11 de maio

Dia 11 de maio, a tão esperada data do desconfinamento na França, chegou e passou. Estava todo mundo ansioso, mal aguentando a espera. Era como vontade de fazer xixi: quanto mais perto chegávamos do objetivo, mais ela apertava. Lá em casa, estávamos elétricos. Gritando, brigando, pedindo desculpas, respirando pra acalmar e gritando de novo. Meus amigos que estavam confinados sozinhos também andavam meio enlouquecidos, achando difícil dar conta dos próprios fantasmas.

O marido e eu passamos a semana que antecedeu o desconfinamento preparando a evasão. Nosso filho menor está no primeiro ano do maternal e não tem data de voltar pra escola. Ontem mesmo recebemos uma mensagem da professora explicando que não sabe se a veremos antes de setembro. Ela está trabalhando na escola para os filhos de médicos e outras pessoas que têm o direito de retomar as aulas. Quando li sua descrição sobre como o retorno está acontecendo, fiquei feliz por poder continuar com meu filho em casa. Deve ser muito difícil para as crianças de quatro anos entenderem as regras que surgiram com o coronavírus. Nossa filha mais velha está matriculada em uma escola alternativa que de hábito já é suja. Não fiquei nem surpresa quando a diretora enviou um e-mail dizendo que eles não preenchiam os requisitos sanitários necessários para reabrir as portas. Alguns dias mais tarde a associação de pais também mandou uma mensagem, argumentando que esses requisitos vão contra a própria pedagogia da escola, que é baseada na experimentação e no compartilhamento. Decidiram então que a escola não vai fazer esforços para voltar a funcionar agora e que os filhos dos pais que precisam trabalhar serão acolhidos de forma voluntária por outras famílias da escola. Normalmente fico irritada com os bolos de poeira nas escadas da escola e os pais hippies que nas reuniões propõem coisas como ensinar os alunos a fazerem shampoo de farinha de grão-de-bico, mas fiquei orgulhosa com essa atitude. Também acho que a solidariedade entre famílias vale mais do quê a reabertura das escolas a qualquer custo. É de escolhas nesse sentido que precisaremos se de fato quisermos uma sociedade pós-pandemia renovada.

Continuaremos então cuidando das crianças em tempo integral até pelo menos setembro. Não vou dizer que não sofro nem um pouquinho com esse pensamento. Mas as coisas são o que são. Ao mesmo tempo, o marido e eu estávamos de acordo que tanto nós quanto as crianças teríamos um ataque de nervos caso continuássemos gritando “para de correr” cento e cinquenta vezes por dia, com o coração na mão cada vez que os pequenos se empolgam e fazem barulho, com ódio do vizinho que mandou a polícia na nossa porta logo no começo do confinamento. A extremidade da situação levou-o a uma decisão corajosa: ligou para o pai e reivindicou o direito de ir à casa de campo, que estava fechada há mais de dois meses. “E como vocês vão fazer com o carro?”, meu sogro perguntou. Explico: o carro que antes eles nos emprestavam está parado na garagem da casa de campo desde o verão passado. Foi a forma que a sogra encontrou para me punir quando ousei revidar os berros da sua filha preferida. Mas essa é outra história… “A gente aluga”, o marido respondeu. O sogro pediu dois dias pra pensar.

Na quinta-feira antes do desconfinamento ele nos deu a resposta: podemos usar a casa de campo até o dia 19 de maio, data em que ele irá para lá com a esposa, a filha preferida e seus dois filhos. O marido sabiamente decidiu que não era hora para orgulho ferido ou lavagem de roupa suja, deveríamos simplesmente aproveitar da oportunidade de desfrutar de uma casa espaçosa, sem vizinhos e com um jardim imenso para as crianças. Essa é uma coisa que preciso aprender com ele, sangue frio. Fiquei me perguntado o porquê da data precisa, 19 de maio, uma quarta-feira. Afinal, o sogro é aposentado, a sogra não trabalha e a cunhada está entre dois empregos. Mas o marido não arriscou perguntar. Não insisti, ele tem razão, em cavalo dado não se olha os dentes. Evocamos várias possibilidades: eles têm um exame médico em Paris antes do dia 19, ou estão nos enviando como cobaias para ver se conseguimos fazer a viagem sem problemas. Mas o mais provável, segundo o marido, é que seus pais nos deixaram ocupar a casa de campo agora para depois não podermos reclamar. Tudo indica que ficarão lá com a filha e os netos favoritos até a volta às aulas de setembro. Eu não gosto nem de pensar no que vamos fazer durante os quatro meses que ainda temos pela frente. Mas cada coisa no seu tempo.

