11 de maio

Dia 11 de maio, a tão esperada data do desconfinamento na França, chegou e passou. Estava todo mundo ansioso, mal aguentando a espera. Era como vontade de fazer xixi: quanto mais perto chegávamos do objetivo, mais ela apertava. Lá em casa, estávamos elétricos. Gritando, brigando, pedindo desculpas, respirando pra acalmar e gritando de novo. Meus amigos que estavam confinados sozinhos também andavam meio enlouquecidos, achando difícil dar conta dos próprios fantasmas.

O marido e eu passamos a semana que antecedeu o desconfinamento preparando a evasão. Nosso filho menor está no primeiro ano do maternal e não tem data de voltar pra escola. Ontem mesmo recebemos uma mensagem da professora explicando que não sabe se a veremos antes de setembro. Ela está trabalhando na escola para os filhos de médicos e outras pessoas que têm o direito de retomar as aulas. Quando li sua descrição sobre como o retorno está acontecendo, fiquei feliz por poder continuar com meu filho em casa. Deve ser muito difícil para as crianças de quatro anos entenderem as regras que surgiram com o coronavírus. Nossa filha mais velha está matriculada em uma escola alternativa que de hábito já é suja. Não fiquei nem surpresa quando a diretora enviou um e-mail dizendo que eles não preenchiam os requisitos sanitários necessários para reabrir as portas. Alguns dias mais tarde a associação de pais também mandou uma mensagem, argumentando que esses requisitos vão contra a própria pedagogia da escola, que é baseada na experimentação e no compartilhamento. Decidiram então que a escola não vai fazer esforços para voltar a funcionar agora e que os filhos dos pais que precisam trabalhar serão acolhidos de forma voluntária por outras famílias da escola. Normalmente fico irritada com os bolos de poeira nas escadas da escola e os pais hippies que nas reuniões propõem coisas como ensinar os alunos a fazerem shampoo de farinha de grão-de-bico, mas fiquei orgulhosa com essa atitude. Também acho que a solidariedade entre famílias vale mais do quê a reabertura das escolas a qualquer custo. É de escolhas nesse sentido que precisaremos se de fato quisermos uma sociedade pós-pandemia renovada.

Continuaremos então cuidando das crianças em tempo integral até pelo menos setembro. Não vou dizer que não sofro nem um pouquinho com esse pensamento. Mas as coisas são o que são. Ao mesmo tempo, o marido e eu estávamos de acordo que tanto nós quanto as crianças teríamos um ataque de nervos caso continuássemos gritando “para de correr” cento e cinquenta vezes por dia, com o coração na mão cada vez que os pequenos se empolgam e fazem barulho, com ódio do vizinho que mandou a polícia na nossa porta logo no começo do confinamento. A extremidade da situação levou-o a uma decisão corajosa: ligou para o pai e reivindicou o direito de ir à casa de campo, que estava fechada há mais de dois meses. “E como vocês vão fazer com o carro?”, meu sogro perguntou. Explico: o carro que antes eles nos emprestavam está parado na garagem da casa de campo desde o verão passado. Foi a forma que a sogra encontrou para me punir quando ousei revidar os berros da sua filha preferida. Mas essa é outra história… “A gente aluga”, o marido respondeu. O sogro pediu dois dias pra pensar.

Na quinta-feira antes do desconfinamento ele nos deu a resposta: podemos usar a casa de campo até o dia 19 de maio, data em que ele irá para lá com a esposa, a filha preferida e seus dois filhos. O marido sabiamente decidiu que não era hora para orgulho ferido ou lavagem de roupa suja, deveríamos simplesmente aproveitar da oportunidade de desfrutar de uma casa espaçosa, sem vizinhos e com um jardim imenso para as crianças. Essa é uma coisa que preciso aprender com ele, sangue frio. Fiquei me perguntado o porquê da data precisa, 19 de maio, uma quarta-feira. Afinal, o sogro é aposentado, a sogra não trabalha e a cunhada está entre dois empregos. Mas o marido não arriscou perguntar. Não insisti, ele tem razão, em cavalo dado não se olha os dentes. Evocamos várias possibilidades: eles têm um exame médico em Paris antes do dia 19, ou estão nos enviando como cobaias para ver se conseguimos fazer a viagem sem problemas. Mas o mais provável, segundo o marido, é que seus pais nos deixaram ocupar a casa de campo agora para depois não podermos reclamar. Tudo indica que ficarão lá com a filha e os netos favoritos até a volta às aulas de setembro. Eu não gosto nem de pensar no que vamos fazer durante os quatro meses que ainda temos pela frente. Mas cada coisa no seu tempo.

Assim que tivemos a confirmação da casa começamos a nos organizar. Alugamos um carro no sábado para viajarmos na madrugada do dia 11, segunda-feira. Para buscar o carro, quebrei a regra do confinamento que impunha que não podíamos nos afastar mais de 1 km do domicílio e fui à pé até a agência. Essa caminhada, de máscara nas ruas desertas e debaixo de uma chuva fina, com medo de ser controlada pela polícia, foi a primeira vez que fiquei sozinha em mais de dois meses. Apreciei. Quando cheguei na Gare de Lyon, levei um susto. A estação de trem, que de hábito fervilha de gente e de movimento, estava cinza e despovoada, parecia cenário de filme pós-apocalíptico. Com custo achei o elevador que levava à agência de carros no quarto subsolo. Apertei o botão com nojo. Buscar o carro foi épico. Sou pior do quê domingueiro, não dirijo nem todos os meses. Meus óculos se embaçavam por cima da máscara e me deixavam mais desastrada do quê de costume. Deixei cair o cartão, a carteira e o álcool gel. Quando cheguei na vaga da garagem vi que o carro era imenso. Dei meia-volta e disse ao funcionário mal-humorado que não tinha a menor condição de eu dirigir aquilo. Os dois homens que faziam fila atrás de mim me olharam com raiva por eu aumentar seu tempo de espera e desprezo pela minha inabilidade. Me enchi de coragem e insisti para trocar de veículo. Depois, quando entrei no carro novo, que continuava grande para mim, não consegui ligá-lo. Fiquei uma meia-hora lá dentro até descobrir como fazer, estava fora de questão voltar e pedir ajuda. Pra completar, na saída do estacionamento, passei a um centímetro de uma pilastra cheia de tinta. Precisei parar e utilizar todas as técnicas de respiração que conheço para conseguir manobrar. O moço da agência tinha avisado que se arranhasse o carro deveria pagar 1400 euros por arranhão!

