco de delicadeza para a conversa foi outra coisa que ela disse ter aprendido na escola : “os três símbolos da França, liberdade, igualdade e maternidade”. 

Para coroar o dia o marido foi dormir no sofá, porque estou me sentindo doente e ele não quer se arriscar. Pior, ficou de cara feia porque eu não estou usando máscara dentro de casa. Quando disse que iria escrever isso no blog, Vincent deu três cambalhotas no sofá. Foi seu protesto contra a imagem de chato ranzinza que faço dele aqui. Tive que rir.

E depois?

Quando ultrapassamos os quarenta dias de confinamento, parei de contar. O tempo se tornou elástico, um chicletes recém mascado grudado na sola do sapato. Todo dia é domingo, ou segunda, ou terça… pouco importa. Mas acho que não foi isso o que me fez parar de contar. Simplesmente perdi a expectativa da contagem regressiva. Quando chegarmos à meia-noite, não haverá fogos de artifício, nem beijo na boca, nem abraço apertado, nada disso. Haverá máscaras descartáveis, distanciação social e medo da epidemia voltar mais forte.

Daqui a exatamente uma semana chegaremos no 11 de maio, data anunciada por Macron para começar o “desconfinamento”. As escolas reabrirão suas portas. Anseio por isso desde os primeiríssimos dias da quarentena. Volta às aulas = voltar a ter algumas horas por dia para cuidar dos meus próprios interesses. Em tempos normais as férias já me parecem longuíssimas, confinada com crianças e marido num apartamento sem quintal e com vizinhos intolerantes então nem se fale. Para mim, era óbvio que meus filhos voltariam pra escola assim que possível. Quando o marido deu a entender que talvez seria mais prudente mantê-los em casa mesmo após o 11 de maio não dei bola, certa de que ele estava exagerando, determinada a não deixar suas ansiedades interferirem nos meus planos.

Até que recebi as mensagens do prefeito e da escola anunciando como acontecerá a volta às aulas. Não serão aceitas mais de quinze crianças por sala. Cada turma chegará e partirá num horário determinado, para limitar o contato com outros alunos. Dentro da sala de aula, cada criança deverá ficar num quadrado vermelho de um metro traçado no chão. Cada criança deverá usar seu próprio material escolar. Se por acaso as crianças tocarem em materiais alheios, eles deverão ser desinfetados imediatamente. Os professores e todos os profissionais da escola deverão usar máscaras. A cantina não funcionará, cada criança deverá levar sua própria refeição e comê-la em cima da sua carteira dentro do seu quadrado. Não haverá recreio. Os pais não poderão entrar na escola. E por aí vai.

Tínhamos até hoje para indicar se nossos filhos retornarão ou não à escola segunda que vem. Depois do banho de realidade que tomei lendo a mensagem do prefeito, não tive dúvidas, vou ficar com as crianças em casa até o próximo ano letivo, em setembro. Foda-se se vou continuar gritando “parem de correr” cinquenta vezes por dia, em vão e com o coração na mão por causa dos vizinhos; foda-se se vou continuar me agachando cento e cinquenta vezes por dia pra catar brinquedos pelo chão – a propósito, ontem uma amiga me disse uma das coisas mais certas que já ouvi: “arrumar casa com criança dentro é igual escovar os dentes comendo bolacha”. Foda-se se o confinamento me pegou em plena conversão profissional, pra não dizer crise existencial, e até agora não sei o que vou fazer quando tudo isso acabar.

Parece que 65% dos franceses afirmaram que não vão mandar os filhos pra escola dia 11. Essa informação me foi dada por um amigo colombiano que encontrei por acaso no bosque. Ele estava morto de rir, como quem diz “esses franceses são mesmo loucos”. Gosto muito desse amigo, ele está sempre de bom humor, apesar de ser casado com uma russa que parece carregar o peso do mundo nos ombros. Mas quando ele disse isso fiquei dividida. Por um lado lamentei ter perdido essa leveza. Por outro, achei que a ficha dele simplesmente não caiu.

