A romantização da quarentena

“La romantización de la cuarentena es privilegio de clase!”, foi uma das coisas mais corretas sobre o confinamento que li até agora.

A segunda foi um diálogo entre um senhor e uma mulher num meme que me enviaram por WhatsApp:

Ele: – Li um artigo com dicas de astronautas para suportar o confinamento. Eles são especialistas nisso, passam muito tempo em estações espaciais.

Ela: -Tem criança em estação espacial?

Ele: …

Ela: Enfia no cu, o artigo”.

Voltando à romantização da quarentena, li essa frase numa faixa, dependurada numa varanda, numa foto postado por um conhecido. Não sei quem é o autor, mas concordo plenamente. É fácil romantizar a quarentena quando estamos em uma casa de campo, com ar puro e bastante espaço para as crianças correrem, por exemplo. Aliás, passo o ano inteiro sonhando com essa situação : me confinar no meio da natureza com a família (porque afinal as crianças ainda estão pequenas para serem enviadas para colônias de férias; caso contrário, sonharia com outras coisas).

Poucos dias antes do Macron decretar a quarentena, circularam rumores de que isso aconteceria. Presenciei com uma pontada de inveja a agitação dos pais dos amigos dos meus filhos, enchendo os porta-malas para passar uma temporada indefinida no campo. Nessa hora até arrependi de ter, até hoje, “seguido o coração”, como sempre me aconselhou meu pai, e não o dinheiro. Aos quase quarenta anos não tenho nem carro, quem dirá casa de campo.

Mas ainda assim sei que sou uma privilegiada. Temos 70 metros quadrados para quatro pessoas, não é muito, mas também não é pouco. Nosso apartamento é mal isolado e temos um vizinho escroto que bate com a vassoura nas paredes cada vez que as crianças correm de um cômodo para o outro (ele até mandou a polícia na nossa casa, mas isso fica para outro post), mas ao menos existem cômodos entre os quais correr. E, principalmente, moramos ao lado de um dos bosques da região parisiense, o que nos possibilita passeios diários nessa época deliciosa do ano (aqui é começo da primavera). Temos muita sorte, porque os deslocamentos foram limitados a uma distância de 1km do domicílio e o bosque fica a precisamente 0,8km da minha casa (fui correndo verificar assim que restringiram a distância dos passeios). Segunda passada, o governo limitou ainda mais os deslocamentos e fechou parcialmente os dois bosques de Paris. Felizmente, a parte do bosque que fica perto da minha casa permanece aberta. Foi por um triz.

Ontem fui controlada pela polícia pela primeira vez. Foi idílico: estávamos no meio do bosque, em frente a um lago, e dois jovens policiais se aproximaram, majestosos, sobre cavalos imensos e lustrosos. Nem aguentei esperar eles chegarem até a gente, fui logo me aproximando e perguntando: vocês gostariam de me controlar? Algo confuso, o policial fez que sim com a cabeça e pediu para ver minha declaração e identidade. Eu estava com as duas preparadas na bolsa, e a única coisa que ele pôde dizer foi: “Cuidado para não passar do horário. Seria uma pena ser verbalizada no final do dia”.

Entre nós, se eu pude me precipitar até o policial e mostrar o cavalo para meu filho, encantada com a pequena novidade na nossa rotina, foi porquê: 1) tenho uma impressora para imprimir a declaração; 2) tenho um documento de identidade válido; 3) tenho um domicílio para marcar na identidade. Parecem coisas normais, mas infelizmente muitas pessoas nem isso têm. Semana passada, liguei para a faxineira para assegurar-lhe de que continuaria pagando suas três horas de faxina semanais durante o confinamento. Aproveitei para perguntar como estava e aconselhei-a dar uma saidinha todos os dias. Ela me respondeu que adoraria fazê-lo, mas não pode, porque não tem impressora nem documentos. Contou que outro dia, não aguentando mais ficar em casa, se aventurou, mas o passeio não durou nem dez minutos. Assim que viu a polícia ao longe, deu meia volta e correu pro apartamento que divide com outras oito pessoas.

