24 anos

Hoje completo 24 anos! Vou aproveitar bem, porque ano que vem ganharei dez anos de uma vez, farei 34… E no próximo vou ter que parar a brincadeira, porque 44 fica a mesma coisa nos dois sentidos. E depois é que não vou continuar, imagina se vou querer ter 54 ao invés de 45! Então este é o melhor aniversário dos próximos anos, até porque quando voltarei a rejuvenescer, aos 51, o salto será grande demais, não tenho vontade de ter 15 novamente. Mas depois recomeço, 25 aos 52 me parece um bom negócio! Ou talvez até lá eu realmente tenha crescido e não tenha mais coragem de anunciar por aí minha idade ao inverso, como hoje de manhã, quando respondi a um amigo que estou fazendo 24 anos. Ele replicou que estou muito bem para uma mulher de 24. 

Na primeira vez que fiz 24 anos, eu era uma jovem cheia de entusiasmo. Tinha me mudado para Paris há um ano, estava retornando do meu primeiro trabalho de campo, que também foi minha primeira viagem ao Oriente Médio, e escrevendo minha dissertação de mestrado, feliz com o desafio de redigir em francês. Nesta época tudo era possível, até mudar o mundo. Eu já tinha encontrado o Vincent e decidido que namoraríamos sério. Estava cansada dos ficantes e da histeria de me apaixonar repetidamente – porque eu vivia me apaixonando. Rezei uma espécie de novena de vinte e um dias, pedindo a Deus que colocasse no meu caminho um rapaz divertido, inteligente, que me amasse e eu amasse também, e que fosse mais alto do que eu. Acho que ainda estava rezando quando conheci o Vincent. A primeira vez que ele me visitou, eu alugava um quarto na casa de uma madame tão rica quanto fria, na periferia chique de Paris. Como estava anoitecendo e em breve o metrô pararia de funcionar, sugeri que ele dormisse no chão, num colchão ao lado da minha cama. Queria que o namoro vingasse e, para isto, estava decidida a fazê-lo esperar, como nos velhos tempos. Ultrajado com minha proposta, Vincent preferiu ir embora. Acho que foi aí que comecei a me apaixonar. Eu coloquei meus limites, ele aceitou e colocou os dele. Gostei. 

Voltando aos meus primeiros 24 anos… Eu ainda tinha mãe e não imaginava que oito anos mais tarde ela não estaria mais por aqui. Não sabia que ter mãe era ter chão e uma fé inabalável na vida. Agora que faço 24 anos pela segunda vez sou mais cautelosa. Não tenho seu colo para me aconchegar caso as coisas deem errado…

Mas tenho uma filha que adora quando consegue, por alguns instantes, inverter nossos papéis. Fico atenta para que isto não aconteça, sei que não é correto, mas confesso que às vezes acho gostoso. Como da última vez em que, ao me ver triste, ela colocou as mãos em volta do meu rosto e ficou repetindo, para levantar minha moral: você é bela, você é inteligente, eu tenho orgulho de você. Achei graça na faísca que saía dos seus olhos, Jasmim se deleita quando está no comando. Esta menina não é mole. 

E tenho um filho que está crescendo. Enzo não é mais meu bebê, não o vejo mais como uma extensão do meu próprio corpo, mas ele ainda me enche de beijinhos e declarações de amor. Vou confessar outro prazer culpado: alguns meses atrás ele sussurrou no meu ouvido: “Mamãe, não conta pra ninguém, mas eu te amo um pouquinho mais do quê o papai”. Viva o Édipo!

Aos meus segundos 24 anos, tenho uma bagagem de amizades perdidas, ilusões perdidas, ambições perdidas… Mas tenho também amizades nascentes, um olhar mais lúcido e projetos alinhados com aquilo que realmente desejo. 

Sim, tenho desejos. E hoje desejo manter o entusiasmo dos primeiros 24 anos até completar 25 novamente ! 

Parem este ônibus

« Parem este ônibus, meu filho está lá dentro! Parem este ônibus, meu filho está lá dentro!”. 

Eu repetia esta frase aos berros ao mesmo tempo em que corria. Estou acostumada a ser a mãe que grita no meio da rua, pois desde que Enzo sabe andar ele vai pra onde quer quando quer, me obrigando a correr atrás: “Cuidado com o carro, não atravessa, espera a mamãe!”.  Enzo nunca teve medo de se perder ou machucar, ou talvez ele sempre tenha confiado que eu estaria logo ali, dando um jeito de acompanhá-lo. Ao ver esta cena, amigos e familiares sugeriram mais de uma vez que eu o amarrasse com uma cordinha ou algo que o valha. Mas preferi manter sua liberdade, enxergando com bons olhos a autonomia e confiança em si mesmo do pequeno, apesar dos sustos – confesso que já o perdi algumas vezes. 

Mas desta vez a coisa tomou proporções inimagináveis. Se é cansativo correr atrás de uma criança, correr atrás de um ônibus é desesperador. E desta vez a culpa nem foi dele… Estávamos no ponto, ele brincando, eu selecionando fotos no telefone, quando o ônibus se aproximou. Chamei, “Enzo, vamos, o ônibus está chegando!”, e me distraí. O montinho de pessoas que estava na minha frente entrou e chegou nossa vez. Olhei para os lados para dar a mão ao Enzo, mas não o vi. “Talvez ele tenha entrado sem eu perceber”. Mal tive tempo de formular este pensamento e o motorista fechou as portas. Bati com força. O motorista olhou na minha cara e acelerou. 

Fiquei ali plantada. Acabara de inventar o segundo “dilema do ônibus”. O primeiro é aquele em que você já esperou um tempão e começa a pensar que talvez seja melhor pegar outro modo de condução. O que fazer: esperar indefinidamente por um ônibus que talvez não chegará, ou ir embora, correndo o risco de o ônibus chegar no instante seguinte, fazendo com que toda sua espera tenha sido em vão? Todo mundo que pega ônibus passou por isto um dia. O meu dilema do ônibus foi um pouco mais trágico. O que fazer: olhar atentivamente em volta e me certificar que Enzo não está brincando no ponto, perdendo assim preciosos segundos na corrida contra a máquina, ou sair correndo imediatamente, assumindo o risco de deixá-lo sozinho na calçada?

Um brevíssimo cálculo me fez escolher a segunda opção. O ônibus em questão atravessa a cidade horizontalmente, indo do bairro pacato onde moro até um dos lugares mais badalados de Paris. Prefiro perder Enzo perto de casa do quê num lugar onde ele nunca esteve. Saí correndo o mais rápido possível. Logo eu, que nunca gostei de correr; que sofri as piores humilhações da vida nas aulas de educação física, quando a gente era obrigado a correr em volta da escola; que nas pouquíssimas vezes em tentei correr para manter a forma achei que meu coração fosse parar; que sou alérgica ao meu próprio suor e fico com as bochechas queimando e o pescoço coçando ao cabo de poucos minutos de esforço. Logo eu, a anti-heroína da corrida, deveria alcançar o ônibus no próximo ponto ou perder meu filho para sempre. Como se não bastasse, estava carregando, além da bolsa, a mochila do filho, a sacola com o lanche e a cartolina com os desenhos. Ah, e é claro, estava sem sutiã. 

Pensava nestas coisas enquanto corria e observava o ônibus se distanciar exponencialmente. Também pensava que deveria ter tido filhos aos vinte anos, que loucura virar mãe depois dos trinta. Mas o pior pensamento era a lembrança de um livro que li ainda este ano, Véspera, da envolvente Carla Madeira. O livro começa com uma mãe exasperada que faz o filho descer do carro e o larga na calçada. O menino do livro tem cinco anos e meio, idade do Enzo quando o li, e um temperamento parecido com o dele. A mãe deixa o filho na calçada, entra no carro, parte sozinha e, pouco depois, se dá conta do que fizera. Alguns minutos mais tarde, quando enfim ela consegue retornar ao local onde abandonou o rebento (tratava-se uma avenida de mão única), ele não está mais lá. O livro inteiro se desenrola sem que a gente saiba se a mãe culpada e arrependida conseguirá recuperar o filho. A enorme angústia que senti durante esta leitura se multiplicou por mil enquanto eu corria atrás do ônibus. “Me distraí por alguns minutos e agora vou passar o resto da vida sem o Enzo”, pensava. 

