Domingo é dia de feira

Praticamente todos os bairros de Paris têm uma feira durante a semana, às vezes duas. Onde moro, a feira acontece aos domingos. É um momento importante da vida do bairro, um lugar em que as pessoas se encontram, trocam ideia, brincam com os feirantes. Os clientes tropeçam nos carrinhos de compras das velhinhas, que por sua vez reclamam das mães empurrando carrinhos de bebê nos corredores apinhados de gente. Crianças pequenas se extasiam em frente às lagostas vivas, ou observam boquiabertas um senhor de boina rodar a manivela de um antigo instrumento parecido com uma caixa de música tamanho gigante. Jovens escoteiros e senhorinhas simpáticas vendem pedaços de bolo feito em casa, angariando fundos para a Cruz Vermelha ou alguma causa beneficente. E quando, por volta do meio-dia, os feirantes se cansam de gritar as últimas promoções do dia e embalam suas mercadorias, os “glaneurs”, pessoas que recuperam os produtos jogados fora após a feira, chegam sem alardes.

Tudo isso parece pertencer a uma outra época. Com o pronunciamento do confinamento, as feiras foram mantidas durante algum tempo, depois fechadas, para finalmente reabrirem hoje. Ao escrever isso parece que estou descrevendo um tempo longo, quando na verdade me refiro às últimas três semanas. Quando as feiras foram fechadas, fiquei um pouco dividida porque, se por uma lado entendo a necessidade de evitar conglomerações, por outro me parece mais saudável fazermos nossas compras ao ar livre do quê no ar-condicionado do supermercado. Sem contar que quem está realmente lucrando com o confinamento são as grandes redes de supermercado. Eu, pessoalmente, prefiro deixar meu dinheiro nas mãos dos feirantes da agricultura familiar.

Alguém deve ter tido um raciocínio similar, porque hoje a feira foi reaberta. Saí de casa logo cedo, sem as crianças, com um misto de animação e medo. Animação pois estava feliz com a ideia de ver outras pessoas que não sejam meu marido e filhos, bater um papinho, ainda que de longe, com os feirantes de quem compro há anos e os pais de amigos dos filhos, colegas do curso de yoga e outras figuras conhecidas do bairro. Pessoas de quem muitas vezes nem conheço o nome, mas cujos rostos são conhecidos e com quem tenho o hábito de falar sobre amenidades. Medo porque estamos no auge da epidemia e estou apreensiva com a presença desse ser que se assemelha a Deus tal qual descrito por certas tradições religiosas: invisível, onipresente e impiedoso! Como não conseguimos comprar máscaras, fui vasculhar os armários em busca de um lenço que pudesse se transmutar em proteção antivírus. Me deparei com minha kofieh, presente de um amigo palestino, e a enrolei no pescoço, passando por cima do nariz e da boca. Olhei no espelho e me achei parecida com os rapazes de Gaza que lançavam pedras nos tanques israelenses durante a primeira intifada. Saí de casa pronta para o combate.

Mas me senti completamente desamparada quando cheguei na esquina da feira. Eu esperava que ela estivesse menos cheia e sem sua vivacidade habitual, mas não estava preparada para o que vi: policiais vigiando estruturas de ferro parecidas com as dos aeroportos, formando corredores dentro dos quais as pessoas faziam fila, mantendo uma distância de dois metros umas das outras, de máscaras e cara fechada. Mas talvez tenha sido o silêncio o que mais me incomodou : ninguém conversava com ninguém, nenhum senhorzinho tocava música, nenhum jovem tentava te comover sobre alguma catástrofe humanitária, nenhum feirante liquidava seus produtos aos berros. Num primeiro momento pensei em entrar na fila, não estava com pressa de reganhar o lar, onde me esperava a mesma rotina junto das mesmas três pessoas. Mas não dei conta e, após alguns minutos de vacilação, dei as costas à essa versão ascetizada da feira do domingo.

Chegando em casa, vi da janela uma cena que há três semanas atrás seria bizarra e essa manhã era perfeitamente normal: numa rua deserta, um rapaz de máscara e luvas colocava os legumes da feira no porta-malas do carro. Fechei a janela e fui esconder os ovos de chocolate. Porque, na fome de um momento festivo, meu marido e eu trocamos as bolas e achamos que a Páscoa fosse hoje. Quem saiu ganhando foram as crianças.

 

 

 

2 Comments

    1. Obrigada Flávia! Ontem, escrevendo, me dei conta de que adoro a feira e estou bem nostálgica… Descobri também que ontem foi Domingo de Ramos, a Páscoa é semana que vem…rs.

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