Reconfinados

Eu sabia que não escrevo há um tempão, mas levei um susto quando vi que meu último post data do início de agosto. Ele falava sobre meus sentimentos de fim do mundo. Depois disso não tive mais o que dizer. O mundo não acabou, mas o assunto sim.

Quer dizer, às vezes até tive vontade de compartilhar alguma coisa. Como o dia em que contei para a sogra que iria começar a dar aulas na faculdade e ela respondeu: “Aos quarenta anos, já estava passando da hora de começar a trabalhar”. Cheguei a pegar o ar para responder que comecei a trabalhar aos dezessete anos, dando aulas de inglês em Belo Horizonte, e desde então nunca parei; que o pós-doutorado é o primeiro emprego do jovem doutor; que, contrariamente a quem tem contratos de trabalho clássicos, nunca beneficiei de licença maternidade; que meu filho tinha três semanas e chorava para amamentar nos braços do pai do lado de fora enquanto eu me apresentava diante de um júri de vinte e cinco pessoas, em um dos concursos mais difíceis da França. Mas engoli e não repliquei. Sabia que se começasse eu não ia conseguir me controlar, decerto terminaria em drama. Foda-se, ela que pense o que quiser. Nem sei porque quis anunciar esta pequena conquista para a família do marido.

A verdade é que já resolvi a relação com a sogra comigo mesma. Ela não me faz mais raiva o suficiente para me motivar a escrever. O que me trouxe de volta para a frente do computador, apesar do cansaço e da vontade de aproveitar que as crianças enfim dormiram para assistir uma série no netflix, foi o dia surreal que passei hoje. Todas as coisinhas que de vez em quando tenho vontade de escrever, mas não o faço por preguiça ou procrastinação, se uniram em um só dia estranho e cheio de simbolismos. Um dia que minha sogra acharia normal.

A manhã começou comigo levando minha filha de sete anos para a escola de máscara. Sei que a máscara é necessária, mas às vezes me sinto quase claustrofóbica ao perceber que estamos todos com o nariz e a boca tampados. Como quando o metrô para lotado dentro do túnel, entre duas estações. Nessas horas respiro fundo, invoco minha racionalidade e afasto a palavra “focinheira” da mente repetindo um mantra. Ver todas as crianças de máscara a caminho da escola foi triste. Pensar que elas teriam que respirar por debaixo do tecido o dia todo, inclusive durante o recreio, me perguntar se as orelhinhas de Jasmim ficariam doloridas por causa do elástico, imaginar as risadas e gritinhos abafados… cortou meu coração. Deixei minha menina no portão da escola com a promessa de que dali iria direto comprar máscaras bonitas, porque até agora só tínhamos a máscara infantil azul distribuída pela prefeitura no começo do confinamento. Até cedi quando ela me pediu uma máscara de oncinha, me lembrando, pertinentemente, que meu estilo não é o estilo dela.

Normalmente pego um ônibus para voltar pra casa, mas o fato de estarmos novamente confinados me deu vontade de caminhar. É um pouco mais longo, mas assim eu aproveitaria da minha atestação de deslocamento “levar as crianças na escola” para passear. Como da primeira vez, precisamos preencher atestações indicando, sob compromisso de honra, o motivo legítimo que nos permite colocar os pés na rua. Na realidade, esse confinamento com a escola aberta não muda muito minha rotina. Desde o toque de recolher, decretado umas duas semanas atrás, eu já havia renunciado às saidinhas noturnas, que de toda forma raramente aconteciam mais do quê uma vez na semana. E meus alunos já estavam tendo aulas online há algum tempo. Mas o confinamento me trouxe essa urgência de caminhar. Fiz bem, é outono e o bosque está lindo, todo em tons de marrom, vermelho, laranja e amarelo. 

