Ideias para ser feliz no fim do mundo

Estou com um sentimento de fim do mundo. Sei que a história da humanidade está repleta de tragédias, horrores, maldade, catástrofes naturais. Não tenho dúvidas de que as diversas guerras, das tribais às mundiais, inspiraram esse tipo de sentimento. E com certeza o último evento é sempre o pior, o mais trágico, o que anuncia o fim do mundo. Mesmo. Dessa vez é verdade. O mundo se acabará na virada do milênio. Não, em 2012. 2020 e continuamos aqui… Beijei na boca de quem não devia, peguei na mão de quem não conhecia, e o tal do mundo não se acabou.

Mas, apesar de colocar essa angústia em perspectiva, continuo sentindo que estamos no fim do mundo. Por que? Por causa da questão ambiental. A bomba de Hiroshima revelou um aspecto gigantesco da força destrutiva da humanidade, mas não se conjugou com aquecimento global e esgotamento dos recursos naturais necessários à sobrevivência da espécie humana. Bem-feito, às vezes penso. Homens e mulheres não souberam merecer a generosidade da mãe Terra, ela tem mais é que se livrar da gente mesmo. Já vamos tarde. Todos vamos morrer um dia, por que não morrermos juntos?

Acho que estou em paz com esse pensamento quando vejo as fotos de Beirute devastada pela má gestão e egoísmo de elites políticas e econômicas e meus olhos marejam. Talvez eu não esteja tão nem aí assim. Comento com o marido, francês, e ele me responde de modo igualmente francês: “você não vai começar a chorar pelo Líbano agora. Seja adulta”. E se fosse em Paris? Respondo, indignada. Depois penso, num exercício mental masoquista: e se fosse na minha cidade natal, Belo Horizonte? Não tenho muito tempo para auto-piedade imaginária, lembro que já aconteceu: Brumadinho. A ganância, o egoísmo, o neoliberalismo desenfreado já destruiu e matou e soterrou e condenou boa parte das minhas Minas Gerais. E Beirute já conheceu outras bombas. E os trabalhadores sírios que nesse exato momento gritam de dor e imploram a misericórdia de Allah também. Que sina… fugir das bombas da guerra civil, comer o pão que o diabo amassou, para morrer sob uma bomba da avareza no país vizinho. Ninguém merece isso. Ninguém mesmo. Nem Bolsonaro.

Demorou para o nome do %$*#@ aparecer. Mas apareceu. Claro. Ele obceca os brasileiros conscientes. O messias do fim do mundo. O Minto. A canalhice encarnada numa figura que, sabe-se lá por que, resolveu personificar tudo aquilo que o brasileiro tem de pior, todo esse ranço de escravidão, ditadura e complexo colonial que cada um carrega em si nessas terras tropicas, conscientemente ou não, com consentimento ou não, com vergonha ou com orgulho. %$*#@

Estou com sentimentos de fim do mundo. Comentei isso ontem com uma amiga. Ela respondeu: “Eu também. Resolvo com cigarro e drogas”. Levei um susto. É amiga nova, conheci na escola dos filhos, não esperava tanta honestidade. Minhas ideias para ser feliz no fim do mundo não são muito mais originais: faça yoga, escreva, faça massagem, beije os filhos se os tiver, abrace quem está confinado com você, fale a verdade porque hipocrisia só traz sofrimento, coma cinco frutas e legumes por dia, use filtro solar, beba bastante água, e por aí vai. Poderia continuar a lista, desenvolver cada um dos tópicos em subtítulos, dar exemplos pessoais, quem sabe virava um best-seller de auto-ajuda. Mas acho que quem compra auto-ajuda não compra um livro com “fim do mundo” no título. Pronto, mais uma ideia para ficar milionária que morre no ovo. Vou deixar só uma ideia então, que provavelmente não lhe tornará mais feliz no fim do mundo, mas talvez ajudará a adiá-lo: Pense. Eu, de tanto pensar, cheguei à conclusão de que muitos problemas do fim do mundo não existiriam se as pessoas não tivessem preguiça de pensar. Pense o mundo pra fora, pense o mundo pra dentro, e depois recomece. Pense como você respira. E aí quem sabe esse fim do mundo não vira só mais um fim do mundo, do qual as gerações futuras rirão? Lembra quando nossos pais elegeram um fascista, queimaram a Amazônia, mataram os índios e maltrataram os animais? Lembra daquele vírus novo que se alastrou mundo afora, do confinamento, das máscaras, de quando as pessoas olhavam umas para as outras com desconfiança, como se fossem gigantescos vírus ambulantes? Lembra quando barragens arrebentaram e bombas explodiram em países onde tudo já ia mal, mataram e mutilaram quem já estava fudido, e o tal do mundo não se acabou? Pois é, foi tão divertido… éramos felizes e não sabíamos.

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