Domingo o marido caminhou até a casa dos pais para buscar a chave e de noite estava tudo pronto. Da janela vi várias pessoas enchendo os porta-malas. A partir do dia 11 poderíamos nos deslocar, mas só até 100 km do domicílio e a casa de campo fica a 240 km da nossa casa. Visivelmente não fomos os únicos que planejamos aproveitar da confusão das primeiras horas do desconfinamento para escapar. Às cinco da manhã, quando colocamos as crianças adormecidas nas cadeirinhas, uns três carros já haviam partido e outros se preparavam pra deixar Paris, tão ávidos por espaço e ar livre quanto nós. Na madrugada chuvosa e silenciosa, a saída da cidade estava cheia. Parecíamos famílias fugindo da guerra. Claro que não ouso me comparar com as pessoas que vivem de fato essa situação, mas a impressão era essa.

Às nove horas da manhã do dia 11 de maio chegamos na casa de campo dos sogros, de onde escrevo essas linhas. As crianças desceram do carro e foram correr no jardim, pareciam cachorro quando chega no sítio e solta a coleira. Meu filho mais novo me perguntou, maravilhado: “Mamãe, aqui eu posso encostar em tudo?”. “Sim filho, aqui você pode encostar em tudo”. “Obrigada mamãe, você é a melhor mamãe do mundo!”. Valeu a pena.

E depois?

Quando ultrapassamos os quarenta dias de confinamento, parei de contar. O tempo se tornou elástico, um chicletes recém mascado grudado na sola do sapato. Todo dia é domingo, ou segunda, ou terça… pouco importa. Mas acho que não foi isso o que me fez parar de contar. Simplesmente perdi a expectativa da contagem regressiva. Quando chegarmos à meia-noite, não haverá fogos de artifício, nem beijo na boca, nem abraço apertado, nada disso. Haverá máscaras descartáveis, distanciação social e medo da epidemia voltar mais forte.

Daqui a exatamente uma semana chegaremos no 11 de maio, data anunciada por Macron para começar o “desconfinamento”. As escolas reabrirão suas portas. Anseio por isso desde os primeiríssimos dias da quarentena. Volta às aulas = voltar a ter algumas horas por dia para cuidar dos meus próprios interesses. Em tempos normais as férias já me parecem longuíssimas, confinada com crianças e marido num apartamento sem quintal e com vizinhos intolerantes então nem se fale. Para mim, era óbvio que meus filhos voltariam pra escola assim que possível. Quando o marido deu a entender que talvez seria mais prudente mantê-los em casa mesmo após o 11 de maio não dei bola, certa de que ele estava exagerando, determinada a não deixar suas ansiedades interferirem nos meus planos.

Até que recebi as mensagens do prefeito e da escola anunciando como acontecerá a volta às aulas. Não serão aceitas mais de quinze crianças por sala. Cada turma chegará e partirá num horário determinado, para limitar o contato com outros alunos. Dentro da sala de aula, cada criança deverá ficar num quadrado vermelho de um metro traçado no chão. Cada criança deverá usar seu próprio material escolar. Se por acaso as crianças tocarem em materiais alheios, eles deverão ser desinfetados imediatamente. Os professores e todos os profissionais da escola deverão usar máscaras. A cantina não funcionará, cada criança deverá levar sua própria refeição e comê-la em cima da sua carteira dentro do seu quadrado. Não haverá recreio. Os pais não poderão entrar na escola. E por aí vai.

Tínhamos até hoje para indicar se nossos filhos retornarão ou não à escola segunda que vem. Depois do banho de realidade que tomei lendo a mensagem do prefeito, não tive dúvidas, vou ficar com as crianças em casa até o próximo ano letivo, em setembro. Foda-se se vou continuar gritando “parem de correr” cinquenta vezes por dia, em vão e com o coração na mão por causa dos vizinhos; foda-se se vou continuar me agachando cento e cinquenta vezes por dia pra catar brinquedos pelo chão – a propósito, ontem uma amiga me disse uma das coisas mais certas que já ouvi: “arrumar casa com criança dentro é igual escovar os dentes comendo bolacha”. Foda-se se o confinamento me pegou em plena conversão profissional, pra não dizer crise existencial, e até agora não sei o que vou fazer quando tudo isso acabar.

Parece que 65% dos franceses afirmaram que não vão mandar os filhos pra escola dia 11. Essa informação me foi dada por um amigo colombiano que encontrei por acaso no bosque. Ele estava morto de rir, como quem diz “esses franceses são mesmo loucos”. Gosto muito desse amigo, ele está sempre de bom humor, apesar de ser casado com uma russa que parece carregar o peso do mundo nos ombros. Mas quando ele disse isso fiquei dividida. Por um lado lamentei ter perdido essa leveza. Por outro, achei que a ficha dele simplesmente não caiu.

A maior parte das pessoas ao meu redor está preocupada com o aumento do risco de contágio que a volta às aulas representa. São mais pragmáticas do que eu. O que realmente me angustia é pensar nas crianças voltando pra escola dessa forma. Mesmo explicando muito, acho que ao menos para os meus, que ainda tem quatro e sete anos, a distância entre a escola que está na cabecinha deles e da qual eles sentem falta e essa nova forma de escolaridade será, no melhor dos casos, frustrante. No pior, traumatizante.

E a escola é apenas uma ilustração de todo o resto. Como será o mundo pós-covid19? Será que os abraços apertados que damos no Brasil, ou os beijinhos que os franceses dão no rosto pra se cumprimentar, estão condenados? Quais dos novos hábitos que estamos adquirindo ficarão com a gente? Os bons ou os ruins? Espiritualistas e ambientalistas afirmam o lado bom da pandemia, insistem na guinada positiva que a humanidade está sendo obrigada a dar. Quero muito acreditar nisso, mas quando vejo as máscaras e luvas descartáveis jogadas no chão no meio do bosque penso que nada mudou, nem mudará. Isso pra não falar na tristeza que invade meu coração cada vez que leio uma notícia sobre como o governo está lidando com a pandemia no Brasil.

