No campo com a sogra, parte 2

Na manhã seguinte, acordo doente. Chantal e Albert estão alvoroçados, vão receber um casal de amigos de Jeanne. Quando desço as escadas, às quase dez da manhã, a sogra, que normalmente dorme até mais tarde sob o efeito de soníferos, já está de pé e passa a ferro a proteção de algodão branco das cadeiras da sala de jantar. Ela me lança um olhar de pura reprovação. Cogito explicar que acordei pela primeira vez às seis da manhã, com o bebê, mas por volta das oito e meia supliquei ao marido que saísse da cama e me deixasse dormir um pouco, pois havia passado uma noite horrível, assoando o nariz, delirando com a febre, procurando em vão uma postura confortável. Deixo pra lá, de nada adiantaria. Digo apenas, em um sussurro, que perdi a voz. Ao que ela responde: “ – Melhor assim”.

Dou bom dia à Jeanne, que está sentada na mesa tomando café da manhã. Digo-lhe que estou doente como não me ocorria há anos. Ostentando um semblante quase tão impassível quanto o da mãe, ela não se dá ao trabalho de responder. A expressão emburrada salienta a magreza e as olheiras escuras que vieram habitar seu rosto desde a morte do marido. Seus cabelos, negros pontuados por fios brancos que antes não estavam ali, estão desordenados, presos num rabo baixo desleixado. As costas arqueadas parecem penar para sustentar o peso das roupas largas. Sinto-me sem jeito por ter evocado meu próprio mal-estar.

As crianças correm no jardim. Indisposta, deixo-me cair no banco de madeira e observo. O céu está azul, sem sinal de nuvens. Nessas ocasiões, os europeus correm para fora das casas para não perder nem um instante dos raios de sol. Enfastiada dos meses cinzentos, eu também cobiço, há muito, dias como esse. Hoje, porém, daria tudo para ficar na cama, recuperando do vírus que sobrepujou meu organismo durante a noite.

Jasmim, minha filha mais velha, pede que eu a empurre na balança. Exausta, proponho fazer uma coroa com as margaridinhas que pontuam o gramado de branco. A menina joga as flores no chão e corre atrás de Jeanne, que se posiciona em frente à balança, prestes a empurrar seus filhos, David e Anton. Tomo ímpeto para me levantar, mas parece que meu corpo foi atropelado por um dos imensos tratores verdes que transitam regularmente na estrada em frente à casa. Forço a garganta e, com a voz fraca, esboço desculpas. Jeanne continua carrancuda. Ouço a voz do meu marido na cozinha perguntando onde estou, e a resposta desdenhosa de Chantal: “- Sua mulher está muito doente pra cuidar da própria filha!”. Minhas bochechas febris ficam ainda mais quentes. Repito mentalmente um mantra, num esforço de alto controle. A raiva passa, mas em meu peito cresce a opressão silenciosa que torna difícil respirar, a culpa muda e indefinível que, aos poucos, toma conta de mim cada vez em que estou na casa de campo dos sogros.

Os convidados de Jeanne chegam e o almoço se revela um verdadeiro suplício. Aperitivo, entrada, prato principal, queijos, sobremesa, café… As horas que passo sentada naquela mesa, lutando em silêncio para não esvanecer, retirando e tornando a colocar o casaco, parecem intermináveis. Como gostaria de pedir licença e subir para o quarto, proeza impossível na casa de Chantal. Lembrei-me de certa vez em que estávamos ali, Jasmim acabara de completar um mês e acordava a noite toda para mamar. Cada hora de sono contava, mas eu devia esperar o fim dos longos jantares para poder me deitar, como se não estivesse em pleno puerpério. Chantal, que nunca amamentou, me fazia pagar minha escolha. Até mesmo meu sogro, que é médico, se incomoda com o fato de eu amamentar. Ao longo desse almoço interminável, a única vez em que ele me dirigiu a palavra foi para dizer, provocativo : “Tenho pena de você, que amamenta e não pode provar esse vinho maravilhoso”. Ao que respondi, com uma ousadia ainda inédita: “Não é porque estou amamentando que não estou bebendo, mas porque estou realmente doente!”. Nesse ambiente repressivo, saboreio essas pequenas repartidas como conquistas. Outro momento vitorioso foi quando Jasmim exclamou, tão logo Chantal colocou as batatas sauté no seu prato: “Não quero, é batata podre!”. A sogra, claro, nada disse na frente dos convidados. Mas lançou um olhar furioso da minha filha ao meu sogro, em busca de cumplicidade. Como se a exclamação típica de uma criança de quatro anos fosse mais uma prova da selvageria da minha prole. Ela também me fuzilou com o olhar, esperando que eu repreendesse Jasmim. Foi minha vez de fingir que nada acontecera. Como poderia sabotar o único momento delicioso do almoço?

A tarde passa arrastada. Conto as horas para o jantar, o banho das crianças, a história de boa noite de Jasmim, a mamada final de Enzo, até que finalmente me desfaleço na cama. Imagens começam a se formar em minha mente, estou quase sonhando quando sou acordada pela tosse, ou pelo ronco de Vincent, ou o choramingar de Enzo, ou ainda Jasmim, que quer fazer xixi… Tudo se mistura em uma bruma confusa. Alterno ondas de frio e calor, troco duas vezes o pijama encharcado de suor. Em meus delírios, vejo Chantal debruçada na janela e caindo no jardim. Não conto para ninguém, mas o sonho me trás uma satisfação alegre. Acordo da noite tumultuada com um sorriso nos lábios. Nada como uma compensação imaginária para suportar o campo com a sogra.

 

No campo com a sogra

Atendendo a pedidos, aí vai uma história com a sogra. Aconteceu três anos atrás. É tudo verdade, mas os nomes são fictícios.