Nestas alturas, além de correr eu também berrava, consciente de que se ninguém me socorresse a lei de Murphy agiria em meu desfavor. O ônibus estava parado no ponto seguinte, as últimas pessoas acabavam de embarcar e as malditas portas iriam se fechar novamente, me deixando comer poeira por uma questão de segundos. Logo antes do ponto, grupinhos de adolescentes fumavam na saída da escola e me olhavam estarrecidos, mas não se mexiam. Minha vontade era de gritar: “Façam alguma coisa, bando de imbecis blasés”, mas me ative às mesmas informações essenciais: “Parem este ônibus, meu filho está lá dentro!”. Foi quando um adolescente surgiu do outro da calçada, me olhou nos olhos e, numa fração de segundos, correu bem mais rápido do que eu. Devo dizer que era uma subida e eu, que vinha correndo desde o ponto anterior, estava começando a perder o fôlego.

Não tive tempo de trocar nenhuma informação com o rapaz, mas confiei que ele estava correndo pra mim e continuei correndo. Graças a Deus não me enganei. Quando cheguei meu anjo salvador estava em pé segurando a porta do ônibus. Ele me deu um sorrisão e disse: “Tudo bem madame, ele está lá dentro”. Agradeci rapidamente, decerto não da forma que ele merecia, eu estava por demais estabanada e emocionada para agir corretamente. Fui logo dando esporro no motorista : “Você não abriu a porta quando eu bati, sendo que meu filho de seis anos está sozinho aí dentro! Putain!”. Estarrecida, notei que ele me respondia à altura e não tinha a menor intenção de se desculpar, pelo contrário. Suas palavras chegaram a mim como um conjunto ruidoso desrespeitoso e desagradável, do qual não discerni nenhuma palavra. De toda forma eu não estava em condições de bater boca com o motorista. Desviei a atenção e me concentrei nas pessoas que gritavam, do fundo do ônibus: “Ele está com a gente madame!”.

Vi o Enzo sentado nas últimas cadeiras do ônibus. Corri até ele, me assentei ao seu lado e desmoronei. Para minha surpresa, comecei a chorar e soluçar, incapaz de pronunciar qualquer palavra. À minha frente uma mãe com seu filho, que devia ter a idade do Enzo, me encarava atônita. Era uma dessas mães francesas cujas proles estão sempre silenciosas, assentadas direito e com as roupas limpas. Ela parecia meu reflexo invertido no espelho, a mãe competente que criou uma criança obediente e jamais passará a vergonha de chorar aos prantos depois de correr e gritar bairro afora atrás de um ônibus. Felizmente a senhorinha sentada ao lado me ofereceu uma bala. Aceitei por educação e cética quanto à eficácia do gesto, mas percebi que chupar a bala me ajudava a manter uma calma relativa.

Chegamos em casa e continuei chorando e soluçando, sentada no chão com a cabeça entre os joelhos, depois de ter trancado a porta à chave para ter certeza de que Enzo não iria a lugar nenhum. Ele buscou a caixinha de música no seu quarto, deu corda e me encheu de beijinhos. Não sei dizer quanto tempo se passou assim… Quando recuperei o controle das minhas emoções, perguntei ao Enzo se ele percebeu que eu não estava no ônibus, ele respondeu que não. Com um sorriso maroto, ele acrescentou : “Mamãe, você falou aquela palavra que começa com ‘pu’”. Putain é o palavrão francês por excelência. Derreti. Se esta foi a única coisa que o marcou, então está tudo certo. 

No fim de semana seguinte, numa festa de família, minha sogra me surpreendeu! Eu estava contando esta história para as irmãs do Vincent quando ela se aproximou. Eu ia me interromper quando decidi que “foda-se, ela que pense o que quiser”. Foi-se o tempo em que eu buscava corresponder ao seu ideal materno. Quando terminei de contar, ela simplesmente comentou, com um sorrisinho: “toda mãe parisiense já passou por isso”. 

Ps: a foto que ilustra o texto é de um imenso cano que desemboca no mar e cujo acesso é  proibido ao público. Dois anos atrás o Enzo pulou a correntinha e correu até o final, e lá fui eu correndo atrás…

Jasmim

Sexta passada uma amiga me convidou para jantar na sua casa. Fui feliz da vida porque, além de encontrar duas pessoas queridas, este era um programa que eu podia fazer com minha filha mais velha, Jasmim. Não tanto porque adoro sair carregando cria, mas principalmente porque assim o marido não pode dizer que ficou com as crianças para que eu saísse. Embora ele repita que eu faço o que quero, sei que não é bem assim e prefiro não usar minhas fichas inutilmente. Sair com um dos filhotes não conta, é como seu não tivesse saído. Em outras palavras, levando a Jasmim continuo com crédito para outras noites da semana.

A amiga que me convidou tem um menino de onze anos. Estava também outra amiga nossa, acompanhada dos filhos de nove e dez anos. Jasmim acaba de completar nove anos. Embora eu quase morra de nostalgia quando vejo uma mulher amamentando ou carregando o bebê na echarpe, e me sinta algo velha quando digo que sou mãe de duas crianças “grandes”, nestas horas fico super feliz por ter deixado a primeira infância para trás. É uma maravilha tomar cerveja e jogar conversa fora na cozinha entre adultas, terminar as frases e falar de coisas que não têm nada a ver com os filhos enquanto eles brincam no quarto, bem longe da gente.

Não eram nem nove da noite, as crianças já tinham comido e sumido e eu estava começando a relaxar quando Jasmim apareceu na porta da cozinha, visivelmente transtornada. 

– Vamos embora! – ela disse, sem contornos. 

Me levantei e ela abraçou minhas pernas, murmurando: 

– Mamãe, eu quero ir embora agora.

Senti suas mãozinhas agarrando minhas costas, sua cara enfiada na minha barriga. Ao mesmo tempo em que buscava me tirar dali, Jasmim tentava esconder a emoção das minhas amigas, que estavam tão surpresas com a cena quanto eu. 

– O que aconteceu minha filha? 

– Vamos embora agora mamãe! – ela respondeu, seca, sem deixar espaço para nenhuma conversa. 

Percebi que a coisa era séria. Jasmim é extremamente social, ela seria a garota popular se nossa vida fosse um seriado de escola norte-americano, e eu nunca a havia visto agir desta forma. Minha amiga até tentou negociar: “Mamãe vai só ali fora fumar um cigarrinho com a gente e depois vocês vão”, mas não houve conversa. Sob o olhar incrédulo das amigas, que como eu pensavam ter atingido um estágio da vida dos filhos em que as conversas não são abruptamente interrompidas, chamei um uber e fomos embora, deixando o copo de cerveja meio cheio meio vazio em cima da mesa. 

Dentro do carro tornei a perguntar: 

– O que houve minha filha?

– Lá em casa eu te conto! – ela retrucou por entre os dentes semicerrados, decidida a não dizer nada na frente do motorista. Respeitei. De toda forma, não adiantava insistir.

Quando chegamos, a casa estava em silêncio. O pai roncava num colchão no chão ao lado da cama do caçula, que até hoje exige nossa presença para adormecer. Mal entramos e tornei a perguntar qual era o problema. Estava começando a ficar aflita com tanto mistério. 

Lá no quarto – ela sussurrou.

Entramos no quarto, fechamos a porta, sentamos na minha cama e apenas então perguntei novamente o que havia acontecido, adotando um ar falsamente despreocupado e assegurando-a de que podia sempre confiar na mamãe. Foi então que Jasmim começou a chorar, um choro sacolejado, pontuado de soluços e grunhidos de raiva. Parecia um bichinho tomado pela emoção, humilhado por estar sentindo tudo o que estava sentindo. À estas alturas meu coração batia rápido. Comecei a imaginar, senão o pior, pois afinal tratava-se dos filhos das amigas, o que poderia ser traumatizante para uma menina da sua idade. Quando Jasmim enfim começou a falar, foi de maneira fragmentada: 

– Ele disse…. ele disse… ele disse….