Conversando com uma amiga ontem à noite, ela me disse que ouviu na rádio que a polícia estava controlando os sdf (sigla para “sem domicílio fixo”, que é como denominam as pessoas que moram na rua aqui. Prefiro esse termo a mendigo, que me parece pejorativo e determinista). Essa amiga contou o caso de um homem que foi controlado e teve que pagar a multa de 135 euros porque estava sem a declaração. O homem tentou explicar que morava num apartamento de dois cômodos com a mulher e as cinco crianças e a situação ficou tão difícil que se mudou para o carro. Estava só tomando um solzinho sentado na calçada em frente ao carro. Mas a polícia foi impiedosa, e ele levou a multa que representa uma parte importante do orçamento da sua família.

Essa manhã meu marido, que acompanha o avanço da pandemia no mundo de maneira obsessiva, estava me falando sobre como os americanos estão lidando com ela. Ele me contou que em Nova York estão fazendo os moradores de rua dormir em lugares de estacionamento, para se assegurarem de que eles mantém a distância mínima necessária entre si. Fiquei imaginando um grande tabuleiro de xadrez, com os sem teto dispostos nas vagas de estacionamento de maneira intercalada. Achei essa gestão da pobreza, do espaço e dos indivíduos bastante surreal, para dizer o mínimo.

Esses exemplos confirmam: a romantização da quarentena é um privilégio de classes. E a pandemia, como todas as catástrofes, penaliza sobretudo os mais vulneráveis. Tendo dito isso, continuarei fazendo bolinhas de sabão e confeccionando coroas de flores com as crianças no bosque. Porque, por mais importante que seja termos consciência dos nossos privilégios de classe, sofrer além do necessário não alivia em nada o sofrimento dos outros.

 

9 Comments

      1. Você ainda consegue romantizar uma tragédia, adorei as coroas de flores! Mas realmente é triste saber que em todo mundo tem (SDF) . Somos deveras abençoadas por termos um lar! Bjs

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  1. Muito bem colocado! Acontece de me sentir culpada por ter o privilégio de ter uma casa confortável e a geladeira cheia de comida nesses dias! que mundo… e que situação surreal estamos vivendo! Que bom que vc tem esse bosque tão gostoso aí pertinho, assim respira um ar puro!

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  2. Correr em apartamento morando a cima dos outros e ainda chamar o vizinho que atura isso de escrito, foi extremamente mau educada e egotista( típica de brasileira sem respeito com o próximo) e ainda se diz preocupada com quem sofre nas ruas, se em sua casa não se importa com o vizinho que atura suas crianças correndo, apartamento não é ginásio de esportes, tenha mais emparia e educação com seus vizinhos, depois disso comece a pensar em quem não mora aí!

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    1. Alfredo, obrigada pelo comentário, é verdade que esqueci de dizer: o vizinho mora no terceiro andar, e nós no primeiro! Moramos aqui há oito anos, ele há menos de um, e é a primeira pessoa a reclamar do barulho das nossas crianças (a do segundo, que mora entre nós, nunca reclamou. Nem a antiga moradora do apartamento dele). Passo o dia pedindo para as crianças não correrem, veja bem, não escrevi que elas ficam correndo pela casa, como se estivessem num ginásio desportivo, mas sim que correram de um cômodo até o outro. Às 20h30 elas estão na cama, são obrigadas a fazer uma siesta todas as tardes, vão ao bosque 1 hora por dia como permitido para correr e têm direito à 1h de televisão por dia. O resto do tempo, estamos fazendo a escolarização delas em casa. Em outras palavras, fazemos o máximo. Mais do quê isso, só se eu as acorrentasse ou drogasse, mas não aprovo esses métodos. Beijos e bom confinamento, longe de crianças, pra você 😉

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      1. Como você foi educada ao responder esse Alfredo, que obviamente não tem empatia nenhuma pelas pessoas. Primeiro ele tem que aprender a escrever português, ao que tudo indica ele usou algum tradutor.

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