 

Seis horas da tarde. Meu rosto se ilumina quando abro a porta do carro. O sol, ainda alto, realça o verde da grama recém cortada. Seus raios formam pequenas estrelas que pendulam junto com as barras de ferro da balança, de onde ecoam sonoras risadas e despontam bracinhos e perninhas. Há meses anseio por esse frescor. “A gente revive”, disse uma amiga quando almoçávamos em uma mesa ao sol, uma semana atrás. Meu coração reconheceu a exatidão dessas palavras simples. É primavera e eu renasço em cada brotinho que surge na ponta de cada ramo de cada árvore. Nessa época do ano, os ninhos são facilmente visíveis através dos galho seminus. Uma felicidade boba me invade quando percebo um pássaro voar com gravetos no bico. Fecho os olhos, sinto o calorzinho se difundir na pele enfim livre dos casacos de inverno.

Mas tal leveza não pode durar. Ao fundo do jardim, sentada numa espreguiçadeira, contrastando com a imponente casa de pedras e revestimento amarelo típico dessa parte da Normandia, está ela, Chantal, minha sogra. Uma respiração pesada marca a volta à realidade. Enzo começa a se impacientar na cadeirinha de bebê. Pego-o no colo e desço o morrinho que leva até a casa. Me pergunto como agir, afinal, na última vez em que estive ali me rebelei pela primeira vez, após mais de dez anos engolindo as malícias dessa senhora. Atravessei o portão furiosa, o tapete de yoga num braço e o recém-nascido no outro, os pés descalços desafiando as pedrinhas da estrada, berrando que jamais entraria naquela casa novamente. Desde então, muita água rolou. Uma semana após ter me insurgido, engoli meu orgulho e enviei um cartão de paz para Chantal, que por sua vez fingiu que nada acontecera, empurrando a poeira para debaixo do tapete com polidez francesa.

Sobretudo, alguns meses após esse episódio, o esposo da filha caçula de Chantal, Jeanne, faleceu abruptamente, deixando-a viúva com dois filhos pequenos. Além de Jeanne e do meu marido, Chantal tem outra filha, a mais velha dos três. Jeanne sempre fora sua preferida e, desde antes de perderem o pai, seus filhos, que têm praticamente a mesma idade dos meus, são seus netos favoritos. Na verdade, é como se Chantal tivesse uma filha e dois netos, quando na verdade ela tem três filhos e sete netos. A morte do marido de Jeanne não melhorou essa situação, pelo contrário. Ela, que já era uma santa aos olhos da mãe, se tornou uma mártir. Mas, como é próprio da morte, esse acontecimento trouxe uma urgência de união para a família, suspendendo momentaneamente as antigas querelas.

“Talvez a satisfação de ver meu filho, seu neto mais novo, alivie a situação”, espero. Não há quem não derreta com o olhar esperto e o sorriso maroto de Enzo : na creche, as moças brigam para cuidar dele; na rua, as velhinhas param para conversar, subjugadas pelo seu charme. Esse pensamento me dá coragem. Prossigo, quase sorridente. Mas Chantal não se levanta da espreguiçadeira, sequer descola os olhos do livro. Me aproximo e deposito Enzo na grama, próximo aos seus pés. Anton, filho de Jeanne, um ano mais velho que Enzo, corre até o primo e lhe faz um carinho na cabeça. A sogra declara, então, encantada: “- Que gracinha, ele o acaricia como se fosse um cachorro”.

 

Continua…

Paixões e cloroquina

Umas três semanas atrás, recebi num grupo WhatsApp um vídeo em que o médico francês Didier Raoult defende o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina, seu derivado menos tóxico, no tratamento do Covid-19. Pra quem não conhece, Raoult é um senhor de cabelos e barba longos e brancos, uma figura que pela própria aparência de hippie gera simpatia nuns e desconfiança noutros. Aqui na França a polêmica em torno da cloroquina se cristaliza na pessoa desse que é, apesar de tudo, um dos médicos infecciologistas mais respeitados do mundo. Pra complicar as coisas, Raoult mora e trabalha em Marseille, contestando assim o monopólio parisiense do conhecimento.

O vídeo em que Raoult fala sobre a cloroquina foi enviado por um professor de yoga, acompanhado de um comentário algo delirante:

“É evidente que quando um científico reconhecido fala, deveríamos escutá-lo. (…) Podem me chamar de teórico do complô, mas eu vejo apenas homens de negócio e pseudocientíficos em busca de notoriedade, lobbies farmacêuticos em busca de lucro e políticos querendo controlar as massas, caminhando para ditaduras aceitas por pessoas gastas em todos os sentidos do termo”.

Li o comentário acima com uma certa preguiça e não me dei o trabalho de abrir o vídeo. Quando uma pessoa escreve “podem me chamar de teórico do complô” ou algo que o valha, as chances dela estar de fato sob o charme desse tipo de narrativa são imensas. Teorias do complô são extremamente sedutoras. Além de fornecerem uma explicação límpida para fenômenos complexos, elas nos dão a sensação de que somos inteligentes, pois enxergamos algo que quase ninguém está vendo. Situações de incerteza como a pandemia que estamos vivendo são terreno fértil para o complô. Classifiquei então a polêmica da cloroquina na mesma gaveta que as mensagens que recebi alertando para um plano de dominação mundial vindo da China.

Até que percebi que meu marido andava resmungando pela casa, inconformado pelo fato do Macron não liberar o uso da cloroquina como auxiliar para o tratamento dos pacientes com Covid-19. Como ele parece achar fascinante seguir os diferentes protocolos de teste sobre a cloroquina associada à outros remédios (em Marseille, Angers e no projeto Discovery), dessa vez decidi prestar mais atenção no assunto e pedi que me explicasse seu ponto de vista. O que ele fez na mesma hora, feliz com a ocasião de compartilhar com outro ser humano o conhecimento adquirido através de muitas horas de leitura compulsiva. Desde o começo o marido quer discorrer sobre a epidemia comigo, mas eu não sinto a necessidade de acompanhar de perto o número de mortos e pessoas em tratamento intensivo em todos os países do mundo. Pra mim esse assunto é inútil e ansiogênico. Na primeira semana do confinamento, cada vez que ele vinha me falar sobre a forma de tal ou tal curva, ou do impacto do confinamento sobre as diferentes populações, eu respondia, irônica, “acabou o momento coronavírus?”. O coitado acabou prometendo que não tocaria mais no assunto comigo…

