Quatro semanas

Quase quatro semanas de confinamento. Eu ainda tenho esperanças de que ele dure apenas dois meses, o que significaria que já estamos na metade. No começo, duas semanas me parecia enorme e agora estou escrevendo “apenas dois meses”. É uma das características desse confinamento: nossa perspectiva das coisas muda numa velocidade assustadora. Poucas semanas atrás eu achava que as pessoas usando máscara exageravam. Um médico havia me dito que a máscara só fazia sentido quando usada por pessoas com sintomas, o que me pareceu sensato. Confesso que eu experimentava uma espécie de auto-satisfação ao passar por pessoas mascaradas. Ao menos não sou hipocondríaca, pensava, sentindo-me esperta por não me deixar levar pelo pânico suscitado pelos meios de comunicação. Hoje é tarde para encontrar máscaras no mercado e estou sofrendo por não possuir talentos de costureira.

Ao contrário de mim, meu marido é um vanguardista da cautela em tempos de epidemia. Ele chegou a encomendar uma caixa de máscaras pela Amazon quando o vírus se expandia na Itália mas ainda parecia sob controle na França, mas ela nunca chegou. Nesses dias, ele releu A Peste de Camus e concluiu, solene: os que sobrevivem não são os que se acham inteligentes e acima do medo coletivo, mas os que veem longe e agem com precaução. Não dei muita bola, ele sempre foi prudente demais pro meu gosto.

Poucos dias antes do confinamento, eu cheguei a apertar a mão do meu ex-orientador de doutorado e omiti esse acontecimento banal do meu marido. Não porque ele é ciumento, mas porque já estava me preconizando o distanciamento social. Mas não havia a menor chance de eu dizer ao meu ex-orientador, o equivalente do Mestre dos Magos na minha vida, que não queria apertar sua mão. Acho que agora ele também não deve estar apertando a mão de mais ninguém… Quando o Macron enfim pronunciou o confinamento, meu marido respirou aliviado: o mais difícil não era ficar em casa, mas tentar me segurar, disse. Ele estava enfurecido porque, três dias antes, eu tinha pego o metrô e ido à uma aula de yoga. E eu estava quase sufocando com a perspectiva de ficar duas semanas dentro de casa com ele e as crianças.

Eu não sei se hoje o marido diria a mesma coisa. Ele já está de saco cheio de mim, das crianças, de toda essa situação… e eu dele, diga-se de passagem. Outro dia li num artigo que os primeiros dez ou quinze dias de confinamento são os mais simples, entre outras coisas porque temos objetivos. Eu, por exemplo, pensei que seria o momento ideal para uma faxina de primavera. Quando disse isso ao marido, toda serelepe, ele virou os olhos aos céus e disse: “Além do confinamento, ela quer me pôr pra fazer uma faxina de primavera”. Achei essa atitude péssima. Hoje, estou atrasada com a faxina simples mesmo. Às vezes ainda tento, imagino a Marie Kondo, com aquele seu jeitinho meigo e simpático, ao meu lado, respiro fundo e começo alguma empreitada, como lavar todas as proteções de colchão da casa, ou todos os bichinhos de pelúcia das crianças. Mas com o passar dos dias estou me desencorajando… Quatro dias atrás comecei a limpar o armário do banheiro, que tem quatro portas. O projeto, realista e sem grandes ambições, era limpar uma por dia, enquanto as crianças tomam banho. Hoje faltou-me o ânimo para limpar a quarta. Preferi usar o tempo do banho das crianças cantando mantras e cozinhando, para desespero do marido, que morre de medo dos vizinhos acharem que somos Hare Krishna.

Se estou escrevendo aqui sobre esse desencorajamento progressivo, é porque tenho a sensação de que não sou a única passando por isso. Acho inclusive que esse estado de desânimo concerne também os pequenos, e na verdade foi isso que me deixou alarmada. Há alguns dias meu filho de quatro anos não quer sair de casa e hoje foi a vez da minha filha de sete não querer passear. Eles não mudaram de ideia nem quando disse que se não saíssem um pouco não teriam direito de assistir um desenho animado. Aí assustei.

Essa manhã todos acordamos mais tarde do quê de costume. Minha filha mais velha, que não faz a sesta há anos, também dormiu depois do almoço. Mais tarde ouvi uma amiguinha dela dizer, ao telefone: “passei o dia inteiro de pijama”. Acho que esse é o perigo que está à nossa espreita e um dos grandes desafios para os pais. Manter o entusiasmo. Sem dúvidas seria mais fácil se soubéssemos quando tudo vai acabar.

No começo ouvi umas pessoas dizerem que não queriam “fracassar a quarentena”. Mas não seria igualmente absurdo ter sucesso na quarentena ? Pessoalmente, eu já não tenho grandes planos para o confinamento, como melhorar minha relação com o marido, terminar o livro que anda dentro da minha bolsa há meses porque me comprometi a fazer uma resenha dele, ou jogar fora tudo o que é inútil nessa casa, não sem antes agradecer cada objeto com um sorriso. Agora meu único objetivo é garder la morale, como dizem os franceses. Ou seja, não me deixar abater e ajudar meus filhos a continuarem em forma, mesmo se minha vida é mais fácil quando eles estão prostrados na frente da televisão.

Um último pensamento : não é interessante que muitos de nós, ao se aproximar dos quarenta, tem esse sentimento de que fracassamos na vida? Fracassar a quarentena, fracassar aos quarenta… romantizar a quarentena, desromantizar… para finalmente reerguer o queixo e prosseguir, na quarentena como aos quarenta.

12 Comments

  1. Nossa mana, você toca profundamente meu viver atual, com muitas diferenças, mas quantas semelhança. Desejo força na empreitada, lembrei lendo do filme a vida é bela. E fico aqui pensando também o quanto vamos perdendo a nossa criança né? Aquela de uns 35 anos atrás? Reencontramos com ela pode nos ajudar muito, buscar na crias a luz da nossa própria infância. ❤ (0;

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    1. Que delícia ler seu comentário Diogo, obrigada! A criança interior fica mesmo às vezes perdida no meio das responsabilidades… vou buscar me conectar com a minha, como você sugeriu 😉

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  2. Nem sei o que dizer. Qdo saio de casa sinto uma ansiedade tão grande que faz meu coração bater tão forte q eu me vejo torcendo para ter um ataque cardiaco só qdo chegar em casa. Além do que ando sentindo uma tristeza perpétua, especialmente quando olho pra fora. Talvez seja a ocasião de olhar para dentro. O momento parece propicio…

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    1. Essa ansiedade é muito forte mesmo… eu fico tentando não transmitir os stress pros meus filhos, que são pequenos e encostam e tudo, o que me põe quase louca, colocando álcool gel nas mãozinhas deles… ultimamente está difícil curtir o passeio… vc tem razão, é hora de olhar pra dentro.

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      1. Querida, como é gostoso participar com você de sua quarentena, sua forma de escrever nos toca a alma, descreve sentimentos que a gente se identifica dentro deles. Continue assim…abraços!

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