Outro dia, andando na rua, minha filha perguntou: “mamãe, o que é apocalipse?”. Senti um aperto no peito. Onde ela ouviu isso? Por alguns instantes fui tomada pela superstição: pronto, ela está sentindo o que está acontecendo. Me controlei e perguntei, como quem não quer nada: “Por que, filha?”. Está escrito ali, ela respondeu, apontando para o letreiro de uma loja de sapatos. A loja fica no quarteirão da minha casa e eu nunca havia percebido que ela se chama Apocalipse. Respirei aliviada. Espero que eu esteja me alarmando inutilmente, que algo de bom realmente emerja depois do tsunami. Meu marido leu que a quarentena impediu que 11.000 pessoas morressem vítimas da poluição na Europa. Ouvi dizer também que um dos buracos da camada de ozônio se regenerou. Termino então com essas boas notícias, mesmo se devo confessar que brincar de Polyanna está ficando complicado.

Seis semanas

Hoje faz seis semanas que o confinamento foi decretado na França. Agora estamos à espera de um pronunciamento do governo para sabermos como o desconfinamento, anunciado para o dia 11 de maio, será realizado. Esse me parece um bom momento para fazermos um bilan, como dizem os franceses. Em outras palavras, para nos perguntarmos onkotô e proncovô.

Já escrevi aqui sobre minha frustração com os objetivos alcançados durante o confinamento. Não consegui completar a faxina da primavera, não me revelei uma chef da gastronomia e ainda não alcancei o dia perfeito. Diz o ditado que é com o andar da carruagem que as melancias se ajeitam. Eu achava que no máximo em duas semanas elas estariam todas encaixadinhas umas nas outras. Ao que tudo indica, a quarentena não se contenta em nos obrigar a desacelerar. Na sua repetição, ela mostra que mesmo as coisas mais simples têm seu tempo de maturação e que esse tempo não pode ser forçado.

Não estou mais falando das melancias, mas das mudanças interiores. Quem se descobriu mais sereno, ou mais explosivo, do que pensava? Quem foi forçado a ficar mais próximo dos filhos e apreciou a oportunidade? Quem já era muito próximo dos filhos e agora, que está nos limites da fusão, decidiu mandar a educação positiva à merda e resolveu que gritos e castigo são a melhor forma de pedagogia? Quem redescobriu porque está com a pessoa que está e já planeja coisas que antes não ousava, como comprarem uma casa juntos? Quem, ao contrário, está contando os dias pra correr pro escritório do advogado e entrar com a papelada do divórcio? Quem está fazendo tanta yoga que está quase se autointitulando guru? E quem fazia yoga uma vez por semana e sem os cursos presenciais decretou que bom mesmo é relaxar com uma taça de vinho?

Eu, pessoalmente, descobri que TPM, educação positiva e casamento harmonioso são uma mistura tão impossível que nem sei como consegui escrever essas palavras na mesma frase. Não teria ficado surpresa se o computador tivesse explodido! Mas confirmei também o que me nutre e me permite encontrar serenidade, senão ao longo de todo o dia, durante alguns instantes todos os dias. Da mesma forma que testo o que funciona melhor no planejamento do dia, vou testando o que funciona na organização das minhas emoções. Algumas vezes me sinto uma fraude. Outras, acho que estou bem. E assim vou, ajustando e reajustando, ajustando e reajustando, buscando o equilíbrio interno ao mesmo tempo em que arrumo, pela milésima vez, o quarto dos filhos.

Certa vez uma monja compartilhou comigo um sonho que ela teve. Nesse sonho, ela pedia para sua mestre lhe mostrar Deus. Em resposta, a mestre lhe indicava um armário perfeitamente arrumado. A monja acordou do sonho irritada, era uma pessoa muito bagunceira e não era esse o tipo de ensinamento que esperava de um mestre espiritual. Com o passar dos anos foi entendo melhor a mensagem e, quando me contou essa historia, já estava completamente convencida. Eu me sinto mais feliz quando o apartamento está limpo e arrumado. É como se a casa respirasse, e eu com ela. Por isso acho que faz sentido relacionar as três coisas: esforço para manter o espaço, o cotidiano e as emoções organizadas.

Ao mesmo tempo em que não vejo a hora do confinamento acabar e mandar as crias pra escola, para enfim me dedicar aos meus projetos profissionais, algo em mim grita: ainda não é tempo! Durante a quarentena, a estação mudou e não tive tempo de guardar os casacos de inverno e tirar os vestidos do fundo do armário. Não tive tempo de selecionar os livros que não são mais da idade das crianças para doá-los. Não tive tempo de decidir se já posso dar os xerox dos textos que usei para escrever meu doutorado e nunca mais abri. Mas não deve ser só isso, afinal, poderei fazer todas essas coisas muito mais tranquilamente quando não tiver duas crianças pulando em cima de mim. E se, na verdade, for eu que ainda não estiver pronta pra sair do casulo? E se a transformação ainda não houver sido concluída? Não corro o risco de me espatifar no chão, como uma lagarta abortada? Será que a parte em mim que reluta em deixar os dias de marmota pra trás se chama medo? Não medo do vírus. Talvez deveria, mas não estou muito preocupada com isso. Medo da incompletude, das coisas inacabadas. Ao mesmo tempo, o que nesse mundo é completo? Uma rosa. Um ovo. Algo mais?

O dia da marmota

Quando penso nas horas que passei em frente à televisão quando era criança, me sinto menos culpada em permitir que meus filhos assistam duas horas de desenho animado por dia durante o confinamento. Um dos filmes que vi muitas vezes, porque ele passava com frequência na sessão da tarde, foi “Feitiço do Tempo – O dia da marmota”.

Desde que o confinamento começou, penso nesse filme todos os dias. Acho que as pessoas da minha geração que cresceram no Brasil sabem de qual filme se trata, afinal, a sessão da tarde era uma instituição nacional. Talvez brasileiros mais novos que eu não tenham assistido O Dia do Feitiço, a programação devia mudar a cada dez anos. Pra quem não conhece, nesse filme o simpático Bill Murray interpreta um jornalista arrogante da cidade grande que vai cobrir uma festa do interior chamada “o dia da marmota”. Por algum motivo desconhecido ele fica preso nesse espaço-tempo que tanto despreza. Todos os dias o jornalista se levanta e constata que é o mesmo dia que recomeça.

Não é familiar? Há quase seis semanas eu acordo para o mesmo dia, que inclui cuidar de crianças, limpar a casa, catar brinquedos no chão, lavar roupa, cozinhar, conversar com o mesmo adulto e preencher uma declaração pra passear no mesmo lugar que fica a menos de 1 km da minha casa durante exatamente uma hora. Até meu filho de quatro anos já se cansou dos passeios no bosque: “mas a gente já foi lá ontem”, ele esbraveja, com uma lógica incontestável.