Voltando à cloroquina, a primeira coisa que ele me disse foi que talvez a única idosa que esteja protegida do coronavírus na França é minha sogra, porque ela toma esse remédio todos os dias para sua poliartrite! Vaso ruim não quebra. Depois me explicou toda a controvérsia em diversos pontos, que prefiro não infligir a vocês. Me contentarei em dizer que ele acabou me convencendo de que o Macron não estava mandando bem, se metendo em decisões que cabem aos médicos tomar. Por isso achei um pouco superficial quando recebi, em outro grupo WhatsApp, um meme gozador, dizendo que “para a cloroquina fazer efeito, tem que ser ingerida com dois goles de água do Rio Jordão”. Não estava a par das dimensões da polêmica no Brasil, mas não foi necessário muito esforço para compreender que o Bolsonaro estava preconizando a cloroquina para o tratamento do Covid-19, como Trump havia feito duas semanas antes dele.

Foi então com um certo incômodo que redigi, nesse grupo, os argumentos do meu marido, com a intenção de disponibilizar para pessoas queridas no Brasil a versão francesa da história. Depois fiquei pensando… que loucura, na França as pessoas acusam o Macron de não liberar o uso da cloroquina, um remédio barato, em prol dos laboratórios farmacêuticos, que em breve lançarão vacinas e tratamentos caros. No Brasil as pessoas se indignam porque o Bolsonaro promove o uso da cloroquina, cujos efeitos colaterais podem ser importantes, para suscitar uma esperança cega (e que, diga-se de passagem, evacua completamente a ideia fundamental de que se os hospitais não podem acolher todos os pacientes, os médicos deverão escolher quem salvar, como aconteceu na Itália). Em cada um dos dois países, o uso do mesmo medicamento para o tratamento da mesma doença deu lugar a duas visões opostas, que representam tanto uma quanto a outra a desconfiança dos poderes públicos.

O fato dos meus amigos brasileiros enxergarem a cloroquina como um remédio de charlatão não tem nada de surpreendente. Por que eles deveriam confiar numa solução vinda de um homem que, desde o começo dessa epidemia, não deu uma bola dentro? Uma das grandes dificuldades que o brasileiro tem vivido é a de navegar num barco sem capitão. Como confiar num presidente que mente? No Brasil, a sensação é de que está nas mãos da sociedade civil decifrar as informações que os líderes políticos permitem chegar ao seu conhecimento e agir por conta própria. Na França, por outro lado, as pessoas estão habituadas a escutar suas lideranças e refletir sobre o que dizem, ainda que depois ajam como julgarem melhor. Desde o começo da epidemia, elas assistem religiosamente os pronunciamentos do presidente e do ministro da saúde. Aqui, o ressentimento em relação ao Macron é proveniente sobretudo da sua incapacidade de agir com eficácia, de tomar decisões rápidas e certeiras, num contexto novo e que gera insegurança.

O próprio da ciência é estar aberta à discussão crítica, à diferença dos pseudo-saberes, que sempre contornam o debate. Ainda não existe uma resposta certa quanto ao uso da cloroquina no tratamento do covid-19, talvez daqui a algumas semanas conheceremos melhor a relação benefício-risco. Pelo momento, sei apenas que, quando a ansiedade baixa, o melhor a fazer é respirar profundamente e lembrar que tudo passa, os políticos passarão, nós passarinho.

Quatro semanas

Quase quatro semanas de confinamento. Eu ainda tenho esperanças de que ele dure apenas dois meses, o que significaria que já estamos na metade. No começo, duas semanas me parecia enorme e agora estou escrevendo “apenas dois meses”. É uma das características desse confinamento: nossa perspectiva das coisas muda numa velocidade assustadora. Poucas semanas atrás eu achava que as pessoas usando máscara exageravam. Um médico havia me dito que a máscara só fazia sentido quando usada por pessoas com sintomas, o que me pareceu sensato. Confesso que eu experimentava uma espécie de auto-satisfação ao passar por pessoas mascaradas. Ao menos não sou hipocondríaca, pensava, sentindo-me esperta por não me deixar levar pelo pânico suscitado pelos meios de comunicação. Hoje é tarde para encontrar máscaras no mercado e estou sofrendo por não possuir talentos de costureira.

Ao contrário de mim, meu marido é um vanguardista da cautela em tempos de epidemia. Ele chegou a encomendar uma caixa de máscaras pela Amazon quando o vírus se expandia na Itália mas ainda parecia sob controle na França, mas ela nunca chegou. Nesses dias, ele releu A Peste de Camus e concluiu, solene: os que sobrevivem não são os que se acham inteligentes e acima do medo coletivo, mas os que veem longe e agem com precaução. Não dei muita bola, ele sempre foi prudente demais pro meu gosto.

Poucos dias antes do confinamento, eu cheguei a apertar a mão do meu ex-orientador de doutorado e omiti esse acontecimento banal do meu marido. Não porque ele é ciumento, mas porque já estava me preconizando o distanciamento social. Mas não havia a menor chance de eu dizer ao meu ex-orientador, o equivalente do Mestre dos Magos na minha vida, que não queria apertar sua mão. Acho que agora ele também não deve estar apertando a mão de mais ninguém… Quando o Macron enfim pronunciou o confinamento, meu marido respirou aliviado: o mais difícil não era ficar em casa, mas tentar me segurar, disse. Ele estava enfurecido porque, três dias antes, eu tinha pego o metrô e ido à uma aula de yoga. E eu estava quase sufocando com a perspectiva de ficar duas semanas dentro de casa com ele e as crianças.