Quando cheguei ao supermercado para comprar as máscaras infantis, constatei, sem surpresa, que não sobrara nenhuma nas estantes, repletas até poucos dias atrás… Aproveitei para fazer umas comprinhas no andar de cima, onde encontramos tudo o que não é comida, como roupas, livros, maquiagem e brinquedos. Explico: semana passada o Macron anunciou um confinamento cheio de exceções. Por exemplo, o comércio estará fechado, mas as lojas de departamento que vendem ferramentas ou materiais de escritório permaneceriam abertas. Uma das características da França são suas pequenas livrarias independentes. Parece que aqui é o país europeu com o maior numero de livrarias por habitantes. No dia seguinte à declaração do presidente, recebi um e-mail da livraria do meu bairro anunciando que iria resistir. Ela não foi à única, em todo o país as livrarias argumentaram que cultura também é um bem essencial, e que não era justo que supermercados e grandes lojas como a Fnac fossem autorizadas a abrir, enquanto eles eram obrigadas a fechar as portas. Um novo confinamento as levaria à falência. Ao invés de permitir a reabertura das livrarias, o governo decidiu fechar todos os outros comércios não alimentares a partir de amanhã. O que é bizarro é que a caça está liberada. Será que os nobres morreriam de fome se não pudessem mais montar em seus cavalos para matar os animais da floresta?

Chegando em casa mal tive tempo de pôr as coisas em ordem, arrumar as camas, lançar o lava-louças, lançar a máquina de lavar roupas, e já estava na hora da minha consulta. Dessa vez não me dei ao trabalho de fazer uma atestação. O centro de radiologia fica literalmente do outro lado da rua, achei mais simples olhar para os lados, me certificar que não tinha nenhum policial à vista e dar uma corridinha até o portão da frente. Recentemente a ginecologista disse uma das frases mais deprimentes que já ouvi na vida: “Agora que você fez quarenta anos, vai precisar fazer mamografia”. Quem já passou por isso sabe como é ruim ter seus peitos esmagados por uma máquina grande, cinza e fria. Quem ainda não chegou lá descobrirá por si mesma. Digo apenas que senti vergonha dos meus seios pequenos, ridiculamente achatados e espremidos para o raio-X. E pateticamente declarei ao médico calado e sem graça que examinava meu exame que, ao todo, amamentei meus filhos durante mais de quatro anos. Como se precisasse provar que, embora modestos, meus peitos são eficazes. 

O restante do dia correu bem. Me permiti uma sessão de duas horas de yoga pelo Zoom e dei duas horas de aula de metodologia na sequência, dessa vez pelo Skype para empresas. Aqui também, só quem passou pela experiência de falar durante horas diante da tela do computador, sem que nenhum estudante coloque sua câmera de vídeo, apesar dos meus protestos, entenderá o que estou falando. Para os demais, explicarei essa experiência singular em outro post.

Nos últimos trinta minutos da aula o marido chegou em casa com as crianças. Devo dizer que os filhotes entenderam que não podem me incomodar quando estou trabalhando, fiquei inclusive surpresa com o respeito deles. Quando acabei Jasmim veio me contar que a professora lhes falou sobre Samuel Paty, “um homem que foi assassinado porque mostrou uma caricatura na sala de aula”, nas suas palavras. Ela também me explicou que a França é um país onde as pessoas tem o direito de se expressar. Tendo dito isso, correu para o quarto e foi fazer caricaturas de toda a família. Graças a deus, a professora não explicou os detalhes do homicídio. Mas durante a janta Jasmim perguntou: “Mamãe, você sabe o que aconteceu com ele?”. Respondi que sim, mas não lhe diria. Ela tentou adivinhar: “Cortaram a cabeça dele!”, declarou, com os olhos arregalados e um sorriso sapeca, como se fosse óbvio que isso não acontecera, como se tal coisa não pudesse passar de uma provocação infantil divertida de tão absurda. Mudei de assunto. O que trouxe um pouco de delicadeza para a conversa foi outra coisa que ela disse ter aprendido na escola : “os três símbolos da França, liberdade, igualdade e maternidade”. 

Para coroar o dia o marido foi dormir no sofá, porque estou me sentindo doente e ele não quer se arriscar. Pior, ficou de cara feia porque eu não estou usando máscara dentro de casa. Quando disse que iria escrever isso no blog, Vincent deu três cambalhotas no sofá. Foi seu protesto contra a imagem de chato ranzinza que faço dele aqui. Tive que rir.

8 Comments

  1. Ai Nina! me vejo tanto nos teus textos! Essa do trabalho… hahah! Vou ficar no Brasil até abril para qualificar no mestrado aqui e família do marido nunca entende que eu trabalho no serviço, tenho minha pequena consultoria E faço mestrado. Sigo com os planos de fazer o doutorado aí… mas nossa mudança ta só começando!

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