Passada a exasperação de descobrir que está vivendo o mesmo dia todos os dias, o jornalista se empenha em criar o dia perfeito; ele evita uma poça de lama onde antes afundava o pé todas as manhãs, por exemplo. Pois aqui é igualzinho. Cada dia mudamos um pouco a ordem das coisas, na esperança de um dia de confinamento com crianças senão perfeito, ao menos harmônico. As variáveis fixas são as refeições, a sesta e o banho. As móveis são o estudo, a televisão e o passeio no bosque. Tem dias em que liberamos a televisão das 11 às 13 horas, porque descobri um curso de yoga online maravilhoso nesse horário. Mas aí depois do almoço elas estão agitadas e demoram para fazer a sesta, o que atrasa o restante do dia. Resultado: vão pra cama tarde e nossas duas horinhas de liberdade vão pra cucuia. No dia seguinte mudamos a ordem dos fatores, mas continuamos insatisfeitos com o resultado. Concluímos que temos que tentar outra coisa. Todo dia é o dia da marmota.

O dia da marmota do filme só acaba depois que o jornalista egoísta e pretensioso se torna uma pessoa gentil e atenciosa, capaz de conquistar uma mulher que conheceu nesse dia eterno e pela qual se apaixonou. E o dia do confinamento, quando vai acabar? Li uma entrevista com um historiador em que ele declara que, se não podemos dizer que estamos vivendo uma guerra, o que significaria diluir o conceito ao ponto de esvazia-lo de seu sentido, estamos vivendo, de fato, uma temporalidade de guerra. Quando uma guerra começa, os governantes não dizem “essa guerra vai durar dez anos”, isso deixaria todo mundo em pânico. Eles pedem à população que façam um esforço durante quinze dias, que depois se transformam em meses e por vezes anos. Foi exatamente o que Macron fez, inclusive repetindo ostensivamente “estamos em guerra”, no seu primeiro pronunciamento. No último, ele anunciou um desconfinamento progressivo a partir do dia 11 de maio. Pessoalmente, não acredito que essa decisão inclua as escolas, ao menos não em todas as regiões da França. Professores e educadores estão pedindo garantias de segurança para a volta às aulas, e como garantir que crianças pequenas não corram umas nos braços das outras, não se embolem em brigas e brincadeiras? A verdade é que, nessas alturas do campeonato, não me surpreenderia se anunciassem que as aulas só vão recomeçar em setembro. À diferença do filme, o fim do meu dia da marmota não tem nenhuma relação com minha performance individual.

Ao mesmo tempo, o jornalista do filme também não sabia que se tornar uma pessoa melhor e ganhar o amor da moça quebraria o feitiço. Ele progrediu porque não havia outra coisa a se fazer, e também porque era a única forma de se divertir um pouco. Hoje, quando eu falei pro meu filho mais novo que ele não podia brincar com as pedrinhas do chão da praça por causa do coronavírus, ele replicou, irritado : “Não tem mais coronavírus, ele ficou com medo dos cavalos da polícia e foi embora”. E minha filha de sete anos, na hora do jantar, respondeu impaciente ao pai, depois dele ter explicado que o coronavírus se espalhou pelo mundo com as pessoas viajando de avião: “Então é simples, é só colocar o coronavírus no avião e mandar ele embora”.

Infelizmente, não tem cavalo, nem polícia, nem avião, nem cloroquina, nem fórmula mágica, nem amor correspondido que nos livre do coronavírus. Mas e se eu conseguisse transformar esse dia, que volta todos os dias, num dia absolutamente perfeito? Será que eu poderia então dizer sim à esse eterno retorno? Uma ambição mais modesta é evitar que a monotonia se transforme em melancolia. E para isso, só uma solução: brincar de buscar o dia perfeito.

No campo com a sogra, parte 2

Na manhã seguinte, acordo doente. Chantal e Albert estão alvoroçados, vão receber um casal de amigos de Jeanne. Quando desço as escadas, às quase dez da manhã, a sogra, que normalmente dorme até mais tarde sob o efeito de soníferos, já está de pé e passa a ferro a proteção de algodão branco das cadeiras da sala de jantar. Ela me lança um olhar de pura reprovação. Cogito explicar que acordei pela primeira vez às seis da manhã, com o bebê, mas por volta das oito e meia supliquei ao marido que saísse da cama e me deixasse dormir um pouco, pois havia passado uma noite horrível, assoando o nariz, delirando com a febre, procurando em vão uma postura confortável. Deixo pra lá, de nada adiantaria. Digo apenas, em um sussurro, que perdi a voz. Ao que ela responde: “ – Melhor assim”.

Dou bom dia à Jeanne, que está sentada na mesa tomando café da manhã. Digo-lhe que estou doente como não me ocorria há anos. Ostentando um semblante quase tão impassível quanto o da mãe, ela não se dá ao trabalho de responder. A expressão emburrada salienta a magreza e as olheiras escuras que vieram habitar seu rosto desde a morte do marido. Seus cabelos, negros pontuados por fios brancos que antes não estavam ali, estão desordenados, presos num rabo baixo desleixado. As costas arqueadas parecem penar para sustentar o peso das roupas largas. Sinto-me sem jeito por ter evocado meu próprio mal-estar.

As crianças correm no jardim. Indisposta, deixo-me cair no banco de madeira e observo. O céu está azul, sem sinal de nuvens. Nessas ocasiões, os europeus correm para fora das casas para não perder nem um instante dos raios de sol. Enfastiada dos meses cinzentos, eu também cobiço, há muito, dias como esse. Hoje, porém, daria tudo para ficar na cama, recuperando do vírus que sobrepujou meu organismo durante a noite.

Jasmim, minha filha mais velha, pede que eu a empurre na balança. Exausta, proponho fazer uma coroa com as margaridinhas que pontuam o gramado de branco. A menina joga as flores no chão e corre atrás de Jeanne, que se posiciona em frente à balança, prestes a empurrar seus filhos, David e Anton. Tomo ímpeto para me levantar, mas parece que meu corpo foi atropelado por um dos imensos tratores verdes que transitam regularmente na estrada em frente à casa. Forço a garganta e, com a voz fraca, esboço desculpas. Jeanne continua carrancuda. Ouço a voz do meu marido na cozinha perguntando onde estou, e a resposta desdenhosa de Chantal: “- Sua mulher está muito doente pra cuidar da própria filha!”. Minhas bochechas febris ficam ainda mais quentes. Repito mentalmente um mantra, num esforço de alto controle. A raiva passa, mas em meu peito cresce a opressão silenciosa que torna difícil respirar, a culpa muda e indefinível que, aos poucos, toma conta de mim cada vez em que estou na casa de campo dos sogros.