Eu não sei se hoje o marido diria a mesma coisa. Ele já está de saco cheio de mim, das crianças, de toda essa situação… e eu dele, diga-se de passagem. Outro dia li num artigo que os primeiros dez ou quinze dias de confinamento são os mais simples, entre outras coisas porque temos objetivos. Eu, por exemplo, pensei que seria o momento ideal para uma faxina de primavera. Quando disse isso ao marido, toda serelepe, ele virou os olhos aos céus e disse: “Além do confinamento, ela quer me pôr pra fazer uma faxina de primavera”. Achei essa atitude péssima. Hoje, estou atrasada com a faxina simples mesmo. Às vezes ainda tento, imagino a Marie Kondo, com aquele seu jeitinho meigo e simpático, ao meu lado, respiro fundo e começo alguma empreitada, como lavar todas as proteções de colchão da casa, ou todos os bichinhos de pelúcia das crianças. Mas com o passar dos dias estou me desencorajando… Quatro dias atrás comecei a limpar o armário do banheiro, que tem quatro portas. O projeto, realista e sem grandes ambições, era limpar uma por dia, enquanto as crianças tomam banho. Hoje faltou-me o ânimo para limpar a quarta. Preferi usar o tempo do banho das crianças cantando mantras e cozinhando, para desespero do marido, que morre de medo dos vizinhos acharem que somos Hare Krishna.

Se estou escrevendo aqui sobre esse desencorajamento progressivo, é porque tenho a sensação de que não sou a única passando por isso. Acho inclusive que esse estado de desânimo concerne também os pequenos, e na verdade foi isso que me deixou alarmada. Há alguns dias meu filho de quatro anos não quer sair de casa e hoje foi a vez da minha filha de sete não querer passear. Eles não mudaram de ideia nem quando disse que se não saíssem um pouco não teriam direito de assistir um desenho animado. Aí assustei.

Essa manhã todos acordamos mais tarde do quê de costume. Minha filha mais velha, que não faz a sesta há anos, também dormiu depois do almoço. Mais tarde ouvi uma amiguinha dela dizer, ao telefone: “passei o dia inteiro de pijama”. Acho que esse é o perigo que está à nossa espreita e um dos grandes desafios para os pais. Manter o entusiasmo. Sem dúvidas seria mais fácil se soubéssemos quando tudo vai acabar.

No começo ouvi umas pessoas dizerem que não queriam “fracassar a quarentena”. Mas não seria igualmente absurdo ter sucesso na quarentena ? Pessoalmente, eu já não tenho grandes planos para o confinamento, como melhorar minha relação com o marido, terminar o livro que anda dentro da minha bolsa há meses porque me comprometi a fazer uma resenha dele, ou jogar fora tudo o que é inútil nessa casa, não sem antes agradecer cada objeto com um sorriso. Agora meu único objetivo é garder la morale, como dizem os franceses. Ou seja, não me deixar abater e ajudar meus filhos a continuarem em forma, mesmo se minha vida é mais fácil quando eles estão prostrados na frente da televisão.

Um último pensamento : não é interessante que muitos de nós, ao se aproximar dos quarenta, tem esse sentimento de que fracassamos na vida? Fracassar a quarentena, fracassar aos quarenta… romantizar a quarentena, desromantizar… para finalmente reerguer o queixo e prosseguir, na quarentena como aos quarenta.

Minha sogra francesa

Poucos dias após ter começado esse blog mandei o link para uma grande amiga, que respondeu: “Muito bom!!! Só não está fazendo sentido, ao menos até agora, o nome do blog…”. Ignorei o comentário. Passei os últimos meses pensando na sogra praticamente todos os dias e apenas recentemente consegui me liberar dessa carga emocional; estava relutante em voltar a ocupar minha mente com um assunto que me chateia. Ao mesmo tempo, gosto do nome “Minha sogra francesa” e não tenho vontade de mudá-lo.

Chegou a hora de explicar as razões do título. Comecei esse blog há exatamente dois anos, numa época em que precisava escrever sobre a sogra para suportar sua existência. Criei a conta no wordpress, o título, o e-mail, o pseudônimo, mas não tive coragem de publicar nada. Acho que, em parte, eu tinha medo que ela descobrisse minha atividade secreta. No fundo, ainda acreditava que um dia pudéssemos ser próximas. Eu era mesmo muito iludida.

Agora liguei completamente o foda-se. Quem está sofrendo é o marido, que começa a enxergar uma faceta da mãe que não é de todo apreciável. Aliás, foi um comentário dele hoje mais cedo que me motivou a escrever essas linhas. Eu estava ajoelhada no chão, lavando os cabelos da nossa filha, quando ele disse, com um sorriso : “Minha imagem da maternidade é ganância e ódio”. Na hora não entendi se ele estava brincando ou me atacando, nem por quê. Depois caiu a ficha, não era de mim que ele estava falando, mas da própria mãe.

Pra vocês começarem a entender essa figura difícil sem sair do tema do confinamento, conto aqui o motivo do meu marido estar chocado com a atitude dela, a ponto de ruminar pela casa dizendo bizarrices sobre a maternidade : nesse exato momento existe uma maravilhosa casa de campo na Normandie, com um imenso jardim e um carro na garagem, inutilizados. Os sogros preferiram ficar confinados no seu apartamento parisiense, pois se sentem mais seguros estando próximos aos hospitais, e optaram por manter a casa de campo vazia com o carro lá dentro. Pouco importa que o filho e os netos estejam confinados num apartamento de dois quartos sem quintal e com vizinhos intolerantes.

Eu nem penso nisso, já fiz o luto da casa de campo há tempos, só me aborreci quando interditaram o bosque ao lado da nossa casa. Lá sim, é meu oásis. Mas o marido, apesar de saber a mãe que tem, ainda pensava na casa da Normandie como sendo um pouco sua também. Afinal, adolescente, ele passou diversas férias de verão esfregando o musgo de azulejos de demolição para a renovação da casa, enquanto seus amigos “iam para colônias de férias e passavam a mão nos peitos das meninas”.