A maior parte das pessoas ao meu redor está preocupada com o aumento do risco de contágio que a volta às aulas representa. São mais pragmáticas do que eu. O que realmente me angustia é pensar nas crianças voltando pra escola dessa forma. Mesmo explicando muito, acho que ao menos para os meus, que ainda tem quatro e sete anos, a distância entre a escola que está na cabecinha deles e da qual eles sentem falta e essa nova forma de escolaridade será, no melhor dos casos, frustrante. No pior, traumatizante.

E a escola é apenas uma ilustração de todo o resto. Como será o mundo pós-covid19? Será que os abraços apertados que damos no Brasil, ou os beijinhos que os franceses dão no rosto pra se cumprimentar, estão condenados? Quais dos novos hábitos que estamos adquirindo ficarão com a gente? Os bons ou os ruins? Espiritualistas e ambientalistas afirmam o lado bom da pandemia, insistem na guinada positiva que a humanidade está sendo obrigada a dar. Quero muito acreditar nisso, mas quando vejo as máscaras e luvas descartáveis jogadas no chão no meio do bosque penso que nada mudou, nem mudará. Isso pra não falar na tristeza que invade meu coração cada vez que leio uma notícia sobre como o governo está lidando com a pandemia no Brasil.

Outro dia, andando na rua, minha filha perguntou: “mamãe, o que é apocalipse?”. Senti um aperto no peito. Onde ela ouviu isso? Por alguns instantes fui tomada pela superstição: pronto, ela está sentindo o que está acontecendo. Me controlei e perguntei, como quem não quer nada: “Por que, filha?”. Está escrito ali, ela respondeu, apontando para o letreiro de uma loja de sapatos. A loja fica no quarteirão da minha casa e eu nunca havia percebido que ela se chama Apocalipse. Respirei aliviada. Espero que eu esteja me alarmando inutilmente, que algo de bom realmente emerja depois do tsunami. Meu marido leu que a quarentena impediu que 11.000 pessoas morressem vítimas da poluição na Europa. Ouvi dizer também que um dos buracos da camada de ozônio se regenerou. Termino então com essas boas notícias, mesmo se devo confessar que brincar de Polyanna está ficando complicado.

Seis semanas

Hoje faz seis semanas que o confinamento foi decretado na França. Agora estamos à espera de um pronunciamento do governo para sabermos como o desconfinamento, anunciado para o dia 11 de maio, será realizado. Esse me parece um bom momento para fazermos um bilan, como dizem os franceses. Em outras palavras, para nos perguntarmos onkotô e proncovô.

Já escrevi aqui sobre minha frustração com os objetivos alcançados durante o confinamento. Não consegui completar a faxina da primavera, não me revelei uma chef da gastronomia e ainda não alcancei o dia perfeito. Diz o ditado que é com o andar da carruagem que as melancias se ajeitam. Eu achava que no máximo em duas semanas elas estariam todas encaixadinhas umas nas outras. Ao que tudo indica, a quarentena não se contenta em nos obrigar a desacelerar. Na sua repetição, ela mostra que mesmo as coisas mais simples têm seu tempo de maturação e que esse tempo não pode ser forçado.

Não estou mais falando das melancias, mas das mudanças interiores. Quem se descobriu mais sereno, ou mais explosivo, do que pensava? Quem foi forçado a ficar mais próximo dos filhos e apreciou a oportunidade? Quem já era muito próximo dos filhos e agora, que está nos limites da fusão, decidiu mandar a educação positiva à merda e resolveu que gritos e castigo são a melhor forma de pedagogia? Quem redescobriu porque está com a pessoa que está e já planeja coisas que antes não ousava, como comprarem uma casa juntos? Quem, ao contrário, está contando os dias pra correr pro escritório do advogado e entrar com a papelada do divórcio? Quem está fazendo tanta yoga que está quase se autointitulando guru? E quem fazia yoga uma vez por semana e sem os cursos presenciais decretou que bom mesmo é relaxar com uma taça de vinho?

Eu, pessoalmente, descobri que TPM, educação positiva e casamento harmonioso são uma mistura tão impossível que nem sei como consegui escrever essas palavras na mesma frase. Não teria ficado surpresa se o computador tivesse explodido! Mas confirmei também o que me nutre e me permite encontrar serenidade, senão ao longo de todo o dia, durante alguns instantes todos os dias. Da mesma forma que testo o que funciona melhor no planejamento do dia, vou testando o que funciona na organização das minhas emoções. Algumas vezes me sinto uma fraude. Outras, acho que estou bem. E assim vou, ajustando e reajustando, ajustando e reajustando, buscando o equilíbrio interno ao mesmo tempo em que arrumo, pela milésima vez, o quarto dos filhos.