Ela repetia este começo de frase sem conseguir termina-la, soluçando e mergulhando no choro a cada nova tentativa. Quanto a mim, estava ficando cada vez mais difícil manter a normalidade. Até que, alguns “ele disse” mais tarde, ela cuspiu:

– Ele disse que está apaixonado comigo!

Que alívio! Sem pensar, sorri. O que a deixou ainda mais nervosa: 

– Eu não te contei pra você rir de mim! – gritou. 

Tentei disfarçar minha alegria, acolher seus sentimentos, fingir que compreendia a gravidade da situação e ao mesmo tempo explicar que não havia mal nenhum naquilo. As primeiras emoções amorosas da minha filha… Fico imaginando o turbilhão de sentimentos que ela deve ter experimentado: surpresa, vergonha, prazer, orgulho, talvez culpa, sabe-se lá o que se passa na cabeça e no coração de uma menina de nove anos, da minha menina de nove anos… Só sei que ela não estava preparada, nem eu…

Um Conto de Natal

« Se quiserem ganhar presente no natal, vocês precisam separar os brinquedos que não usam mais para dar para as crianças que não têm presente”. Disse isso aos filhos de cinco e oito anos da maneira mais firme possível. Como eles não pareceram muito tocados pelo argumento, continuou: “…e se o Papai Noel chegar neste quarto cheio de brinquedos, ele vai pensar que vocês já têm muitos e vai embora sem dar nada”.

Desta vez as crianças prestaram mais atenção, mas não o suficiente para executar a tarefa. Então sentou-se no chão e começou a esvaziar as caixas de brinquedos, separando ela mesma os que lhe pareciam obsoletos e perguntando, um por um: “Posso dar este?”, “E este?”. A filha mais velha respondia positivamente quase todas as vezes. Sempre fora desapegada. Surpreendera a mãe quando, aos três anos, dera sem resmungar a boneca preferida para umas menininhas indígenas que conhecera na praia e ficaram encantadas com o bebê de plástico. A mãe se disse então que o ser humano nasce bom e generoso e é corrompido mais tarde através da educação individualista promovida pela sociedade capitalista.

O caçula chegou derrubando estas ideias ingênuas. Desde novinho não gostava de compartilhar e agora não era diferente. Cada vez que a mãe lhe mostrava algo, respondia com um sonoro: “Ah não!”, ainda que se tratasse de um brinquedo cuja existência havia esquecido até poucos segundos atrás. Mas com jeitinho e paciência a mãe acabou conseguindo separar alguns brinquedos de madeira, destes que custam caro e agradam os pais mas têm pouquíssimo sucesso junto aos pequenos, que preferem os objetos de plástico feios e barulhentos feitos na China.

Pegaram a sacola com os quebra-cabeças e carrinhos de madeira e se dirigiram à loja onde, todos os anos, faziam uma campanha para recolher os brinquedos das crianças mimadas do bairro e oferecer a pequenos seres humanos menos afortunados. Talvez os brinquedos fossem destinados às crianças que trabalham em regime semiescravo nos países pobres, talvez elas mesmas tenham produzido os brinquedos usados que receberiam no natal, e assim a corrente de produção estaria fechada, de maneira cruel e irônica. Os ricos ficavam com o coração mais leve pela caridade, os pobres recebiam as migalhas que os permitiam prosseguir nos seus lugares subalternos sem revoltar-se. No final das contas, os ricos ganhavam, como sempre. Ela não queria ser parte disto, mas ao mesmo tempo precisava ensinar alguma coisa sobre solidariedade aos filhos e gostaria que eles se dessem conta de que são extremamente privilegiados; de quebra, ainda liberava um pouco de espaço no apartamento.

Chegando à loja, perguntou à vendedora qual seria o destino das doações. A mocinha não soube responder. Diante do olhar perplexo da mãe, acrescentou, evasiva: “Talvez a Cruz Vermelha”. A mãe desconfiou então que talvez a realidade fosse pior do que imaginara, talvez tudo aquilo fosse apenas uma estratégia de marketing da loja. Afinal, eles fizeram um cartaz comovente, onde se via uma garotinha abraçando com emoção um ursão de pelúcia, e enfeitaram a vitrine da loja com os brinquedos generosamente cedidos pelos burgueses do bairro. Talvez depois das festas mandassem tudo para ser esmagado num lixão da cidade. Talvez ela devesse procurar outro destinatário para os brinquedos de madeira comprados com amor para os próprios filhos.

Pensava nisto quando viu seu caçula caminhar na direção de dois enormes robôs de plástico. Prevendo uma catástrofe, pegou o menino pelo braço e arrastou-o até a porta, despedindo-se apressadamente da vendedora.

– Eu quero os robôs, ele disse assim que ganharam a rua. 

– Não é possível meu amor, eles são para as crianças que não ganham presente no natal. 

– Mas tem muito brinquedo ali pra elas. Eu quero aqueles dois robôs.

– Sinto muito, não tem jeito.

– Mãe, vai lá e compra os robôs pra mim.

– Eles não estão à venda. São para as crianças que não ganham brinquedo no natal.

– EU QUEROS OS ROBÔS! 

Seguiu-se uma cena clássica de pirraça, o menino gritando empacado no passeio, a mãe perdendo a paciência, falando cada vez mais alto e tentando fazê-lo avançar, esforçando-se ao máximo para ignorar os olhares desaprovadores dos passantes. A cena se repetiu algumas vezes nas próximas semanas, ao ponto que a mãe começou a mudar o trajeto para evitar a loja quando estava com o filho.

Até que, certo fim de tarde, esquecida disso, passaram por ali. O menino parou na frente da vitrine, agachou-se e fixou embasbacado os robôs de plástico azul e amarelo, cuja estética só impressiona mesmo rapazinhos de cinco anos.

Era um dia típico de dezembro no hemisfério norte: frio, cinza e úmido. A mãe estava com os dedos dos pés e das mãos gelados e doloridos, já tinha ficado um tempão em pé parada olhando os filhotes girarem no carrossel. Decidida a chegar rápido em casa, sabendo que não adiantava conversar e cansada de ser a doida que grita na rua, continuou andando, na esperança de que o filho a seguiria. Avançou alguns metros, parou e olhou para trás: nada dele! A filha veio correndo e explicou: “Ele entrou”! A mãe bufou, à moda dos franceses, e começou a andar na direção da loja, antecipando o escândalo. Eis que surge o menino, correndo no meio do passeio, os cabelos esvoaçando, os olhinhos iluminados, um sorriso imenso deixando à vista todos os dentinhos e um robô debaixo de cada braço:

– “O moço me deu”! 

Foi até a loja certificar-se de que estava falando a verdade. 

– “Sim, pode ficar tranquila, demos os robôs para o Enzo, ele é muito gentil”! – os vendedores responderam encantados, com um sorriso abobado quase tão largo quanto o do menino.

Pronto, eles até sabiam o nome do seu filho! Como ele teria feito para seduzir em tão pouco tempo as três pessoas que trabalham na loja e sair de lá com dois dos brinquedos doados aos pobres?

Sentiu-se um pouco culpada pelas crianças que não ganharão os robôs de plástico neste natal. Olhou para o filho, radiante, e não teve coragem de fazê-lo devolver. A verdade é que ficou feliz ao ver o menino com os robôs que tanto desejara. E a lição de moral ficou para outro dia…

As férias chegaram, de novo

As férias chegaram novamente e com elas a promessa de dois longos meses com os filhotes. O que fazer para ocupar duas bombas de energia durante mais de sessenta dias seguidos? Embora o confinamento do ano passado tenha mostrado que as coisas podem sempre piorar, ainda sinto um gosto amargo quando as férias se aproximam. À medida que o mês de julho vai chegando, cada dia de aula se torna uma preciosidade inestimável. Esse ano, aproveitei minhas últimas horas de liberdade com uma sessão de massagem um dia antes das aulas das crianças acabarem. Ter uma tailandesa de joelhos nas minhas costas esmagando meus pulmões com seus cotovelos foi a forma que encontrei para me preparar a passar as semanas seguintes com os anjinhos. Agora entendo porque minha mãe vivia repetindo: “Deus, dai-me paciência”.