Histórias com a sogra virão, vocês vão ver, ela é um personagem complexo, uma perfeita vilã de novela, gentil e educada à primeira vista, perfídia e venenosa quando chegamos perto. Mas por enquanto prefiro refletir sobre o dia-a-dia do confinamento e oferecer textos que, espero, nos ajudem a atravessar esse momento delicado.

Domingo é dia de feira

Praticamente todos os bairros de Paris têm uma feira durante a semana, às vezes duas. Onde moro, a feira acontece aos domingos. É um momento importante da vida do bairro, um lugar em que as pessoas se encontram, trocam ideia, brincam com os feirantes. Os clientes tropeçam nos carrinhos de compras das velhinhas, que por sua vez reclamam das mães empurrando carrinhos de bebê nos corredores apinhados de gente. Crianças pequenas se extasiam em frente às lagostas vivas, ou observam boquiabertas um senhor de boina rodar a manivela de um antigo instrumento parecido com uma caixa de música tamanho gigante. Jovens escoteiros e senhorinhas simpáticas vendem pedaços de bolo feito em casa, angariando fundos para a Cruz Vermelha ou alguma causa beneficente. E quando, por volta do meio-dia, os feirantes se cansam de gritar as últimas promoções do dia e embalam suas mercadorias, os “glaneurs”, pessoas que recuperam os produtos jogados fora após a feira, chegam sem alardes.

Tudo isso parece pertencer a uma outra época. Com o pronunciamento do confinamento, as feiras foram mantidas durante algum tempo, depois fechadas, para finalmente reabrirem hoje. Ao escrever isso parece que estou descrevendo um tempo longo, quando na verdade me refiro às últimas três semanas. Quando as feiras foram fechadas, fiquei um pouco dividida porque, se por uma lado entendo a necessidade de evitar conglomerações, por outro me parece mais saudável fazermos nossas compras ao ar livre do quê no ar-condicionado do supermercado. Sem contar que quem está realmente lucrando com o confinamento são as grandes redes de supermercado. Eu, pessoalmente, prefiro deixar meu dinheiro nas mãos dos feirantes da agricultura familiar.

Alguém deve ter tido um raciocínio similar, porque hoje a feira foi reaberta. Saí de casa logo cedo, sem as crianças, com um misto de animação e medo. Animação pois estava feliz com a ideia de ver outras pessoas que não sejam meu marido e filhos, bater um papinho, ainda que de longe, com os feirantes de quem compro há anos e os pais de amigos dos filhos, colegas do curso de yoga e outras figuras conhecidas do bairro. Pessoas de quem muitas vezes nem conheço o nome, mas cujos rostos são conhecidos e com quem tenho o hábito de falar sobre amenidades. Medo porque estamos no auge da epidemia e estou apreensiva com a presença desse ser que se assemelha a Deus tal qual descrito por certas tradições religiosas: invisível, onipresente e impiedoso! Como não conseguimos comprar máscaras, fui vasculhar os armários em busca de um lenço que pudesse se transmutar em proteção antivírus. Me deparei com minha kofieh, presente de um amigo palestino, e a enrolei no pescoço, passando por cima do nariz e da boca. Olhei no espelho e me achei parecida com os rapazes de Gaza que lançavam pedras nos tanques israelenses durante a primeira intifada. Saí de casa pronta para o combate.

Mas me senti completamente desamparada quando cheguei na esquina da feira. Eu esperava que ela estivesse menos cheia e sem sua vivacidade habitual, mas não estava preparada para o que vi: policiais vigiando estruturas de ferro parecidas com as dos aeroportos, formando corredores dentro dos quais as pessoas faziam fila, mantendo uma distância de dois metros umas das outras, de máscaras e cara fechada. Mas talvez tenha sido o silêncio o que mais me incomodou : ninguém conversava com ninguém, nenhum senhorzinho tocava música, nenhum jovem tentava te comover sobre alguma catástrofe humanitária, nenhum feirante liquidava seus produtos aos berros. Num primeiro momento pensei em entrar na fila, não estava com pressa de reganhar o lar, onde me esperava a mesma rotina junto das mesmas três pessoas. Mas não dei conta e, após alguns minutos de vacilação, dei as costas à essa versão ascetizada da feira do domingo.

Chegando em casa, vi da janela uma cena que há três semanas atrás seria bizarra e essa manhã era perfeitamente normal: numa rua deserta, um rapaz de máscara e luvas colocava os legumes da feira no porta-malas do carro. Fechei a janela e fui esconder os ovos de chocolate. Porque, na fome de um momento festivo, meu marido e eu trocamos as bolas e achamos que a Páscoa fosse hoje. Quem saiu ganhando foram as crianças.

 

 

 

Pollyanna

Hoje acordei às cinco da manhã com uma palavra em mente: Pollyanna. Não me lembro se cheguei a ler esse livro, mas me lembro da minha mãe citando essa menina durante toda a minha infância. Para quem não conhece, Pollyanna é uma órfã pobre capaz de se alegrar em todas as situações. Sua brincadeira preferida é o jogo do contente, que consiste em ver o lado bom de absolutamente tudo. Por exemplo, se minha memória não falha, quando Pollyanna pede uma boneca no natal e ganha muletas, ela fica feliz por não precisar usá-las.

Pois bem, hoje eu estava disposta a brincar de Pollyanna confinada. Me pareceu uma boa ideia escrever um post sobre isso, após o texto um pouco sombrio que publiquei ontem. Aí o dia foi acontecendo. Pra começar as crianças acordaram super cedo, pouco tempo depois de eu ter conseguido adormecer novamente. Três semanas atrás era uma luta tirá-los da cama. Punha musiquinha, fazia o café da manhã preferido, às vezes gritava, tudo para terminar correndo pelas ruas e chegar ao portão da escola no último minuto do segundo tempo. Agora que não tem urgência nenhuma, muito pelo contrário, os danadinhos acordam com as galinhas, como se não quisessem perder nem um minuto dos nossos dias de quarentena.