Os convidados de Jeanne chegam e o almoço se revela um verdadeiro suplício. Aperitivo, entrada, prato principal, queijos, sobremesa, café… As horas que passo sentada naquela mesa, lutando em silêncio para não esvanecer, retirando e tornando a colocar o casaco, parecem intermináveis. Como gostaria de pedir licença e subir para o quarto, proeza impossível na casa de Chantal. Lembrei-me de certa vez em que estávamos ali, Jasmim acabara de completar um mês e acordava a noite toda para mamar. Cada hora de sono contava, mas eu devia esperar o fim dos longos jantares para poder me deitar, como se não estivesse em pleno puerpério. Chantal, que nunca amamentou, me fazia pagar minha escolha. Até mesmo meu sogro, que é médico, se incomoda com o fato de eu amamentar. Ao longo desse almoço interminável, a única vez em que ele me dirigiu a palavra foi para dizer, provocativo : “Tenho pena de você, que amamenta e não pode provar esse vinho maravilhoso”. Ao que respondi, com uma ousadia ainda inédita: “Não é porque estou amamentando que não estou bebendo, mas porque estou realmente doente!”. Nesse ambiente repressivo, saboreio essas pequenas repartidas como conquistas. Outro momento vitorioso foi quando Jasmim exclamou, tão logo Chantal colocou as batatas sauté no seu prato: “Não quero, é batata podre!”. A sogra, claro, nada disse na frente dos convidados. Mas lançou um olhar furioso da minha filha ao meu sogro, em busca de cumplicidade. Como se a exclamação típica de uma criança de quatro anos fosse mais uma prova da selvageria da minha prole. Ela também me fuzilou com o olhar, esperando que eu repreendesse Jasmim. Foi minha vez de fingir que nada acontecera. Como poderia sabotar o único momento delicioso do almoço?

A tarde passa arrastada. Conto as horas para o jantar, o banho das crianças, a história de boa noite de Jasmim, a mamada final de Enzo, até que finalmente me desfaleço na cama. Imagens começam a se formar em minha mente, estou quase sonhando quando sou acordada pela tosse, ou pelo ronco de Vincent, ou o choramingar de Enzo, ou ainda Jasmim, que quer fazer xixi… Tudo se mistura em uma bruma confusa. Alterno ondas de frio e calor, troco duas vezes o pijama encharcado de suor. Em meus delírios, vejo Chantal debruçada na janela e caindo no jardim. Não conto para ninguém, mas o sonho me trás uma satisfação alegre. Acordo da noite tumultuada com um sorriso nos lábios. Nada como uma compensação imaginária para suportar o campo com a sogra.

 

No campo com a sogra

Atendendo a pedidos, aí vai uma história com a sogra. Aconteceu três anos atrás. É tudo verdade, mas os nomes são fictícios.

 

Seis horas da tarde. Meu rosto se ilumina quando abro a porta do carro. O sol, ainda alto, realça o verde da grama recém cortada. Seus raios formam pequenas estrelas que pendulam junto com as barras de ferro da balança, de onde ecoam sonoras risadas e despontam bracinhos e perninhas. Há meses anseio por esse frescor. “A gente revive”, disse uma amiga quando almoçávamos em uma mesa ao sol, uma semana atrás. Meu coração reconheceu a exatidão dessas palavras simples. É primavera e eu renasço em cada brotinho que surge na ponta de cada ramo de cada árvore. Nessa época do ano, os ninhos são facilmente visíveis através dos galho seminus. Uma felicidade boba me invade quando percebo um pássaro voar com gravetos no bico. Fecho os olhos, sinto o calorzinho se difundir na pele enfim livre dos casacos de inverno.

Mas tal leveza não pode durar. Ao fundo do jardim, sentada numa espreguiçadeira, contrastando com a imponente casa de pedras e revestimento amarelo típico dessa parte da Normandia, está ela, Chantal, minha sogra. Uma respiração pesada marca a volta à realidade. Enzo começa a se impacientar na cadeirinha de bebê. Pego-o no colo e desço o morrinho que leva até a casa. Me pergunto como agir, afinal, na última vez em que estive ali me rebelei pela primeira vez, após mais de dez anos engolindo as malícias dessa senhora. Atravessei o portão furiosa, o tapete de yoga num braço e o recém-nascido no outro, os pés descalços desafiando as pedrinhas da estrada, berrando que jamais entraria naquela casa novamente. Desde então, muita água rolou. Uma semana após ter me insurgido, engoli meu orgulho e enviei um cartão de paz para Chantal, que por sua vez fingiu que nada acontecera, empurrando a poeira para debaixo do tapete com polidez francesa.

Sobretudo, alguns meses após esse episódio, o esposo da filha caçula de Chantal, Jeanne, faleceu abruptamente, deixando-a viúva com dois filhos pequenos. Além de Jeanne e do meu marido, Chantal tem outra filha, a mais velha dos três. Jeanne sempre fora sua preferida e, desde antes de perderem o pai, seus filhos, que têm praticamente a mesma idade dos meus, são seus netos favoritos. Na verdade, é como se Chantal tivesse uma filha e dois netos, quando na verdade ela tem três filhos e sete netos. A morte do marido de Jeanne não melhorou essa situação, pelo contrário. Ela, que já era uma santa aos olhos da mãe, se tornou uma mártir. Mas, como é próprio da morte, esse acontecimento trouxe uma urgência de união para a família, suspendendo momentaneamente as antigas querelas.

“Talvez a satisfação de ver meu filho, seu neto mais novo, alivie a situação”, espero. Não há quem não derreta com o olhar esperto e o sorriso maroto de Enzo : na creche, as moças brigam para cuidar dele; na rua, as velhinhas param para conversar, subjugadas pelo seu charme. Esse pensamento me dá coragem. Prossigo, quase sorridente. Mas Chantal não se levanta da espreguiçadeira, sequer descola os olhos do livro. Me aproximo e deposito Enzo na grama, próximo aos seus pés. Anton, filho de Jeanne, um ano mais velho que Enzo, corre até o primo e lhe faz um carinho na cabeça. A sogra declara, então, encantada: “- Que gracinha, ele o acaricia como se fosse um cachorro”.