Um pequeno parêntese para me desculpar perante as mães e pais brasileiros que ficaram quase um ano com os filhos dentro de casa durante esta pandemia. Tiro o chapéu para vocês. Mas é aquela coisa, não é porque têm pessoas em situações mais difíceis que não temos o direito de reclamar. Talvez eu não achasse ruim ficar dois meses por conta de cuidar dos filhos se tivesse um trabalho com começo e fim. Mas além de preparar as aulas do semestre que vem, que estão me estressando porque assumi uma quantidade um pouco exagerada de cursos a lecionar, tenho diversos projetos pessoais, mais ou menos fantasiosos, aos quais gostaria de poder me dedicar mais. Tendo dito isto, reconheço que passar dois meses de férias com os filhos não é nenhuma catástrofe em si e aproveito para me desculpar também perante as mães e pais que têm poucos dias de férias por ano.

Pronto, agora que já mostrei que sei que não sou nenhuma coitada, posso continuar reclamando sem pudor. Aliás, eu seria uma imigrante muito mal adaptada se não me desse o direito de resmungar. A verdadeira característica do parisiense não é usar boina, nem mesmo carregar a baguete debaixo do braço, mas reclamar muito, todos os dias e em quase todas as situações. Pensando bem, devo agradecer à França por ter me libertado da obrigação brasileira de estar sempre de bom-humor. Um olhar cínico aguçado tempera a cegueira que nos faz afirmar aos outros e a nós mesmos que está tudo sempre bem.

Aonde estava mesmo? Ah sim, as férias dos filhos. Mais um parêntese: se eu estivesse escrevendo para a revista “Caras”, diria “as férias dos herdeiros”. Será que sou a única pessoa que acha de um mal gosto incrível qualificar a prole de “herdeiros”? Como se realmente a coisa mais importante que pudéssemos transmitir aos filhos fosse nossos bens materiais. É fato que ter filhos não faz nenhum sentido, ainda mais nos dias de hoje, com o fim do mundo logo ali na esquina; mas uma vez que os rebentos foram gerados, até uma revista de fofocas deveria jugar de bom tom se referir a eles como algo mais que o receptáculo da acumulação material dos pais. Ficava pensando nisso toda vez que ia fazer as unhas no Brasil, enfim encontrei um lugar para compartilhar esta pequena indignação. 

Voltando às férias escolares, Vincent e eu quebramos a cabeça para preencher de maneira lúdica e econômica mais este verão europeu. O ideal mesmo seria irmos ao Brasil. Estou com muitas saudades. Mas depois de conversar com amigos e familiares decidimos que ainda não era a hora. Graças a Deus, ano passado, pouco antes da pandemia ser declarada, eu pulava carnaval em Belo Horizonte, espremida entre um monte de gente suada e purpurinada. Parece que foi em outra encarnação. Ultimo pequenos parênteses, juro: a vida é mesmo cheia de surpresas: vinte anos atrás eu jamais imaginaria que a sentença “pulava o carnaval em Belo Horizonte” pudesse adquirir uma conotação positiva num futuro nem tão distante. Voltando ao tempo presente, uma vez que decidimos passar mais este verão na França mesmo, o primeiro passo foi comprarmos um carro, pois da última vez que alugamos fomos agraciados com um upgrade que se revelou um verdadeiro presente de grego. 

Certa manhã saí de casa pra buscar um carro comum e voltei dirigindo o Batmóvel. Eu tentei dizer que não estava à vontade, o jovem bonitão que me atendeu respondeu que só tinha aquele carro na agência, era pegar ou largar. Passei quinze minutos sentada olhando as luzes do painel de bordo futurista antes de ter coragem de ligar o motor, mas a verdade é que não tinha escolha, Vincent e as crianças me aguardavam ansiosamente em casa para viajarmos. O bonitão também me incitou a pagar um seguro, afinal, aquele carro valia oitenta mil euros. Até arrepiei quando ouvi isto e acabei aceitando o seguro, apesar de saber que normalmente meu cartão de crédito cobria os carros alugados.  Saí da agência incomodada. Ao contrário do que se pode pensar, senti vergonha por estar dirigindo um veículo tão oneroso, sou uma mineirinha caipira que não gosta de ostentação. Também me senti insegura porque nunca havia dirigido uma quase limusine baixa e comprida. Resultado: mal cheguei na porta do prédio e bati o para-choques num vaso de plantas. Vocês não imaginam como meu coração bateu forte quando ouvi o “bum”. Para meu alívio, quando desci constatei que fora apenas um arranhãozinho, então viajamos assim mesmo. Confesso que foi bastante prazeroso dirigir o Batmóvel na autoestrada. Quando disse ao marido : “Mal encosto o pé no acelerador e ele voa”, ele respondeu: “Claro, é uma Mercedes”. Até aí nada anormal. O engraçado veio logo na sequência, quando ouvimos uma voz feminina perguntar : “O que posso fazer por vocês”? Sim, a Mercedes falava! Passamos o resto da viagem ouvindo os anjinhos chamarem “Mercedes”, apenas para ouvi-la indagar, prestativa: “O que posso fazer por vocês”?. Para os homens que se sentem viris dirigindo carrões, a voz serviçal da Mercedes deve mesmo ser a cereja do bolo. Nós nos divertimos, mas demos menos risada na hora de entregar o carro. Tive que pagar 1200 euros pelo arranhão no para-choques, porque o valor era inferior à franquia e o cartão se recusou a cobrir o acidente, visto que eu havia aceito o seguro da agência e nesse caso havia “conflito de interesses”. De nada adiantaram meus e-mails e telefonemas indignados.

Essa aventura com a Mercedes foi durante o Terceiro confinamento, em maio, quando alugamos uma casa por três semanas na maravilhosa Costa de Granito Rosa, na Bretanha. Queria ter escrito sobre esta quarentena, sem dúvidas a melhor de todas, no meu último post, mas acabei narrando um episódio da sogra com meu filho que aconteceu meses antes, durante as férias de fevereiro… E agora comecei a escrever com a intenção de falar mal da sogra, que tive o desprazer de rever ontem, mas acabei me deixando levar pela temática das férias escolares. Tudo bem, imagino que a vantagem de escrever crônicas seja mesmo essa: você começa achando que vai falar sobre o tempo e acaba divagando sobre os hábitos alimentares dos esquimós. Na próxima postagem escrevo sobre o reencontro com a sogra. Ou não.

5 x 1

Já faz algum tempo que não escrevo sobre a sogra francesa, por dois motivos: primeiro, pensava haver resolvido, ao menos na minha cabeça, nossa relação; segundo, porque o coronavírus nos forneceu uma razão legítima para não nos encontrarmos. A distância e o tempo quase me fizeram esquecer as maldades de Chantal. Nas vésperas do aniversário da minha filha, o Facebook propôs a lembrança de um lindo moisés de vime branco, enfeitado com uma renda alvíssima e laços de cetim. A sogra preparou este bercinho para Jasmim, assim como havia feito para seus filhos e netos que chegaram antes dela. Enternecida com a memória, postei a foto, dando-lhe os devidos créditos. Vários amigos comentaram, admirados com a beleza do moisés e o capricho da sogra. Até pensei mudar o nome do blog. Comentei com o marido, acrescentando que no final das contas escrevo mais sobre maternidade e vida na pandemia do quê sobre a mãe dele, mas Vincent protestou: “Não, você não pode mudar o nome, é isso que é legal no seu blog”. Para vocês verem… Acho que pro Vincent é catártico eu colocar em palavras um pouco da raiva que passamos por conta dessa dama.

Mas estou passando os carros na frente dos bois. Vou começar voltando às férias escolares de fevereiro quando, pela primeira vez, os sogros levaram Jasmim, que está com oito anos, para a casa de campo com eles. Jasmim foi toda feliz, qualquer ocasião de ficar longe dos pais é boa para essa menininha atrevida e aventureira.  Eu fiquei ao mesmo tempo satisfeita por ela desfrutar desse tempo junto aos avós franceses, ressabiada, achando que eles a levaram só para ela fazer companhia aos dois priminhos que passam todas as férias com os avós, e um pouco chateada por eles não cogitarem levar o Enzo. 