No supermercado, meia hora após a abertura, já tinha fila, do lado de fora, porque estão limitando o número de pessoas lá dentro. Todos de máscara menos eu, que ainda me pergunto onde conseguiram comprar essas máscaras… todos com cara de poucos amigos, respeitando a distância mínima de 1,5 metros entre si. Tudo bem, até aí nada anormal, dentro da anormalidade que estamos vivendo. Ao entrar, uma novidade: o segurança, alto e forte como em geral são os seguranças, colocava um pouco de álcool gel nas mãos de cada pessoa que entrava. O álcool gel dele era cor-de-rosa e vinha em um frasco da Minnie. Ri comigo mesma. Nas compras, uma coisa ruim e outra boa: as prateleiras de farinha continuavam vazias, mas consegui comprar um pacote de garrafas de leite, que estava em falta há dias. Pollyanna chegou em casa feliz com esse começo de manhã.

Em meio aos comentários sobre os textos que publiquei aqui, todos eram gentis, apenas um agressivo. Pollyanna ainda estava ganhando, embora um pouco incomodada. O filho pequeno, de quatro anos, teve alguns acessos de raiva durante o dia, inclusive um bastante difícil, em que jogou tudo no chão, mas a grande, de sete anos, tinha anunciado logo cedo que iria se esforçar para ser boazinha o dia todo e estava cumprindo sua promessa. O balanço continuava positivo, apesar do stress emocional.

Depois da sesta assistimos juntos um lindo filme do Studio Ghibli (fica a dica pra quem tem crianças e Netflix em casa) e chegou a hora do nosso passeio no bosque. À essas alturas do campeonato Pollyanna estava com a corda toda. Minha filha inventou uma brincadeira em que ela era um bebê tigre branco e eu uma menininha que o encontrava perdido na floresta e durante todo o passeio vivemos as aventuras dos amigos inseparáveis, até que no final ele encontrou seus pais e a história acabou.

Estávamos fazendo uma coroa de margaridinhas nos dez minutos restantes, Pollyanna ficaria orgulhosa se nos visse, quando um carro parou ao nosso lado e a policial anunciou: vão pra casa, o bosque está fechado desde as 15h por tempo indeterminado. Meus olhos se encheram de lágrimas. Lá se vai nosso pequeno privilégio, lá se vai o momento reconfortante do dia, lá se vai o luxo de escutar os pássaros e observar as árvores se abrindo em flor nesse começo de primavera…

Pois agora vou brincar de Polyanna debochada. O comissariado da polícia fica no caminho que vai do bosque à minha casa. Ensinei a música pra minha filha e, quando passamos em frente, cantamos alegres: “Alo polícia, eu tô usando, um exocet, calcinha”. Espero que ninguém me chame de brasileira egoísta e anarquista, nem que tentem me explicar que não é culpa da polícia, que o confinamento é para o bem de todos, etc, etc. Ser Pollyanna não é pra qualquer um.

Polícia para quem precisa

No primeiro sábado do confinamento, às nove e meia da manhã, a campainha tocou. Estranhei, não havia comprado nada pela internet e normalmente ninguém bate na nossa porta. Ainda estava de pijama e descabelada, deixei o marido responder.

De soslaio percebi que se tratava de policiais. Fiquei curiosa, o que a polícia estaria fazendo aqui num sábado de manhã? Estendi o ouvido na direção da porta e ouvi meu marido argumentando, num tom frio mas civilizado, que nossos filhos não fazem mais barulho do quê as outras crianças. Olhei para os dois, que têm quatro e sete anos e nesse momento brincavam tranquilamente no quarto. É verdade que mais cedo eles tinham ido do quarto até a cozinha, ou talvez da cozinha até a sala, não me lembro mais, correndo, como é corriqueiro as crianças pequenas fazerem, mas aquela era uma manhã calma, sem nenhum evento extraordinário.

Senti o sangue ferver. Vouf, acendeu em mim um fogo poderoso, como a trempe de um fogão quando o gás fica ligado antes de conseguirmos acender o fósforo. A filha de Iansã acordou. Com as bochechas quentes entrei na conversa, foda-se o pijama, foda-se os cabelos emaranhados. Qual não foi minha surpresa ao constatar que os policiais eram mulheres. Uma jovem, esguia, morena clara, rabo de cavalo alto, nem um fiozinho fora do lugar, maquiagem vamp, cara de poucos amigos. Tensa. A outra mais ou menos da minha idade, negra, redonda, mais baixa do quê alta, cabelos trançados e presos, adornados com pecinhas de metal dourado que me chamaram a atenção, achei o penteado bonito. Essa não parava de falar.

Tentei explicar que o prédio é velho e mal insonorizado e que nossos filhos não haviam feito nada demais. Meu marido tentava explicar que tinha certeza que fora o vizinho do terceiro andar, um jovem arrogante e intolerante que semeia discórdia no prédio desde que chegou, há mais ou menos um ano, quem as havia enviado. Mas ela não ouvia. Na verdade ela não estava nem aí pros nossos argumentos, ficava só repetindo que as crianças faziam muito barulho. Eu estava me dizendo que obviamente aquelas mulheres não eram mães quando ela soltou a seguinte pérola: Tenho três filhos, eles não mexem, não fazem nenhum barulho. E emendou dizendo que em período de confinamento precisamos respeitar os vizinhos.

Hello? Quem está desrespeitando quem? Em pleno confinamento o jovem de boné e calça baggy que mal cumprimenta e se acha a pessoa mais cool do mundo manda a polícia na nossa porta às nove e meia da manhã porque quer dormir até tarde e somos nós, que fazemos das tripas coração para ocupar duas crianças o dia inteiro dentro de um apartamento de 70 metros quadrados, que estamos errados? Explodi.