Assim que tivemos a confirmação da casa começamos a nos organizar. Alugamos um carro no sábado para viajarmos na madrugada do dia 11, segunda-feira. Para buscar o carro, quebrei a regra do confinamento que impunha que não podíamos nos afastar mais de 1 km do domicílio e fui à pé até a agência. Essa caminhada, de máscara nas ruas desertas e debaixo de uma chuva fina, com medo de ser controlada pela polícia, foi a primeira vez que fiquei sozinha em mais de dois meses. Apreciei. Quando cheguei na Gare de Lyon, levei um susto. A estação de trem, que de hábito fervilha de gente e de movimento, estava cinza e despovoada, parecia cenário de filme pós-apocalíptico. Com custo achei o elevador que levava à agência de carros no quarto subsolo. Apertei o botão com nojo. Buscar o carro foi épico. Sou pior do quê domingueiro, não dirijo nem todos os meses. Meus óculos se embaçavam por cima da máscara e me deixavam mais desastrada do quê de costume. Deixei cair o cartão, a carteira e o álcool gel. Quando cheguei na vaga da garagem vi que o carro era imenso. Dei meia-volta e disse ao funcionário mal-humorado que não tinha a menor condição de eu dirigir aquilo. Os dois homens que faziam fila atrás de mim me olharam com raiva por eu aumentar seu tempo de espera e desprezo pela minha inabilidade. Me enchi de coragem e insisti para trocar de veículo. Depois, quando entrei no carro novo, que continuava grande para mim, não consegui ligá-lo. Fiquei uma meia-hora lá dentro até descobrir como fazer, estava fora de questão voltar e pedir ajuda. Pra completar, na saída do estacionamento, passei a um centímetro de uma pilastra cheia de tinta. Precisei parar e utilizar todas as técnicas de respiração que conheço para conseguir manobrar. O moço da agência tinha avisado que se arranhasse o carro deveria pagar 1400 euros por arranhão!

Domingo o marido caminhou até a casa dos pais para buscar a chave e de noite estava tudo pronto. Da janela vi várias pessoas enchendo os porta-malas. A partir do dia 11 poderíamos nos deslocar, mas só até 100 km do domicílio e a casa de campo fica a 240 km da nossa casa. Visivelmente não fomos os únicos que planejamos aproveitar da confusão das primeiras horas do desconfinamento para escapar. Às cinco da manhã, quando colocamos as crianças adormecidas nas cadeirinhas, uns três carros já haviam partido e outros se preparavam pra deixar Paris, tão ávidos por espaço e ar livre quanto nós. Na madrugada chuvosa e silenciosa, a saída da cidade estava cheia. Parecíamos famílias fugindo da guerra. Claro que não ouso me comparar com as pessoas que vivem de fato essa situação, mas a impressão era essa.

Às nove horas da manhã do dia 11 de maio chegamos na casa de campo dos sogros, de onde escrevo essas linhas. As crianças desceram do carro e foram correr no jardim, pareciam cachorro quando chega no sítio e solta a coleira. Meu filho mais novo me perguntou, maravilhado: “Mamãe, aqui eu posso encostar em tudo?”. “Sim filho, aqui você pode encostar em tudo”. “Obrigada mamãe, você é a melhor mamãe do mundo!”. Valeu a pena.

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