O marido, que é professor, estava de férias e poderia ter ido para o campo junto com Jasmim, mas ele também receia passar mais do quê algumas horas na companhia da mãe. Ao mesmo tempo, era muita sacanagem o coitadinho do Enzo ficar duas semanas no apartamento com os pais enquanto a irmã brincava com os primos numa casa imensa com um jardim ainda maior. Eu já havia decidido que não me faço mais violência indo para a casa da sogra. Posso até ter ficado comovida com a lembrança do bercinho, mas não fiquei burra. Ao cabo de três dias, Vincent resolveu pegar um trem com o filho rumo à casa de campo. Partiu contrariado, avisando que ficaria duas noites, no máximo três. Concordei, tentando disfarçar a alegria de ficar sozinha em casa. No fundo tinha esperanças de que Vincent mudasse de ideia quando chegasse. Afinal, é a casa de campo da família dele, ele poderia ficar à vontade e ler seus livros enquanto as crianças brincavam no jardim. 

Na mesma noite Vincent ligou: “Já quero ir embora!”, disse, em meio a risadas nervosas. Não contou detalhes, mas não precisava. Conheço a sogra, não tive a menor dificuldade em imaginá-la ranheta, fazendo insinuações venenosas e favorecendo de maneira ostensiva os filhos da filha. Respondi, de forma abstrata para um observador exterior, mas que fazia total sentido para nós: “Você não é culpado de nada”. Porque esse é o poder dela, te oprimir ao ponto de você ficar triste e sem lugar, sentindo-se culpado sem saber o porquê. É como se um gás tóxico emanasse de Chantal e, de forma silenciosa e sorrateira, comprimisse seu peito ao ponto de você ficar quase sem ar. Um horror.

Nos próximos dois dias Vincent continuou telefonando, sem dizer ao certo o que estava acontecendo mas contando que estava com placas vermelhas no rosto e agora fazia como eu: refugiava-se no quarto para evitar a presença da mãe. Verdade que ao longo dos anos desenvolvi essa estratégia. Resultado: cada vez que alguém visitava a sogra encontrava uma brecha para dizer que faço longas sestas todos os dias, dando a entender que sou uma preguiçosa. Voltando ao marido, insisti para ele ficar ao menos mais um dia, pelo filho. Vincent disse que já havia comprado as passagens de volta, que o próprio Enzo já queria voltar. “A coisa deve estar feia”, pensei.

Ao voltar, Vincent contou, rindo da própria desgraça, que estava enlouquecendo: sequer conseguira ler, passara a maior parte do tempo jogando xadrez no telefone, coisa que não fazia há anos, numa tentativa patética de abstração da realidade. Não mencionou nenhum acontecimento preciso, decerto para não me deixar ainda mais indisposta com a sogra. Mas de noite, depois que Enzo adormeceu, não se aguentou e relatou a última refeição na casa dos pais:

Estavam todos na mesa comendo crepes, a sogra se encantava diante do apetite do neto preferido, que tem um ano a mais que Enzo, exclamando com orgulho que ele estava devorando sua quarta crepe. Após haver comido apenas uma crepe, Enzo declarou que não estava mais com fome, levantou-se e foi brincar. Sacrilégio! Os sogros resmungaram, comentando que o menino não sabe se comportar na mesa – Vincent me disse, chateado, pois segundo ele até este episódio nosso caçula estava se comportando muito bem. Poucos minutos depois, Enzo voltou e pediu mais uma crepe. A sogra respondeu: “Você devia ter acordado mais cedo, agora é tarde!”. Unindo o gesto às palavras, colocou a última crepe no prato do neto favorito. Quer dizer, Chantal deu cinco crepes para um neto e uma para o outro, sob pretexto de que o Enzo, que estava com quatro anos, tinha saído da mesa.

Preciso dizer que fiquei puta da vida quando ouvi essa história? Vincent até tentou defender a mãe: “Ele tinha se levantado…”. Tal é o poder desta mulher: cometer malvadezas com tanta naturalidade que ninguém ousa se opor. Porque ninguém vai me convencer de que não é perverso e até doentio dar cinco crepes a um neto e uma ao outro, de maneira ostensiva, transformando isto na ocasião de dar uma lição, perante todos, à criança desfavorecida. Aos olhos da bruxa meu filho está sempre errado. Já testemunhei várias cenas em que ela elogiou o neto preferido e xingou o Enzo exatamente pelo mesmo motivo. Tudo o que o neto preferido e seu irmão fazem é maravilhoso. Cada vez que nos vemos ela me conta, extasiada, as proezas dos dois, sem jamais perguntar nada sobre a vida da Jasmim e do Enzo.

Foi para evitar esse tipo de coisa que não fui ao campo. Não sou mais capaz de observar este tipo de comportamento calada. Como comentou uma conhecida quando briguei com a sogra alguns anos atrás – um dia ainda escrevo sobre isso – o que meus filhos pensariam de uma mãe que abaixa a cabeça e engole todo tipo de sapo?

Passei semanas discutindo com Chantal na minha cabeça, contando a história das crepes para todo mundo que cruzava meu caminho. Quis escrever aqui, mas precisei de quase três meses para digerir, algumas emoções requerem tempo para serem traduzidas em palavras. Com o passar das semanas esse episódio foi se apagando, eu já estava voltando a pensar que a sogra é quase normal. Até recentemente. Cenas para o próximo capítulo. Pensando bem, ainda vou precisar escrever muito antes de mudar o nome do blog…

Terceiro confinamento

Dia 18 de março a região parisiense iniciou seu terceiro confinamento. O que para mim não alterou muita coisa, principalmente porque as escolas permaneceram abertas. Quando soube que nos reconfinaríamos em poucos dias, corri para o cabelereiro; meu cabelo já estava sem corte e mais não sei quantos meses sem apará-los me aproximaria da imagem de quarentona desleixada que ainda busco evitar. Há mais de um ano não faço as unhas nem a sobrancelha, mas tudo bem, na França este tipo de cuidado não é visto como essencial para a maioria das mulheres. Acontece que sou filha de uma mineira extremamente feminina e vaidosa, que cuidava muito bem do corpo e frequentava o salão todas as semanas, religiosamente. Ela me transmitiu essa preocupação. Quando fico sem depilar, por exemplo, tenho pesadelos onde todos observam minhas canelas peludas, a aflição é a mesma dos sonhos em que ando descalça na rua suja. É uma das minhas contradições, já que sou feminista e acredito que a depilação é uma das muitas formas de violência exercidas sobre as mulheres. Como a socialização primária é forte, já no primeiro confinamento comprei um depilador elétrico pela Amazon. Pronto, acabo de revelar outra das minhas fraquezas… Ontem mesmo li coisas terríveis sobre as condições de trabalho dos funcionários da Amazon, para não mencionar seus efeitos pérfidos para o comércio local.

No dia em que o terceiro confinamento começou, passei em frente ao cabelereiro e me surpreendi, ele continuava aberto. De volta pra casa, fiz uma busca na internet e descobri que neste confinamento todos os comércios considerados não-essenciais fecharam as portas mas, ao contrário dos precedentes, cabelereiros, floricultores, livrarias, lojas de disco e chocolatarias poderiam continuar funcionando. O Macron está sempre dizendo que aprendeu com a experiência do primeiro confinamento para criar as regras dos próximos. Esta pequena lista das lojas que obtiveram permissão para continuar abertas diz bastante sobre os hábitos franceses. No meu bairro, o que mais tem é cabelereiro, farmácia, padaria, floricultura e loja de chocolate, mais ou menos nesta ordem.

Anunciado numa quarta-feira, o terceiro confinamento começaria na segunda. Na sexta-feira anterior, único dia da semana em que não dava aulas, saí do cabeleireiro e corri para a loja de brinquedos, porque sábado era aniversário da minha filha mais velha e terça do caçula – eles têm exatos três anos e três dias de diferença. A moça do caixa me disse que há dois dias parecia natal, tamanha a afluência de pais e avós comprando brinquedos para ocupar os pequenos. Ao ver Jasmim abrindo seus presentes, no sábado, Enzo abriu a boca a chorar: “Eu não vou ganhar presente de aniversário porque estamos confinados e as lojas de brinquedo estão fechadas”, ele balbuciou entre dois soluços.