Não é porque você está de uniforme que tem o direito de gritar com a gente e cortar nossas frases, respondi com a voz alta, um pouco surpresa com minha própria ousadia. Ela se surpreendeu ainda mais, e levantou a voz mais alto também. Não me deixei intimidar. O marido me apanhou pelos dois braços e me tirou da frente delas, como se eu fosse um móvel. Foi minha vez de ficar incrédula. Voltei pra frente da porta, com raiva. Ele repetiu a operação. Isso aconteceu umas três vezes, até eu dizer, recuperando algum sangue frio e olhando nos olhos dele : você pode parar? Daqui a pouco elas vão achar que apanho em casa. Os três me olharam com espanto. As crianças se aproximaram. A policial de rabo de cavalo disse que eu estava assustando meus filhos. Respondi que não era ela quem iria me dizer como educá-los. A outra se abaixou e começou a explicar-lhes que eles não podem fazer barulho. Berrei: você não dirige a palavra aos meus filhos! A coisa desandou…

Num dado momento convidei-as a entrar e constatar o barulho que as tábuas de madeira fazem quando andamos normalmente no apartamento. O marido reagiu na hora, quase em pânico, imaginando os minúsculos coronavírus saindo daquelas botinas pretas e se espalhando no interior do lar. Mas na hora em que o trem saiu dos trilhos eu já não suportava mais olhar aquelas mulheres destituídas de qualquer noção de sororidade. Fui despedindo e fazendo um movimento de fechar a porta. Antes de partir, a policial mais velha ameaçou: vou fazer uma ocorrência contra vocês, relatando o que vi aqui esta manhã. As duas estavam descendo as escadas quando mostrei o dedo do meio pra elas.

O marido me olhou espantado com o gesto. Você pode ir pra prisão por isso. Elas estavam de costas, não viram! Ele, que ficou me tirando à força da frente delas, agora me tratava como se eu fosse a louca da casa. Quando disse isso, ele explicou que tinha ficado com medo de eu voar em cima delas. Claro que nunca teria feito isso. Apesar de que uma vez, muitos anos atrás, dei um tapa na cara de um segurança de boate que me desrespeitou e depois entrei correndo dentro de um taxi, porque perco o sangue frio mas não perco o instinto de sobrevivência.

Não sei o que é mais incrível, que o vizinho tenha se permitido chamar a polícia porque estava incomodado com os passos das crianças num sábado de manhã, ou que a policia tenha ido até nossa casa por isso em plena quarentena, quando deveria estar na rua impedindo as pessoas de desrespeitarem o confinamento. Meu marido, que sempre diz que não devemos discutir com idiotas, pois nos tornamos tão idiotas quanto eles, caiu nessa armadilha. E eu, que pratico yoga há quase vinte anos e me considero uma pessoa sensata, agi com um despreparo fenomenal. Parece que a pandemia chegou acentuando tudo. Na Itália, a cantoria; na Espanha, a solidariedade; no meu bairro: o egoísmo do vizinho, a idiotice das policiais e minha loucura!

A romantização da quarentena

“La romantización de la cuarentena es privilegio de clase!”, foi uma das coisas mais corretas sobre o confinamento que li até agora.

A segunda foi um diálogo entre um senhor e uma mulher num meme que me enviaram por WhatsApp:

Ele: – Li um artigo com dicas de astronautas para suportar o confinamento. Eles são especialistas nisso, passam muito tempo em estações espaciais.

Ela: -Tem criança em estação espacial?

Ele: …

Ela: Enfia no cu, o artigo”.

Voltando à romantização da quarentena, li essa frase numa faixa, dependurada numa varanda, numa foto postado por um conhecido. Não sei quem é o autor, mas concordo plenamente. É fácil romantizar a quarentena quando estamos em uma casa de campo, com ar puro e bastante espaço para as crianças correrem, por exemplo. Aliás, passo o ano inteiro sonhando com essa situação : me confinar no meio da natureza com a família (porque afinal as crianças ainda estão pequenas para serem enviadas para colônias de férias; caso contrário, sonharia com outras coisas).

Poucos dias antes do Macron decretar a quarentena, circularam rumores de que isso aconteceria. Presenciei com uma pontada de inveja a agitação dos pais dos amigos dos meus filhos, enchendo os porta-malas para passar uma temporada indefinida no campo. Nessa hora até arrependi de ter, até hoje, “seguido o coração”, como sempre me aconselhou meu pai, e não o dinheiro. Aos quase quarenta anos não tenho nem carro, quem dirá casa de campo.

Mas ainda assim sei que sou uma privilegiada. Temos 70 metros quadrados para quatro pessoas, não é muito, mas também não é pouco. Nosso apartamento é mal isolado e temos um vizinho escroto que bate com a vassoura nas paredes cada vez que as crianças correm de um cômodo para o outro (ele até mandou a polícia na nossa casa, mas isso fica para outro post), mas ao menos existem cômodos entre os quais correr. E, principalmente, moramos ao lado de um dos bosques da região parisiense, o que nos possibilita passeios diários nessa época deliciosa do ano (aqui é começo da primavera). Temos muita sorte, porque os deslocamentos foram limitados a uma distância de 1km do domicílio e o bosque fica a precisamente 0,8km da minha casa (fui correndo verificar assim que restringiram a distância dos passeios). Segunda passada, o governo limitou ainda mais os deslocamentos e fechou parcialmente os dois bosques de Paris. Felizmente, a parte do bosque que fica perto da minha casa permanece aberta. Foi por um triz.

Ontem fui controlada pela polícia pela primeira vez. Foi idílico: estávamos no meio do bosque, em frente a um lago, e dois jovens policiais se aproximaram, majestosos, sobre cavalos imensos e lustrosos. Nem aguentei esperar eles chegarem até a gente, fui logo me aproximando e perguntando: vocês gostariam de me controlar? Algo confuso, o policial fez que sim com a cabeça e pediu para ver minha declaração e identidade. Eu estava com as duas preparadas na bolsa, e a única coisa que ele pôde dizer foi: “Cuidado para não passar do horário. Seria uma pena ser verbalizada no final do dia”.