Certa vez uma monja compartilhou comigo um sonho que ela teve. Nesse sonho, ela pedia para sua mestre lhe mostrar Deus. Em resposta, a mestre lhe indicava um armário perfeitamente arrumado. A monja acordou do sonho irritada, era uma pessoa muito bagunceira e não era esse o tipo de ensinamento que esperava de um mestre espiritual. Com o passar dos anos foi entendo melhor a mensagem e, quando me contou essa historia, já estava completamente convencida. Eu me sinto mais feliz quando o apartamento está limpo e arrumado. É como se a casa respirasse, e eu com ela. Por isso acho que faz sentido relacionar as três coisas: esforço para manter o espaço, o cotidiano e as emoções organizadas.

Ao mesmo tempo em que não vejo a hora do confinamento acabar e mandar as crias pra escola, para enfim me dedicar aos meus projetos profissionais, algo em mim grita: ainda não é tempo! Durante a quarentena, a estação mudou e não tive tempo de guardar os casacos de inverno e tirar os vestidos do fundo do armário. Não tive tempo de selecionar os livros que não são mais da idade das crianças para doá-los. Não tive tempo de decidir se já posso dar os xerox dos textos que usei para escrever meu doutorado e nunca mais abri. Mas não deve ser só isso, afinal, poderei fazer todas essas coisas muito mais tranquilamente quando não tiver duas crianças pulando em cima de mim. E se, na verdade, for eu que ainda não estiver pronta pra sair do casulo? E se a transformação ainda não houver sido concluída? Não corro o risco de me espatifar no chão, como uma lagarta abortada? Será que a parte em mim que reluta em deixar os dias de marmota pra trás se chama medo? Não medo do vírus. Talvez deveria, mas não estou muito preocupada com isso. Medo da incompletude, das coisas inacabadas. Ao mesmo tempo, o que nesse mundo é completo? Uma rosa. Um ovo. Algo mais?

O dia da marmota

Quando penso nas horas que passei em frente à televisão quando era criança, me sinto menos culpada em permitir que meus filhos assistam duas horas de desenho animado por dia durante o confinamento. Um dos filmes que vi muitas vezes, porque ele passava com frequência na sessão da tarde, foi “Feitiço do Tempo – O dia da marmota”.

Desde que o confinamento começou, penso nesse filme todos os dias. Acho que as pessoas da minha geração que cresceram no Brasil sabem de qual filme se trata, afinal, a sessão da tarde era uma instituição nacional. Talvez brasileiros mais novos que eu não tenham assistido O Dia do Feitiço, a programação devia mudar a cada dez anos. Pra quem não conhece, nesse filme o simpático Bill Murray interpreta um jornalista arrogante da cidade grande que vai cobrir uma festa do interior chamada “o dia da marmota”. Por algum motivo desconhecido ele fica preso nesse espaço-tempo que tanto despreza. Todos os dias o jornalista se levanta e constata que é o mesmo dia que recomeça.

Não é familiar? Há quase seis semanas eu acordo para o mesmo dia, que inclui cuidar de crianças, limpar a casa, catar brinquedos no chão, lavar roupa, cozinhar, conversar com o mesmo adulto e preencher uma declaração pra passear no mesmo lugar que fica a menos de 1 km da minha casa durante exatamente uma hora. Até meu filho de quatro anos já se cansou dos passeios no bosque: “mas a gente já foi lá ontem”, ele esbraveja, com uma lógica incontestável.

Passada a exasperação de descobrir que está vivendo o mesmo dia todos os dias, o jornalista se empenha em criar o dia perfeito; ele evita uma poça de lama onde antes afundava o pé todas as manhãs, por exemplo. Pois aqui é igualzinho. Cada dia mudamos um pouco a ordem das coisas, na esperança de um dia de confinamento com crianças senão perfeito, ao menos harmônico. As variáveis fixas são as refeições, a sesta e o banho. As móveis são o estudo, a televisão e o passeio no bosque. Tem dias em que liberamos a televisão das 11 às 13 horas, porque descobri um curso de yoga online maravilhoso nesse horário. Mas aí depois do almoço elas estão agitadas e demoram para fazer a sesta, o que atrasa o restante do dia. Resultado: vão pra cama tarde e nossas duas horinhas de liberdade vão pra cucuia. No dia seguinte mudamos a ordem dos fatores, mas continuamos insatisfeitos com o resultado. Concluímos que temos que tentar outra coisa. Todo dia é o dia da marmota.

