Duas semanas

 

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Ontem fez duas semanas que Macron decretou o confinamento na França. Ele evitou pronunciar essa palavra, confinamento, para que não sentíssemos que era isso que estava fazendo com a gente, confinando. Ao invés, ficou repetindo: “Estamos em guerra. Estamos em guerra. Estamos em guerra”. Querendo, apesar da cara de boneco sem emoção, implantar uma emoção imensa no coração dos telespectadores: Medo. Além dos sentimentos de urgência, patriotismo e “vale tudo” que acompanham as declarações de guerra. Estamos em guerra, fique em casa, faça sacrifícios, não questione minhas decisões. Mas não se preocupem, o Estado não deixará nenhuma empresa ir à falência. Foi o que ficou do seu discurso na minha memória.

Logo após o pronunciamento, além do desgosto pelo vocabulário marcial, fiquei confusa em relação aos seus efeitos práticos na minha vida cotidiana. Que as escolas iriam fechar, meu maior pesadelo, eu já sabia: meu pequeno estava em casa há dias porque sua professora e assistente estavam doentes (havia rumores de que seria coronavírus) e no dia anterior todas as escolas do país já haviam fechado. Eu achava que essa situação duraria quinze dias. Meu marido, mais pragmático, cortou minhas esperanças na hora: vamos ficar sem escola ao menos até o final das férias de abril. Quase tive um troço! Como se não bastassem as férias de duas semanas que os alunos têm o ano inteiro aqui na França, ainda colocaram um confinamento entre duas sessões de férias. Pior do quê agosto, mês das férias de verão, o mês mais longo do ano!

(Claro que me dou conta, hoje mais do que nunca, da importância do confinamento. Mas a ficha demorou a cair. Eu também, no começo, achei que era só uma gripe e estavam fazendo alarde inutilmente. Afinal, a gripe mata 10.000 pessoas por ano na França. Ainda não estavam morrendo 600, 700, 800 pessoas por dia na Itália e na Espanha.)

Voltando aos efeitos práticos do confinamento, o que me deixou confusa no discurso do Macron foi que ele disse que os donos de cachorro poderiam levar seus animais para passear, mas não fez nenhuma referência à situação das crianças. Achei incrível ele pensar no bem-estar dos cachorros antes das crianças! Como se elas não precisassem ser passeadas. No dia seguinte, quando levei minha filha de sete anos ao parque, disse à ela: “se a polícia nos parar, você late!”. Ela não entendeu, mas concordou.

Desde então o discurso do Macron foi clarificado, minha filha não precisou latir e nenhum policial nos abordou. Aliás, estou um pouco decepcionada por ainda não ter sido controlada. Queria tanto ter a oportunidade de mostrar minha “déclaration sur l’honneur”. Tão francês isso: imprimir em um papel os motivos da sua saída e assinar atestando, em nome da sua honra, que você tem uma razão legítima para estar fora de casa.

Uma semana mais tarde as condições da saída ficaram um pouco mais rígidas: o passeio não pode durar mais de uma hora, então temos que marcar a hora em que saímos de casa na declaração. Como os passeios no bosque são meu momento preferido do dia, logo arrumei uma estratégia: fazer duas declarações, cada uma com um horário diferente. Anunciei a solução brilhante ao marido francês, que ficou chocado. Depois fiquei me sentindo mal: meu Deus, será que não tenho honra? Na via das dúvidas, preocupada em manter minha integridade, decidi não dar nenhum jeitinho tropical e respeitar as regras. Me permito apenas uma margem de dez ou quinze minutos no horário da saída, o tempo de uma eventual pirraça de criança na hora de voltar para casa. Nada mais justo.

3 Comments

  1. Estou lendo aos poucos seu conteúdo… sempre são leituras agradáveis nessas noites de quarentena. Às vezes com um vinho junto, às vezes um cigarro mas sempre surpreso com algumas reviravoltas de humor que você finaliza argumentos… ou com o desenvolvimento do conto em si. Tem muita personalidade, é um formato único. Parabéns. Vou ler o último agora mas confesso que os mais recentes que você postou, são os melhores! A trama foi pra um lugar bem curioso! Estou amando!

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