Entre nós, se eu pude me precipitar até o policial e mostrar o cavalo para meu filho, encantada com a pequena novidade na nossa rotina, foi porquê: 1) tenho uma impressora para imprimir a declaração; 2) tenho um documento de identidade válido; 3) tenho um domicílio para marcar na identidade. Parecem coisas normais, mas infelizmente muitas pessoas nem isso têm. Semana passada, liguei para a faxineira para assegurar-lhe de que continuaria pagando suas três horas de faxina semanais durante o confinamento. Aproveitei para perguntar como estava e aconselhei-a dar uma saidinha todos os dias. Ela me respondeu que adoraria fazê-lo, mas não pode, porque não tem impressora nem documentos. Contou que outro dia, não aguentando mais ficar em casa, se aventurou, mas o passeio não durou nem dez minutos. Assim que viu a polícia ao longe, deu meia volta e correu pro apartamento que divide com outras oito pessoas.

Conversando com uma amiga ontem à noite, ela me disse que ouviu na rádio que a polícia estava controlando os sdf (sigla para “sem domicílio fixo”, que é como denominam as pessoas que moram na rua aqui. Prefiro esse termo a mendigo, que me parece pejorativo e determinista). Essa amiga contou o caso de um homem que foi controlado e teve que pagar a multa de 135 euros porque estava sem a declaração. O homem tentou explicar que morava num apartamento de dois cômodos com a mulher e as cinco crianças e a situação ficou tão difícil que se mudou para o carro. Estava só tomando um solzinho sentado na calçada em frente ao carro. Mas a polícia foi impiedosa, e ele levou a multa que representa uma parte importante do orçamento da sua família.

Essa manhã meu marido, que acompanha o avanço da pandemia no mundo de maneira obsessiva, estava me falando sobre como os americanos estão lidando com ela. Ele me contou que em Nova York estão fazendo os moradores de rua dormir em lugares de estacionamento, para se assegurarem de que eles mantém a distância mínima necessária entre si. Fiquei imaginando um grande tabuleiro de xadrez, com os sem teto dispostos nas vagas de estacionamento de maneira intercalada. Achei essa gestão da pobreza, do espaço e dos indivíduos bastante surreal, para dizer o mínimo.

Esses exemplos confirmam: a romantização da quarentena é um privilégio de classes. E a pandemia, como todas as catástrofes, penaliza sobretudo os mais vulneráveis. Tendo dito isso, continuarei fazendo bolinhas de sabão e confeccionando coroas de flores com as crianças no bosque. Porque, por mais importante que seja termos consciência dos nossos privilégios de classe, sofrer além do necessário não alivia em nada o sofrimento dos outros.

 

Duas semanas

 

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Ontem fez duas semanas que Macron decretou o confinamento na França. Ele evitou pronunciar essa palavra, confinamento, para que não sentíssemos que era isso que estava fazendo com a gente, confinando. Ao invés, ficou repetindo: “Estamos em guerra. Estamos em guerra. Estamos em guerra”. Querendo, apesar da cara de boneco sem emoção, implantar uma emoção imensa no coração dos telespectadores: Medo. Além dos sentimentos de urgência, patriotismo e “vale tudo” que acompanham as declarações de guerra. Estamos em guerra, fique em casa, faça sacrifícios, não questione minhas decisões. Mas não se preocupem, o Estado não deixará nenhuma empresa ir à falência. Foi o que ficou do seu discurso na minha memória.

Logo após o pronunciamento, além do desgosto pelo vocabulário marcial, fiquei confusa em relação aos seus efeitos práticos na minha vida cotidiana. Que as escolas iriam fechar, meu maior pesadelo, eu já sabia: meu pequeno estava em casa há dias porque sua professora e assistente estavam doentes (havia rumores de que seria coronavírus) e no dia anterior todas as escolas do país já haviam fechado. Eu achava que essa situação duraria quinze dias. Meu marido, mais pragmático, cortou minhas esperanças na hora: vamos ficar sem escola ao menos até o final das férias de abril. Quase tive um troço! Como se não bastassem as férias de duas semanas que os alunos têm o ano inteiro aqui na França, ainda colocaram um confinamento entre duas sessões de férias. Pior do quê agosto, mês das férias de verão, o mês mais longo do ano!

(Claro que me dou conta, hoje mais do que nunca, da importância do confinamento. Mas a ficha demorou a cair. Eu também, no começo, achei que era só uma gripe e estavam fazendo alarde inutilmente. Afinal, a gripe mata 10.000 pessoas por ano na França. Ainda não estavam morrendo 600, 700, 800 pessoas por dia na Itália e na Espanha.)

Voltando aos efeitos práticos do confinamento, o que me deixou confusa no discurso do Macron foi que ele disse que os donos de cachorro poderiam levar seus animais para passear, mas não fez nenhuma referência à situação das crianças. Achei incrível ele pensar no bem-estar dos cachorros antes das crianças! Como se elas não precisassem ser passeadas. No dia seguinte, quando levei minha filha de sete anos ao parque, disse à ela: “se a polícia nos parar, você late!”. Ela não entendeu, mas concordou.

Desde então o discurso do Macron foi clarificado, minha filha não precisou latir e nenhum policial nos abordou. Aliás, estou um pouco decepcionada por ainda não ter sido controlada. Queria tanto ter a oportunidade de mostrar minha “déclaration sur l’honneur”. Tão francês isso: imprimir em um papel os motivos da sua saída e assinar atestando, em nome da sua honra, que você tem uma razão legítima para estar fora de casa.

Uma semana mais tarde as condições da saída ficaram um pouco mais rígidas: o passeio não pode durar mais de uma hora, então temos que marcar a hora em que saímos de casa na declaração. Como os passeios no bosque são meu momento preferido do dia, logo arrumei uma estratégia: fazer duas declarações, cada uma com um horário diferente. Anunciei a solução brilhante ao marido francês, que ficou chocado. Depois fiquei me sentindo mal: meu Deus, será que não tenho honra? Na via das dúvidas, preocupada em manter minha integridade, decidi não dar nenhum jeitinho tropical e respeitar as regras. Me permito apenas uma margem de dez ou quinze minutos no horário da saída, o tempo de uma eventual pirraça de criança na hora de voltar para casa. Nada mais justo.