O dia da marmota do filme só acaba depois que o jornalista egoísta e pretensioso se torna uma pessoa gentil e atenciosa, capaz de conquistar uma mulher que conheceu nesse dia eterno e pela qual se apaixonou. E o dia do confinamento, quando vai acabar? Li uma entrevista com um historiador em que ele declara que, se não podemos dizer que estamos vivendo uma guerra, o que significaria diluir o conceito ao ponto de esvazia-lo de seu sentido, estamos vivendo, de fato, uma temporalidade de guerra. Quando uma guerra começa, os governantes não dizem “essa guerra vai durar dez anos”, isso deixaria todo mundo em pânico. Eles pedem à população que façam um esforço durante quinze dias, que depois se transformam em meses e por vezes anos. Foi exatamente o que Macron fez, inclusive repetindo ostensivamente “estamos em guerra”, no seu primeiro pronunciamento. No último, ele anunciou um desconfinamento progressivo a partir do dia 11 de maio. Pessoalmente, não acredito que essa decisão inclua as escolas, ao menos não em todas as regiões da França. Professores e educadores estão pedindo garantias de segurança para a volta às aulas, e como garantir que crianças pequenas não corram umas nos braços das outras, não se embolem em brigas e brincadeiras? A verdade é que, nessas alturas do campeonato, não me surpreenderia se anunciassem que as aulas só vão recomeçar em setembro. À diferença do filme, o fim do meu dia da marmota não tem nenhuma relação com minha performance individual.

Ao mesmo tempo, o jornalista do filme também não sabia que se tornar uma pessoa melhor e ganhar o amor da moça quebraria o feitiço. Ele progrediu porque não havia outra coisa a se fazer, e também porque era a única forma de se divertir um pouco. Hoje, quando eu falei pro meu filho mais novo que ele não podia brincar com as pedrinhas do chão da praça por causa do coronavírus, ele replicou, irritado : “Não tem mais coronavírus, ele ficou com medo dos cavalos da polícia e foi embora”. E minha filha de sete anos, na hora do jantar, respondeu impaciente ao pai, depois dele ter explicado que o coronavírus se espalhou pelo mundo com as pessoas viajando de avião: “Então é simples, é só colocar o coronavírus no avião e mandar ele embora”.

Infelizmente, não tem cavalo, nem polícia, nem avião, nem cloroquina, nem fórmula mágica, nem amor correspondido que nos livre do coronavírus. Mas e se eu conseguisse transformar esse dia, que volta todos os dias, num dia absolutamente perfeito? Será que eu poderia então dizer sim à esse eterno retorno? Uma ambição mais modesta é evitar que a monotonia se transforme em melancolia. E para isso, só uma solução: brincar de buscar o dia perfeito.

Pollyanna

Hoje acordei às cinco da manhã com uma palavra em mente: Pollyanna. Não me lembro se cheguei a ler esse livro, mas me lembro da minha mãe citando essa menina durante toda a minha infância. Para quem não conhece, Pollyanna é uma órfã pobre capaz de se alegrar em todas as situações. Sua brincadeira preferida é o jogo do contente, que consiste em ver o lado bom de absolutamente tudo. Por exemplo, se minha memória não falha, quando Pollyanna pede uma boneca no natal e ganha muletas, ela fica feliz por não precisar usá-las.

Pois bem, hoje eu estava disposta a brincar de Pollyanna confinada. Me pareceu uma boa ideia escrever um post sobre isso, após o texto um pouco sombrio que publiquei ontem. Aí o dia foi acontecendo. Pra começar as crianças acordaram super cedo, pouco tempo depois de eu ter conseguido adormecer novamente. Três semanas atrás era uma luta tirá-los da cama. Punha musiquinha, fazia o café da manhã preferido, às vezes gritava, tudo para terminar correndo pelas ruas e chegar ao portão da escola no último minuto do segundo tempo. Agora que não tem urgência nenhuma, muito pelo contrário, os danadinhos acordam com as galinhas, como se não quisessem perder nem um minuto dos nossos dias de quarentena.