Foi o segundo ano seguido que meus filhos comemoraram o aniversário na quarentena. Ano passado sopramos as velinhas só nós quatro mesmo. Este ano fiquei com dó. No sábado de manhã propus à Jasmim convidar duas amiguinhas para lanchar em casa. O Enzo, sempre atento, logo avisou: “Eu também vou convidar dois amiguinhos”. E assim fizemos. A prolongação da epidemia nos fez perceber que precisamos sim, tomar cuidado, mas é preciso criar alguns espaços de respiração, aceitar que não podemos controlar tudo. No começo da pandemia, por exemplo, um segurança ficava na porta do supermercado colocando álcool gel na mão de todo mundo que entrava. Agora, o vidro de gel fica disponível ao lado porta, ninguém fica vigiando para saber se estamos respeitando os protocolos. Aqui em casa, há muito tempo não lavamos mais as compras quando voltamos do supermercado, mas continuamos lavando as mãos sistematicamente e várias vezes ao dia. Quer dizer, vamos encontrando um equilíbrio entre o comportamento ideal para evitar o vírus e o possível para manter a sanidade mental. Convidar dois amiguinhos para cada aniversário foi uma ótima saída, as crianças ficaram ultra felizes e talvez tenham se divertido mais do quê nas festas com muitas crianças.

Quando disse que o terceiro confinamento não mudou muito minha rotina foi porquê, além dele ser mais flexível do quê os outros, também ganhamos algumas liberdades. Desde janeiro estávamos com um toque de recolher às 18h, este confinamento nos fez ganhar uma hora, agora podemos ficar na rua até às 19h. Outra bizarrice do novo confinamento: as aulas de natação da escola da minha filha, que estavam canceladas desde o começo do ano letivo, em setembro, recomeçaram. O presidente anunciou que durante este confinamento poderíamos ficar fora de casa o tempo que quiséssemos, num raio de dez quilômetros da residência. Num primeiro momento quiseram reinstalar as declarações, onde cada um atesta sob honra que tem um bom motivo para estar na rua e assina embaixo; mas depois, dando-se conta do absurdo, senão ridículo, da exigência, voltaram atrás. O léxico utilizado para definir nossa situação é aleatório e inapropriado. Toque de recolher, confinamento, desconfinamento… Entendi que não dá para levar os termos ao pé da letra e parei de seguir os anúncios governamentais. Agora me contento em verificar na internet o que podemos ou não fazer quando bate a dúvida.

Durante mais ou menos duas semanas após o início do terceiro confinamento parisiense, desfrutamos das nossas pequenas liberdades, mas sabíamos que a epidemia ganhava terreno na França e corríamos o risco das escolas fecharem novamente. Não demorou para começar a circular nos grupos Whatsapp mensagens onde os pais compartilhavam o medo de ficar com os filhos em casa 24h por dia, 7 dias por semana. Eles se reasseguravam mutuamente, argumentando, por exemplo, que o governo francês se orgulha de ser o país europeu que manteve as portas das escolas abertas durante mais tempo desde o começo da crise sanitária.

Mas seu fechamento era iminente. Já haviam decidido que bastava uma criança infectada para fechar a sala. Na terça dia 30 de março, todos os alunos da escola dos meus filhos fizeram um teste salivar, com exceção daqueles cujos pais se recusaram a autorizar o teste. Foi o caso da mãe de uma amiga de Jasmim que me explicou, sem corar, que caso sua filha fosse positiva ela teria que ficar em casa, e isso não era admissível. Fiquei surpresa com o raciocínio, mas não discuti, há tempos desisti de dialogar com a ignorância. De toda forma, estávamos certos de que na quinta a escola não abriria, a maior parte das crianças fez o teste e parecia óbvio que ao menos uma em cada sala seria positiva. A professora da Jasmim chegou a fazer uma aposta com os alunos: se ninguém tivesse Covid eles ganhariam dois pacotes de balas. Quarta, dia 31, Macron anunciou que nosso confinamento local passaria a ser nacional e que todas as escolas da França fechariam as portas, a partir de segunda, por três semanas. Quinta, contra todas as expectativas, Jasmim e Enzo foram para a aula, nenhum caso positivo fora detectado nas salas deles. “Aproveitem ao máximo os dois dias de escola”, os pais escreveram nos grupos Whatsapp, solidários. Segui o conselho e avancei meu trabalho. Sobretudo, aproveitei para preparar nossa evasão. Nunca mais passo outro confinamento no apartamento com os anjinhos. Domingo de Páscoa metemos o pé na estrada. Cenas para o próximo capítulo. Nele contarei também os últimos episódios com a sogra, que ainda estou digerindo.

A vida começa aos quarenta

Hoje é meu último dia de liberdade. Amanhã o Vincent volta pra casa com o Enzo e a Jasmim. Sim, vocês leram direito: estava em casa sozinha, sem marido nem filhos. Uhu!!! Acho que foi a segunda vez que isso aconteceu. A primeira foi há quase dois anos, quando deixei a família do marido embasbacada na casa de campo e fui acampar numa cidadezinha no interior da França, para participar de um festival de cinema documentário. Fui com as bênçãos do marido, que tinha entendido que não dava mais para prolongar minha convivência com a sogra e se propôs ficar com as crianças enquanto eu ia respirar ares mais puros. Um trem, uma passagem na casa de uma amiga para pegar o material de camping emprestado, outro trem, um ônibus e uma van mais tarde, e eu montava uma barraca sozinha pela primeira vez, ficava amiga de uma diretora iraniana e conhecia um professor de filosofia francês que não me atraía nem um pouco mas não largava do meu pé. Freud explica.

Esta experiência foi libertadora e maravilhosa. Melhor, foi maravilhosamente libertadora. O ápice ocorreu num dia de sol quente, ali pelo meio dia, quando eu andava de um lado para o outro meio sem rumo, entre as salas de cinema dispersas pelo vilarejo, cujas ruas estavam vazias pois todo mundo menos eu tinha decidido qual filme assistiria e já havia se dirigido ao devido lugar. Ao me ver assim desnorteada, um casal que passava por ali, ele um hippie alto e barbudo, ela uma jovem com uma blusa que na verdade era um corpete de lingerie preto e um shortinho jeans, ambos mais cool impossível, me perguntou pra qual sala de cinema eu gostaria de ir. Respondi sinceramente que não sabia, estava cansada de assistir filmes mas minha barraca deveria estar fervendo… Foi então que eles me propuseram acompanhá-los em uma cachoeira. Aceitei na hora. Quando vi estava num carro lotado, apertada entre três lindas raparigas no banco de trás e me sentindo levemente culpada pelo fato de dois rapazes estarem viajando no porta-malas para eu caber no carro. Chegando lá eu não tinha levado biquíni, mas tudo bem, quem está na chuva é pra se molhar, nadei de calcinha mesmo. Depois, enquanto eu secava numa pedra e agradecia à Deus pelo banho de cachoeira nas montanhas que tanto lembravam minhas Minas Gerais, um jovem loiro de olhos azuis começou a tocar violão e uma moça a tocar flauta. Adivinhem o que eles tocavam? Bossa Nova! Comecei a cantar e uma das meninas que observava a cena me disse: “Que lindo, uma borboleta branca pousou no meio da sua testa”. Foi um momento de pura epifania. Houve outros.

Pois bem, eu já estava pensando que doravante viveria um desses parênteses encantados todos os anos quando a Covid chegou. Passei as férias de verão seguintes em Airbnbs bizarros França afora e não pude viajar para o Brasil no final do ano como fazemos de costume. Chegaram as férias de fevereiro, porque aqui na França a cada seis semanas as crianças têm duas semanas de férias, e o Vincent e eu ainda não sabíamos o que fazer. Havíamos planejado passar uns dias na casa de campo dos sogros, já que, como eles haviam dito, ela ficaria fechada até a primavera. Mas eles mudaram de ideia e decidiram que iriam para lá durante as duas semanas. Poucos dias antes das férias, recebemos uma mensagem carinhosa do sogro nos informando que a esposa e ele foram vacinados e que passaríamos lindas férias de família todos juntos: eles, nós quatro e a irmã mais nova do Vincent com seus dois filhos. Imaginem a minha alegria… (quem acompanha meu blog sabe que estou sendo irônica).