 

Continua…

Paixões e cloroquina

Umas três semanas atrás, recebi num grupo WhatsApp um vídeo em que o médico francês Didier Raoult defende o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina, seu derivado menos tóxico, no tratamento do Covid-19. Pra quem não conhece, Raoult é um senhor de cabelos e barba longos e brancos, uma figura que pela própria aparência de hippie gera simpatia nuns e desconfiança noutros. Aqui na França a polêmica em torno da cloroquina se cristaliza na pessoa desse que é, apesar de tudo, um dos médicos infecciologistas mais respeitados do mundo. Pra complicar as coisas, Raoult mora e trabalha em Marseille, contestando assim o monopólio parisiense do conhecimento.

O vídeo em que Raoult fala sobre a cloroquina foi enviado por um professor de yoga, acompanhado de um comentário algo delirante:

“É evidente que quando um científico reconhecido fala, deveríamos escutá-lo. (…) Podem me chamar de teórico do complô, mas eu vejo apenas homens de negócio e pseudocientíficos em busca de notoriedade, lobbies farmacêuticos em busca de lucro e políticos querendo controlar as massas, caminhando para ditaduras aceitas por pessoas gastas em todos os sentidos do termo”.

Li o comentário acima com uma certa preguiça e não me dei o trabalho de abrir o vídeo. Quando uma pessoa escreve “podem me chamar de teórico do complô” ou algo que o valha, as chances dela estar de fato sob o charme desse tipo de narrativa são imensas. Teorias do complô são extremamente sedutoras. Além de fornecerem uma explicação límpida para fenômenos complexos, elas nos dão a sensação de que somos inteligentes, pois enxergamos algo que quase ninguém está vendo. Situações de incerteza como a pandemia que estamos vivendo são terreno fértil para o complô. Classifiquei então a polêmica da cloroquina na mesma gaveta que as mensagens que recebi alertando para um plano de dominação mundial vindo da China.

Até que percebi que meu marido andava resmungando pela casa, inconformado pelo fato do Macron não liberar o uso da cloroquina como auxiliar para o tratamento dos pacientes com Covid-19. Como ele parece achar fascinante seguir os diferentes protocolos de teste sobre a cloroquina associada à outros remédios (em Marseille, Angers e no projeto Discovery), dessa vez decidi prestar mais atenção no assunto e pedi que me explicasse seu ponto de vista. O que ele fez na mesma hora, feliz com a ocasião de compartilhar com outro ser humano o conhecimento adquirido através de muitas horas de leitura compulsiva. Desde o começo o marido quer discorrer sobre a epidemia comigo, mas eu não sinto a necessidade de acompanhar de perto o número de mortos e pessoas em tratamento intensivo em todos os países do mundo. Pra mim esse assunto é inútil e ansiogênico. Na primeira semana do confinamento, cada vez que ele vinha me falar sobre a forma de tal ou tal curva, ou do impacto do confinamento sobre as diferentes populações, eu respondia, irônica, “acabou o momento coronavírus?”. O coitado acabou prometendo que não tocaria mais no assunto comigo…

Voltando à cloroquina, a primeira coisa que ele me disse foi que talvez a única idosa que esteja protegida do coronavírus na França é minha sogra, porque ela toma esse remédio todos os dias para sua poliartrite! Vaso ruim não quebra. Depois me explicou toda a controvérsia em diversos pontos, que prefiro não infligir a vocês. Me contentarei em dizer que ele acabou me convencendo de que o Macron não estava mandando bem, se metendo em decisões que cabem aos médicos tomar. Por isso achei um pouco superficial quando recebi, em outro grupo WhatsApp, um meme gozador, dizendo que “para a cloroquina fazer efeito, tem que ser ingerida com dois goles de água do Rio Jordão”. Não estava a par das dimensões da polêmica no Brasil, mas não foi necessário muito esforço para compreender que o Bolsonaro estava preconizando a cloroquina para o tratamento do Covid-19, como Trump havia feito duas semanas antes dele.

Foi então com um certo incômodo que redigi, nesse grupo, os argumentos do meu marido, com a intenção de disponibilizar para pessoas queridas no Brasil a versão francesa da história. Depois fiquei pensando… que loucura, na França as pessoas acusam o Macron de não liberar o uso da cloroquina, um remédio barato, em prol dos laboratórios farmacêuticos, que em breve lançarão vacinas e tratamentos caros. No Brasil as pessoas se indignam porque o Bolsonaro promove o uso da cloroquina, cujos efeitos colaterais podem ser importantes, para suscitar uma esperança cega (e que, diga-se de passagem, evacua completamente a ideia fundamental de que se os hospitais não podem acolher todos os pacientes, os médicos deverão escolher quem salvar, como aconteceu na Itália). Em cada um dos dois países, o uso do mesmo medicamento para o tratamento da mesma doença deu lugar a duas visões opostas, que representam tanto uma quanto a outra a desconfiança dos poderes públicos.

O fato dos meus amigos brasileiros enxergarem a cloroquina como um remédio de charlatão não tem nada de surpreendente. Por que eles deveriam confiar numa solução vinda de um homem que, desde o começo dessa epidemia, não deu uma bola dentro? Uma das grandes dificuldades que o brasileiro tem vivido é a de navegar num barco sem capitão. Como confiar num presidente que mente? No Brasil, a sensação é de que está nas mãos da sociedade civil decifrar as informações que os líderes políticos permitem chegar ao seu conhecimento e agir por conta própria. Na França, por outro lado, as pessoas estão habituadas a escutar suas lideranças e refletir sobre o que dizem, ainda que depois ajam como julgarem melhor. Desde o começo da epidemia, elas assistem religiosamente os pronunciamentos do presidente e do ministro da saúde. Aqui, o ressentimento em relação ao Macron é proveniente sobretudo da sua incapacidade de agir com eficácia, de tomar decisões rápidas e certeiras, num contexto novo e que gera insegurança.

O próprio da ciência é estar aberta à discussão crítica, à diferença dos pseudo-saberes, que sempre contornam o debate. Ainda não existe uma resposta certa quanto ao uso da cloroquina no tratamento do covid-19, talvez daqui a algumas semanas conheceremos melhor a relação benefício-risco. Pelo momento, sei apenas que, quando a ansiedade baixa, o melhor a fazer é respirar profundamente e lembrar que tudo passa, os políticos passarão, nós passarinho.