No supermercado, meia hora após a abertura, já tinha fila, do lado de fora, porque estão limitando o número de pessoas lá dentro. Todos de máscara menos eu, que ainda me pergunto onde conseguiram comprar essas máscaras… todos com cara de poucos amigos, respeitando a distância mínima de 1,5 metros entre si. Tudo bem, até aí nada anormal, dentro da anormalidade que estamos vivendo. Ao entrar, uma novidade: o segurança, alto e forte como em geral são os seguranças, colocava um pouco de álcool gel nas mãos de cada pessoa que entrava. O álcool gel dele era cor-de-rosa e vinha em um frasco da Minnie. Ri comigo mesma. Nas compras, uma coisa ruim e outra boa: as prateleiras de farinha continuavam vazias, mas consegui comprar um pacote de garrafas de leite, que estava em falta há dias. Pollyanna chegou em casa feliz com esse começo de manhã.

Em meio aos comentários sobre os textos que publiquei aqui, todos eram gentis, apenas um agressivo. Pollyanna ainda estava ganhando, embora um pouco incomodada. O filho pequeno, de quatro anos, teve alguns acessos de raiva durante o dia, inclusive um bastante difícil, em que jogou tudo no chão, mas a grande, de sete anos, tinha anunciado logo cedo que iria se esforçar para ser boazinha o dia todo e estava cumprindo sua promessa. O balanço continuava positivo, apesar do stress emocional.

Depois da sesta assistimos juntos um lindo filme do Studio Ghibli (fica a dica pra quem tem crianças e Netflix em casa) e chegou a hora do nosso passeio no bosque. À essas alturas do campeonato Pollyanna estava com a corda toda. Minha filha inventou uma brincadeira em que ela era um bebê tigre branco e eu uma menininha que o encontrava perdido na floresta e durante todo o passeio vivemos as aventuras dos amigos inseparáveis, até que no final ele encontrou seus pais e a história acabou.

Estávamos fazendo uma coroa de margaridinhas nos dez minutos restantes, Pollyanna ficaria orgulhosa se nos visse, quando um carro parou ao nosso lado e a policial anunciou: vão pra casa, o bosque está fechado desde as 15h por tempo indeterminado. Meus olhos se encheram de lágrimas. Lá se vai nosso pequeno privilégio, lá se vai o momento reconfortante do dia, lá se vai o luxo de escutar os pássaros e observar as árvores se abrindo em flor nesse começo de primavera…

Pois agora vou brincar de Polyanna debochada. O comissariado da polícia fica no caminho que vai do bosque à minha casa. Ensinei a música pra minha filha e, quando passamos em frente, cantamos alegres: “Alo polícia, eu tô usando, um exocet, calcinha”. Espero que ninguém me chame de brasileira egoísta e anarquista, nem que tentem me explicar que não é culpa da polícia, que o confinamento é para o bem de todos, etc, etc. Ser Pollyanna não é pra qualquer um.

Polícia para quem precisa

No primeiro sábado do confinamento, às nove e meia da manhã, a campainha tocou. Estranhei, não havia comprado nada pela internet e normalmente ninguém bate na nossa porta. Ainda estava de pijama e descabelada, deixei o marido responder.

De soslaio percebi que se tratava de policiais. Fiquei curiosa, o que a polícia estaria fazendo aqui num sábado de manhã? Estendi o ouvido na direção da porta e ouvi meu marido argumentando, num tom frio mas civilizado, que nossos filhos não fazem mais barulho do quê as outras crianças. Olhei para os dois, que têm quatro e sete anos e nesse momento brincavam tranquilamente no quarto. É verdade que mais cedo eles tinham ido do quarto até a cozinha, ou talvez da cozinha até a sala, não me lembro mais, correndo, como é corriqueiro as crianças pequenas fazerem, mas aquela era uma manhã calma, sem nenhum evento extraordinário.