O Vincent, sempre compreensivo, anunciou que iria uns dias com os filhos mas eu poderia ficar tranquila em casa. Ele achou que isso me deixaria feliz. Eu também, mas na verdade fiquei bem tristinha. Até Jasmim percebeu. Quando fui busca-la na escola, ela disse, assim que me viu: “Por que você está triste, mamãe?”. Incrível como as crianças são sensíveis. Apesar de eu demonstrar um humor cáustico quando escrevo sobre os sogros, passar as férias sozinha no apartamento não era exatamente meu ideal. Eu preferiria fazer parte da família da sogra de verdade ou, já que isto não foi possível, que o Vincent, as crianças e eu viajássemos juntos para outro lugar. Cheguei a sugerir que fôssemos para a montanha, mas ele descartou dizendo que fazia muito frio. A verdade é que é importante para o Vincent levar os filhos na casa de campo onde ele passou boa parte da infância e aonde ainda estão guardados seus antigos brinquedos.

Minha esperança ressurgiu no dia seguinte, quando contei para um dos amigos que encontrei no festival de filme documentário que estaria sozinha em Paris. Trata-se de um jovem de vinte e oito anos com quem tenho uma grande afinidade intelectual. Damos muita risada juntos. Ele me convidou para passar uns dias no seu chalé na montanha com um grupo de amigos dele. Adorei a ideia. Enfim mais uma viagem revitalisante na companhia de gente nova em perspectiva! Vincent achou bem menos graça. “E a Covid?”. Eu tinha até esquecido que estamos no meio de uma pandemia. Mas os argumentos dele não pararam por aí: “E o que você vai fazer no meio de uma garotada muito mais jovem? Você não acha que vai se colocar numa posição indigna? Você é uma mãe de família. Assuma suas responsabilidades”. Me insurgi contra estes argumentos retrógrados, convencionais, machistas e castradores com tanta força e convicção que, por fim, o coitado separou uma mala pra mim e me disse para não esquecer o filtro solar, porque o sol reverbera na neve e queima igual na praia.

Olhei os horários de trem e fui dormir. De noite sonhei com minha psicanalista. Ela dizia: “Não é que você não tem nenhuma criatividade ou capacidade de criação. É que você está exausta. Fique em casa e descanse!”. Acordei me sentindo leve e liberada. Quando disse ao marido que finalmente não viajaria ele deu de ombros, como se fosse indiferente. Fiquei em casa feliz, pois ao mesmo tempo me libertei das amarras da mãe-de-família-que-não-pode-viajar-com-amigos-jovens-enquanto-o-marido-fica-com-as-crianças e das outras que eu mesma me impus, convencida de que devo agarrar cada oportunidade de viver ao máximo. Coloquei um pijama assim que o Vincent e as crianças saíram de casa, me reenfiei debaixo das cobertas e passei o fim de semana lendo um delicioso romance infanto-juvenil. 

Na segunda aproveitei para visitar três amigos, que me emprestaram cada um uma parte do material que eu precisava para gravar um áudio – mais precisamente, binóculos, gravador e cabo para suspender o gravador. Essa manhã realizei o episódio de um podcast que adoro. Fui convidada por um queridíssimo amigo, idealizador do dito podcast, já há algumas semanas, mas estava procrastinando, num misto de cansaço e medo de não estar à altura. Tive prazer em fazê-lo e mais ainda quando recebi o retorno positivo do amigo. Pra terminar o dia, decidi tirar um pouco do atraso por aqui. Quer dizer, um fim de semana de descanso e a vontade de criar voltou. Imagina quando os filhos crescerem! Estou cheia de projetos e expectativas para o futuro, sentindo que, de fato, a vida começa aos quarenta. É só se permitir.

Vida chata

Hoje recebi uma mensagem de uma amiga perguntando como estão as coisas por aqui. Respondi sem pensar: “A vida está bastante chata, mas fora isso tudo bem”. Arrependi na hora, Polyanna ficaria decepcionada comigo… Minha amiga estava sendo atenciosa, eu poderia ter sido mais gentil. Quer dizer, para um francês não há nada errado com minha resposta. Mas a amiga talvez não esteja familiarizada com as réplicas diretas e mal-humoradas dos parisienses; espero que não me leve a mal… Lembro quando minha mãe estava viva e me levava ao salão assim que eu botava os pés no Brasil, para darmos um jeito nas minhas unhas, pelos e cabelos, todos bastante negligenciados para os padrões mineiros. Ela quase morria de vergonha quando eu reclamava do atraso das cabelereiras ou dizia sem firulas o que pensava dos tratamentos que elas me propunham, às vezes coisas esdruxulas como “alongamento de cílios”. 

Mas voltemos à “vida chata” que estou levando. Pra começar, estamos no meio do inverno e esta época do ano é sempre chata. O inverno parisiense não tem nenhum charme, o céu alterna tons de branco e cinza, garoa quase o tempo todo, não faz frio o suficiente para as casas serem bem isoladas e os franceses insistem em se vestir de maneira elegante e pouco prática. Resultado: você está sempre com frio. Percebi a diferença quando fui para Nova York num mês de fevereiro. Fazia muito mais frio do quê aqui, mas as pessoas usavam uns casacos que as deixavam parecendo o boneco da Michelin, os interiores das casas eram bem aquecidos, o sol brilhava, o céu era azul e a neve deixava tudo lindamente decorado de branco. Aqui sequer neva. Quer dizer, nevou hoje pela segunda vez este inverno. Nas duas vezes a neve caiu durante umas quatro horas, o que é sempre um deleite para o olhar, mas na sequência caiu uma chuva fina que fez com que ela se transformasse numa lama marrom e escorregadia, levando embora toda a poesia e deixando só a parte desagradável da coisa. 

Pra piorar, esta é a época do ano em que os amigos postam fotos de praias paradisíacas, todos de biquíni, bronzeados e felizes, tomando água de côco, contemplando o mar ou esticando os pés pra fora da rede. Aí a frustração de não estar no Brasil fica quase insuportável. Normalmente em dezembro começo a sonhar, literalmente, que estou na praia. Aguento firme porque sei que no mais tarde em fevereiro desembarcarei no meu país tropical. Mas este ano não sei quando conseguiremos viajar… O marido hipocondríaco declarou que só depois que estivermos vacinados. Hein? Como assim? Parece que a França é um dos países com a campanha de vacinação mais lenta da Europa e eu estou longe de ser uma pessoa prioritária. Sem falar nas variantes do Covid que já chegaram por aqui, ainda nem sabemos se a vacina será ou não eficaz para contê-las. Por hora prefiro não discutir, mas já vai fazer um ano que estive no Brasil pela última vez e não acho que dou conta de esperar muito mais do quê isso. A saudade cresce à medida que o tempo passa e agora já está ficando forte demais da conta, uai.

Voltemos à questão das variantes. Um dia anunciaram que já havia um caso da variante inglesa na França, menos de duas semanas depois 1% das contaminações por Covid em solo francês eram da tal variante inglesa. O bichinho é rápido, talvez seja mais mortal, talvez afete mais as crianças, talvez… É o retorno da incerteza que parecia nos deixar com a chegada da vacina. Incerteza que se reflete nas nossas ações, coletivas e individuais. A França continua sendo muito mais organizada do quê o Brasil na gestão da pandemia, o que não quer dizer muita coisa, mas existem várias zonas confusas. Por exemplo, as escolas estão abertas mas as atividades extraescolares fechadas. As atividades extraescolares estão fechadas mas os conservatórios estão abertos. Os conservatórios estão abertos e as aulas de teatro voltaram a ser presenciais, mas as de dança continuam acontecendo à distância. Mais exemplos: até o último ano do segundo grau a escola funciona, mas as faculdades estão fechadas. As faculdades estão fechadas mas as “classes préparatoires”, que também correspondem ao nível universitário, estão abertas. A terapeuta do marido continua recebendo, a minha declarou que as sessões serão pelo telefone durante tempo indefinido.