Quatro semanas

Quase quatro semanas de confinamento. Eu ainda tenho esperanças de que ele dure apenas dois meses, o que significaria que já estamos na metade. No começo, duas semanas me parecia enorme e agora estou escrevendo “apenas dois meses”. É uma das características desse confinamento: nossa perspectiva das coisas muda numa velocidade assustadora. Poucas semanas atrás eu achava que as pessoas usando máscara exageravam. Um médico havia me dito que a máscara só fazia sentido quando usada por pessoas com sintomas, o que me pareceu sensato. Confesso que eu experimentava uma espécie de auto-satisfação ao passar por pessoas mascaradas. Ao menos não sou hipocondríaca, pensava, sentindo-me esperta por não me deixar levar pelo pânico suscitado pelos meios de comunicação. Hoje é tarde para encontrar máscaras no mercado e estou sofrendo por não possuir talentos de costureira.

Ao contrário de mim, meu marido é um vanguardista da cautela em tempos de epidemia. Ele chegou a encomendar uma caixa de máscaras pela Amazon quando o vírus se expandia na Itália mas ainda parecia sob controle na França, mas ela nunca chegou. Nesses dias, ele releu A Peste de Camus e concluiu, solene: os que sobrevivem não são os que se acham inteligentes e acima do medo coletivo, mas os que veem longe e agem com precaução. Não dei muita bola, ele sempre foi prudente demais pro meu gosto.

Poucos dias antes do confinamento, eu cheguei a apertar a mão do meu ex-orientador de doutorado e omiti esse acontecimento banal do meu marido. Não porque ele é ciumento, mas porque já estava me preconizando o distanciamento social. Mas não havia a menor chance de eu dizer ao meu ex-orientador, o equivalente do Mestre dos Magos na minha vida, que não queria apertar sua mão. Acho que agora ele também não deve estar apertando a mão de mais ninguém… Quando o Macron enfim pronunciou o confinamento, meu marido respirou aliviado: o mais difícil não era ficar em casa, mas tentar me segurar, disse. Ele estava enfurecido porque, três dias antes, eu tinha pego o metrô e ido à uma aula de yoga. E eu estava quase sufocando com a perspectiva de ficar duas semanas dentro de casa com ele e as crianças.

Eu não sei se hoje o marido diria a mesma coisa. Ele já está de saco cheio de mim, das crianças, de toda essa situação… e eu dele, diga-se de passagem. Outro dia li num artigo que os primeiros dez ou quinze dias de confinamento são os mais simples, entre outras coisas porque temos objetivos. Eu, por exemplo, pensei que seria o momento ideal para uma faxina de primavera. Quando disse isso ao marido, toda serelepe, ele virou os olhos aos céus e disse: “Além do confinamento, ela quer me pôr pra fazer uma faxina de primavera”. Achei essa atitude péssima. Hoje, estou atrasada com a faxina simples mesmo. Às vezes ainda tento, imagino a Marie Kondo, com aquele seu jeitinho meigo e simpático, ao meu lado, respiro fundo e começo alguma empreitada, como lavar todas as proteções de colchão da casa, ou todos os bichinhos de pelúcia das crianças. Mas com o passar dos dias estou me desencorajando… Quatro dias atrás comecei a limpar o armário do banheiro, que tem quatro portas. O projeto, realista e sem grandes ambições, era limpar uma por dia, enquanto as crianças tomam banho. Hoje faltou-me o ânimo para limpar a quarta. Preferi usar o tempo do banho das crianças cantando mantras e cozinhando, para desespero do marido, que morre de medo dos vizinhos acharem que somos Hare Krishna.

Se estou escrevendo aqui sobre esse desencorajamento progressivo, é porque tenho a sensação de que não sou a única passando por isso. Acho inclusive que esse estado de desânimo concerne também os pequenos, e na verdade foi isso que me deixou alarmada. Há alguns dias meu filho de quatro anos não quer sair de casa e hoje foi a vez da minha filha de sete não querer passear. Eles não mudaram de ideia nem quando disse que se não saíssem um pouco não teriam direito de assistir um desenho animado. Aí assustei.

Essa manhã todos acordamos mais tarde do quê de costume. Minha filha mais velha, que não faz a sesta há anos, também dormiu depois do almoço. Mais tarde ouvi uma amiguinha dela dizer, ao telefone: “passei o dia inteiro de pijama”. Acho que esse é o perigo que está à nossa espreita e um dos grandes desafios para os pais. Manter o entusiasmo. Sem dúvidas seria mais fácil se soubéssemos quando tudo vai acabar.

No começo ouvi umas pessoas dizerem que não queriam “fracassar a quarentena”. Mas não seria igualmente absurdo ter sucesso na quarentena ? Pessoalmente, eu já não tenho grandes planos para o confinamento, como melhorar minha relação com o marido, terminar o livro que anda dentro da minha bolsa há meses porque me comprometi a fazer uma resenha dele, ou jogar fora tudo o que é inútil nessa casa, não sem antes agradecer cada objeto com um sorriso. Agora meu único objetivo é garder la morale, como dizem os franceses. Ou seja, não me deixar abater e ajudar meus filhos a continuarem em forma, mesmo se minha vida é mais fácil quando eles estão prostrados na frente da televisão.

Um último pensamento : não é interessante que muitos de nós, ao se aproximar dos quarenta, tem esse sentimento de que fracassamos na vida? Fracassar a quarentena, fracassar aos quarenta… romantizar a quarentena, desromantizar… para finalmente reerguer o queixo e prosseguir, na quarentena como aos quarenta.

Minha sogra francesa

Poucos dias após ter começado esse blog mandei o link para uma grande amiga, que respondeu: “Muito bom!!! Só não está fazendo sentido, ao menos até agora, o nome do blog…”. Ignorei o comentário. Passei os últimos meses pensando na sogra praticamente todos os dias e apenas recentemente consegui me liberar dessa carga emocional; estava relutante em voltar a ocupar minha mente com um assunto que me chateia. Ao mesmo tempo, gosto do nome “Minha sogra francesa” e não tenho vontade de mudá-lo.

Chegou a hora de explicar as razões do título. Comecei esse blog há exatamente dois anos, numa época em que precisava escrever sobre a sogra para suportar sua existência. Criei a conta no wordpress, o título, o e-mail, o pseudônimo, mas não tive coragem de publicar nada. Acho que, em parte, eu tinha medo que ela descobrisse minha atividade secreta. No fundo, ainda acreditava que um dia pudéssemos ser próximas. Eu era mesmo muito iludida.

