Minha sogra francesa

Poucos dias após ter começado esse blog mandei o link para uma grande amiga, que respondeu: “Muito bom!!! Só não está fazendo sentido, ao menos até agora, o nome do blog…”. Ignorei o comentário. Passei os últimos meses pensando na sogra praticamente todos os dias e apenas recentemente consegui me liberar dessa carga emocional; estava relutante em voltar a ocupar minha mente com um assunto que me chateia. Ao mesmo tempo, gosto do nome “Minha sogra francesa” e não tenho vontade de mudá-lo.

Chegou a hora de explicar as razões do título. Comecei esse blog há exatamente dois anos, numa época em que precisava escrever sobre a sogra para suportar sua existência. Criei a conta no wordpress, o título, o e-mail, o pseudônimo, mas não tive coragem de publicar nada. Acho que, em parte, eu tinha medo que ela descobrisse minha atividade secreta. No fundo, ainda acreditava que um dia pudéssemos ser próximas. Eu era mesmo muito iludida.

Agora liguei completamente o foda-se. Quem está sofrendo é o marido, que começa a enxergar uma faceta da mãe que não é de todo apreciável. Aliás, foi um comentário dele hoje mais cedo que me motivou a escrever essas linhas. Eu estava ajoelhada no chão, lavando os cabelos da nossa filha, quando ele disse, com um sorriso : “Minha imagem da maternidade é ganância e ódio”. Na hora não entendi se ele estava brincando ou me atacando, nem por quê. Depois caiu a ficha, não era de mim que ele estava falando, mas da própria mãe.

Pra vocês começarem a entender essa figura difícil sem sair do tema do confinamento, conto aqui o motivo do meu marido estar chocado com a atitude dela, a ponto de ruminar pela casa dizendo bizarrices sobre a maternidade : nesse exato momento existe uma maravilhosa casa de campo na Normandie, com um imenso jardim e um carro na garagem, inutilizados. Os sogros preferiram ficar confinados no seu apartamento parisiense, pois se sentem mais seguros estando próximos aos hospitais, e optaram por manter a casa de campo vazia com o carro lá dentro. Pouco importa que o filho e os netos estejam confinados num apartamento de dois quartos sem quintal e com vizinhos intolerantes.

Eu nem penso nisso, já fiz o luto da casa de campo há tempos, só me aborreci quando interditaram o bosque ao lado da nossa casa. Lá sim, é meu oásis. Mas o marido, apesar de saber a mãe que tem, ainda pensava na casa da Normandie como sendo um pouco sua também. Afinal, adolescente, ele passou diversas férias de verão esfregando o musgo de azulejos de demolição para a renovação da casa, enquanto seus amigos “iam para colônias de férias e passavam a mão nos peitos das meninas”.

Histórias com a sogra virão, vocês vão ver, ela é um personagem complexo, uma perfeita vilã de novela, gentil e educada à primeira vista, perfídia e venenosa quando chegamos perto. Mas por enquanto prefiro refletir sobre o dia-a-dia do confinamento e oferecer textos que, espero, nos ajudem a atravessar esse momento delicado.

15 Comments

  1. Já tive o prazer de conhecer um pouco dessa Odete Roitman Francesa. É como a nossa aqui já dizia, “Às vezes eu tenho a sensação que as pessoas não viajam, não aprendem, não vão a Paris. Aliás, não vão nem a Buenos Aires.”. Boa sorte com ela, querida!

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  2. Eu, principalmente depois que me tornei mãe me pego com frequência relembrando e questionando coisas da minha infância e das atitudes dos meus pais. Acredito q pros maridos e igual quando sem querer nos observam e nos comparam com as próprias mães. Pro seu marido te ver cuidando com tanto amor e doçura dia seus filhos deve trazer muita coisa a tona. Um beijo

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  3. hahahah nina, eu amei este texto e achei o blog super criativo! favoritei aqui no navegador e com certeza voltarei mais vezes. adoro blogs criativos assim! e quando eu criei este meu, também pensei igual vc, do medo de alguém ler e etc… então relutei em escrever por muitas vezes… heheh grato! parabéns

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    1. Olá, muito obrigada pelo seu comentário! Que bom que você está gostando. Sempre dá um mesinho na hora de escrever né? Mas estou gostando muito da experiência. Vou lá ver seu blog também 😘

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  4. Nina Said!!! Que delícia. Que saudades dessas histórias. Como vc ainda escreve bem!!! A sogra até q presta pra alguma coisa, nem q seja pra inspirar esses textos maravilhosos! Obrigada por lembrar de mim e me chamar. Queto ler todos!

