Um Conto de Natal

« Se quiserem ganhar presente no natal, vocês precisam separar os brinquedos que não usam mais para dar para as crianças que não têm presente”. Disse isso aos filhos de cinco e oito anos da maneira mais firme possível. Como eles não pareceram muito tocados pelo argumento, continuou: “…e se o Papai Noel chegar neste quarto cheio de brinquedos, ele vai pensar que vocês já têm muitos e vai embora sem dar nada”.

Desta vez as crianças prestaram mais atenção, mas não o suficiente para executar a tarefa. Então sentou-se no chão e começou a esvaziar as caixas de brinquedos, separando ela mesma os que lhe pareciam obsoletos e perguntando, um por um: “Posso dar este?”, “E este?”. A filha mais velha respondia positivamente quase todas as vezes. Sempre fora desapegada. Surpreendera a mãe quando, aos três anos, dera sem resmungar a boneca preferida para umas menininhas indígenas que conhecera na praia e ficaram encantadas com o bebê de plástico. A mãe se disse então que o ser humano nasce bom e generoso e é corrompido mais tarde através da educação individualista promovida pela sociedade capitalista.

O caçula chegou derrubando estas ideias ingênuas. Desde novinho não gostava de compartilhar e agora não era diferente. Cada vez que a mãe lhe mostrava algo, respondia com um sonoro: “Ah não!”, ainda que se tratasse de um brinquedo cuja existência havia esquecido até poucos segundos atrás. Mas com jeitinho e paciência a mãe acabou conseguindo separar alguns brinquedos de madeira, destes que custam caro e agradam os pais mas têm pouquíssimo sucesso junto aos pequenos, que preferem os objetos de plástico feios e barulhentos feitos na China.

Pegaram a sacola com os quebra-cabeças e carrinhos de madeira e se dirigiram à loja onde, todos os anos, faziam uma campanha para recolher os brinquedos das crianças mimadas do bairro e oferecer a pequenos seres humanos menos afortunados. Talvez os brinquedos fossem destinados às crianças que trabalham em regime semiescravo nos países pobres, talvez elas mesmas tenham produzido os brinquedos usados que receberiam no natal, e assim a corrente de produção estaria fechada, de maneira cruel e irônica. Os ricos ficavam com o coração mais leve pela caridade, os pobres recebiam as migalhas que os permitiam prosseguir nos seus lugares subalternos sem revoltar-se. No final das contas, os ricos ganhavam, como sempre. Ela não queria ser parte disto, mas ao mesmo tempo precisava ensinar alguma coisa sobre solidariedade aos filhos e gostaria que eles se dessem conta de que são extremamente privilegiados; de quebra, ainda liberava um pouco de espaço no apartamento.

Chegando à loja, perguntou à vendedora qual seria o destino das doações. A mocinha não soube responder. Diante do olhar perplexo da mãe, acrescentou, evasiva: “Talvez a Cruz Vermelha”. A mãe desconfiou então que talvez a realidade fosse pior do que imaginara, talvez tudo aquilo fosse apenas uma estratégia de marketing da loja. Afinal, eles fizeram um cartaz comovente, onde se via uma garotinha abraçando com emoção um ursão de pelúcia, e enfeitaram a vitrine da loja com os brinquedos generosamente cedidos pelos burgueses do bairro. Talvez depois das festas mandassem tudo para ser esmagado num lixão da cidade. Talvez ela devesse procurar outro destinatário para os brinquedos de madeira comprados com amor para os próprios filhos.

Pensava nisto quando viu seu caçula caminhar na direção de dois enormes robôs de plástico. Prevendo uma catástrofe, pegou o menino pelo braço e arrastou-o até a porta, despedindo-se apressadamente da vendedora.

– Eu quero os robôs, ele disse assim que ganharam a rua. 

– Não é possível meu amor, eles são para as crianças que não ganham presente no natal. 

– Mas tem muito brinquedo ali pra elas. Eu quero aqueles dois robôs.

– Sinto muito, não tem jeito.

– Mãe, vai lá e compra os robôs pra mim.

– Eles não estão à venda. São para as crianças que não ganham brinquedo no natal.

– EU QUEROS OS ROBÔS! 

Seguiu-se uma cena clássica de pirraça, o menino gritando empacado no passeio, a mãe perdendo a paciência, falando cada vez mais alto e tentando fazê-lo avançar, esforçando-se ao máximo para ignorar os olhares desaprovadores dos passantes. A cena se repetiu algumas vezes nas próximas semanas, ao ponto que a mãe começou a mudar o trajeto para evitar a loja quando estava com o filho.

Até que, certo fim de tarde, esquecida disso, passaram por ali. O menino parou na frente da vitrine, agachou-se e fixou embasbacado os robôs de plástico azul e amarelo, cuja estética só impressiona mesmo rapazinhos de cinco anos.

Era um dia típico de dezembro no hemisfério norte: frio, cinza e úmido. A mãe estava com os dedos dos pés e das mãos gelados e doloridos, já tinha ficado um tempão em pé parada olhando os filhotes girarem no carrossel. Decidida a chegar rápido em casa, sabendo que não adiantava conversar e cansada de ser a doida que grita na rua, continuou andando, na esperança de que o filho a seguiria. Avançou alguns metros, parou e olhou para trás: nada dele! A filha veio correndo e explicou: “Ele entrou”! A mãe bufou, à moda dos franceses, e começou a andar na direção da loja, antecipando o escândalo. Eis que surge o menino, correndo no meio do passeio, os cabelos esvoaçando, os olhinhos iluminados, um sorriso imenso deixando à vista todos os dentinhos e um robô debaixo de cada braço:

– “O moço me deu”! 

Foi até a loja certificar-se de que estava falando a verdade. 

– “Sim, pode ficar tranquila, demos os robôs para o Enzo, ele é muito gentil”! – os vendedores responderam encantados, com um sorriso abobado quase tão largo quanto o do menino.

Pronto, eles até sabiam o nome do seu filho! Como ele teria feito para seduzir em tão pouco tempo as três pessoas que trabalham na loja e sair de lá com dois dos brinquedos doados aos pobres?

Sentiu-se um pouco culpada pelas crianças que não ganharão os robôs de plástico neste natal. Olhou para o filho, radiante, e não teve coragem de fazê-lo devolver. A verdade é que ficou feliz ao ver o menino com os robôs que tanto desejara. E a lição de moral ficou para outro dia…

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