Senti o sangue ferver. Vouf, acendeu em mim um fogo poderoso, como a trempe de um fogão quando o gás fica ligado antes de conseguirmos acender o fósforo. A filha de Iansã acordou. Com as bochechas quentes entrei na conversa, foda-se o pijama, foda-se os cabelos emaranhados. Qual não foi minha surpresa ao constatar que os policiais eram mulheres. Uma jovem, esguia, morena clara, rabo de cavalo alto, nem um fiozinho fora do lugar, maquiagem vamp, cara de poucos amigos. Tensa. A outra mais ou menos da minha idade, negra, redonda, mais baixa do quê alta, cabelos trançados e presos, adornados com pecinhas de metal dourado que me chamaram a atenção, achei o penteado bonito. Essa não parava de falar.

Tentei explicar que o prédio é velho e mal insonorizado e que nossos filhos não haviam feito nada demais. Meu marido tentava explicar que tinha certeza que fora o vizinho do terceiro andar, um jovem arrogante e intolerante que semeia discórdia no prédio desde que chegou, há mais ou menos um ano, quem as havia enviado. Mas ela não ouvia. Na verdade ela não estava nem aí pros nossos argumentos, ficava só repetindo que as crianças faziam muito barulho. Eu estava me dizendo que obviamente aquelas mulheres não eram mães quando ela soltou a seguinte pérola: Tenho três filhos, eles não mexem, não fazem nenhum barulho. E emendou dizendo que em período de confinamento precisamos respeitar os vizinhos.

Hello? Quem está desrespeitando quem? Em pleno confinamento o jovem de boné e calça baggy que mal cumprimenta e se acha a pessoa mais cool do mundo manda a polícia na nossa porta às nove e meia da manhã porque quer dormir até tarde e somos nós, que fazemos das tripas coração para ocupar duas crianças o dia inteiro dentro de um apartamento de 70 metros quadrados, que estamos errados? Explodi.

Não é porque você está de uniforme que tem o direito de gritar com a gente e cortar nossas frases, respondi com a voz alta, um pouco surpresa com minha própria ousadia. Ela se surpreendeu ainda mais, e levantou a voz mais alto também. Não me deixei intimidar. O marido me apanhou pelos dois braços e me tirou da frente delas, como se eu fosse um móvel. Foi minha vez de ficar incrédula. Voltei pra frente da porta, com raiva. Ele repetiu a operação. Isso aconteceu umas três vezes, até eu dizer, recuperando algum sangue frio e olhando nos olhos dele : você pode parar? Daqui a pouco elas vão achar que apanho em casa. Os três me olharam com espanto. As crianças se aproximaram. A policial de rabo de cavalo disse que eu estava assustando meus filhos. Respondi que não era ela quem iria me dizer como educá-los. A outra se abaixou e começou a explicar-lhes que eles não podem fazer barulho. Berrei: você não dirige a palavra aos meus filhos! A coisa desandou…

Num dado momento convidei-as a entrar e constatar o barulho que as tábuas de madeira fazem quando andamos normalmente no apartamento. O marido reagiu na hora, quase em pânico, imaginando os minúsculos coronavírus saindo daquelas botinas pretas e se espalhando no interior do lar. Mas na hora em que o trem saiu dos trilhos eu já não suportava mais olhar aquelas mulheres destituídas de qualquer noção de sororidade. Fui despedindo e fazendo um movimento de fechar a porta. Antes de partir, a policial mais velha ameaçou: vou fazer uma ocorrência contra vocês, relatando o que vi aqui esta manhã. As duas estavam descendo as escadas quando mostrei o dedo do meio pra elas.

O marido me olhou espantado com o gesto. Você pode ir pra prisão por isso. Elas estavam de costas, não viram! Ele, que ficou me tirando à força da frente delas, agora me tratava como se eu fosse a louca da casa. Quando disse isso, ele explicou que tinha ficado com medo de eu voar em cima delas. Claro que nunca teria feito isso. Apesar de que uma vez, muitos anos atrás, dei um tapa na cara de um segurança de boate que me desrespeitou e depois entrei correndo dentro de um taxi, porque perco o sangue frio mas não perco o instinto de sobrevivência.