Fazer sessões de terapia pelo telefone, praticar yoga pelo zoom, dar aulas pelo skype, estar com as crias em casa antes do toque de recolher às 18h…  A vida está mesmo chata, não dá pra responder outra coisa sem mentir. Nem as conversinhas com os pais das crianças na porta da escola, único momento de socialização do meu dia, estão mais acontecendo. As pessoas estão com medo de conversar umas com as outras, mesmo através das máscaras e com mais de um metro de distância entre elas. Aliás, anunciaram que as máscaras caseiras de pano não protegem da variante inglesa, somos todos encorajados a usar a descartável. Ainda não me rendi, não estou com a menor vontade de compactuar com mais esta catástrofe ambiental.

Por aqui estamos à espera de um terceiro confinamento. Soube por fonte segura, mas na verdade isso não existe, que dia 8 de fevereiro haverá um novo lockdown. Enquanto ele não chega, ontem aproveitamos para almoçar com os amigos. Não fazíamos isso desde o natal, decidi que esta era a sociabilidade mínima necessária para suportar o próximo período isolados. Dois casais desistiram de participar do almoço na última hora, confesso que achei bom, já éramos seis adultos e várias crianças, estava de bom tamanho. Tomei cerveja, comi vaca atolada e até arrisquei cantar, mesmo desafinando, porque não é todo dia que tem uma roda com violão por aqui. Mas quando deu 17h o marido estava tenso, tínhamos que voltar antes do toque de recolher e três jovens chegaram na festinha. Fui embora contrariada, mas feliz por ter escapado, pelo menos durante o tempo de uma tarde, da chatice que a vida cotidiana virou. 

Adeus Ano Velho

1° de janeiro de 2021. Mais um ano começa. Lembro quando eu era criança e o ano 2000 estava longe. A virada do milênio. Eu seria uma adulta, teria vinte anos! Me via linda e independente, morando sozinha num apartamento moderno e minimalista, ganhando dinheiro, dona do meu nariz, provavelmente jornalista. A humanidade faria coisas incríveis, talvez até haveriam carros voadores, como nos Jetsons. Que sorte eu tinha, completar 20 anos no ano 2000, pensava, maravilhada, enxergando na coincidência dos números um sinal de bom agouro.

Nem preciso dizer que aos vinte anos eu estava mais próxima da adolescência do quê da maturidade, certo aproveitando cada instante dos anos de faculdade, mas à anos luz da jovem adulta responsável e independente que eu imaginava criança. Minhas fabulações nunca chegaram ao ano 2020. Uma criança dificilmente pensa em si mesma aos quarenta anos. Ainda bem que não fiz projeções para esta idade, senão acho que teria me visualizado numa cadeira de balanço, lendo para os netinhos. Agora que cheguei aos quarenta, ainda me sinto menina, até hoje não entendi direito como as coisas funcionam. Os números são realmente muito enganadores.

Voltemos ao presente. 2020. Há um ano atrás achei esse número lindo. Dois patinhos seguidos por dois ovais, tão harmônico. Só poderia prenunciar coisas fluidas, agradáveis. O ano começou bem, comigo experimentando pela primeira vez o carnaval de Belo Horizonte. Porque quando o carnaval de BH começou a ficar bom eu já morava fora. Durante anos vi as fotos dos amigos nas redes sociais, ao mesmo tempo incrédula e louca de vontade de participar das celebrações pessoalmente. Eis que em 2020 as férias se alinharam com a data do carnaval. O marido e nossa filha mais velha voltaram para a França uma semana mais cedo, porque ele tinha que trabalhar e ela não queria perder sua primeira viagem com a escola. Eu fiquei pra trás com o pequeno, que estava com quase quatro anos. Pela primeira vez confiei o filhote ao meu pai sem culpa e fui pular carnaval, curtir os corpos suados, espremidos e eufóricos, tomar melzinho com cachaça oferecido por desconhecidos logo pela manhã, me deliciar com as fantasias, cada uma mais divertida e criativa do quê a outra. O Enzo teve direito a participar de um bloquinho comigo, até hoje ele fala disso. Sempre que falo do Brasil, ele fala do carnaval. Outro dia passamos na frente de umas mulheres de véu e um homem de turbante na rua e ele disse: “Mamãe, olha, o carnaval, igual no Brasil!”.

Mal sabia eu que aquele exagero de afeto, alegria e proximidade física estava com os dias contados. No voo de retorno algumas pessoas usavam máscara, o que me pareceu um exagero. Chegamos em Paris no mesmo dia que minha filha voltou da excursão. Uma ou duas semanas mais tarde, as escolas fecharam. O carnaval ficou parecendo um parêntese encantado, sonho de uma noite de verão. Um delírio cuja lembrança me nutriu em alguns momentos de tédio e quase desespero durante os meses que passei confinada num apartamento mal insonorizado de 70 metros quadrados com um marido de longa data e duas crianças pequenas.

Mas houve uma coisa bonita, quase emocionante, em 2020: sua capacidade de produzir consenso. O mundo inteiro, talvez pela primeira vez, concordou: foi um ano de merda! Bolsominions e esquerdopatas, empresários e artistas, brancos e pretos, crianças e idosos, primeiro e terceiro mundo, todos apressados em virar a folhinha do calendário, felizes por começar um ano novinho em folha, ainda que para alguns a esperança permaneça discreta, quase clandestina. Acho que esta coesão de ideias foi o verdadeiro milagre de 2020. 

Para mim, na verdade, o ano não foi tão ruim assim. No final do ano perdi uma tia, foi a parte mais triste de 2020, a maneira mais direta com que o Covid me tocou. Também fui enfurnada dentro de casa logo quando começava a botar as asinhas de fora, depois de sete longos anos me dedicando, senão exclusivamente, intensamente aos filhos. Mas fora isso tudo certo. Não perdi o emprego, pelo contrário, arrumei um trabalho. Instável, precário, mal pago… Mas pra quem está acostumada a trabalhar de graça, ou a pagar para trabalhar, tudo é lucro. Pesquisadores me entenderão. Para os outros, que não imaginam a pendenga que é a vida acadêmica, a dedicação imensa e a falta de reconhecimento quase tão importante, escreverei um post em outra ocasião. Também comecei a escrever este blog, espaço de respiração, entre outros pequenos projetos que tenho na manga. Não aproveitei do confinamento para me aproximar dos meus filhos – como duas francesas me confiaram, maravilhadas, explicando que até então trabalhavam tanto que mal conheciam os próprios rebentos – porque já cuidava bastante deles. Mas cheguei até aqui sem me tornar adepta da violência, o que em si já é uma façanha, como outra amiga me lembrou num dia em que lhe confessei estar me sentindo um fracasso como mãe. Brincadeiras à parte, li por aí as informações tristíssimas de que o maltrato infantil aumentou e o suicídio de menores de quinze anos dobrou na França este ano. 

2021 amanheceu gelado. Desde o começo da semana, estamos na casa de campo dos sogros, situada no norte da França. Ah sim, já ia me esquecendo: 2020 me permitiu desfrutar de alguns dias nesta casa sem os sogros! Foi o pequeno presente que o Corona me deu, já que como eles são idosos não podemos nos encontrar. Os sogros vieram pra cá durante a primeira semana de férias com minha cunhada e seus dois filhos, o marido negociou a segunda semana pra gente. Os filhos da cunhada também vão para a escola e ela trabalha fora, mas por algum motivo obscuro somos considerados mais contagiosos do quê eles. Não questionei, apenas abracei a oportunidade de esquivar um dia de natal inteiro na casa da sogra. Este ano, pela primeira vez desde que estou na França, fui dispensada das horas intermináveis sentada no lugar que me é atribuído na mesa natalina, onde entrada, prato principal, salada, queijos, bolos, frutas, café e chocolates se seguem uns aos outros, sem pausa para esticarmos as pernas. A comida é deliciosa, cozinhada pela sogra e acompanhada pelos vinhos do sogro, mas ao longo dos anos estes encontros se tornaram penosos para mim. Em algum momento cheguei a dizer à psicanalista que não queria mais participar dos eventos familiares; ela respondeu, como se fosse simples: “Você não é obrigada”. Acontece que detesto conflitos, jamais teria coragem de me ausentar do natal na casa dos sogros. Então agradeço à pandemia por ter me oferecido uma desculpa válida para passar o natal com os amigos. Estes sim, são minha família aqui.