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  5. Oi Nina! Gostaria que escrevesse mais sobre suas experiências com a sogra, também sou casada com um francês e não suporto minha sogra, a considero super invasiva, controladora e com uma maldade disfarçada de educação. Além da ganância e sua relação com os próprios filhos. Enfim… todos a consideram super educada e eu sou a implicante. Um choque de culturas muito grande. É legal descobrir que não sou a única com problema de convivência com a sogra francesa. Até a próxima! Bon courage!

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    1. Oi Aline, você descreveu em poucas linhas minha sogra! Não somos as únicas a passar por isso, tenho uma amiga que também passou por isso (hoje em dia ela é divorciado, em grande parte por causa da sogra…). Por enquanto estou escrevendo mais sobre o confinamento, um momento desafiador pra todo mundo. Mas a sogra é a primeira inspiração desse blog, então não vão faltar histórias com ela! Beijos e respira fundo quando estiver com a sogra 😘

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  6. Olá nina! Moro na França faz 5 anos e meio. Sou casada com brasileiro , mas uma coisa q percebo aqui na França q as relações familiares entre mae e filhos são bem complexas. As mães aqui são duras exigentes pouco amorosas e isso traz bastante complexidade nas relações ! Já fiquei chocada várias x. Tenho 2 meninos e convivo com muitos pais e mães.
    Adorei seu blog!

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    1. Olá Marsella, obrigada pelo comentário, que bom que você gostou do blog 🤗 a forma de educarmos os filhos é muito diferente mesmo, vira e mexe tenho atritos com o marido por causa disso. Prefiro educar os meus mais “selvagens” mesmo, mesmo se dá mais trabalho…

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  7. Olá Nina, muito bom esse blog. Moro na França há 7 anos. Minha namorada é francesa. Me identifiquei com a sua história, apesar de minha sogra francesa ser quase uma mãe pra mim e bastante simpática. Minha sogra tem uma casa de praia na Bretanha com um grande jardim também e ela tentou me obrigar a fazer “trabalhos de reformas e jardinagem” na casa dela durante o confinamento.
    Mas consegui escapar a maioria das vezes do “trabalho forçado” pois ainda trabalhava a distancia e nao tinha muito tempo livre 🙂 Mas confirmo que as relaçoes familiares francesas são bem complicadas e não existe muita comunicação e tudo fica implicito e nada é muito claro.

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    1. Olá Max, obrigada pelo comentário! Que bom que sua sogra é simpática e quase uma mãe pra você, maravilhoso isso. Acho que as relações da sogra com um genro são diferentes, apesar de que muitas notas também se dão bem com a sogra. Mas a sociabilidade é muito diferente mesmo né, acho que no Brasil somos mais abertos ao diálogo, aqui fica muita coisa implícita, como você bem disse, e isso pode ser complicado. Estou morrendo de rir do “trabalho forçado”. Eu também, quando vou pra casa de campo deles, acabo arrancando erva daminha do jardim e outras coisas, todo mundo tem que trabalhar. Mas trabalhando à distância fica complicado mesmo…

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  8. Oi Nina! Adorei descobrir seu blog e já segui para acompanhar aqui!
    Sou brasileira, casada com francês, e depois de 7 anos vamos voltar a morar na França! Acredite, dá um frio na barriga pensar que estaremos mais próximos da família francesa do que da brasileira… Mas tenho uma certa sorte. Embora minha sogra ainda não entenda muito dos meus hábitos, nem com nossa ‘filha’ peluda, nos últimos anos ela tem se esforçado mais para, pelo menos, aceitar sem bufar!

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    1. Olá Bel, que delícia ler seu comentário, obrigada! Boa sorte com a mudança. A família brasileira faz falta… mas mesmo longe a minha é muito próxima de mim e dos filhotes. Haha, aceitar sem bufar, para uma sogra francesa, já está muito bom 🙂

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