Não sei o que é mais incrível, que o vizinho tenha se permitido chamar a polícia porque estava incomodado com os passos das crianças num sábado de manhã, ou que a policia tenha ido até nossa casa por isso em plena quarentena, quando deveria estar na rua impedindo as pessoas de desrespeitarem o confinamento. Meu marido, que sempre diz que não devemos discutir com idiotas, pois nos tornamos tão idiotas quanto eles, caiu nessa armadilha. E eu, que pratico yoga há quase vinte anos e me considero uma pessoa sensata, agi com um despreparo fenomenal. Parece que a pandemia chegou acentuando tudo. Na Itália, a cantoria; na Espanha, a solidariedade; no meu bairro: o egoísmo do vizinho, a idiotice das policiais e minha loucura!

Duas semanas

 

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Ontem fez duas semanas que Macron decretou o confinamento na França. Ele evitou pronunciar essa palavra, confinamento, para que não sentíssemos que era isso que estava fazendo com a gente, confinando. Ao invés, ficou repetindo: “Estamos em guerra. Estamos em guerra. Estamos em guerra”. Querendo, apesar da cara de boneco sem emoção, implantar uma emoção imensa no coração dos telespectadores: Medo. Além dos sentimentos de urgência, patriotismo e “vale tudo” que acompanham as declarações de guerra. Estamos em guerra, fique em casa, faça sacrifícios, não questione minhas decisões. Mas não se preocupem, o Estado não deixará nenhuma empresa ir à falência. Foi o que ficou do seu discurso na minha memória.

Logo após o pronunciamento, além do desgosto pelo vocabulário marcial, fiquei confusa em relação aos seus efeitos práticos na minha vida cotidiana. Que as escolas iriam fechar, meu maior pesadelo, eu já sabia: meu pequeno estava em casa há dias porque sua professora e assistente estavam doentes (havia rumores de que seria coronavírus) e no dia anterior todas as escolas do país já haviam fechado. Eu achava que essa situação duraria quinze dias. Meu marido, mais pragmático, cortou minhas esperanças na hora: vamos ficar sem escola ao menos até o final das férias de abril. Quase tive um troço! Como se não bastassem as férias de duas semanas que os alunos têm o ano inteiro aqui na França, ainda colocaram um confinamento entre duas sessões de férias. Pior do quê agosto, mês das férias de verão, o mês mais longo do ano!

(Claro que me dou conta, hoje mais do que nunca, da importância do confinamento. Mas a ficha demorou a cair. Eu também, no começo, achei que era só uma gripe e estavam fazendo alarde inutilmente. Afinal, a gripe mata 10.000 pessoas por ano na França. Ainda não estavam morrendo 600, 700, 800 pessoas por dia na Itália e na Espanha.)

Voltando aos efeitos práticos do confinamento, o que me deixou confusa no discurso do Macron foi que ele disse que os donos de cachorro poderiam levar seus animais para passear, mas não fez nenhuma referência à situação das crianças. Achei incrível ele pensar no bem-estar dos cachorros antes das crianças! Como se elas não precisassem ser passeadas. No dia seguinte, quando levei minha filha de sete anos ao parque, disse à ela: “se a polícia nos parar, você late!”. Ela não entendeu, mas concordou.

Desde então o discurso do Macron foi clarificado, minha filha não precisou latir e nenhum policial nos abordou. Aliás, estou um pouco decepcionada por ainda não ter sido controlada. Queria tanto ter a oportunidade de mostrar minha “déclaration sur l’honneur”. Tão francês isso: imprimir em um papel os motivos da sua saída e assinar atestando, em nome da sua honra, que você tem uma razão legítima para estar fora de casa.

Uma semana mais tarde as condições da saída ficaram um pouco mais rígidas: o passeio não pode durar mais de uma hora, então temos que marcar a hora em que saímos de casa na declaração. Como os passeios no bosque são meu momento preferido do dia, logo arrumei uma estratégia: fazer duas declarações, cada uma com um horário diferente. Anunciei a solução brilhante ao marido francês, que ficou chocado. Depois fiquei me sentindo mal: meu Deus, será que não tenho honra? Na via das dúvidas, preocupada em manter minha integridade, decidi não dar nenhum jeitinho tropical e respeitar as regras. Me permito apenas uma margem de dez ou quinze minutos no horário da saída, o tempo de uma eventual pirraça de criança na hora de voltar para casa. Nada mais justo.