Agora liguei completamente o foda-se. Quem está sofrendo é o marido, que começa a enxergar uma faceta da mãe que não é de todo apreciável. Aliás, foi um comentário dele hoje mais cedo que me motivou a escrever essas linhas. Eu estava ajoelhada no chão, lavando os cabelos da nossa filha, quando ele disse, com um sorriso : “Minha imagem da maternidade é ganância e ódio”. Na hora não entendi se ele estava brincando ou me atacando, nem por quê. Depois caiu a ficha, não era de mim que ele estava falando, mas da própria mãe.

Pra vocês começarem a entender essa figura difícil sem sair do tema do confinamento, conto aqui o motivo do meu marido estar chocado com a atitude dela, a ponto de ruminar pela casa dizendo bizarrices sobre a maternidade : nesse exato momento existe uma maravilhosa casa de campo na Normandie, com um imenso jardim e um carro na garagem, inutilizados. Os sogros preferiram ficar confinados no seu apartamento parisiense, pois se sentem mais seguros estando próximos aos hospitais, e optaram por manter a casa de campo vazia com o carro lá dentro. Pouco importa que o filho e os netos estejam confinados num apartamento de dois quartos sem quintal e com vizinhos intolerantes.

Eu nem penso nisso, já fiz o luto da casa de campo há tempos, só me aborreci quando interditaram o bosque ao lado da nossa casa. Lá sim, é meu oásis. Mas o marido, apesar de saber a mãe que tem, ainda pensava na casa da Normandie como sendo um pouco sua também. Afinal, adolescente, ele passou diversas férias de verão esfregando o musgo de azulejos de demolição para a renovação da casa, enquanto seus amigos “iam para colônias de férias e passavam a mão nos peitos das meninas”.

Histórias com a sogra virão, vocês vão ver, ela é um personagem complexo, uma perfeita vilã de novela, gentil e educada à primeira vista, perfídia e venenosa quando chegamos perto. Mas por enquanto prefiro refletir sobre o dia-a-dia do confinamento e oferecer textos que, espero, nos ajudem a atravessar esse momento delicado.

Domingo é dia de feira

Praticamente todos os bairros de Paris têm uma feira durante a semana, às vezes duas. Onde moro, a feira acontece aos domingos. É um momento importante da vida do bairro, um lugar em que as pessoas se encontram, trocam ideia, brincam com os feirantes. Os clientes tropeçam nos carrinhos de compras das velhinhas, que por sua vez reclamam das mães empurrando carrinhos de bebê nos corredores apinhados de gente. Crianças pequenas se extasiam em frente às lagostas vivas, ou observam boquiabertas um senhor de boina rodar a manivela de um antigo instrumento parecido com uma caixa de música tamanho gigante. Jovens escoteiros e senhorinhas simpáticas vendem pedaços de bolo feito em casa, angariando fundos para a Cruz Vermelha ou alguma causa beneficente. E quando, por volta do meio-dia, os feirantes se cansam de gritar as últimas promoções do dia e embalam suas mercadorias, os “glaneurs”, pessoas que recuperam os produtos jogados fora após a feira, chegam sem alardes.

Tudo isso parece pertencer a uma outra época. Com o pronunciamento do confinamento, as feiras foram mantidas durante algum tempo, depois fechadas, para finalmente reabrirem hoje. Ao escrever isso parece que estou descrevendo um tempo longo, quando na verdade me refiro às últimas três semanas. Quando as feiras foram fechadas, fiquei um pouco dividida porque, se por uma lado entendo a necessidade de evitar conglomerações, por outro me parece mais saudável fazermos nossas compras ao ar livre do quê no ar-condicionado do supermercado. Sem contar que quem está realmente lucrando com o confinamento são as grandes redes de supermercado. Eu, pessoalmente, prefiro deixar meu dinheiro nas mãos dos feirantes da agricultura familiar.

Alguém deve ter tido um raciocínio similar, porque hoje a feira foi reaberta. Saí de casa logo cedo, sem as crianças, com um misto de animação e medo. Animação pois estava feliz com a ideia de ver outras pessoas que não sejam meu marido e filhos, bater um papinho, ainda que de longe, com os feirantes de quem compro há anos e os pais de amigos dos filhos, colegas do curso de yoga e outras figuras conhecidas do bairro. Pessoas de quem muitas vezes nem conheço o nome, mas cujos rostos são conhecidos e com quem tenho o hábito de falar sobre amenidades. Medo porque estamos no auge da epidemia e estou apreensiva com a presença desse ser que se assemelha a Deus tal qual descrito por certas tradições religiosas: invisível, onipresente e impiedoso! Como não conseguimos comprar máscaras, fui vasculhar os armários em busca de um lenço que pudesse se transmutar em proteção antivírus. Me deparei com minha kofieh, presente de um amigo palestino, e a enrolei no pescoço, passando por cima do nariz e da boca. Olhei no espelho e me achei parecida com os rapazes de Gaza que lançavam pedras nos tanques israelenses durante a primeira intifada. Saí de casa pronta para o combate.

Mas me senti completamente desamparada quando cheguei na esquina da feira. Eu esperava que ela estivesse menos cheia e sem sua vivacidade habitual, mas não estava preparada para o que vi: policiais vigiando estruturas de ferro parecidas com as dos aeroportos, formando corredores dentro dos quais as pessoas faziam fila, mantendo uma distância de dois metros umas das outras, de máscaras e cara fechada. Mas talvez tenha sido o silêncio o que mais me incomodou : ninguém conversava com ninguém, nenhum senhorzinho tocava música, nenhum jovem tentava te comover sobre alguma catástrofe humanitária, nenhum feirante liquidava seus produtos aos berros. Num primeiro momento pensei em entrar na fila, não estava com pressa de reganhar o lar, onde me esperava a mesma rotina junto das mesmas três pessoas. Mas não dei conta e, após alguns minutos de vacilação, dei as costas à essa versão ascetizada da feira do domingo.

Chegando em casa, vi da janela uma cena que há três semanas atrás seria bizarra e essa manhã era perfeitamente normal: numa rua deserta, um rapaz de máscara e luvas colocava os legumes da feira no porta-malas do carro. Fechei a janela e fui esconder os ovos de chocolate. Porque, na fome de um momento festivo, meu marido e eu trocamos as bolas e achamos que a Páscoa fosse hoje. Quem saiu ganhando foram as crianças.